segunda-feira, setembro 30, 2013

Para João Flor de Maio Kadiwéu




Nada de mais, nenhum acrobat reader, pdf, jpg.
Apenas salvar no desktop...

grafismo dos povos Kadiwéu

O chá estava bom?

Prosa que saí feito golpe de judô, um Joyce tropical. Kamikaze plácido e domingos, Nicholas Economou. Poetas, filósofos gregos, que vale velho ser perfeito? Melhor morrer novo pleno. Ando navalha de “la leche”. Gilette, gis-de-cera, leche niegro, que me vale? Melhor pior? percebe?, que difere? A dor que perpassa o corpo, a sede? Espinosa vida é Deus na terra, Deus em tudo, no eus sem d maiúsculo. Nos mesmos nós, apoucadamente mudos. Aperte o tempo, marujo, o vento açoita ao norte. Cuidado com esses cristais, tal tábua te diverte? má sorte. Tubarões da old Brecheret. Ensopado lenta-boca-nhada-[mente] far from seu leito cristão farão de si seu Sísifu, daí você se fode.

Absurdo! Absurdo!

Não queira enganar a morte, semanticamente in off.
Saiu de mim um dedo cortado numa oitava dupla de Argerich. Um bom papo de cavalheiros e o silêncio polissêmico in a dawn. Um bom papo de cavalheiros edificações e prédios, Um bom papo de cavalheiros orquestrado e polifônico. Sinfônica de mil dizeres divida sem dividir a serpente.
Um quê a menos soma e uma pausa tudo muda. Tudo parece binário. Um buquê de cidreira, Flor de Maio. A mística prosa troveja, ignota voz surgirá no fraseado. A rosa do p sem o p da prosa. O partir sem partitura, tua voz graceja.
Um João sem Cage, sem gaiola graças ao grande Buda. Tudo será natural in the silence of a dawn. Eles, pianistas do sobrenatural, veem tudo que fazemos. Nossas teclas são donas de letras, as deles são brancas e pretas. Uma rosa vermelha na sexta, a paz azul claro Sonntag aos domingos, der heilige Ruhetag o dia sagrado de descanso. Sábado é dia besta, casam meninos incautos. Queria dizer que:

__ você aí de gravata lilás. Serás feliz pelo sonho de sê-lo. O casal sorridente, vai se distanciar em pouco tempo. Ele vai encontrar outra, e você morrerá solteira-sem-filhos.
O de olhos verdes e suspensório vermelho, alva cabeleira. Vi que abarcaste as estações da baixinha e sabes já que tudo é provisório. A via-vida por ela mesma, no substantivo-social feminino ou masculino, fenomenologicamente, é apenas uma questão de léxico. Real-idade à moça não se pergunta. Only the young die young. Sentido? RUMO!? frente > o point of view independe. Up-side-down o clown de Shakespeare também fenece.

Esqueça cueca, vista as calças, há formigas na minha cama pisa nu céu de Nuremberg.
Onde? Óvnis abduções de letras cultas ocultam. As betas alpha ômegas lambda lambda...
Quão?

Gargalha, ri, como um palhaço que desengonçado chora. Salta gravoche que já vem aurora. Nas suas macabras piruetas d’aço. Com amplexo, simples-[mente] comece agora!
Como pode um pássaro ser feliz em uma gaiola, Flor de Maio? na barganha, Das Bing de Lacan ao pecado da maçã. Arquitete gaiolos mais decentes, e serenos seremos pássaros. Planeje ares solenes onde se possa ouvir Schubert de tênis, três  teses, telex, times. Freud amava Ema, e isso antes não se disse. A abelha diligente não tem tempo pra mesmices, quica lamentações. O dia vem in´[our hora] doce-mente, os próprios definem qualidade, gênero e diferença determina espécie. Não temo a claridade do dia que amanhece, soul um vampiro com saudades e bebo acaçá au avesso de sangue. Quem tudo mede, pode-[alma] detalhamento TCC e turn off.
Oferto signos linguais ipses literes ao sono de João das flores!
Saiu de mim essa necessidade incrível de conversar com um amigo, um João. Poderia ser José. Não é de Jupiter, não Ed Marte, mas daqui donde se tudo pode. No entanto nem sempre algo se abduz, se compressa, comprime, compreende, depois de João e flor um mês de maio.
Onde há tristeza brotará alegria.
O caminho do meio, ao centro, sem fuga, sem forçar o verso centrifugado, sem olho de santo, entretanto.
Nem esticado, nem tão frouxo, se não tocará a corda.
Desejo que siga sempre com seu potencial plenamente exercido, pois segundo Nietzsche, e eu concordamos “a felicidade repousa na consciência de vitória e potência plenamente exercidas”!
Violinado agora, the end.

(ouvindo Bird Parker e Cage’s Landscape)

domingo, setembro 29, 2013

Imagem, Octavio Paz

Parte do texto "Imagem", no qual o poeta mexicano Octavio Paz aborda a unidade significativa da frase poética (a imagem) e utiliza o princípio da identidade dos opostos (isto é aquilo), comum no pensamento oriental, para explicitar a resistência às representações poéticas no pensamento ocidental (isto e aquilo).


"[...]O conhecimento que as doutrinas orientais nos propõem não é transmissível em fórmulas ou raciocínios. A verdade é uma experiência e cada qual deve enfrentá-la por sua própria conta e risco. A doutrina nos mostra o caminho, mas ninguém pode percorrê-lo por nós. Daí a importância das técnicas de meditação. A aprendizagem não consiste na acumulação de conhecimentos, mas na afinação do corpo e espírito. [...] Para a tradição oriental, a verdade é uma experiência pessoal. Portanto, em sentido estrito, é incomunicável. Cada um deve começar e refazer sozinho o processo da verdade. E ninguém, exceto aquele que empreende a aventura, pode saber se chegou ou não à plenitude, à identidade com o ser. O conhecimento é inefável. Às vezes, "esse estar no saber" se manifesta com uma gargalhada, um sorriso ou um paradoxo. Mas o sorriso também pode indicar que o adepto não encontrou nada. Todo conhecimento se reduziria então a saber que o conhecimento é impossível. Uma e outra vez os textos se entregam a esse gênero de ambiguidades. A doutrina se resolve no silêncio. O Tao é indefinível e inominável: 'O Tao que pode ser nomeado não é o Tao absoluto. Nomes que podem ser pronunciados não são os Nomes absolutos'. Chuang-tzu afirma que a linguagem, por sua própria natureza, não pode expressar o absoluto, dificuldade que não é muito diferente da que tira o sono dos criadores da lógica simbólica. 'Tao não pode ser definido [...] Aquele que conhece não fala. E aquele que fala não conhece. Portanto, o Sábio prega a doutrina sem palavras'. A condenação das palavras decorre da incapacidade da linguagem para transcender o mundo dos opostos relativos e interdependentes, do isto em função do aquilo" (O arco e a lira, pág109).

Dangling in the Tournefortia

Leio Buk e me emociono... metálico e sinceramente irônico




I still get letters in the mail, mostly from cracked-up
men in tiny rooms with factory jobs or no jobs who are
living with whores or no woman at all, no hope, just
booze and madness.

Most of their letters are on lined paper
written with an unsharpened pencil
or in ink
in tiny handwriting that slants to the
left

and the paper is often torn
usually halfway up the middle
and they say they like my stuff,
I’ve written from where it’s at, and
they recognize that. truly, I’ve given them a second
chance, some recognition of where they’re at.

it’s true, I was there, worse off than most
of them.
but I wonder if they realize where their letters
arrive?
well, they are dropped into a box
behind a six-foot hedge with a long driveway leading
to a two car garage, rose garden, fruit trees,
animals, a beautiful woman, mortgage about half
paid after a year, a new car,
fireplace and a green rug two-inches thick
with a young boy to write my stuff now,
I keep him in a ten-foot cage with a
typewriter, feed him whiskey and raw whores,
belt him pretty good three or four times
a week.
I’m 59 years old now and the critics say
my stuff is getting better than ever.

Anne Sexton

sábado, setembro 28, 2013

entrevista com a paixão da minha existência atribulada, Raquel Manú...

 Como falar de Raquel Emmanuelle com imparcialidade? 
Nos conhecemos em 2008 quando eu saía de uma guerra contra os alemães. O fim do namoro com La Tedesca foi cena que caberia no filme de Tarantino, Bastardos inglórios, e o luto pela morte da sereia Midred, que não é a garçonete personagem da peça teatral do inglês W. Somerset Maughan, mas que também desdenhava com destreza sobre a ética espinosiana da Servidão Humana durou um longo ano. Um longo ano de bebedeira.
Eu e Raquel fomos contemporâneos de faculdade, nosso querido Uni-BH, o qual abandonei por inépcia.
Vejo que estou escrevendo muito sobre mim, mas foi a partir desse tempo que Raquel tornou-se leitora assídua do Papagaio Mudo, um mestre das ladainhas afetivas, um típico romântico contemporâneo, incauto e superlativo, um eu “poderia” tudo, linguisticamente falando, no pretérito do futuro subjuntivo.
Passaram-se quatro anos e, em 2011 encontro-me com Manú (como me acostumei a chamá-la) na varanda do edifício Maletta.
Como quem foi acertado em cheio, por uma semente ou coisa assim, por um stiling na mão de uma criança (até vejo a cara de quem prepara o golpe) não mais nos perdemos de vista.
Naquela instância ela era redatora do jornal Hoje em Dia e eu passava por mais uma recaída, contando as pedras do caminho com as quais um dia construirei meu castelo.
Manú também foi estagiária da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa), onde adquiriu larga experiência jornalística, enquanto eu vendia sanduíches veganos na minha extinta lanchonete que chamada Piper Rubra.
Quando Manú saiu do Hoje em Dia, eu me mantive limpo por um bom período e até me tornei discotecário.
Tive alguns lapsos que assustaram até a mim mesmo, mas meu psiquiatra disse que seria comum se eu me mantivesse dentro dessa “zona de risco”.
Descobri que o mundo é uma "zona de risco".
Raquel ingressou no curso de pós-graduação da UFMG em História, Historiografia e Ciências Políticas, onde descobriu que esse tal mundo está ficando cada vez menor, através das reflexões de Carlo Ginzburg e também alertou para  a sobre a síndrome da invisibilidade sobre a qual discorre o sociólogo Roberto da Mata.
Atualmente Emanuelle cursa a graduação em Letras na UFMG, e eu, (que já faço parte desse introito), estou limpo, depois uma colônia de férias no hospital psiquiátrico Santa Maria, entre catalépticos e homicidas. Parto em uma semana para uma fazenda, uma heab farma ville, onde passarei o tempo de uma gestação humana.
Depois disso:  الله وحده يعلم أن أقول ...
Com base em peremptórias perguntas lançadas ao vento pela renomada arquiteta e arranjadora floral Silvia Herval, fizemos esse bat

bola.
Lá vai, segura a peteca!

G u s t a – v  o  u  te entrevistar, ok?
O que está atrás da porta?
O que não é como aparenta ser?
Você tem alguma alergia?




Raquel Emanuelle

Ok.
Não tem porta, só um cortinado de madrepérola indiano. Muita coisa não é como aparenta ser, eu mesma. Não tenho alergia a nada

https://fbstatic-a.akamaihd.net/rsrc.php/v2/y4/r/-PAXP-deijE.gif03h47min

Gustavo Perez

Todas essas perguntas são chaves. E é muito provável que as respostas a essas quatro questões apareçam manchadas de sangue.
Evacuou hoje?

Raquel Emanuelle
Sim

Gustavo Perez
Que parte de mim foi morta ou está agonizando?

R. E.
A partir do meu ponto de vista, nenhuma.

G. P.
O que eu sei no fundo de mim mesma que preferia não saber?

R. E.
As pessoas são más...
(risos)

Gustavo Perez
Você é uma pessoa?

R. E.
Elas são um grupo e eu sou eu

G. P.
Signo? Time de futebol? Meio de transporte?

R. E.
Virgem. Não tenho um time, mas gosto do atlético. Ônibus.

G. P.
Atlético mineiro ou de Madrid?

R. E.
Mineiro
https://fbstatic-a.akamaihd.net/rsrc.php/v2/y4/r/-PAXP-deijE.gif

G. P.
Descubra os corpos, siga os instintos, veja o que estiver vendo, reúna energia psíquica, acabe com a energia destrutiva. o que mais te chamou a atenção? Fale-me quatro objetos.

R. E.
Ventilador, sandália azul, mochila azul, gavetas.

G. P.
Livros de cabeceira?

R. E.
Tenho sete, vou falar o que eu estou gostando mais, beleza?

Gustavo Perez
Sim...

Raquel Emanuelle
As portas da percepção do Huxley.

G. P.
Primeiro,

R. E.
É pra falar todos?

G. P
.
Você quem sabe... nesse caso aceita água pra ajudar?

R. E
.
Aceito

G. P.
Gelada ou natural? Aqui...
https://fbstatic-a.akamaihd.net/rsrc.php/v2/y4/r/-PAXP-deijE.gif

R. E
.
Natural, sempre. Esse primeiro aí? Você está enumerando?

G. P.
Basta? Pode dizer ao menos mais dois? Três é um número bom. Freudiano...

Raquel Emanuelle
Eu peguei o Uivo naquela hora, por isso ele é que tá na minha cabeceira.Omeros, Derek Walcott.

Gustavo Perez
Não entendi direito. Omeros é o título do livro?

R. E.
Sim.

G. P
.
Falta apenas um.

R. E
.
O arco e a lira, Octavio Paz.

G P
.
Dale! Segue outra, ok? Como você enxerga a critica literária nos jornais impressos? Muito dispersiva? Ou compactada?

Raquel Emanuelle

 (a net caiu...)
A crítica se limita muito a julgar e falar dos mais vendidos.  Não envereda pela estrutura da obra

G. P.
Compactada, no caso, acertei?
https://fbstatic-a.akamaihd.net/rsrc.php/v2/y4/r/-PAXP-deijE.gif

R. E.
Como tudo no jornalismo. Falta de espaço, falta de tempo, falta de pesquisa.

G. P.
Como você vê a poesia nacional em termos gerais? Ou melhor, xamanisticamente.

R. E.
A poesia está em todo lugar. Está no universo

G.P.
Está no seu universo íntimo?

R. E.
Também.

G. P.
Vamos ao cinema amanhã comigo?

R. E.
Vamos ao Palácio que é free.

Gustavo Perez
Essa eu aprendi com Marília Gabriela. Quer falar mais alguma coisa? Alguma frase solta?

Raquel Emanuelle
Eu queria dizer que...

G.P.
Sim.
Pode ser gravando? Ou em off?

R.E
.
Em off.

G. P.
Ok. Diga lá. Prometo não publicar.

R. E.
É uma frase que marcou quando eu bati o olho aqui no meio dos papéis.
“Ser original não é ser diferente” Gaudi.

Gustavo Perez
Ah... deixa-me eu colocar na entrevista. Essa é tipo “ser humilde não é ser Zé"

Raquel Emanuelle
(risosrisossrs)
Pode.

 


A NARRATIVA LITERÁRIA NA MÍDIA: uma discussão teórica sobre a narrativização nas reportagens da revista Brasileiros

Um vulcão qual Etna!!!!




Monólogo de Segismundo, poema barroco do espanhol Calderón de la Barca.

stand up




quinta-feira, setembro 26, 2013

mockingbird wish me lucky

Mockingbird Wish Me Luck by HarperCollins

o último grito de Naomi

Allen DeLoach, Allen Ginsberg, Carl Solomon and Peter Orlovsky, Cherry Valley, August 1973.


Ginsberg é eterno e resolveu  dar uns pulos por aqui. Da janela do sai de bar, que não era do Bardo, ele Gritou granindo como um lobo, depois que lobotomizaram Naomi, sua mãe. Já haviam rezado o Kadish sem onze homens, só os dois. Carl, lhes apresentou Genet - um passeio pelo código penal. Diário de um ladrão e Querelle; Coqueteau deu seu aval. Artaud estava no hospital. As paixões de Joana D'Arc lhe haviam feito mal.... Carl sadiamente, lia os russos, Madelstam, Gogol, vinha de outros carnavais. Também não estava a salvo. Sintonizaram-se no leito manicomial:
__ Dimitri - disse Allen.
__ Fiódor - respondeu Carl.
Os irmãos Karamazov...

Mishaps, Perhaps
dadaísta do Bronx, poeta fragmentário...

Se Deus não existe, tudo é permitido?




Somos eternos...

E essas núpcias de fogo entre o céu e o tempo de depauperamento? E esse medo, essa presença, esse alguém? E essas núpcias entre céu e inferno?
E esse casamento grego? e esse homem morcego? e quando a vaca vai pro brejo? Haverá um cortejo? Alguma pessoa encontra a disposição de viver.
A vida faz querer seguir adiante. Seguir em frente, em frentes, e eventualmente. Como enterrar nossos mortos? ou viveremos para sempre? 

O UIVO (para Carl Solomon)


Carl,

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de
madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo
antigo contacto celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e
olheiras fundas, viajaram fumando sentados na
sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das
cidades contemplando jazz, que desnudaram os seus
Cérebros ao céu sob o Elevador e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas dos
cómodos que passaram por universidades com olhos frios
e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de
William Blake entre os estudiosos da guerra, que
foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro
em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

Que foram detidos nas suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para Nova Iorque, que
comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus os torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trémula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, bebedeira
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita de prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente,


que se acorrentaram aos vagões do metro para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trémulos, a boca
rebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico, que afundaram a noite toda na luz
submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram
a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogénio, que falaram setenta e duas horas sem parar
do parque ao bar ao Hospital Bellevue, do Museu
à Ponte de Brooklyn, batalhão perdido de debatedores
platónicos saltando dos gradis das escadas de emergência
dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando factos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rasto de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark, que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio
da estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô, que estudaram Plotino, Poe,
São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural, que pularam em limusines com o chinês
de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África, que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago, que reapareceram na Costa Oeste
investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo,


que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trémulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que morderam policias no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser a sua transacção
pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metro e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que fizeram amor pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na relva de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente o seu sémem para quem
quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com a sua espada,
que perderam as suas crianças amadas para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre o seu rabo retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da cona
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de raparigas
trémulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, rabos luminosos
nos celeiros e nus no lago,
que foram foder em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
miúdas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & as suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com os seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música,


que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que atiraram os seus relógios do telhado fazendo o seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo & os
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte,
que cortaram os seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbedos da Realidade Absoluta,
que se lançaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metro, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se tu tinhas tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando pela sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse o seu cabelo por um segundo,

que se rebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os miúdos ou Pacífico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo,

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com a
sua loucura & as suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicómio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque eléctrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos excepto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicómio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, lutando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobilado esvaziado até à
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto tu não estiveres a salvo eu não
estarei a salvo e agora tu estás inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo —
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trémulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até ao seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.

Allen Ginsberg

ornitorrinco em formação

     ornitorrinco em formação

imagem-poema Wilson Torres Nanini
Blog 

    Quebrantos, relances e abismos ao relento




Capacidade humana para avaliar as tendências de opinião pública.
Medo justificável dos indivíduos de isolamento.

Hesitação das pessoas de expressar opiniões minoritárias.

Espiral do silêncio, estrutura.

Ellizabet Noele Newman  

Diários...


entrevista com Kennedy Rafael


Kennedy Rafael se indispôs com todo tipo de certidumbre. Nasceu estrangeiro em sua terra natal. Compatriota mas de nenhum lugar, de lugar nenhum, de todos os lugares que o acolheram e que não enjeitaram também, buscou refúgio nos sete saberes, nas artes, nas estruturas e no vento do pós-estruturalismo do acalento das árvores. Difícil explicar com signos uma percepto – uma noção de sensação de percepção. “Sublimai e sublimai-vos!” assim dizia o Nada, personagem da obra A peste, de Albert Camus, o existencialista francês.
De tal modo flutuaremos com assaz tenacidade sobre os mil, talvez dez mil, talvez infinitos platôs que compõem nossa geografia humana, interna e externa.
Foi assim que, como quem se deixa levar, pelo fluxo que concerne aos pés do náufrago aonde se quer chegar, pede licença para agarrar o pedaço de madeira que leva Kennedy Rafael pelas correntezas da vida.
Criador incansável, Rafael domina as artes gráficas com sagacidade, é exímio fotografo – enxerga a imagem estática tal como a vê em movimento. Posseiro de sensível olhar análogo e digital racional ou em película P&B.

Para todos os momentos enxerga fotogramas, como nos revelou em off.


 

 “Sou um selvagem composto. Não na essência, mas no composto. Na complexidade.”



Agora, o gol a gol com o Papagaio Mudo que nos deu tanto gosto.

PM
como foi a sua infância e qual seu primeiro contato com a arte? ou seria o artesanato?

KR
Eu desenhava árvores. Gostava do desenho dos troncos

PM
Mais...
Fazia bonecos de batata?

KR
Acho q fiz sim
Fazia cidades no quintal pra brincar de carrinho. Enxergava forma nas coisas? Madeira, pedras? Não havia incentivo à arte no meu convívio. Fui sempre marginal na infância

PM
Como você aprendeu a ler
Como foi seu processo de alfabetização? Havia livros disponíveis? A professora te marcou? Foi fácil ou difícil? A família ajudou?
                                   
KR
Aprendi a ler com cinco anos. A professora se chama Mariza. Era maravilhosa e eu era, lógico, apaixonado por ela. Meu primeiro desenho foi na mesma época.
Desenhei um cisne com os números 22. Fui ligando os pontos.
Rafaela o nome dela.

PM
Cinco anos, precoce.
Você é filho caçula?

KR
Não sou o mais velho da minha mãe e o do meio do meu pai

PM
Quando viveu sua primeira juventude artística?
Gostar de música, filmes, discos, livros. Essa pergunta é fixa na minha pauta, desculpe-me.

KR
É, foi em um caderno de caligrafia e sem pauta. Sim gostava de tudo isso. Meu primeiro momento artístico foi esse do cisne. Meu primeiro sucesso artístico se é que se pode dizer isso.

PM
Quando você perdeu a inocência? No sentido bíblico? (risos). Responde se quiser. (silêncio).

KR
Fiz troca-troca com oito ou nove anos.


PM
você concorda que sexo é arte? Ou partindo desse princípio tudo é arte?

KR
Tudo é arte. Vejo ouço sinto assim o tempo todo

PM
Sabe, quando estive internado, sentia inveja de como o senhor, meu companheiro de quarto, acariciava os pés um ao outro. Isso é arte?

KR
Pra mim, se você viu arte é arte.

PM
Você diz isso então porque depende do interpretante imediato? Arte é Sublime
Depende de estar presente? Sublime está acima da arte. Naquele gol do Pelé, naquele momento Xis.
Gostaria que elucidasse melhor

KR
O gol não é propriamente a arte. O que vem antes do gozo, que é arte. A sublimação a coisa Das Ding o vazio, onde se encontra o objeto de arte, a coisa, arte.
Este objeto pode nem existir na visão nem estar presente fisicamente, super abstração.

PM
quando você abandona o lar materno você parte para um mundo de arte ou de não arte?
Dentro da sua concepção?

KR
De não arte
A arte realmente me invade quando pude ir à exposição do Salvador Dali no Rio de Janeiro. Isso foi em 1998 ou 1999. Meu pai já havia morrido em 1991 e foi durante esse processo de sofrimento pela perda dele que a arte pode entrar. Ver as esculturas de Gala com gavetas rotativas e desenhos viscerais que ele produzia todo dia me tocou no cu.
Ali naquele momento, passamos mais de 5 horas dentro do museu.
Eu e uma amiga querida que não vejo há muito tempo. Disse pra ela: É isso que quero fazer pelo resto da minha vida.

PM
Vejo que você passeia pelo desenho gráfico. Como é isso? Faz lembrar a infância?
                                                                


Sempre viva. Photo by Kennedy Rafael


KR
Cursei administração na UFMG por influência de meu pai.
Larguei no 4º ano. Comecei Design de Produto na UEMG e larguei no 2º ano.
Em 2000 fui pra São Paulo atrás de uma namorada e pra cursar Design de Multimídia. Também larguei.

PM
O que seria um desafio para você agora?
Um trabalho de arte e tecnologia.

KR
Estou fazendo uma matéria na Guignard com este tema. ela é teórica.
  
PM
De arte? Ou tecnologia?As duas são teóricas?

KR
é uma coisa só?
A matéria é de arte e tecnologia e é teórica

PM
Porque você abandonou a administração?

KR
administração?
Nojo de marketing e tudo que envolve essa coisa.
O que me da angustia é a arte.
Principalmente a pintura.

PM
Estamos fazendo uma entrevista de improviso. Free ride, ou melhor, caí do cavalo...

KR
Na tora

PM
Rasguei minha pauta.

KR
Pirata

PM
Isso. Pirata.
Duas mulheres se beijando, é arte?

KR
Tem outra pessoa q precisa do meu carinho.

PM
Ou pintura?

KR
Depende.

PM
Isso te angustia?

KR
A pintura sim duas mulheres se beijando é amor.
O amor gera angustia né

PM
não necessariamente
Depende do objeto amado

KR
Outro dia descobri o movimento das árvores
O movimento das árvores

PM
Não parece óbvio?

KR
Do jeito que vi foi mágico. e poderoso. Senti-me privilegiado e menor.

PM
Estados alterados de consciência?

KR
Pequeno perante tanta grandeza. Foi uma viagem lisérgica mas muito real

PM
Você estava sob efeito de algo?

KR
As portas da percepção
Sim LSD, claro.

PM
Abriram-se?

KR
Mas foi intenso e foda. Abriram portas que jamais haviam sido abertas
PM
Mas não te parece um paraíso artificial?

KR
Talvez tenha haver com minha pesquisa em arte.

PM
sentiu odores?



Algumas pessoas ficaram com medo quando relatei, mas não senti medo algum.
E ao lado prédios, postes, paredes, concreto, tudo parado e estático.

“Quis estar ali pra sempre

Kennedy Rafael
Senti que os mapas que elas constroem não são distantes da nossa noção de ocupar espaços. Elas têm um código próprio. Na hora pensei nisso como faria pra que isso se repetisse sem o uso de LSD. Dai tentei treinar meu olhar minha visão.
Quando acordei no outro dia consegui ver por alguns segundos. Contudo não consigo mais. No dia duraram horas

PM
Sua mística viagem com o movimento das árvores, apesar de assustar alguns quando foi relatada, te conduziu ao bom selvagem? Traço romântico?
Um "bom selvagem" Rousseauista? O índio domesticado?

KR
Acho que isso é romântico, mas não é romantismo.
Essa história de bom selvagem já era. Prefiro o selvagem. o composto selvagem que vai além da essência,
O que esta a margem mesmo. Distante do centro, pirata, do qual não entendem a composição, tal sua complexidade.
Daí o medo, o horror. É a tipificação de bom selvagem. Isso é etnocídio e não compactuo com isso.
Sou um selvagem composto. Não na essência, mas no composto. Na complexidade.

PM
você elegeu as artes em sua vida entrando na UEMG.
Como anda essa relação? Essência ou superfície?
Víscera ou aconselhamento? Aceita um chá?

KR
Sim, aceito um chá.

PM
ok

KR
pode ser de camomila ou capim seco

PM
é inglês, de jasmim. Vou por água pra ferver...

KR
A relação é fraterna e visceral e atinge a profundidade do poeta que pra entender a lagoa sugere que a mergulhemos.


Só assim poderemos compreendê-la
Não lembro o nome do poeta
Assisti a um filme biográfico dele
Você saberia de quem se trata?


PM
Qual nome?

KR
Não me lembro do nome dele
Foda...

PM
Alguma referência?

KR
Ele era duro e foi apadrinhado por um cara de posses
Tinha uma amada que morava nesta casa pra onde foi convidado a se hospedar e morreu muito cedo de problemas pulmonares

PM
Henry Miller?
Qual época?

KR
parece século  XVIII ou XIX. Ele é poeta, no composto.

PM
 TS Eliot?
A poesia está acima da filosofia segundo Nietzsche e Hegel. Você concorda?

KR
Não sei responder sobre essa hierarquia. Vejo as duas com os mesmos olhos. E sinto as duas de forma diferente. Talvez seja TS Eliot sim.

PM
Por falar em formas, há meio de que calhe ser a geografia humana análoga aos caminhos da arte?

KR
O composto é a forma. A coisa.

PM
Pois bem. Fragmentos.

KR
Acredito no que sinto. O artista sente como homem ou como animal igual a um servente

PM
Independe?
O homem é animal na sua razão? Ou racional na sua animália?

KR
Fractais acontecem na natureza e o homem é um elemento.
Sou racional. E sensível.
(risos)

PM
O chá ficou bom?
(risos)

KR
Adorei.