sábado, novembro 30, 2013

Caio Fernando Abreu - Ovelhas Negras

pássaro negro


Abro Documento 1.
esse documento, essa página em abro, mais um arquivo, ouvindo Ibrahim Ferer. Me devo a ir, me devo a ir, ai Candela, para la candela te dejo el
tango, me devo a ir.
entre tinieblas pero
no blanco

que muere también
con sus promesas tolas
sien pensar. Hoy era amor de una loca juventud. Tengo no color del transvasado día la Ilustrada, un rizoma e manuscritos sobrevivientes del tiempo, impresiones y las trago a vos. El silencio, tu canto de amor.
Hoy la Folha de Sao Paulo no trajo pequeñas sabedorias,
solo información picada en tasas 
mira la luna…
Hoy me amargo y me abasto
malboro rojo
más un maço
Un paquete de cigarrillos
o dos…
nas milimetri-lindas notas
do piano

Hoje achei no lixo passando: a rua é um santuário, lembrando, um catálogo de pintora Leonora Weissmann e um libreto A revolução somos nós, Joseph Beuys. E cinzas guardadas assim como a arte figurativa existem na arte contemporânea ha milhares de anos.
Na caixa tinha também revistas de costura que eu trouxe para mina mãe,
e ela gostou.
Uma tese de mestrado e dois livros, Pintura à óleo e Técnicas de desenho, que la muti também gostou,
a obra sempre evoca multiconhecimentos, multicorpos  alvo do mesmo objeto, mas em cada objeto um elemento fogo, água, madeira ou aço? Ainda lembro o meu livro 4:44. Custava cinco reais. Há um ano comemorei sozinho seus dez anos de existência 12/12/2012. Ainda me lembro com clareza. Estavam todos lá,
no Café com Letras,
Assinei sessenta e três livrinhos. Dedicatórias enormes, fila,
vinho.
andei por já nem sei caminhos
retirei o quão do verbo?

Qualquer dia qualquer de novembro já não me lembra o dia certo. Nervo na mão procura a informação. Escrevo meu verso a flor da pele. Eu nunca me esqueci Raquel Emanuelle.
Escrevo que esqueço e esqueço que escrevo novamente, mas não devo. Romper a higiene dissimulada do silêncio. Devo, mas um novo fim. Deixa eu caminhar contra o vento, sou cavalo, sou leão, sou grande demais pro seu quintal.
Peço-lhe que volte e fique contente.
Eu também quisera
engolir as horas
do fim.
Mas não estou direito na sinuosidade dentro entre dentre adentro, na sala de estar dos meus sentimentos. Nas notas do caderno que vivemos.
Lá vou eu de novo, outro retrato,

trago peito
branco e preto
agora já não é normal
life in guetto


No caminho
as letras

no signo de mim
meu acaso
meu feitiço desatento













sexta-feira, novembro 29, 2013

A voz de Julinho Barroso - arte e atitude


Julinho Barroso é natural do Rio de Janeiro, não vive nas chamadas “comunidades de risco”, mas não se nega a contrapor os fatos que a sociedade vive cotidianamente. 
Falamos sobre alguns assuntos que a sociedade dissimuladamente tenta disfarçar e não fingir que não existem. 
Numa enquete que fiz no dia em que é celebrada A Consciência Negra, um dia de conscientização social que observa, nota, avisa, adverte, indica uma mudança urgente de comportamento, ele foi um dos respondeu mais depressa: “Diria sim. Abaixo o racismo Simples e direto.
Nessa nossa conversa discorremos (embora brevemente, através da internet) sobre assuntos comuns ao nosso dia-a-dia e em momento algum Julinho tergiversou como usualmente acontece. 
Violência policial, preconceito racial foram uns de nossos temas. 
Sobre a integração da arte na sociedade ele tem opiniões assertivas e visão clara de como artistas produtores culturais interagem. E como cidadão comum se beneficia com isso. 
Ele participou de uma das maiores conferências convocadas pelas Nações Unidas, A Rio+20 que integra plenamente a necessidade de promover prosperidade, bem-estar e proteção ao meio ambiente, na Cúpula dos Povos fazendo direção musical no evento.
A Conferência foi uma rara oportunidade para o mundo de concentrar-se em questões de sustentabilidade – uma maneira de examinar ideias e criar soluções.
Ele é parte integrante do grupo Reage, grupo que atua em negociações do governo com artistas e produtores musicais em beneficio da arte e dos artistas. È claro, quem ganha com isso somos todos. O cidadão comum engrandece a sua cultura. 
Embora não seja o porta-voz do grupo Reage, que é uma associação pública, amplamente democrática, falamos sobre alguns posicionamentos de como o Reage se referencia ao mundo.
Com vocês, a palavra de Julinho Barroso.



A arte e a atitude de um grupo aberto de artistas e produtores vem somando valores sociais.



Tony Alen, considerado um dos maiores bateristas do mundo, ao lado de Julinho Barroso


Gustavo Perez
O senhor é ativista de alguma causa?

Julinho Barroso
Faço parte do Reage Artista e membro do BlocAto que é o bloco do Nada Deve Parecer Impossível de Mudar


Circo Voador numa festa em homenagem ao Fela Kuti. foto: divulgação


Gustavo Perez
Ontem a polícia agiu com força excessiva e quebrou a perna de um sujeito que estava sendo levado preso.
A população local da comunidade do morro do Papagaio quase iniciou um enfrentamento. Isso, em plena luz do dia...
Queria ter compartilhado isso com você, e agora, mais que nunca, saber das suas opiniões.

Julinho Barroso
Opa, beleza?

G.P.
assustado com a falta de escrúpulo da PM mineira... mas sim, beleza...

J.B
.

O que tá rolando? Você é de BH?

G.P.
sim sou de Belo Horizonte. Moro próximo do aglomerado morro do Papagaio.
J.B.
e o que rolou no Papagaio?

G.P.
a polícia usou violência excessiva e acabou quebrando a perda do sujeito que se recusava a entrar na viatura, demonstrando assim um claro abuso de poder. Estou pasmo.

J.B.
Aqui é a mesma coisa:


G.P.

No Rio a polícia pratica esse tipo de violência?

J.B.
Aqui agora com as UPPS os favelados vivem com medo. E o Amarildo na Rocinha. Isso acontece direto.
Cara, a PM sempre foi assim na história isso pra gente não é novidade. Graças a Deus nunca tive uma experiências dessa até porque não moro em favela. Mas é muita opressão.

G.P.

o senhor, digo, posso chamá-lo por você?

J.B.
Claro que pode.

G.P.
Obrigado. Você já presenciou alguma ação desse tipo?

J.B.
de alguém apanhar da PM de quebrar a perna. Sim, claro.

G.P.
o Reage tem uma sede física?

J.B.
Não. O Reage é um grupo de produtores e artistas que se reuniram para discutir com o estado uma forma melhor de financiamento e fomento as artes e cultura.

G.P.
Essa vulnerabilidade com que o cidadão se encontra é uma preocupação dos artistas e produtores?

J.B
.
Sim. O Reage Artista esteve presente em todas as manifestações desde junho.




 "Mas tenho que frisar que ser apartidário não é ser anti partidário"

"...domingo agora no Ocupa Lapa. Eu conduzindo um bloco de maracatu"



G.P.
o Reage é uma associação, digo, com estatuto, presidente, etc.?

J.B.

Não é totalmente informa. E horizontal também, não tem dirigentes.

G.P
.

um modelo democrático?

J.B.

total


G.P.
Eu, mesmo estando em Belo Horizonte, posso me afiliar ao Reage?

J.B.

Acabei de te adicionar ao grupo.

G.P.
Oi! Muito obrigado. Deixar registrado que acabo de ser adicionado ao grupo Reage.
Julinho, os jornalistas trabalham na rádio-escuta para ter acesso aos movimentos da polícia e corpo de bombeiros.
Mas temos que ter consciência crítica ao receber a informação, pelo fato de poder e ter a obrigação de questionar a fonte.
No Rio, você entende que certos casos policiais também são retransmitidos de forma a deixar uma margem de dúvidas sobre os acontecimentos?

J.B.
Com certeza.  A mídia perdeu a vontade de questionar.

G.P.
perdeu seu caráter investigativo...

J. B.
Como produtor cultural fico pasmo como certos jornalistas da área cultural saquem tão pouco de cultura.
Às vezes a gente vê os caras escreverem cada merda que a verdade é que os jornalistas que cobrem política e página policial cometem os mesmos erros. essa que é a questão. publicam ou escrevem sem ter conhecimento da coisa, e as vezes blefam, outras chutam e outras acertam.
G.P.
Eu devo dizer que quando penso em jornalistas, me vem à cabeça urubus em volta da carniça,

J.B.
Nem todos. Tem gente séria. Poxa tenho amigos jornalistas. Que trabalham pra Globo e tudo que tentam ser éticos.
Mas a verdade é que informação virou uma guerra suja e ideológica.
Não tem mais meio termo..
Ou é PT ou Anti PT. Não sou nenhum dos dois.

G.P.

só para acrescentar: na França, todas as quartas-feiras sai a edição de um jornal inteiramente apartidário. Estamos longe de conseguir um tipo de publicação desse viés?
Qual a sua opinião sobre isso?

J.B.
Acho muito importante isso. Mas tenho que frisar que ser apartidário não é ser anti partidário.

G.P.
Obrigado pelas declarações, Julinho. Muito agradecido.

J.B.
De nada amigão.


quinta-feira, novembro 28, 2013

retratos


Estou no alto de uma montanha vestindo apenas uma túnica branca, cabelos loiros anelados, as mãos abertas sentindo o vento. Essa túnica branca, agora é a minha única vestimenta. Agora não me chamo mais Gustavo. Sou um espírito, tenho um nome espiritual, mas na terra já tive vários nomes. Já nasci no Brasil, na Europa, na China. Já vive nas montanhas geladas. Nas tundras da Sibéria. Já atravessei montanhas e campos. Já fui monge, já enfrentei guerras, já fui da corte de César. Fui amigo de Robinson Crusoé. Ajudei a construir as pirâmides do Egito. Já vivi em antigas cidades, pequenas vilas. Já atravessei mares. Já me isolei das pessoas para não sofrer. Já nasci no continente ártico e antártico. Já nasci nas geleiras. Vivo na Terra desde os primórdios da existência humana. Já vivi em um navio pirata. Já fui uma mulher, muito bonita e desejada, e muito inteligente. Já vivi nas planícies, já tive filhos, netos. Já morri tantas vezes quanto vivi. Em um leito aconchegante, cercado de familiares, mas também já morri sozinho e abandonado em picos de montanhas frios e desertos. Daí o medo da abjuração, da desvalia, do desamparo. O medo da solidão foi o chip que permaneceu e prevaleceu em meu corpo. Estou no alto dessa montanha, vejo o mundo dos homens. Do alto dessa montanha vejo os homens se digladiando por poder, mulheres se digladiando pela beleza, crianças com desejos absurdamente consumistas. A terra não está em harmonia e sinto os reflexos dessa desarmonia. Nesse momento está acontecendo na Itália um tremor de terra. Muitos morreram e os que sobreviveram estão deitados. Os que estão de pé ajudam os que estão deitados. Eu estou de pé e permaneço de pé. Meu nome é Não tenho nome, sou um espírito. Já tive mil nomes! Eu sou luz. Se eu passo e não me vêem é porque estão cegos. Eu estou de pé.

Diante de Deus somos igualmente idiotas, igualmente sábios.


O tolo olha pro dedo, o sábio olha pra Lua. É preciso ser vidente.


Cinco manuscritos de Genet




Cinco manuscritos, incluindo três inéditos, do novelista, poeta e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986) vão ser leiloados a 6 de Dezembro, em Paris, com preços entre os 1500 e os 40 mil euros.

Os originais pertencem à família de uma livreira, que os terá recebido em troca de livros para o escritor, informou a casa de leilões francesa Drouot.
"Alguns dos originais que vão ser leiloados não tinham sido publicados e também não eram conhecidos entre os especialistas", explicou um especialista em manuscritos da leiloeira Drouot, Thierry Bodin, citado pelas agências internacionais.
Segundo Thierry Bodin, os textos permitirão aprofundar a obra de Genet, que viveu como vagabundo e chegou ser preso em vários países europeus, acusado de roubo e prostituição.

Um dos manuscritos inéditos é Le Prétexte, 62 páginas que combinam reflexões e poemas sobre a homossexualidade, o amor e a morte.
Alguns excertos do texto, escrito entre 1953 e 1954, foram publicados na revista fundada por Jean Paul Sartre, Les temps modernes, mas a maior parte desta obra inacabada nunca foi publicada.
Segundo Bodin, Genet não chegou a terminar o livro, porque "mergulhou na sua redacção num momento em que se encontrava paralisado, aterrorizado pela responsabilidade", já que a editora Gallimard tinha acabado de publicar três volumes das suas obras completas.
Finalmente, o escritor francês ultrapassou o bloqueio através do teatro, tendo conseguido terminar em 1956 a obra Le balcon, uma comédia passada num bordel.

Outro dos manuscritos inéditos a leiloar é uma primeira versão, escrita entre 1956 e 1957, da peça Les Paravents (1961), que causou um grande escândalo quando foi representada pela primeira vez no Teatro Odeon de Paris.
Chegaram a realizar-se manifestações em frente ao teatro em protesto pelas críticas que a obra fazia à acção do Exército francês na guerra da Argélia.
Estarão também abertos a licitação fragmentos nunca publicados no textoLe Funambule (1957), que combina verso e prosa e foi dedicado ao seu amante, o acrobata Abdallah Bentaga.


Rascunhos da crítica L'Atelier d'Alberto Giacometti (1955-1957), vista por Pablo Picasso como o melhor ensaio sobre arte contemporânea, serão também leiloados.
Considerado um dos grandes escritores do século XX, Jean Genet usou a sua dura experiência de vida para iniciar um controversa carreira no mundo das letras, onde era conhecido como "poeta maldito".
Abandonado pela mãe quando tinha sete anos, Genet foi criado por camponeses da região francesa de Morvan, no Leste da França.
Aos 10 anos, foi acusado de roubo e internado num reformatório de onde fugiu, passando a vagabundear por toda a Europa.
Em 1948, esteve prestes a ser condenado a prisão perpétua na Guiana Francesa, mas foi perdoado graças à intervenção de intelectuais franceses como Jean Paul Sartre e Jean Cocteau, que previu que Genet seria "um dos grandes escritores de língua francesa".

Fonte: Diário digital 


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível..

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desaferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou


vidente




quarta-feira, novembro 27, 2013

Entrevista com Gustavo Perez

Amor inventado

 um corte lento e profundo
                       

                                                           por Cristina Siqueira

Crescer antes e depressa, ser precoce e envelhecer sem ser ouvido é nascer com a dor dos que nascem mortos e renascer em si alem da Vida. 
Este fluxo de sentimentos e pensamentos, a fragilidade e a fortaleza que te edificam como se a sombra de um Anjo se colocasse entre nos exigindo silencio para ouvi-lo... Segredos, signos que transpassam os véus das aparências. 
Tuas palavras me sacodem em súbitas revelações, sinto-me tomada por teu ardor abusivo, assustada, temerária, fascinada e tímida ao entrar no teu universo, verso à margem e ser recebida com a largueza de tudo... Livros, nomes, histórias, fidalguia, adrenalina, horrores cruéis,delírios e um constante agrado que me enternece,apaga a nua e candente solidão. 
Não me interessa o corriqueiro da tua vida... Como dormes, onde moras, o que comes...?-quero sim saber de teus cantos, as paisagens por onde teus olhos se desbravaram... Quero a perfeita e solta palavra escrita, limpo, sem vaidades machucadas, sem mesquinharia, sem dedos emperrados. Quero te conhecer no imenso silencio que nos cerca onde se precisam as nuances, onde não estamos prontos... Onde as paixões se transformam em obras. 
Até os deuses traem nossos mais almejados sonhos, o tempo nos devora a carne... o que me leva a busca do que esta acima de nós, a expressão criança do espírito desprevinido- o ser dormindo sem mascaras,feito um anjo.

Quero a ausência, a distância dos corpos para melhor ler a alma. Esta oportunidade calma que me garante ouvi-lo com vontade, o longo contato longamente com o que se escreve eterno ancorado na essência dos fragmentos desta vida sua quase interrompida, seu claro bem, suas golfadas de ira que se estilhaçam em vermelho vivo nas serras verdes de Minas.


C.S.
Como foi sua infância?-como nasceu Gustavo Perez?

G.P.
Minha infância foi meu pecado.
O fato de ter nascido oito anos depois do meu irmão Adriano, foi meu erro, mas não tive opção, não é?
O escritor nasceu lá mesmo. Quando escrevi um poema "Sabrina". Um amigo do meu pai tinha uma filha chamada Sabrina e ficou encantado. Deu-me uma antologia do Drummond.
Isso eu só tinha sete anos. Foi meu pecado, como disse. Ter gostado daquele sentimento, daquela atenção recebida, daquele pequeno glamour. Nunca mais parei. Quis mais...



“Deus não precisa conhecer a mesmo


C.S.
um menino precoce num espaço ocupado por adultos... Era assim?
-e como você se sentia em relação às outras crianças que não participavam deste encanto?

G.P.
sentia que tinha que me manter criança-adulto, mas não sabia o que isso significava. hoje sou um adulto-criança e continuo não sabendo o que isso significa. Sei que deve haver uma adequação e tento equilibrar essa minha perseverança na escrita com meus brinquedos proibidos...







C.S.
Percebo toda e Muita cultura e conhecimento, mas quero saber mais do seu pensamento... Seu vazio, sua dor, seu Espelho,... O que te move Hoje?

G.P.
Minha dor, sim. Eu prefiro dizer meu ar-dor. Como eu mencionei, o homem nasce pleno de objetos faltantes. Eu não sou diferente. Mas descobri na infância um modo de ser visto, de ser ouvido, que é escrevendo. Minha escrita é meu ar, minha dor, minha fala. Infantil, etimologicamente significa – aquele que não tem voz. Por ter crescido no meio de adultos, sendo filho mais novo e atemporal, desde os primórdios desenvolvi minha fala através das letras.

C.S.
-mas te incomoda não ter este significado claro?-ou você vive bem com isso? Brinquedos proibidos?

G.P.
veja, quando eu estava com 34 anos tive uma crise de identidade. Achava-me uma criança dentro de um corpo adulto. sou um menino, sabe? E é isso. Brinquedos proibidos? Aonde ninguém vai e a gente só entra quando é convidado. tipo o submundo das drogas, o sexo adulto... Esses.

C.S.
Fala do terceiro ato, conjunto de notas que você está organizando para editar? Por que terceiro ato?... É isso não é?

G.P.Terceiro ciclo. Sim, estou tentando juntar pedaços que significam algo. Escrever é a ladainha da lavadeira que perdeu o sabão na beira do rio. É um ato de aprendizado, ao tempo que é autoconhecimento. É tentar igualar-se a Deus deixando signos na grande malha do eterno. 
O escritor é como o animal que bebe água na beira de um riacho. Ele está atento a tudo a sua volta pra não ser surpreendido e só tem referência no que já viveu. Ele sacia a sede, mas está sempre atento... Assim é o escritor... as orelhas se movem e a língua trabalha...
A palavra então surge como signo que tenta agrupar a de noção de sensação de percepção.
Ao tempo em que ele só tem referência naquilo que já vivenciou, fenomenologicamente, ele agrega parte do coletivo. Mas o caminho é ermo, sem onisciência e também, Deus não precisa conhecer a mesmo...


C.S.
Você se referiu ao amor com uma nova categoria "amor inventado”, o que lhe ocorre quando você diz isso?

G.P.
Lembro da música do Cazuza, mas não é isso apenas.
Certa vez, conversando com o Eduardo Cunha na varanda do edifício Maletta, falávamos sobre música quando ele me disse uma coisa que sempre me lembro e que acho de enorme assertividade.
Ele falou que o cancioneiro popular brasileiro representa nossa filosofia, nosso pensar filosófico de caráter universal, ou seja, serve para todos. Sendo que o Brasil não tem filosofo, eu concordei com ele.
Ele é artista plástico e trabalha no Inhotim – nosso Museu de arte contemporânea.
O cancioneiro popular brasileiro é como o blues man norte americano. Traduz um sentimento particular, geral, universal.
Quanto ao amor inventado, creio que seja mais um conceito criado nessa linha de pensamento, pois, a filosofia é a arte de criar ou fabricar conceitos.


C.S.
-quais Escritores e Poetas que te inspiram?

G.P.
Eu tenho um gosto particular pelos marginais. Lembrando que marginal não é estar à margem, mas agregam vários outros conceitos.
Eu comecei gostando dos escritores da geração perdida (lost generation) que foram para Europa quando os Estados Unidos vivia uma época de prosperidade nos anos 1920.
Eu destaco Ernest Hemingway, que descreveu um estado de espírito da lost generation em The Sun also rises.Os poemas de T.S. Eliot que chegou a negar a cidadania americana pra se naturalizar inglês num ato de rebeldia aristocrática.
Henry Miller, que também viveu nesse período pós Primeira Grande Guerra.
Eu dou destaque a suas obras Trópico de Câncer, escrita em 1934, Primavera negra, escrito em 1936, no intervalo entre Trópico de Capricórnio que é de 1939. Dou destaque também à sua trilogia Sexus, Nexus, Plexus iniciada em 1949 e finalizada em 1960, quando o escritor já havia se tornado um ícone pop da sua geração. E a sua derradeira obra A Hora dos Assassinos (Um Estudo sobre Rimbaud).
Ele, digamos assim, libertou a imaginação da jovem francesa Anaïs Nin, cujo estilo supera a taxies de Miller ao se revelar de forma tão suave, quase como desvelar um segredo feminil o qual ninguém jamais nunca viu ou teve acesso. Uma mulher fora de seu tempo, faleceu em 1977. Em Delta de Vênus, sua obra prima, ela cria uma tessitura imagética de ideias que vai além da simples pornografia.
Ainda nesse período realço a obra prima de Francis Scott Fitzgerald, The Great Gatsby, que, além de retratar a realidade do seu tempo de abundante prosperidade (até a queda da bolsa de Nova York em 1929) demonstra com detalhes as nuanças do “sonho americano”. Foi o período da chamada lei seca, mas os magnatas que promoviam festas grandiosas regadas a álcool contribuíram com o aumento do crime organizado.
Essa foi minha primeira influência literária. Um tanto americanizada, eu confesso, mas isso se deve ao fato de eu ter concluído o highschool numa escola americana, aqui em Belo Horizonte. Devo isso à minha professora de literatura, Miss Staford.
A segunda fase do meu contato com a literatura foi quando mergulhei na leitura dos autores franceses.
Jean Genet, em Diário de um ladrão me surpreendeu com frases e parágrafos que são pinturas vivas, sinestesia que jamais notei em outro escritor. Apesar de ser, como disse um amigo jornalista Altino Lima Filho, “um passeio pelo código penal”, ao encontrar-se preso na década de 1960, foi retirado da cadeia por um apelo de Jean Coqteau as autoridades, alegando que Jean Genet é um patrimônio nacional
Arthur Rimbaud, que, junto ao litero-filósofo, Friedrich Nietzsche, inaugura uma revolução na língua, não apenas de forma, mas de estilo e ousadia a quem hoje devemos infindável reconhecimento e gratidão, é meu poeta predileto. De Uma temporada no Inferno, se me permite, quero citar:


Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os
corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras. ó miséria, ó ódio, a vós é que foi confiado o meu tesouro!

...

Ninguém parte. – Percorramos novamente os caminhos daqui,
carregado de meu vício que aprofundou sua raízes de sofrimento a
meu lado, desde a idade da razão, - que sobe ao céu, me golpeia,
derruba, arrasta.
A derradeira inocência e a derradeira timidez. Está dito. Não
entregar ao mundo meus desgostos e minhas traições.
Vamos! A marcha, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem me alugar? Que besta é preciso adorar? Que santa imagem
atacar? Que corações destruirei? Que mentira devo sustentar? Sobre
que sangue caminhar?
Mas, é melhor evitar a justiça. – A vida dura, o simples
embrutecimento, - levantar, o punho seco, a tampa do caixão, sentar-se,
afogar. Assim desaparecem a velhice e os perigos: o terror não é
francês.
Ah! Sinto-me tão abandonado que estou oferecendo a qualquer
divina imagem – impulsos para a perfeição.
Ó minha abnegação, ó maravilhosa caridade! aqui em baixo,
embora!
De profundis, Domine, que estúpido sou!


Veja bem, um menino que abandona os Campos Elíseos, no interior da França, promove tal revolução lingüística, deixando para trás o formalismo com que a poesia era tratada, escreve somente duas obras aos dezoito anos de idade – Uma temporada no inferno e Iluminações – depois se torna mercador de escravos e traficante de armas em África setentrional e desponta na literatura mudando os caminhos da história, não poderia passar em vão pelos meus curiosos e atentos olhos.
Muito me aprazem os autores franceses, por seu despudor literário e espírito indutivo. Com Charles Baudelaire, tive a chance de enriquecer minha vivencia literária com Paraísos artificiais e Flores do mal.
Porém, William Blake em seus Provérbios do Inferno me seduziu para sempre.
Voltando para a América, há autores que viveram no período entre a geração perdida e a geração beat que merecem destaque, pois influenciaram jovens escritores e também a mim. John Fante com seu masterpiece Pergunte ao pó, o pó das estantes das bibliotecas, o pó da estrada, o pó da história. Nesse livro ele aconselha como sujeito oculto da narrativa, o seu personagem Arturo Bandini, também jovem escritor, a como viver a vida. Espere a primavera Bandini e 1934 foi um ano ruim, é leitura imperiosa que dispensa comentários.
Charles Bukowski é também de uma sensibilidade incrível, ao contrario do que todos pensam. Em seu Crônica de um amor louco ele demonstra altíssimo nível de compreensão da vida.
Isso desfez o mito criado em Notas de um velho safado e Mocking bird wish me lucky.
Passado esse período de entressafra surgem os autores que viriam a ser chamados Beat.
Jack Kerouac e Allen Ginsberg são para mim o eixo principal do movimento e construto cultural da geração beat. Gosto em particular do livro Sonhos de Jack Kerouac. Há autores que não posso deixar de citar como William Burroughs com seus memoráveis Naked lunch e Junk.
Neal Cassidy integra o movimento com sua única obra O primeiro Terço, onde relata as aventuras vividas ao lado do pai, um trabalhador da indústria ferroviária no estado do Colorado, serpenteando pelas paisagens da América agreste e freqüentando bares e puteiros de beira de estrada. Foi incentivado por Burroughs e Ginsberg a escrever tais relatos. Ele era apenas um menino quando vivenciou tudo isso...
Tendo visto que até então, fiz vasta explanação sobre autores estrangeiros dos quais sofri influência direta, venho ao Brasil dizer sobre aqueles que me seduzem em nossa própria língua.
Oswald de Andrade foi o primeiro autor brasileiro que me encantou profundamente. Seu estilo caótico, bem ao tom dos antropófagos me fez viajar por paisagens inóspitas que jamais esquecerei. Em Memórias sentimentais de João Miramar, fiquei perplexo com a liberdade com que Oswald caminha pelo estilo teatral e faz com que a poesia siga plena de uma nova acepção. Transforma as falas em solilóquios que interligados compõem um romance não linear. Estrela do Absinto também me seduziu ao primeiro contato.
Cabe dizer que o estilo futurista de Oswald se deve, creio eu, ao fato dele haver passado uma temporada na Europa, onde, visto de fora, pode perceber o quanto somos uma nação-criança.
Já na minha geração eu gostaria de lembrar autores como Paulo Leminski, na poesia e Ana Cristina Cesar, que, com seu estilo auto-confessional permeia meus escritos até hoje.
À teus pés, de Ana Cristina Cesar, é um livro para se ler de joelhos.
Mas, somo posso esquecer-me de livros como Demian de Hermann Hesse Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke?
São demasiadas referências para uma pergunta só.
E peço desculpas de antemão por haver-me alongado na resposta.
 


C.S.
de que cor você pintaria o Universo.

G.P.
Rosa. Rosa é punk.

C.S.
-ausência-

G.P.
O homem contemporâneo só sente ausência de sexo, dinheiro e conexão rápida.
dukkha, se pronuncia dúc – rá , insatisfação profunda, frustração... é a primeira nobre verdade do budismo. Existe essa compulsão por buscar satisfazer uma necessidade invisível, subjetiva, abstrata. Todo ser nasce com esse banzo por estar em falta de alguma coisa. E se frustra por tentar consolidar coisas onde tudo é perece. Nada permanece, e essa também é uma verdade. Não lembro as outras, mas essa é a primeira e a que mais me marcou.

C.S.
-excesso-
G.P.
“as escadarias do excesso conduzem ao palácio da sabedoria”. William Blake. Acho que o Jim Morrison, que leu Blake, confundiu um pouco esse provérbio.




Botura em letras



par
que
CAROLINA
BOTURA

















  




O Lobo pink
era um homem contínuo ao nosso lado enquanto o carro corria
Nele
uma criança muito atraente fará qualquer papel para navegar como ele quisesse
Ele
Passaria a mão nela embora não se possa dizer como
Ela
Diz algum lugar aventureiro no século XXI para navegar
- Importa você acreditar ou não?
Silêncio
muito
longo
do Lobo













Na mira de outra pessoa
Ninguém é ninguém é ninguém¹
As ilhas para o homem cheio de tato
Ninguém é ninguém é ninguém
No diário do acidente diário
A lei
A família
E a decência
Rumo ao fantasma
Ninguém é ninguém é ninguém





¹ esse verso não é meu













 Leve






Pela loucura






Luci
fer
Luci
dez