quarta-feira, julho 31, 2013

nossa vida



Não sei o que eu poderia escrever nesse momento. Meu irmão mais velho está se desligando de um afeto que durou dezenove anos. Construíram muitas coisas juntos e agora tudo se esvai como água que escorre pelas mãos.
Ele me abraçou e ficou emocionado, olhos embargados, uma lágrima que não caiu. Ele é como um pai para mim. Da primeira vez em que estive numa clinica psiquiátrica foi ele quem me levou, ele que tratou de mim como um pai trata um filho. Aos cuidados dele eu me desliguei das coisas que me faziam tanto mal.
Agora estou tremendo, o que faz de mim um tremendo otário. Amanha devo partir para um novo mundo. Para uma jornada de recuperação. Não aguento mais. Meu corpo demonstra os sinais de cansaço. Estou um bagaço. Doente abatido. Também me desliguei de um grande afeto. Também sofro a dor de uma separação. Devo deixar aqueles que amo. Devo aplicar a lei do amor. Devo pagar a vida aquele preço que me será cobrado, a custo de muito sofrimento. Sei que serei feliz depois disso. Sei que mereço o que passei, mas isso é passado. Embora eu ainda esteja vivendo um grande conflito íntimo. Meu...
Sobre nós passou um trem descarrilado.

terça-feira, julho 30, 2013

Nunca - Suely Costa (Lupicínio Rodrigues)

A linha que liga Spinoza, Nietzsche e Deleuze...


O caso das minorias. Abordar somente o caso das minorias seria restringir o assunto a um só ponto de vista e ficar insensível à pluralidade possivelmente abrangível. Ou seja, é estar apático à extensão do objeto em sua totalidade, sem esgotar cada tomo à maneira dos geômetras, da forma clássica. O implexo dos fios dessa contextura é como enviesar o caso (de dualidade) das minorias com a linha que prende um botão que se encerra em si mesmo, para no final, somado ao complexo geral da organização, concordar com o objeto em sua linearidade. Pretendo criar conceitos concludentes sobre os conflitos humanos que rasgam o tempo, confrangendo almas infantis, aniquilando vidas amantes da própria Vida, rompendo valores metafísicos.

Bohemian Rhapsody

Lágrimas no cachimbo

Gota que reflui no mar.

Ainda que eu consiga consolidar alguma coisa do que sinto, não pertencerá ao signo a representação enérgica do sentimento. Como a lágrima – síntese ou réplica.
Hoje devo lançar meu derradeiro choro nessa página.
Não sei quando nos veremos de novo.
Assim sendo, volto à palavra zero.  
Lágrimas no cachimbo.

Gota que reflui no mar de fora pra dentro.

Ainda que eu consiga consolidar alguma coisa do que sinto, não pertencerá ao signo a representação enérgica do sentimento. Como a lágrima – síntese ou réplica.
Hoje devo lançar meu derradeiro choro nessa página.
Não sei quando nos veremos de novo.
Assim sendo, volto à palavra zero.  


  


Say good bye



Continua. Tudo aquilo que fugiu do pensamento pela rua, fugiu da pena, pela pena. Mas, se não está aqui e se aqui estivesse e se eu estivesse aqui, talvez valesse. Esse quase azul que preenche as lacunas, mas agora você está próximo de chorar. Esse desastre dessa e outras mais complexas. Tudo que você me prometeu sem ver vou arquitetando uma maneira de dizer, num ponto psico-caótico. Escrevendo a coisa certa sob o crivo do olhar alheio. Falsificador da poesia para não haver censura redundante em qualquer ser humano. Temo o dia. E toda falsa alegria. Escrevo pensando em silêncio agora. Não diga que é o fim, tentando não entender os floreios, mas a dor encara meu fascínio. Deixa a atadura do tempo esconder o passado. Acende mais um cigarro. Mesmo cálido e calado seu grito é válido. No desprazer que abisma, sua alma esvoaça, retarda o tempo, pára. Faz-se ouvir um sussurro. Um frêmito efêmero frenético dispara. Nas madrugas de terça pra segunda tem sempre alguém dando a bunda. Água vazando em algum canto me diz que é hora de ir. Papai Noel sobrevoando Tirana, espiões da Rodésia, terroristas iranianos, parafernália incógnita e caótica. Grito obsceno do alto onde observo polcas e mazurcas cantadas. Vendo cego meu mundo barato, tal qual as obras inacabadas. Seja minha, seja de alguém, do tempo vazio interior da letargia em contraponto com o tédio. Entrego-me à vida com dúvidas e receios, carta para mim mesmo. Nada de coisa elaborada. Comer palavra. Nada de redenção nessas, alívio algum. Mas elas estão aqui. Anjo do próprio demônio. Depois de algumas e tantas tentativas desse ter limite no mínimo rebelde, a tendência mundial de se abolir o erro. Minha perda de fôlego é proporcional ao fôlego daquilo que duvido. O erro define a dor por aquilo o que quase secretamente mística ele propõe.

Vamos brincar de blog?

Provérbios gustavianos do Batatal
                                                                       Inspirado nas montanhas


Vitrine de raposa é videira, evidente.
As uvas estão verdes?

Sempre feche um parêntese.

vi mais uma estrela cadente. Sempre faço o mesmo pedido.

Deus é o dono do céu.

Estrangeiro é aquele que mora em si mesmo.

“vista das montanhas e noites como aqueles, visão da cidade passando entre os becos, impressões divinas, somente meus olhos gravaram.” 


Precisava do seu apoio. conversar bobagem, simplesmente. Mas você não tinha o quê dizer.
Boa noite.


 

segunda-feira, julho 29, 2013

Chocolate Buda


Quero e desejo, espero,

Quero falar, mas o verbo me engana, ludibria. Ilude o sujeito elíptico deixando um vão que não devia. Burla o léxico da pílula. Let’s lastimável erro. grito, mas falta a fala. Indica a foz da faina. Conta o que eu deveria no aspecto do tálamo oco. Deixa non-sense minha voz. Profere o que eu deveria, no
Prefere solitário, mudo,
e faço tudo igual do mesmo jeito.
outro dia sem    



Buda me ajuda. Levanta essa bunda daí...


no futuro do pretérito simples. Eu poderia tudo.





quero, quer, quero, quero, quero, quero, 


Peter Orlovsky, Jack Kerouac  & William Burroughs à Tanger en avril 1957.


Preparo-me agora pra mais uma jornada.
Estou no mundo e no mundo eu sigo.

O ser humano constrói seu próprio inferno e também inventa seu próprio paraíso. O ser humano é corpo e alma que pensam juntos, e cria conceitos e produz signos. Acende, apaga, com o passar do tempo. Levanta, iça, ergue, alça. Arma, constrói, eleva, edifica. Com próprias mãos, dos pés á cabeça. Apanha, arregaça, pulsa. Arquiteta plano para o próprio destino. Promove conceitos, depois dissolve. Arremessa a si mesmo na vida cotidiana, não há como negar a fisicalidade. O que vem do alto cairá pra baixo, são conceitos lógicos do plano físico. Esse é o planeta em que vivemos, e na terra plantamos nosso idílio. Semeando sonhos, destruindo despertas sonolências. Tenta arrancar de si o que está doendo. Procura um sinal que indique o que é certo, mas não pode afirmar o que é errado. Desvia da morte, do dor e do medo. Busca o prazer, evita angustia. Faz to que pode levá-lo de encontro ao bem-estar físico como meta e objetivo de vida. A partir da dicotomia entre o melhora e compromete seu desempenho, arrazoa valores de certo-errado. Objurga, alterca, repreende, censura aquilo que pensou ser/estar errado. Move-se adiante pra que a vida floresça, fundamentado nesse dualismo. Ou procura a morte em ação de encontrá-la, num frêmito frenético e convulso. Causa a si mesmo o que o óbvio que ulula... pula no abismo, ou da janela do oitavo, ou extingui-se em partidas e desfeitas. “Acidentes acontecem” todo tempo-tempo-tempo, implacável Deus que por isso culpamos.
E Deus nós fala no ouvido baixinho “andas distraído ou fizeste o nó da forca?” e afirma com seu bafo cósmico “desculpe, meu caro, não ter nada com isso” e revela a fala do celeste domínio “chegou sua hora, venha comigo”. Não há diabo, o capeta sumiu. Os demônios soa sermos nós. Parece detestável, indica a passagem com tarifa zero, simboliza toda rebeldia que transgride, antinômico Bom-capeta, pula roleta e ameaça o motorista.   Aterroriza a paz que nos deixa seguir. Vivos que somos tão espertos, ludibriamos sua vontade de destruir-nos.  De nos destituir da certeza do certo. 




A transvaloração de todos os valores. Corrompe a certitude, engendra a peste. Perverte a beatitude do santo pecado. Dorme ao nosso lado, seu lugar preferido. Dileto prazer, precárias palavras. Ações abjetas metem medo. Perdemos o sono o sonho, o corpo-alma, a voz-pensamento. O termo certo pra seguir a senda. Evadem vocábulos pra dizer que estamos perto. A geografia humana que habita nosso cérebro. Um feiticeiro loquaz as margens do rio. Quem somos os nossos próprios demônios? Somos ilusões de realidade deus-alma-mundo. Eu sou o céu do seu inferno doméstico. Descrevendo a mim ego no recinto muito. Intenso e encovado nego tudo que disse. O Nada é ser a mais ambígua recompensa. Desespero-me, perco-me. Me encontro mudo. Não há signos nem sinais do acaso. Não a razão nem sofismo, nem aforismo intraduzível. apenas restos de quase nada no chão, apenas cacos de sentimento e poeira. Fragmento. Não há nada dentro ou fora, eu lamento. Não volta não ida. Não há inocência perdida, ou ferida exposta. Não há enigma, pergunta ou resposta. nem céu nem limbo. 
Apenas lágrimas no cachimbo.

       

domingo, julho 28, 2013

“Sem um ‘Deus’ que lhes dê sustentação, os significados flutuam livres, sendo compreendidos apenas na relação de um com o outro, vistos em diferentes discursos”.
A fratura e a fragmentação dificultaram a unicidade do significado, conforme era concebido tradicionalmente.
O pós-moderno favoreceria, desse modo, os discursos flexíveis e eliminaria parte da rigidez do conhecimento elaborado no passado.

A cultura contemporânea se coloca diante de um rito de passagem em direção à desmaterialização da sociedade pós-industrial.
O ciberespaço tornou-se um rito de passagem obrigatório para os novos cidadãos da cibercultura. É um ambiente midiático, como uma “incubadora de ferramentas de comunicação, logo, como uma estrutura rizomática, descentralizada, conectando pontos ordinários, criando territorialização e desterritorialização”.
As múltiplas janelas dos sistemas utilizados para navegar no ciberespaço ainda permitem que um usuário seja vários ao mesmo tempo, cada um sendo não apenas multitarefa, mas dispondo de múltiplas personalidades coexistindo em si, aprendendo, mais do que a transitar, mas a conviver com muitos "eus" em si.
O eu é só uma frágil construção, ele não tem substância própria, mas se produz através das situações e das experiências que o moldam num perpétuo jogo de esconde-esconde.
A imagem é talvez um pouco forte, mas será que não ilustra as múltiplas mudanças que constituem um mesmo indivíduo?
Por um lado, no decorrer de uma mesma existência, cada um se transforma diversas vezes. Variações, modificações, conversões, revoluções, inúmeros são os termos que traduzem essas mudanças. E elas afetam sua aparência física, de início, mas também suas representações, suas relações amicais ou amorosas, sem falar da vida profissional.


Stan Getz at Storyville 1951 - Full Album

Zappa plays The Grand Wazoo

"Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.
Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre.
A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.
Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou do corpo: tateou com os dedos do espírito extraviado as últimas paredes.
Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser.
Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o “outro mundo”.
O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser como homem.
É deveras difícil demonstrar o Ser, e difícil é fazê-lo falar. Dizei-me, porém, irmãos: a mais estranha de todas as coisas não será a melhor demonstrada?
E, este Eu que cria, que quer, e que dá a medida e o valor das coisas, este Eu, e a contradição e confusão do Eu falam com a maior lealdade do seu ser."
Zaratustra 

sábado, julho 27, 2013

Categoria de Tempo e Movimento em Goethe
Aptidão de Goethe de ver o movimento invisível do tempo, o espaço se modificando tornando a história indissociável da comunidade. Por exemplo, em Roma, um arquiteto pode olhar para as ruínas de duas formas: a) Recuperação - voltar ao "status quo ante", com olhar presente para o passado e não para o futuro, esquecendo-se de que o ambiente não é mais o mesmo; e b) Ruínas: constrói-se em cima um centro cultural em que a parte antiga é incorporada ao novo, é decoração do mesmo. Com as ideias do passado no presente, as ruínas não são um corpo estranho no presente, mas sim um lugar necessário na continuidade do tempo histórico. O passado está no presente e é produtivo, criador e ativo, funcionando como base e alavanca de uma transformação.  Uma cidade funciona como local dos poderes, como em Roma, onde a circularidade na arquitetura, as formas arredondadas, remetem à noção de eternidade do Poder Temporal e Espiritual (Coliseu, Vaticano).  Diante da ruína de uma igreja, não posso imaginar um mundo ateu.
As categorias de caráter, fusão do tempo, marca do tempo no espaço, tempo que remete ao lugar concreto de sua realização, a atividade criadora do tempo, o tempo ligado ao espaço e ao tempo em si, nos remetem às noções de: a) Plenitude: os locais não são neutros com relação aos acontecimentos, existe integridade e enxergar no espaço a marca do tempo que tem uma forma e dá ao espaço um sentido; e b) Necessidade: presente nas leis da criação do homem, que explicam diferenças, por exemplo, entre isso e aquilo.

Função da Arte
A arte, quando tem uma função, deixa de ser arte. Por exemplo, a utilização da cultura clássica pelo Nazismo. Pela perspectiva do monismo, definimos o ruim pelo conceito de bom (relação entre opostos), portanto se há um mau poeta é porque existe um mau leitor.

Fusão entre passado e presente
Crítica do fantasma romântico joga para o componente realista e no final dá uma definição do caráter cronotrópico, marcando o ponto de vista do homem contemplador, na lógica inexorável de sua existência histórico-geográfica. A criação do homem tem finalidades cívicas, políticas humanas, e necessidade de coerência com o espaço em que se está (coerência entre o mundo da vida e da cultura).

Consumidor e Usuário
Se existo como consumidor, vivo uma vida desencarnada, prevista pela cultura de massa, ao contrário do usuário, que faz seus caminhos, suas táticas. Qualquer peça de um conjunto tratado como massa é substituível. Os sistemas de avaliação dos consumidores não incorporam os processos de vida. O consumidor é passivo, enquanto que o usuário transforma o produto em instrumento de nova produção.

Valor da obra de arte

A obra de arte é um objeto real que possui valor (realidade-objeto), mas é um valor não idêntico à sua realidade. A tela e a tinta não pertencem ao valor que ela possui. Os bens são realidades-objetos vinculadas com valores. No entanto, os valores são separados do valor psíquico de avaliação. Valores estão associados à realidade, mas não são o mesmo que avaliações reais ou bens reais. A obra estética tem uma forma de acabamento: o autor introduz uma categoria de acabamento.
Juízo de valor
A construção de um juízo de valor, que é uma atribuição de valores, não esgota a experiência vivida, já que se constitui num ato individual de pensamento. O ato de pensar em caminhar enquanto se caminha dá sentido ao ato de caminhar, é constituinte desse ato, mas é um mero encadeamento formal. "Valorativo" é todo juízo que expressa valor. Submetemos um objeto ao plano valorativo do "Outro": Ele é caro para mim (eu o amo), não porque ele é bom, mas ele é bom porque é caro para mim. O amor desinteressado transforma o herói no objeto de uma tensão amorosa interessada. A forma de um juízo, que é o momento transcendente na composição de um juízo, constitui o momento da atividade de nossa razão: somos nós que produzimos as categorias de síntese. Se o juízo é desligado da unidade histórica do ato-procedimento real, e remetido para uma determinada unidade teórica, na sua faceta semântica não há lugar para o dever e para o evento real e único do ser. A tentativa de ultrapassar o dualismo é infecunda. O conteúdo isolado do ato cognitivo se desenvolve por livre arbítrio, lei autônoma que nos coloca fora do ato pela abstração, como responsáveis e individualmente ativos.
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william s burroughs


Pensava já ter superado essa doença. Doce ilusão. Digo doce porque sem o peso desse fármaco a vida parece suave. Hoje pude confirmar, ao assistir um vídeo, o que penso ser a verdade relativa. Quando digo ”verdade” ressalvo o significado relativo da palavra (ou signo). A verdade são várias, em sua acepção. Cada pessoa cria seu próprio conceito de “verdade” a partir da relação que teve com a cultura. Cada pessoa é um universo infinito, portanto indecifrável aos olhos de outrem, inclusive um tanto imprecisa ao próprio ser que a busca dentro de si mesmo e no mundo exterior. Ao arriscar-se definir um conjunto de conceitos e “valores” nos quais acreditamos piamente, o homem muitas vezes se contradiz. Esse conjunto no qual se possa dizer “essa é a verdade” de fato não existe. A realidade se apresenta de maneira inusitada ao longo da vida e estamos sempre reavaliando essa palavra, na qual queremos tanto depositar nossa certeza absoluta.
vale o ditado popular “a ocasião faz o ladrão” o que quer dizer “a cada realidade uma verdade”. Não pretendo me estender em tentar explicar a forma como entendo a vida, pois ela apenas “é”, simplesmente.
Georges Braque, pintor espanhol, contemporâneo de Pablo Picasso, disse certa vez “
A verdade existe, apenas se inventa a mentira”. Voltando ao vídeo que assisti após esse prolixo preâmbulo, talvez desnecessário, o que me marcou foi ouvir da palestrante dizer que “a toxicomania, o vício, o alcoolismo ou qualquer refugio que encontramos nos estados alterados de consciência, são um sintoma e não uma doença como todos acreditam”. Novamente a busca incansável pela verdade. Creio que o senhor, pai, entenda melhor a diferença entre sintoma e doença. Ao menos isso se pode afirmar serem coisas distintas, não é? Dois objetos, dois “signos”, duas representações, sendo que um advém da outro, dependem mutuamente para existirem. Não há doença que não apresente sintomas, não há sintoma que não indique algum distúrbio.  
De fato, nós toxicômanos, ao analisarmos a causa da “doença”, percebemos que a droga e o uso repetitivo, (cíclico, periódico, recorrente, circular) não são a doença em si.  Concluímos que a causa do hábito é atribuída a outros aspectos da vida. Alguns dizem a causa é “a droga de vida” e vivemos a vida na droga e para ela.
É fato que todo usuário, sem exceção, concluí essa análise desse jeito. É como somar 2 + 2. Pela lógica o resultado será sempre inabalável, invariável, imutável e constante = 4. Porém, quando nos damos conta disso, dessa simples equação, a vida já se tornou mais corrompida do que era antes do vício. Essa dedução (uma das três formas de adquirir conhecimento: dedução, abdução e experimentação) nos deixa ainda mais impotente diante da vida. Dois e dois não podem ser iguais a três? Ou cinco? Ou talvez zero, como se acredita quando encharcados da nossa própria cegueira. Infelizmente não. Inevitável que a lógica tenha suas obrigações com a razão.
Quando perdi o rumo da minha existência, digo, não soube mais delinear a caminho que nos leva ao objetivo, a “buscar um sentido”, fiz o que os estudiosos chamam de “transferência de objetos”. Pensando que esses breves segundos, em que o cérebro proporciona uma descarga de dopamina aos neurônios, pudessem suprimir a falta de outro objeto, uma pessoa, no caso.
O vazio que se instalou em mim foi enorme. E por breves instantes, aqueles em que o mundo parece parar de girar, e o tempo passam a não existir, ou não ser tão importante.  Aqueles em que sentimos o conforto, ainda que falso (pérfido e enganoso) que a droga proporciona. É necessário perverter as leis da física pra crer que uma sensação (sentimento, desejo) pode substituir outra. É como trocar o cigarro por bala, ou chicletes. Saciar o desejo que culmina no ato propriamente dito. Do ato de fumar também já não sinto o gosto, o torpor, a “viagem”. Tenho memória de todo que me leva a usar, mas não sinto mais o prazer.
Esse estado de lucidez, ou querendo buscar a lucidez, a razão das coisas, me leva de volta a mim mesmo. Deixo de ter apenas o imperativo do uso, a necessidade de obter e consumar o ato e consumir a droga torna-se mais importante que a própria droga. Usá-la é o comando. R
eafirmando as ideias
da psicanalista “ninguém rouba aos pais, inflige dor e sofrimento, engana, sabota a si mesmo por um objeto de prazer”, mas isso, a droga, se torna um objeto de necessidade. Parece ilógico, não é?
Devemos lembrar que no ato do uso o ser deixa de ser. Perde a obrigação, o vínculo, o contato com o indivíduo que é ele próprio. Assim perde também a ligação com os problemas que afligem qualquer indivíduo. Característica da nossa época em que podemos obter tudo que quisermos. O alívio, o remédio para nossa dor. A compensação por nossas derrotas, por nossas perdas e fracassos. O que preenche nosso vazio, resposta simples fatalista. Menos enigmática do que a pergunta, pois a resposta ao conflito é enigmática. A menos que não se fuja do problema. A menos que o sujeito se torne íntimo do problema, da “macaca”, do acidente que causou a angústia existencial.  Desventura, infelicidade, infortúnio não são parte da vida contemporânea. 

"
O conhecimento do bem e do mal não é outra coisa, mas as emoções de prazer ou dor, na medida em que estamos conscientes disso.
Chamamos uma coisa boa ou má, quando é do serviço ou o inverso em preservar nosso ser. Que é quando ela aumenta ou diminui, ajuda ou atrapalha, o nosso poder de atuação. Assim, na medida em que percebemos que uma coisa nos afeta com prazer ou dor, chamamos isso de bom ou mal, de modo o conhecimento do bem e do mal não é outra coisa, mas a ideia do prazer ou dor, que segue necessariamente do que prazeroso ou emoção dolorosa. Mas essa ideia está unida à emoção, da mesma forma como a mente está unida ao corpo, ou seja, não há distinção real entre esta ideia e a emoção ou ideia da modificação do corpo, salvo em concepção única. Portanto, o conhecimento do bem e do mal não é outra coisa, mas a emoção, na medida em que estamos conscientes disso."

Of Human Bondage, or the Strength of the Emotions

Ethics (Spinoza)

quinta-feira, julho 25, 2013

Eu tenho uma doença


me abduz
me mata,
me maltrata,
me ensimesma
me detesta
me destrói
me culpa
me pisa
me escraviza
me afugenta

me desconstrói
me descompensa

me detona
me transforma
me deturpa
me mela
me suga
me deliba
me demole
me derrota
me derruba
me arrasa
me abate
me desmantela
me derrui
me vexa
me rebaixa
me debilita
me amaldiçoa
me humilha
me arruína
me derruba
me rebaixa
me traga
me ocupa
me fuma
me Muda
me engole
me joga
me cega
me absorve
me ofusca
me rotula
me degrada
me mela
me fode
me explora
me chupa
me traga
me sacode
me desagrega
me
desculpa
pai,
mãe,
deus 


quarta-feira, julho 24, 2013


Minha primeira peça de teatro

O Medo – meu próprio é que eu nunca mais saia do canto escuro desse quarto mal iluminado. Aliás, quarto é epíteto mal aplicado, melhor seria chama-lo de... de... sarcófago!
Quero ver a luz do dia, mas meu ego é vampiresco. Como faço?

A Voz do teclado – deve agir depressa, meu caro. Se não o tempo passa e eu me cago pra isso. Um dia me aposento e vazo fora desse quarto, embora eu vá direto prolixo. Não aguento mais essa falarada, essa aglutinada de t.o.c. sem juízo. Prudência é tudo na vida, cautela vem acompanhada.
Do pó ao pó, dust to dust, da cinza às cinzas.

A ponta dos dedos – principalmente eu sou réu confesso. Insisto em desertar esse teclado imundo. Já não vejo me vejo limpo faz tempo e tempo é tudo no mundo.

O Gato Malvado – quem faz côa do menino? Quem caçoa do cocorico? Será a voz do teclado? Calada ela é nem signo...

A voz do teclado – quem te ensinou esse termo? Terá sido uma baoborletra, ou um sábio chino carcás? Como é mesmo que soletra? Ele é cavalo no zodíaco,  madeira é seu elemento.

O Medo – pois devia ser jumento. Por conta de tanto lamento, só sabe trocar punheca. A mim não me mete grilo.
Bbbbbbrrrrrrrr... Bbbbbbrrrrrrrr...

Voa um grifo flanante entra janela ad-antro. Falando:

Grifo – em mim ninguém mete o dedo. Eu meto a caneta, fluorescente! Deixo saltar aos Olhos. Nesse cavaco desdenhante, nessa gente covarde e naîfe.

continua em algum teclado limo (p)...

Retrato em Branco e Preto - Elis Regina (1974)

Quem acredita no amor?

Documento 3


Passei noites de natal em que preferia estar longe ou morto de tudo de todos, mas a morte é um golpe de sorte, como disse meu tio que pulou do viaduto e caiu como uma pluma, ele falou, dez metros de altura.
Falávamos que a morte é um tanto forçoso. Um privilégio de Deus, cntrl-alt-del  aditado num só botãozinho, editado conforme o pré script.
A morte é algo inenarrável.
Embora tenha estado face to face em dois verbos, não fui adicionado aos melhores amigos, ao menos porquanto estou vivo, nesse corpo que toca as letras do teclado.
Corpo que teima em aventurar-se ao conferir sentido ao meu universo interno. Como se fosse viável registrar o inefável. Como se fosse possível dizer o indizível. Como falar que gosto tem a cor vermelha, ou qual seria exatamente o som do ódio.
O vento lambe meu rosto, sem tocar a retina.
Anóspito é aquele que não sente odores.
Cego é quem não enxerga.
Surdo aquele quem não ouve.
Mudo é aquele que não fala.
Homem é aquele dá nome; próprio que diferencia a espécie.
Signos do acaso. 
Eu



vi um bêbado ser jogado no meio do samba da meia noite na porta do bordel, por volta das três da madrugada. Imaginei Miles Davis encostado na pilastra do viaduto do santa Tereza vendo tudo, afastado da balbúrdia, enquanto cantava mentalmente
round mid night pensando, ainda que por um segundo, que podia ter nascido surdo, enquanto ouvia gritaria do povo. Enquanto pensava em África, nos gritos ancestrais inflamados, tribais, representativos, simbólicos. em como seria fazer tudo de novo. Mas tinha um sorriso no rosto que indicava a satisfação de saber que é impossível voltar no tempo, impossível fazer o sentido inverso da existência. 






segunda-feira, julho 22, 2013


Cen


sem meta
sem métrica
sem método
sem poema
sem chá
sem porrada

sem porra
sem nada
sem fala 

sem juízo
pensar, pensar, pensar
pensar, pensar, pensar

sem embuste
sem misticismo

sem começo

sem lesão
sem si mesmo
sensação
sem deleuzeuzismo
sem trumpete
sem soprismo
sem Chet,
sem lirismo


sem pau
sem Mário
sem glória
sem beijo
sem boca
sem beca
sem beco


sem ícone
sem i
sem cone
sem cônica
sem buraco
sem Mao
sem mal
sem mão
sem sem
sem lets

sem Jack
sem pés
sem estrada
sem brilho
sem cadilac
sem vermelho
sem mantra
sem giro
sem sol
sem Allen
sem sutra
sem Mardou
sem filhos
sem burroughs
sem maçã
sem tiro
sem Guilherme
sem tell
sem Taroma
sem anexim
sem Anexia



domingo, julho 21, 2013



Uma nova temporada no inferno
um novo matrimônio atmosférico
um novo proverbismo materno
um novo Rintrah pós-moderno

“Outrora manso, e em uma perigosa trilha, 
O homem justo manteve sua rota 
Pelo vale da morte.”


  




a abelha parou pra procurar o isqueiro
o lobo mal culpou chapeuzinho vermelho
o pavão não  se olha no espelho
o leão morreu de verminose
a mulher é a costela de adão

os cavalos do fluxograma se tornaram cordatos
e o tigre da ira suprimiu a cirrose

o flagelo corporal veio para todos
tolo sorridente e sábio carrancudo

o verme pediu perdão
e nunca foi elevado

aquele que gosta da água
pulou no rio e morreu afogado

subi correndo o escadão
e só encontrei uns barracos
inépcia, inópia e nenhum palácio

Jim Morrison entendeu tudo errado...






Por que tanto? Por quanto tempo?
por que tanto questionamento?
porque tanta andança? Tanta mentira tanta rua?
tanta palavra de novela?
mais tantas quantas?
respiro pela garganta?
tanto vezes quanto?
sento ou levanto?
toda hora mais
quanto time?
jogar palavras ao vento?
não sei como soletra
minhas palavras morram no fundo domar
meus sentimentos
esta caídos
figuras flutuam
soap opera
super über
super pouco
ligeiramente disperso
sem fim sem começo
sem rima sem verso
sem léxico sem espelho
sem sintaxe sem si mesmo
sem dicotomia
e sem periodismo
minhas palavras morram no fundo de um uníssono
minhas ar-
mim mesmo
minha pelo avesso
sem pedaço ou desperdiço
sem prolixo proverbismo
gutural
na pinta do
dedo


quinta-feira, julho 18, 2013


Submerso em seus próprios pensamentos, o avarento Custódio, assoberbado, transcorria noites e noites adentro.
Era um homem tão cheio de empáfia que, nas madrugadas, enquanto todos dormiam o sono dos justos, ele escrevia coisas sobre si mesmo tentando mudar seu percurso.
Amuado, contrariado, embezerrado, obstinado e teimoso, caminhava sem sair de casa em seu terreno pedregoso. Ansiava uma vida pacata, mas nada fazia por isso. Achava tudo muito chato, e não via graça em nada. Gostava mesmo de si mesmo, mas com as pessoas tinha parcimônia.
A vida se arrastava pelas beiradas e ele, via de fato, flatulava, quando comia feijão. Mas esse na era seu próprio mais alegórico em questão.   
Fátuo, arrogante, soberbo, impertinente, jactancioso, orgulhoso, presunçoso, vão, inchado de si mesmo.
Mesmo com o próprio tempo, que gastava desgostosamente. Gastava, carcomia corroía, roía, consumia, desgastava.
Grosseiro gastava, gastava, gastava, grosseiramente.
Desgaste é a palavra certa.
 O estrago danos causava, custava degradação.
O extermínio das horas mortas, ruína de atemporal.
Decadência das palavras das estrelas lá do céu.
Gastava gastava as horas, da jornada madrigal.
Aurora após alvorada, sunset sem se sentir.
Cada dia tardiamente, cedinho ia dormir. Quando todos acordavam já não podia tocar sua flauta.
Madrugada após madrugada foi assim que aconteceu. Horas que apavoravam Custódio bem longe do entardecer.
Descia ao findo fundo do fim, a fim de nada e de tudo.
Fogo do próprio ego era água de si mesmo.
Sempre acordava queimado, num ato último vampiresco, que era princípio de tudo. tudo torto e pelo avesso.
nadavazado no poço da meia luz do aposento.
Custódio não tinha medo de gato, mas o Gato Malvado o perseguia sua sombra.
falava com as palavras usando a Ponta dos Dedos.
Sem fazer balbúrdia respirava celestial, nas horas silenciosas, nas horas da calada noite. Respirava sem algazarra, prendia o ar silenciosamente. Emudecido estilhaçava o que estava junto, e ajuntava os cacos de tudo, ou quase sempre nunca tudo.
 Evitava maior tumulto com medo de acordar Deus. Era um assim homem.
piramidal
essencial
principal
adicional
ancestral
pinheiral
universal
acidental
imaterial
superlativo
ocasional
integral

eventual


Ele se despiu de todas as coisas do mundo pra viver uma semi-vida mortalmente funesta. 

Eu e Pinha

Slide uma ova!


minha Primeira Peça de Teatro



“Fui ao toróró beber água não achei. Achei foi a mim mesmo que no toróró larguei.” – dizia a ponta do dedo


O Medo – que medo! Que medo desse lugar que me deixa angustiado. Prefiro sair daqui, da meia-luz desse quarto.

 “Dizzy é mais cruel” disse uma voz tlec-tlec vinda das notas do teclado.

“Prefiro Miles Davis” retrucou o Medo danado.
 “Mas quem é você?” diz então o Gato Malvado.

Voz do teclado – eu sou a voz d teclado. Quem eu podia ser?  Eu venho aqui todo dia ate o dia nascer.

O Medo – que fobia ducaralho! Que ar reprimido no peito! Que medo descompensado! Sinto-me encarcerado! Quem você pensa que é?

Voz do teclado – Vim atendendo ao chamado de um somítico escritor. Só venho porque sou muitas, A Ponta Dos Dedos me toca. Com ela troco carícias. Sou casca, cauira, cauila.  Agarrado ao peso das horas, escravo da própria dor.  Organizo as palavras daquele vocaliza os ruídos que me da vida. Mesquinho ele pode ser, avaro, também talvez, mas não poupa tecladadas quando tem o que dizer. Mesmo quando não tem ele fala.

O gato Malvado – mas como se atreve a falar assim do meu dono? Sou eu quem manda nele e não admito confronto. Rivais vivos eu mato, trucido e abocanho. Sou o Gato Malvado e só apareço em sonho. Sorriso da lua pensamento abocanha tamanho. Nefasto é meu nome, embora nunca tenha dito, embora seja próprio do homem nomear o que consome. Nome aos bois, nome aos gatos, nome de cidade, nome as coisas que manipula nome os rios e montanhas. O mar não sabe que tem esse nome, nem o amarelo tampouco, e o corcunda de Notredaime, não sabe o que é bizarro, sinistro, abjeto, grotesco, medonho. Apenas é sem saber, assusta. Dá medo sem ter medo. Se ao menos se visse no espelho.
Aos substantivos: nome! Adjetivar os substantivos pra que eles não reclamem! Adjetivado Eu que venho de outras longas gerações. Lambida de faraó na ponta de dedos imperiais.
Ó castelo! Ó conde! Ó torre! Ó corcunda! Ó Igor! Se tivessem um dicionário...
Se alguém lhes dissesse um signo interpretado...

Eis que surge além das horas Os Olhos.

Os Olhos – caímos num buraco mais profundo parecia, um abismo denso e turvo, minha nossa Senhora das Dores. Na nevava, mas frio fazia. De trem não fomos, eu Córnea, Pupila, Retina, Íris, Fóvea, Cristalino, Macula lútea e Ponto Cego. A esclerótica, nem te conto, quase esclerosa.

A Voz do Teclado – Quem explica esse destino, acaso? Que deus cego seu menino? , contestável
Mais medonho abismadado, hiante, cavado, escancarado? Como quantas tantas muito? Dúbio, contestável, não confiável, ambíguo, abstruso? Quando surge a luz do dia você vai pra outro mudo? Dizem eu os olhos diz tudo...

continua...




quinta-feira, julho 11, 2013

Olho eu aqui de novo. Estou vivo. Sou grato ao meu Deus que aperfeiçoa a ação do tempo. Sei com toda certeza que o tempo não existe. Esse triste contagem das horas, dos segundos e minutos. Essa marcação dos meses, dias e séculos. É diminuto prazer humano. Pequenino, imperceptível. Inaudível aos ouvidos divinos... Insignificante ao cósmico silêncio.  Insignificante ao cósmico fluxo. Anos luz distante do ponteiro que marca os segundos.
Ínfima fração que nada influi no ciclo da vida.
Não decompõe o crescimento fractal da concha.
Não acidenta o elíptico giro da Terra.
Não transforma, não modifica, não altera.

O sol, contudo se ergue todas as manhãs e se esconde ao fim da tarde. Invariavelmente a noite vem. Atravessamos as horas da madrugada. Silenciosa, calada, até o fim. Até o início de mais uma aurora.
As horas do fim são as mesmas do começo, embora em diferentes episódios.
Ambição humana querer controlar o Tempo.
O tempo morreu faz tempo. Vive enquanto signo, como mera figura de linguagem.
Novas tecnologias proporcionam a troca de informações em tempo “real” entre dois pontos equidistantes. Ligando o Polo sul ao Polo Norte, o Japão ao Brasil.
Futuro, passado, presente ocorrem simultaneamente, profere a física quântica.

Porém, falar sobre as coisas que não permanecem parece uma lição budista sobre a Nobre Verdade.
Independente da Revolução Industrial, primeira a determinar horários que deveriam reabastecer os maquina-homens, ou, homem-maquinal. Criando a “hora do almoço” etc. e tal, mas incapaz de definir a hora da morte, enquanto tantos se autoexterminaram por causa da repetição excruciante.
Independente de o iluminismo renascentista ter abolido Deus do centro do universo, e ter decapitado seus reis e etc.
A câmera escura já era investigada e lá nascia o principio da fotografia. Independente do advento do sulfato de prata, em branco e preto e/ou das câmeras digitais e armazenam a luz por preenchimento. Independente dos mil tons geniais que repousam no entardecer. Independente de o cinema ser alma ou objeto, registro da imagem em movimento. Perdemos muitos objetos energéticos, no decorrer da vida, que os olhos não são capazes de gravar.   

Escrevo porque espero preencher essa página em branco, na utopia de organizar o pensamento.
Escrevo porque anseio preterir a morte.
Escrevo porque é sublime diálogo com Deus.
Escrevo porque igualmente ambiciono ser eterno.
Escrevo porque desejo atribuir sentido a vida.
Escrevo de dentro para fora, embora o deslumbramento venha de fora pra dentro.
Escrevo porque o
ato responsável de escrever e ler se justifica porque temos falado demais, e na oralidade as palavras circulam depressa demais, sentimo-nos fora de nós mesmos, nossas palavras nos atacam. Dizemos as palavras e as perdemos. A leitura e a escrita são meios de deter o tempo crônico, veloz, que nos arrasta. No ler e no escrever podemos sentir as palavras de uma forma diferente, mudamos nossas relações com as palavras, para que alguma coisa seja tirada do silêncio.

ser? sim. Com chá de jasmim

Dentro de mim e a qualquer hora.
Quero dizer tanta coisa que guardo no peito, ou na cachola, melhor dizendo. Quero tanto quanto ando sufocado pelas horas faceiras do dia ou pelas horas mudas da madrugada, tanto que acabo não dizendo. Exultantes tiranias que adornam a existência, sem que o bicho saiba. O tempo é totalitário. Total na sua medida, irrestrito e absoluto.
A cabeça é uma coisa bizarra, uma das qualidades do belo, enquanto objeto de arte. Arrisco descobrir a relação da cabeça com o resto do corpo, enquanto ser pensante. Tento imaginar a cabeça como objeto, congelada e morta dentro de um vidro. Assim como se aventurou fazer consigo mesmo o poeta Thimoty Leary. Como seria se fossemos todos congelados dessa forma?
Queremos deixar registro de nossa estadia na crosta desse planeta. Deste modo o ser humano, animal autobiográfico que somos, tenta enganar o tempo, tendo filhos. Do mesmo modo, os próprios filhos morrerão, devagar, sem pressa, lentamente, tal como inevitavelmente nossos ancestrais morreram. Aqueles que nos precederam na comoção da vida e nos beijou a alma com ternura, geneticamente dizendo. Deixa agora em nossos corpos nômades a chance de viver no espaço-tempo, limitado e irredutível, onde plantaram a semente do infindável. Revide, resposta, contragolpe na fuça da face da eternidade, e também o único que podemos, na melhor das hipóteses, o único a que temos direito.
Filhos? Dizem que é a melhor coisa do mundo. Eu não me sinto a melhor coisa do mundo, em vista de tanto aborrecimento, sofrido e gerado, tanto faz, não importa o sentido da burrice ou, a origem do absurdo enquanto ato. Embora pareça estranho, a existência age sobre si, de fato, causa e consequência de si mesma. Próprio da dicotomia entre certo e errado, pesa sobre nos a ação de sermos.
Simplesmente.
Se um dia formos seremos. Se um dia fomos, certa noite, ou certa madrugada esquecida, também seremos algo fatalmente.
Diferente para cada vivente, a morte, o fim, o derradeiro suspiro chega pra todos. Anunciado, lento, ou fulminante. Silencioso e manso, adquirido, proporcionado ou tomado emprestado, casual ou harmônico. Morre-se como se vive. Um signo genuíno desde a noite dos séculos.
O único signo que não tem significante. Apenas atribuímos sentido a ela. Eu, ser vivente que escrevo, e você que agora está lendo, não temos a menor noção de como é a vida de um morto. Sequer sabemos como é, de fato, derradeiro momento do desenlace. Próximo instante da vida de todos. Que tanto tememos e tentamos adiar, uns mais outros menos.
Mas por que falar tanto sobre “morte”? Pois a única certeza que temos inexplicavelmente é o que nos faz viver.
Não quero conviver com esse medo. Quero viver. Quero viver. Um corpo sobre uma cabeça.
Não faço questão de apressar seu beijo.
Vitrifico meus sonhos que se gaseificados se volatizam com os primeiros raios do sol.
Quero dar minha polegada de contribuição.
centímetro a centímetro...










segunda-feira, julho 08, 2013

Hai-karamba

hai-pluft
hai-plact
Zum

que Deus
- cega esse menino?
desatino ou destino?

quem rege
o sacrilíaco
herege
Minha alma voa
no pano distorcido
da realidade

afinal,
high desabo
isso é real
Ensaboa a orelha
- foge voz
esquizofrênica

Rainha do céu
agora e na hora
da morte

conflitos? Tenho
filhos?
não.

quanto muito se passou
 - entre pouco
e nada?

A estrada é longa
o caminho torto
quem anda?

uma piada?
Vida
- a maior de todas

espera arrependimento
orgia apocalíptica
sétimo selo

Como sinto?
sim
toma

como?
quem foi?
dói?

 Deus,
quem não crê?
eu ou você?

se o ser humano é mal
como posso
ser humano?









Step outside

Hai-bu




madrugada, sou pagão
prendo a respiração
pra não acordar Deus

Deus é o dono do céu
Procuro no chão
passagem pro inferno

No espelho
- rugas e desilusão
gosto de dualismo

no cabelo amadureço
fio por fio
amor pelo tempo

Culpa tem seu peso
- alma leveza
tristeza não se pesa

Signo do infinito
errei o caminho
- eu penso










Pétalas no chão,
apanho na rua
embora nunca levei uma surra em via pública

falo com as sombras
na escuridão
elas escutam

Deus é cego, surdo
e mudo, mas
- está em tudo

saio de soslaio
do poço extinto
o poço sou eu

saio
do lado do lodo
por instinto

Lamento?
muitos...
regret de rian

oquês entravam
- passarada
eu gavião


signo

sigo

domingo, julho 07, 2013

Book of Haiku

   Jack Kerouac
        Some Western Haiku from 

              Book of Haiku

Arms folded
to the moon, 
Among the cows. 

Birds singing
in the dark
- Rainy dawn. 

Elephants munching
on grass – loving
Head side by side. 

Missing a kick
at the icebox door
It closed anyway. 

This July evening,
a large frog
On my door sill. 

Catfish fighting for his life,
and winning,
Splashing us all. 

Evening coming
-the office girl
Unloosing her scarf. 

The low yellow
moon above the
Quiet lamplit house 

Shall I say no?
- fly rubbing
its back legs 

Unencouraging sign
- the fish store
Is closed. 


Nodding against
  the wall, the flowers
Sneeze 

Straining at the padlock,
the garage doors 
At noon 

The taste
of rain
- Why kneel? 

The moon,
the falling star
- Look elsewhere 

The rain has filled
  the birdbath
Again, almost

And the quiet cat
sitting by the post
Perceives the moon 

Useless, useless,
the heavy rain
Driving into the sea. 

Juju beads on the
Zen manual:  
My knees are cold. 

Those birds sitting
out there on the fence –
They're all going to die. 

The bottoms of my shoes
are wet 
from walking in the rain 

In my medicine cabinet,
the winter fly
has died of old age.

November - how nasal
the drunken
Conductor's call 

The moon had
a cat's mustache
For a second  

A big fat flake
of snow
Falling all alone 

The summer chair
rocking by itself
In the blizzard