terça-feira, fevereiro 26, 2013

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E você continuava ali parada, completando todos os espaços. Devassa como a noite. Calma, limitava meus movimentos ao medo e desejo, ao mesmo tempo. Eis que a hora continua e o tempo esfria. “Hoje de madrugada, amanhã não vai ser nada.”

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

63 mistérios



Que saudade repleta de sentido. Criando atividades para reduzir a lista de saudades. A janela que emoldura a paisagem. Ladrão de entardeceres, os tons bucólicos sempre emprestam cor à tristeza. E a noite revela seus segredos. Escrevo apenas aquilo me apetece. Que nunca pede licença pra ir embora. Ainda sem saber, eu inventei você.

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Feliz Alento

Como vai, meu amor?
não sei, podes tu?
mudar à vontade
a convicção
Alheio aos porres de
bigorna
Assim se formam as
formas vivas
em que a matéria cobrou
em demasia
um pouco do meu estado
poético

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Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem diverso e privilegiado a serviço da linguagem, nosso encontro que medita sobre a filosofia é necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e poetar. Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois “moram nas montanhas mais separadas”. Agora, porém, haveria boas razões para exigir que nosso encontro se limitasse à questão que trata da filosofia. Esta restrição seria só então possível e até necessária, se do diálogo resultasse que a filosofia não é aquilo que aqui lhe atribuímos: uma correspondência, que manifesta na linguagem o apelo do ser do ente.

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Vejo que todo mundo tem um dilema. A minha pena incansável pena. Escrevo carta pra mim mesmo. Escrever é tão difícil apunhalar o pensamento. Minha caligrafia agora voa como flecha. Estou tão canibal que sempre que escrevo penso em comer animalescamente, entende? Como disse um professor “o que não é predecessor é sucessor...” E assim segue.

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Tô com uma insônia de merda esses dias. Parece que as coisas não acontecem e de repente se acontecem e tecem a longa rede da realidade que vai se alternando entre bons e maus momentos. Vai-se acalmando como uma lenta, leve, suave melodia que dorme ao meio dia, vai-se do aéreo da mais culminante nota no tom mais elevado do jazz, da batera, do tumtum, papum, e acaba no piano ma no molto, alegro ma no molto, presto ma no molto, adágio. Lembrei da minha incansável stamina para certas coisas. Enquanto a fenda da vida não se abre, tudo corre rápido, vai e acaba. A música e recomeça, e eu, meio tonto, não ligo, relaxo. É assim. Não me leve a sério, permanece o mistério. Suave aroma de cânfora, chocolate e vinho. Perfume françês e cafezinho pra depois. Rememorando aromas.


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Como acordar? Acordo pela manhã com dois sóis. Se eu pudesse ser apenas dois, mas não consigo, não dá, não posso, e sigo assim sem poder-me desmultiplicar. A Manú disse que me viu. A Simone sumiu. Mudou pra Brasília. Ah se eu soubesse a cavidade triangular super swipple flex. Havia tantas horas sem sono, sem sonho, sem drama, sem cama, sem ninguém pra pegar no joelho. Sabe, Manú mando um beijo, mas esqueci de dizer.

__não fica assim.

__mas você sabe, aldeia é tudo.

__sim, eu sei. – e saio descontente.

Mas de repente vem uma sensação gostosa de plenitude, aconchego e orgasmo pleno.

Se torto, eu sei. Escrevo aqui.

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Hoje costumo dizer que muito é pouco é muito é talvez até muito pouco. Quantas vozes temos nós? O sonho dourado do iluminismo não vingou. Hoje sei que a opinião é volátil ou distorcida. Não sei se temos muita opção, não há para onde fugir. Devo pastar devo postar devo. Não sei se quero estar em cima ou em baixo. Não sei quantas vezes a dor foi mais sutil que as palavras. Nem sei como referir-me a elas, ou eles, não há gênero. Sentimentos... Como saber? Como dizer como são? Já não sei, já não sei. Como transformar a passagem das horas em momentos bons? Deve ser assim... quem souber me telefona.

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Escusame



Eu por mim mesmo

Na pele de outro alguém

Vivo sonhando,

mas você não vem, não vem.

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Desejos de ser



distinto
adj.
1. Que não se pode confundir com outro.
2. Que não faz parte de outro.
3. Que forma corpo à parte.
4. Claro, perceptível, inteligível.
5. Singular, notável, ilustre.
6. Gentil, elegante, primoroso.
7. Que revela fina educação.
8. Ficar distinto: receber distinção (em exames escolares).



Meu espírito de gato deseja ser todos esses adjetivos. O mesmo, através de tantos, através da caridade. Deseja ser gracioso, gentil, elegante, engraçado, pictórico, generoso, único, singular, original, nobre, elegante, aristocrático, unívoco, categórico, excepcional, incomum, extremo.

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Como tratar o indecifrável?



Eu nunca estive preparado. Mesmo assim a vida segue seu rumo, fatalmente, ao mesmo tempo em várias direções. Não importa que a vida seja mesmo essa aventura. O que importa agora é sentir-me vivo. Estou preparado pra o que der e vier ao meu encontro. Porque hoje amanha será passado.

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BEAT PARALELOGRAMO. Andar pelas ruas, as mesmas ruas. Estar sozinho ou acompanhado, viver uma realidade paralela. No meio das pessoas, pareço tão louco quanto devo ser. Perto de mim, meus vários. O eu de pé, o eu de chapéu, o eu sentado esperando os vários minutos calados passarem com imprecisão. Ando durante o dia. O eu que vai pela noite durante a noite pela noite. Dia-a-dia, espero-te à tardinha, quando nos encontraremos felizes a olhar o céu, que vai nos encher os olhos de nuvens. As lágrimas escorrem da exultação mórbida de um luto. Perdido no globo que eu não me encontro. Não peço informação, mas não faz diferença. Estou inerte, indiferente a tudo isso. Vivendo como criatura da noite. Observo os desejos de amor, os delírios de amor, amor contido no vazio do ego que implora alguma existência. Histórias que trazem um personagem oculto. Amores que fazem da vida o pior e o melhor da vida. Litígios da aproximação.

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AINDA DEGLUTINDO UM COMEÇO. Desaninhado, sentei bunda no quartinho onde me cabia inspiração àquela hora. Tentar ficar mimetizado ao máximo. Escondido, confuso como um ratinho. Calado, quietinho. Com medo de mim, medo de me incomodar. Tentando ser contido com as lágrimas de nostalgia, pensando no que jamais seria. Ausente aflito, compungido, atormentado, atribulado, descontrolado, entristecido, desolado, consternado, puto.

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Confissões à Lua

meus dias de amanhã
feitos de vários ontens

concretização de coisas
cotidianas

e as horas vãs
preenchidas pelo medo
fazem a insanidade do tempo

me dissem coisas ao pé do ouvido
coisas que eu
não posso entender

um lamento
um blues dolorido
lembrar do passado
me deixou entediado

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Os pratos se quebravam e não era um casamento grego. O Cigano esteve aqui em minha casa e eu lhe presenteei com uma foto, uma revista, uma meia e uma cueca. Era noite de esquecer-se de tudo. O começo da decomposição. Noite de esquecer você e extirpar com a navalha alguns miomas intelectuais.

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Che arrivare

Volto às coisas do cotidiano, inclusive às fúteis. Absolutamente neutro aos seus relatos, enfim. Perco-me nas palavras duplas, perco-me na sua artilharia. Não sei me defender. Uma sorrateira pilha de nada, nada vai me atingir. A sua pura nudez e nossa nudez a brincar sozinhos. Somos ilhas, em poucas troças e muitas doses. Não desejo o golpe. Cuidado com a malandanza. Cuidado com as noites que chegam de repente.

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Confissões de um cunilíngue.

Então conseguiu ficar e manter-se mimetizado. Cores com seus porres invejáveis, sincero amigo, singelos em sua boemia. Andando pelas ruas, sem pressa, sem medo do esquecimento. Sentindo os ares da Praça da Liberdade, suas árvores, seus jardins, suas fontes. A distância afetiva é como ontem. No jazz, madrugadas fria, distante, secreta, escondida, segura, anônima, sem fim, e o tempo ousa não passar. O tempo afetivo insiste em continuar. Vomitei o passado e vi fugi de ônibus.  Casa casa não tem mais, depois de anos. Fui fraco, um verbário. Calado, afônico, monossilábico.

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Pedaço de mim que estava preso na garganta, saiu como fumaça de rancores, raiva, desejos de vingança, alucinações. Vociferando ao léu, no púlpito das intrépidas memórias, palavras ordinárias contra a dor. Saudades e ódio, para inutilmente tentar fugir de um desmoronamento. Túneis e pontes, conexões entre o passado e o presente na cachoeira de domínios. Quando os seus olhos de menina vulnerável à sombra de um desdenhoso anjo libertário. Confiar em mim foi como mentir uma traição cotidiana que nos acometeu durante algum tempo. Tempo demasiado denso desde o princípio. Aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhã sublinha essa lembrança, evolve-me o olvido. Falta-me o seu ventre, suas coxas e as minhas coxas, o seu misterioso riso de mulher. Falta-me a nossa cama para o meu longo cansaço. Falta-me a sua vagina ensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura. Espera em sua casa, nessa espessa noite que atravessa.

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Para Antonin Artaud

Tentando organizar minha casa mental. De repente tudo fica confuso, como o meio de jogo de uma partida de xadrez. Referindo-me, ferindo e sendo ferido de morte todos quase todos os dias. Morrendo e acordando com medo ou pânico ou preguiça, covardia, ineficiência, turbilhão mental, falta de trabalho, falta de iniciativa, falta de criatividade para iniciar algo que vacila entre o sacrifício e a felicidade. Gerundiando... Dificuldade em ser feliz, dificuldade em fazer feliz.

Deus me ajude.

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Para entender as mulheres é preciso entender de cores, é preciso entender as fases da lua, é preciso entender. É preciso ter um olhar holístico sobre todas as coisas, sem coisificar os seres vivos e tampouco dar vida aos inanimados, mas sabendo que, mesmo estáticos, todos participam do movimento. Não circular nos altos e baixos da régua da história. Personagens vivificam a cena do príncipe e a princesa espera a lua, cheia de melindres. Para entender as mulheres é preciso informar-se de nuances, de matizes de cores, da mudança de luzes. Qualquer logaritmo concebido para conceber. É preciso saber a resposta da pergunta, ainda que essa seja icognicível. Colagem de pedaços isolados, rasgados, mas que juntos estão em harmonia. Um olho daqui e o nariz na linha do horizonte, sempre a sorrir e a piscar ao mesmo tempo. Junta os retalhos e recomeça a costurar. Começa a cerzir metáfora com possibilidades.

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Pequenas paisagens guardadas nas gavetas da memória, fazendo alusão ao título das noites passadas. Pequena menina azul, você agora descansa em outros braços. Agora a noite dança em seu compasso. Melodia previsível sem palavras. Digo-te em segredo que há um altar quando acordo, durante do sono cortado por uma poesia subconsciente. A situação de vulnerabilidade física talvez não seja consciência de todos nós. Duas estrofes, de três versos e se perdeu e em alguma gaveta. Nada desabona as palavras.  A mesma paisagem de prédios e janelas, luzes acesas, lua minguante. Zomba de mim com seu sorriso amarelo. Você liga pra me procurar onda anda minha vida? Quem é essa galera? Você se esconde. A quem mostraria sua realidade? Como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade, feito rasgar uma carta antiga, um recado que não significa mais nada. Os sinos tocam à mesma hora, um dia mais.

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O mistério que envolve esse teorema envolve esse enigma e sempre se repete à mesma volta. Você bebe a água e eu te bebo. Fico ébrio. Você coloca suas pernas sobre as minhas coxas e eu sinto o seu sexo. Quero engolir sua boca, mas você me beija mais do que eu te beijo e eu adoro. Sinto teu seio pequenino de ninfeta, arrepiado e duro no escuro. Você embriaga-me como quem nada quer e bebe pra matar minha sede. Parecem intermináveis as horas feito minutos. De tudo esqueço. O trabalho inexistente esquece-me de hoje de ontem de antes de ontem. Esqueço que me maldiçoou com sua soberba, sua irracionalidade, com seu atavismo. A vida importa. A vida importa porque suas maluquices de ninfeta fazem-me ter mais responsabilidade. Adoro seu cabelo todo lindamente atrapalhado sobre seus olhos sobre o meu rosto. Seu beijo é o gostoso no caminho percorrido ao instante eterno, efêmero e derradeiro em que te quero. A paisagem, essa fogueira elétrica ao lado da cama e você. A Lua lá fora espreitando nosso desejo com sorriso de Gato. Nesse momento quero esquecer meu passado. Quero esquecer outras luas, outras primaveras, outras trepadas, outros beijos. Nessa hora você se entrega e sobe sóbria sobre mim. Eu, bêbado de ti. A palavra, nada diz. Não importa que devore minha alma.

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Falar sem dizer



  • Não concebo mais racionalmente, não sei mais o porquê de eu ser um risco a mim mesmo.
  • O animal não tem propósitos, mas próprios.
  • O animal nunca causa danos a si mesmo.
  • Emoção, ela flutua entre consciência e sentimento físico.
  • Não conheço ambição.
  • Não passo mais por eles que não quero que me vejam. Protejo-me dos vivos e dos mortos.
  • A crueldade mora onde há um predador e uma vítima. 
     
  • Diminuto é o segundo que separa a lassidão do golpe.


quinta-feira, fevereiro 14, 2013

abaixo embaixo



Faz alguns anos eu não vejo o mar, uma impressão única para nós que vivemos distante do litoral. Faz pouco tempo, minha namorada foi de encontro ao mar. Aqui de longe, talvez inconscientemente, nesses dias em que ela esteve fora, me pus a procurar a conchinha mais bonita entre as que ficam guardadas em um vaso – lembrança do tempo em que íamos quase todo ano pra praia, pai e mãe, irmãos, e catávamos conchinha. Somos da geração anterior ao advento da sustentabilidade ambiental.  Acho que nem se encontra mais essas conchinhas, nas praias brasileiras, um tanto por conta de gente como nós.
Eu pensava no mar. Chegava a sentir. As ondas lambendo meus pés num vai e vem sem fim.  Pensava na linha do horizonte, na imensidão... Podia sentir meus olhos marejados de água salgada. Sentia o ar mais denso, a respiração mais leve.  Na água de algum mar rememorado refletindo o brilho das estrelas, pensava. Sensação de calma combinada à magnitude do vazio. Porem, não há maiores desertos em meu caminho. Somente o vazio, imaculado, pronto para procriar.
Espaço onde nada ainda aconteceu, o momento mudo, onde coisa nenhuma ainda foi criada, fabricada ou concebida. A ação, nem mesmo a despeito de ainda estarmos sujeitos à fisicalidade dos corpos, nem ela mesma tem nome ou pode-se nomear. Se dilatada ou retraída, qual tanto se pode aferir significação? Antes do Nada era o Nada. Um Nada maior ainda. Ou menor? Segundo a dialética vigente e mais conexa de que somos resultado da grande viagem cósmica, a matéria reduzida ao tamanho da cabeça de um alfinete e Bang! De repente tudo se apossou do Nada e o Todo se formou. Todas as coisas.