segunda-feira, dezembro 30, 2013




domingo, dezembro 29, 2013

2

revendo amigos


Sim, dois mil e treze foi um ano ruim no meu calendário. Passei um arrego doido. Em março tentei o auto-extermínio. Ato desesperado que não penso em fazer de novo. Passei oito dias dentro de um hospital psiquiátrico... 
Quando saí fiquei surpreso ao saber que o amor tinha acabado. Eu não vi, ou não quis ver. Fiquei cego. 
Soava como uma crônica do absurdo. Parecia que as pessoas falavam grego. Eu não queria entender o que diziam, e por isso além de cego eu fiquei surdo.
O anjo havia aberto o sétimo selo.  O Supremo Criador não aguardou meu arrependimento.  
Ninguém se desculpava pelo desmazelo. Ninguém pedia perdão pela orgia e pelo desregramento. Eu não entendi bem quais eram as regras de um bom comportamento, ou fingia não ter entendido. Foi assim.
Eu não interpretei os índices e sinais do acaso. Eu realmente não contava com isso Eu não previ o abalo sísmico. Tudo estava desmoronando. O meu particular fim-do-mundo. 
O término de um relacionamento após uma tentativa de suicídio. 
Um cenário insólito, surreal, irreal, bizarro. 
Eu não sabia como reagir com o desenrolar dos acontecimentos. 
Eu reclamei baixinho. Chorei sozinho no chão do quarto, no tapete atrás da porta. Ouvia Pink Floyd no escuro. Senti-me culpado de ter nascido. Vociferei minha sanha aos quatro ventos e entrei pra dentro de mim mesmo.
Esqueci que o amor foi inventado. Que ele é fogo que arde sem se ver. Um contentamento descontente. É ter com quem nos mata, lealdade.
queria explicar que aquilo foi uma infantilidade. Queria pedir perdão por tudo. Dizer que só queria ser amado. Que eu faria “tudo certo” como 2 e dois são 4. Mas como diz aquela canção do Roberto, de fato 2 e 2 são cinco. 

To be continued... 




Filhos de Gandhi

faz um favor pra mim,



manda descer

sexta-feira, dezembro 27, 2013

O ódio santo

"Escreve para ti mesmo, recolhido, assombrado."

Jack Kerouac



Mais uma vez me encara a página em branco. A página pálida, branca, fleumática. Esperando que eu diga algo. A página é a palavra que ainda não foi dita. Talvez como as palavras, que aguardam ansiosamente inside a hora de saírem, também as páginas espera o momento de ser desvirginada.
Eu vivo escrever. Nessa gagueira infantil de quem tenta balbuciar o inexprimível.
Sempre escrevi sob a efígie do ódio. O santo ódio. Um signo que recebeu para si um oposto. Não consigo escrever o amor. Sempre escrevi com ódio, por ódio. Sei que odiar é um sentimento ruim. Nunca digo que “odeio” isso ou aquilo, pois acredito na força da palavra. No entanto, odeia-se com finura, fineza, educação. Talvez no intuito de poupar o outro por termos sido parte do evento. Por nós mesmos odiamos.
“Odeio os chineses por estarem somando dívidas a seus karmas” disse o Dalai Lama. Não sei ao certo se entendi, mas onde está o torto? O bom ódio, o Mal bom e o Bem ruim.
Onde mora a ambivalência desse signo? – por onde anda o censurável tortuoso oblíquo desse ódio? Amor e ódio acabam sendo a mesma coisa em si dentro de um conjunto semiológico sem a presença do sujeito, sem a figura do objeto. Odeia-se apenas como forma de figuração verbal, e ama-se também do mesmo jeito.
“Fiz na incessante busca de aferir sentido ao meu afeto. E tendo feito descobri que não havia sentido no verbo. Lexical, semântico ou epistêmico.”
de certa forma o rumo era reto. Como tudo que deseja chegar ao fim de algo. Augúrio de final comprobatório, conclusivo, sintético. Encurto o caminho entre o ----------------------------- e o que escrevo. Num delírio febril d-e d-e-zem-b-ro.
Gosto de escrever quando não tem ninguém vendo, nas madrugadas nos fins de tarde apressados em as pessoas só pensam em si mesmas. Em como chegar do trabalho, em qual hora o caos dará uma trégua. Um estágio quase automático de sobrevivência. Eu também nada penso nessa hora. Virei os olhos pra ruidosos entardeceres que eu mesmo roubei de mim. Não vi resplandecerem auroras que se elevam sobre o céu. O tempo se perdeu. Proust. Não sei se Proust acreditava em Deus. Pedi a Deus que só lesse a carta que escrevi pra ele numa dessas horas, de isolamento. E em segredo. O conteúdo carta é um longo e minucioso relato de uma caminhada que fiz. Os devaneios e segredos que omiti...
O zigzagear sonífero da cobra lambendo fogo trazia seu apotegma divino. 
Então eu era a própria natureza. um anexim sórdido, complexo, perfeito.
Eu era Você.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Um breve depoimento sobre o pequeno príncipe
Um estória que revolucionou os tempos, comove milhares de pessoas anualmente.
 

Um breve depoimento sobre o pequeno príncipe.

Um estória que revolucionou os tempos, comove milhares de pessoas anualmente, Le petit prince do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicada em 1943 nos Estados Unidos, teve uma nova edição lançada em capa azul nesse ano de 2013, no Brasil.
Entretanto, o principezinho, em sua viagem pelo mundo aprendendo sobre as relações humanas esqueceu-se de aprender sobre a compaixão. Esse garotinho, era tão aficionado por sua rosa, deixou de ampliar suas relações afetivas em seu próprio país.
Ao invés de arrancar os Baobás e desintegrá-los no espaço sideral, simplesmente pelo perigo de destruição de seu planeta. Esse loirinho deveria ter aprendido a arte do cultivo dos Bonsais, desse modo, ao invés de exterminá-los, cultivaria outros pequenos amigos.
Apesar de serem assustadores pelos espinhos, possuem um interior rico em afeto. Apenas as egoístas raposas são capazes de maltratá-lo. Sorte mesmo teve o principezinho que colheu logo a informação, e seguiu seguro em seu objetivo, levando apenas a lembrança daquele animal.
Uma viagem literária como essa deve ser lida para crianças com uma interação questionadora. Abrindo-lhes uma possibilidade de análise a sua própria maneira. Uma vez que muitos personagens podem  ter uma interpretação muito diferente nos dias atuais. Sendo assim, induzir a criança ao questionamento das diferentes realidades. Para que quando releia, possa se basear, mas não copiar pensamentos ou filosofias do livro.

Thaís Weick

mal congênito

Feliz natal...



che arrivare

che arrivare


Volto a entediar-me, mormente com as coisas fúteis lendo Tchekhov. Absolutamente neutro aos seus relatos enfim. Perco-me nas palavras duplas perco-me na sua artilharia. Nem sei como defender-me... se vem pelo uma granada de mão (que tampouco vai me atingir) ou uma sorrateira pilha de nada, reclamando da pura estúpida múltipla nudez e nossa rouca chula mudez brincando sozinho somos ilha, em poucas troças e muitas doses. Se velho disser - nem devo ir por isso desejo, desejo, desejo viver. Saúde! o golpe, de volta para a praia quando pensava que estava indo pro mar. cuidado! você navegador pensa que vai com segurança, que agora só depende de você? calma nessa dança a malandanza um dia te alcança e vai castigar seu acordo e quebrar seu castigo com Dádá. Serpentear com as mãos e os pés frios as mãos e os pés pescoço como a locomotiva de Denver. Correndo nas sombras do sol no barco devir congelante. Não vou aguentar qualquer solenidade até que morte nos separe no amor ou na tristeza na saúde ou na dor na crise ou nA Obra no Café no posto na rua e de mochila nas costas. Ciao banbine io me parto che arrivare en la terra mia sono bizono.

Chet Baker - So Che Ti Perdero




ne sais pas comment plus


meu doce caminhar meu doce meu
doce
onde anda você?
onde anda?
sem saber
se ainda gosta das mesmas coisas
sem saber se ainda lembra
sem saber
se sem
bem,
ces't

ça


loki




segunda-feira, dezembro 23, 2013

Ruspo - Esses patifes

    Tenho escrito essa coluna toda segunda-feira, com a liberdade de falar sobre o que me apetece. Já foram 3 textos sobre música. Engraçado… Acho que a música tem realmente ocupado um espaço cada vez maior na minha vida. Não sou nenhuma maestra, entendedora do caso, mas é melhor que se fale de algum ponto de vista. Quantos somos por aí opinando sobre e debatendo pelo simples fato de se criticar? O quê? Mas sinto que estou dentro desta que é hoje comumente chamada de cadeia produtiva da música. Essa "cadeia" também não me apetece. Me remete a algo fechado, preso, com grades. E são tantos os significados dessa palavra que também não convém me ater a isso. Talvez eu esteja focada nas ações opressoras que gritam debaixo do pano desse país que não sabe quem colocar  na "cadeia" e sai às ruas para gritar suas angústias. Tenho falado de música, mas ontem li sobre a morte de Leonardo Morelli, o jornalista que auxiliava na coordenação do grupo Black Block e encabeçava (mesmo com um tumor) denúncias contra empresas de fabricação de concreto em prol de causas ambientais.
    Mais uma tragédia, como todos os dias acontece aqui ou em qualquer lugar. Não quero ser mais triste por isso, mas sou. E o pior é que às vezes ficamos com a pulga atrás da orelha. "Mas ela foi assassinada um dia antes da eleição?". Não faz mal, um voto a menos. Terá sido crime político? Sim, porque não adianta fingirmos que isso é lenda. Pelo contrário, somos filhos, herdeiros da ditadura, do cárcere, da tortura, da perseguição. Esse ano vi bombas de verdade voarem de helicópteros, vi o circo, os bancos e as multinacionais pegando fogo, vi muita gente sendo presa e vi até helicóptero de cocaína sem dono.      
    Estamos, por um triz, enfim, em 3012. Ops, 2013. Sigo e penso, por exemplo, que está próximo o dia em que o tal índio descerá da estrela colorida e brilhante pra pousar no hemisfério sul. Eles estão sendo assassinados, expulsos de suas terras, exterminados e poucos se preocupam com isso. O Ruy se preocupa. Ele se preocupa muito. Impressionante. Eu deixei de ser assim desde quando me machuquei demais, mas, enfim, ainda me preocupo. Ele é muito engajado. É jornalista, está há não sei quanto tempo no Mato Grosso (do Sul) trabalhando no CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e teve em maio os seus equipamentos confiscados ilegal e arbitrariamente pelo delegado Alcídio de Souza Araújo, da Polícia Federal: http://www.youtube.com/watch?v=ZRlHeOzENvI

   E aí eu volto a me perguntar: direitos humanos, pra quê? Tem muita gente equivocada por aí. Meu amigo Rafael Barros gosta muito dessa expressão "equivocado". Aqui em BH, é o adjetivo ideal para o prefeito. Enfim, o Ruy não é só engajado. Ele é também sensível, educado, criativo. Ele adora expressões do tipo "Com todo respeito". Acho legal demais. Um gentleman decidido e radical, vamos dizer assim… Ainda bem que ele gravou esse disco: https://soundcloud.com/ruspo/sets/esses-patifes.      Senão, imagino eu, sofrimento total. É muito conflito, é muita injustiça, muita coisa errada, muita opressão. A gente quase morre. Essas divisões de terra, esses fazendeiros ricaços poderosos, a polícia, esse povo que não entendeu ainda o sentido da palavra "globo". 
    Pô, o Ruy acumula 7 processos judiciais e já foi até ameaçado de morte. E tem muita gente que não entende o disco. Normal. Música bonitinha né? É sim, mas com uma ironia, meu amigo… uma verdade, uma esperteza. Era assim que a gente devia fazer sempre. É que na arte somos livres, na vida não. Um salve à arte!!! Evoé!!! Ele é daqueles tipos que escuta música o tempo inteiro. Eu tava quase enlouquecendo com ele aqui. Até tecladinho com dois acordes toquei pra acompanhar. Que emoção! A gente aqui falando de Belo Monte em Belo Horizonte. O Ruy só viaja. Acampou por aqui uma semana e lá se foi denovo. Tinha acabado de chegar da Coréia (do Norte?). Tava lá falando sobre os índios. Tô pra comer aquelas algas, Ruy. O mundo precisa saber mesmo. 
    Dá uma raiva. Porque assim, as músicas são feitas todas no computador. E o mac foi apreendido né?!  E levando-se em consideração todas as influências que ele carrega naquela mochilinha viajante, é uma puta falta de sacanagem! Lá se vão Gil, Caetano, Curumin, Tulipa, cidades, amores e tudo quanto é índio. Imagina na copa? Queria entrevistá-lo ao invés de escrever esse texto, mas ele anda sumido. Deve estar em alguma aldeia. 
    Quando você volta de vez, Ruy? Bóra fazer um show? O cara gravou o disco, mas treme pra subir no palco. É tímido. Não dá pra subir no palco atrás da lente, né Ruy?! Às vezes até dá... Mas vai lá que tu é foda, quer dizer, chega mais. Aqui ano que vem tem eleições, copa, mestrado e tem até o Centro Cultural Luiz Estrela. É tudo nosso! E pra vocês que resistiram, um presentinho: http://www.youtube.com/watch?v=WHdb3WhlTqU . Que seja vírus no natal!

Brisa Marques

Para Nydia Bonetti, atenciosamente





A chuva cai sobre os meus olhos

as lágrimas ardem como fogo
apagam a lavra do meu ego


silenciosamente
O ano acabouabruptamente a vida, a luta, o luto, as batalhas, enfim. os sonhos e desilusões do mundo de todo mundo não acabam no último dia do ano. Não silenciam nosso pranto descompassado, nem saciam nossa sede de verdades inexistentes, nem nos cobre com as benções da santíssima trindade. Não consiste no fim da sina do sujeito em busca do objeto faltante.

sábado, dezembro 21, 2013

The Pillow Book

fogim tchuka lula

primeiro capítulo




Caio Campos

Belo Horizonte, 20 de dezembro de 2013.


Caio,

Não sei por onde começar essa carta, o que em si já é um começo.
estou ouvindo Pavarotti and friends. Deve ser essa energia de fim de ano. Estou tenso. Sei que estou tenso porque quero dizer mais sobre mim mesmo do que perguntar ou desejar todos aqueles cuidados de mãe ou de amigo. Tenho ar preso no peito.
Digo que você me surpreendeu quando sabendo da sua viagem para Irlanda. Você me deu um orgulhoso imenso. Hoje é sexta feira e choro. Holy mother cuida de nós.
Ainda assim não me privo de desejar cuidados e espero que escreva sobre o novo panorama.
Você não acredita em Deus, eu sei. Deus excede a linguagem. Ainda sobre o crivo marxista que odeia o mundo e as máquinas, onde toda propriedade é roubo. Acho a barba do Papai Noel parecida com a de Marx. Acho que Marx podia ser o Papai Noel.
Fique bem. Aproveite ao máximo. Depois escrevo mais.
Abraço.

do amigo,


Gustavo

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Papai Joel Fick dich


Não sei, mas 20 de dezembro, o ano acabou. o natal vem chegando e acho que deveria escrever algo. Eu daqueles que ainda me emociono com melodias celestiais como a que agora ouço. Coltrane, sempre Coltrane com seu olhar vago. O fim derrama o recomeço. How long has she been going on? Águas rolavam. Le flux de la vie... Der Strom des Lebens.  Agradeço de coração a presença dos que aqui estiveram. Sei que não preciso ser sensível e nem saber falar foda-se em alemão. Construo um elefante com meus próprios recursos.




Cama Cigana

por Thaís Weick



Quando nascemos ganhamos um berço. O meu, por exemplo, era verde e tinha uma caminha auxiliar para quando crescesse. Todo o quarto era verde, não pela esperança, mas porque minha mãe achava que iria nascer menino. Bom, como verde não é azul, continuei com esse conjuntinho mesmo.
A partir dos quatro ou cinco anos, dormia no colchão da casa da avó, ou no colchão da casa da tia. Foi quando as primas ganharam aquele lindo conjunto de cama rosa feito de aço. E se desfizaram da cama de madeira maciça com colchão ortopédico. Ah! E essa reciclagem veio para no meu quarto. E durou por seus vinte e tantos anos.
Mas nesse meio termo, ganhei uma cama rosa de aço que ficava na casa do pai, que quando adotou uma nova família, a meninha ficou com meu quarto. Daí, meu irmão nasceu e ganhei uma outra cama similar à de aço e a cama de madeira maciça foi para esse menininho. Então viajei, fui dormir numa cama box de solteiro america, longe da família por um ano, e quando voltei minha avó me dera uma cama turca, aquela com gavetões e cama acoplada.
Em menos de um ano, saí de casa e fui morar sozinha, arranjei um colchão e dormi no chão. No outro mês juntei, e comecei a dormir em uma cama de casal box com colchões de mola. Separei e fui para casa do meu irmão paterno e voltei a dormir no chão. Trouxe a cama turca para casa dele e quando tudo estava pronto, abandonei o barco, porque ele havia comprado uma cama de casal, e fui para casa de minha mãe.
Chegando lá, o meu quarto havia sido ocupado pelo meu irmão que agora estava de cama nova, e eu voltei, então a velha e boa cama de madeira maciça com colchão ortopédico. Cerca de um ano depois, ocupei a casa dos fundos de meu pai, montei a cama de meu avô e ali me instalei até que eles vieram morar comigo. Então cedi a cama para meu avô, que antes se encontrava na casa de repouso, para que assim morresse em paz, e voltei para cama turca agora na sala da casa.
Assim que ele morreu meu tio veio morar conosco, então passei uns meses na instalação de meu irmão na mesma cama turca. Como a comunidade esta bastante agitada, voltei para cama de madeira maciça, por cerca de mais seis meses até a morte de meu tio. Quando fui passar as férias com vovó, ela caiu e virou cadeirante. Logo, como uma boa menina, peguei a cama turca e fui morar com vovó novamente, para ajudá-la na readaptação. Durante alguns anos, a cada quinze dias alternava a cama turca com a cama de concreto maciço e espuma fina de meu então companheiro.
Anos se passaram quando minha tia estrangeira veio fazer uma visita. Como uma boa garota, cedi minha cama turca por 3 meses e fui dormir no chão do quarto de meu pai. Ela se foi, voltei para cama turca. Ela voltou depois de seis meses, mas dessa vez voltei para cama de madeira maciça porque ela iria ficar mais seis meses ou, então, para sempre.
Então deitei-me novamente na cama de madeira maciça com a sensação de que por ali ficaria por mais uns três anos e ali fui percebendo que a vida é dura. Passei uns dias na cama de um hotel, quando percebi que não poderia me levantar dali, liguei para meu psiquiatra, para cancelar a sessão. Foi então que constatei que não era a vida que era dura, era o colchão que já estava na tábua. 
Foi então que percebi que ano novo ou vida nova inicia-se com uma cama nova.

Cíntia Sakura.


quarta-feira, dezembro 18, 2013

Bill




terça-feira, dezembro 17, 2013

Dínamo da noite sem estrela


Dois mil e treze foi um ano ruim...

não soul
mais
eu mesmo

depois das horas
outro a
ser

o
que  era

abespinhado
apenas

Açucena caminha sobre o abismo...

Sei que não sou o único que sofreu.
Havia um corpo, e ele tremia
A carne pode tornar o espírito visível
o mundo é para os Vivos, quem são eles?
Desafiando a escuridão para alcançar o claro e quente
Ele era vento, quando o vento zurzia,
quem se ergue da carne ao espírito conhece a queda.
A palavra ultrapassa o mundo
e a luz da tarde se apaga sozinha

e apenas
Açucena enleva o céu telúrico
seu clímax visionário treslia
a laroz de caos e Todo tudo

A mim louco, o vento uso-me
A mim como eu devia ser
Apenas um grito na madrugada
Um vulto de fundo que vem dos olhos
da longínqua extensão do sonho
aventa o vento verso mira
e eu, o sigo



Meu coração oscila com o mundo
meu coração é o mundo...
aquela coisa derradeira
de homem que aprende a cantar
o fantasma cicia um absurdo
alma de estrela, sal de fêmea
escorrega e surge dínamo

Embora repudiasse fronteiras
amo o mundo acima do sina
e a pós-imagem do olho íntimo
o que é visto recua
a eternidade definitiva apavora
assim o espírito procura
o caminho continua

Virando-se depois, voltando
ao pequeno riacho
estou nadando pra adiante,
assim suponho
o espírito caminha

fui para lugares desertos
o que está além jamais desmorona
a escuridão vem com as horas

Tomo a liberdade que uma vida breve permite
busco minha própria humildade
recupero minha ternura
quem tirou a escuridão do céu?
estou embriagado de vida
sim, sou eu
que o vento balança

vivo no extremo da luz.
às vezes penso que sou vários...


esse poema para Cristina Siqueira

9 paisagens flutuantes




m la recherche de signes de vie


Félix e eu criamos um conceito que se pode dizer que é filosófico, com a ideia de território. Os animais de território há animais sem território, mas os animais de território são prodigiosos, por que constituir um território, para mim, (...) E o território só vale em relação a um movimento através do qual se sai dele. É preciso reunir isso. Preciso de uma palavra, aparentemente bárbara.
Então, Félix e eu construímos um conceito de que gosto muito, o de desterritorialização.
é quase o nascimento da arte.
e não o há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte. Tudo isso acontece nos animais.
É isso que me fascina, todo o domínio dos signos. Os animais emitem signos, não param de emitir signos, produzem signos no duplo sentido: reagem a signos, por exemplo, uma aranha: tudo o que toca sua tela, ela reage a qualquer coisa, ela reage a signos. E eles produzem signos, por exemplo, os famosos signos... Isso é um signo de lobo?
O escritor está à espreita, o filósofo está à espreita. É evidente que estamos à espreita.
O animal é... observe as orelhas de um animal, ele não faz nada sem estar à espreita, nunca está tranquilo.
Ele come, deve vigiar se não há alguém atrás dele, se acontece algo atrás dele, a seu lado. É terrível essa existência à espreita. Você faz a aproximação entre o escritor e o animal.
Seria preciso dizer que, no limite, um escritor escreve para os leitores, ou seja, “para uso de”, "dirigido a". Um escritor escreve "para uso dos leitores".
Mas o escritor também escreve pelos não-leitores, ou seja, “no lugar de” e não "para uso de". Escreve-se, pois "para uso de" e "no lugar de". Artaud escreveu páginas que todo mundo conhece. “Escrevo pelos analfabetos, pelos idiotas”.
Escrever não é assunto privado de alguém.
Escrever é, necessariamente, forçar a linguagem, a sintaxe, porque a linguagem é a sintaxe, forçar a sintaxe até certo limite, limite que se pode exprimir de várias maneiras. É tanto o limite que separa a linguagem do silêncio,
O piar doloroso, todos dizem, bem, sim, Kafka. Kafka é A metamorfose, o gerente que grita:
“Ouviram, parece um animal”.
Há um território para a morte também, há uma procura do território da morte, onde se pode morrer. E esse gatinho que tentava se enfiar em um canto, como se para ele fosse o lugar certo para morrer. Nesse sentido, se o escritor é alguém que força a linguagem até um limite, limite que separa a linguagem da animalidade, do grito, do canto, deve-se então dizer que o escritor é responsável pelos animais que morrem, e ser responsável pelos animais que morrem, responder por eles... escrever não para eles, não vou escrever para meu gato, meu cachorro.

Não há literatura que não leve a linguagem a esse limite que separa o homem do animal.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Carta para Nara

Oi Nara. 

     Outro dia estava pensando em escrever qualquer coisa sobre o último disco do teu pai pro blog. Mas aí, outro dia, ele publicou no facebook que sonhava em criar um livro só pra você sobre a pérola que ele conseguiu achar depois de tanto observar o mar, imagino eu, em pé, no porto.Tenho costume de ouvir o "Deriva" de olhos fechados. Da primeira vez foi lindo. Chorei, ri, vi uns ursos coloridos nas montanhas… Você ainda vê desenhos e escreve eu te amo na parede ou já cresceu tanto que isso parece coisa de criança? 
     É, Nara, nesse disco deve ter muito amor. Acho seu pai muito cuidadoso. Meio perfeccionista. Risos. Mas ainda bem que existem pessoas como ele. Como o Pedrães também, que deu a maior cara de filme pós-moderno (não sei exatamente o que eu quis dizer com isso) pra esse disco do seu pai. Acho que eles vão cada vez mais fundo no que acreditam. 
     Só seu pai, Nara, pra regravar "Acrilic on canvas" daquele jeito (Isso é Legião!). Nunca vi coisa mais linda… Os passos, a chave, o quarteto de cordas e a saudade vazia…Será que ele guarda qualquer coisa americana na alma? Diz que vem do avô a alma… Acho que isso é conversa do Tatit com a Ná. Teu pai gosta desse pessoal. Eu também! Sabe aquela música do "não quero que ninguém me louve no Louvre", que ele fez com o Mauro Aguiar? Pois é, quando ele tocava no violão eu nunca imaginava que viraria essa "coisa" eletrônica que  rima "ogiva" com "gengiva" e soa bem demais. 
     Eu entendo quando seu pai acha que as pessoas deviam ouvir o disco integralmente, do início ao fim… É que faz um sentido danado! Mas hoje as pessoas estão correndo, com vontade de chegar a não sei onde… Seria tão bom se pudéssemos preencher nosso tempo só com o sublime! Ficar ouvindo todos os sons escondidos desse disco, cada palavra que não tá ali à toa né? 
     E a segunda? Bom demais teu pai dançando no salão, estalando os dedos, rodando feito aquele dervish espelhado de uma camisa que ele gosta de usar. Sei lá, acho que ouvi um carro arrancando nessa música. Será que alguém foi embora? Os arranjos são mais bonitos que qualquer vaso de girassóis na primavera. 
     O negócio fica pesado tem hora… Quando a gente começa a pensar nessas coisas de costurar lágrimas na voz, de saber que a vida é um sopro e que a nossa única certeza é a morte. A gente tava ouvindo muito Grizzly Bear nessa época… Não sei o Makely, mas acho a batera do Yuri muito parecida no princípio da incerteza. E aí, de repente, só vejo você, Nara e uma porção de rabiscos! Você chegou a cantar com seu pai… Foi em Ouro Preto? No anoitecer? 
     Enfim, esse adeus parece brega, não sei se é o teclado do teu pai, a bateria do Antonio ou o arranjo do Rafa. Penso que quando o amor é bom, é brega mesmo. Risos… Tem que ter sentido o "prazer" antes… Acho, na verdade, trabalhoso traduzir bem essas entrelinhas… Isso aqui é mais pra lamber a cria e falar em solilóquio que qualquer outra coisa. Isso é uma carta pra você, que vou mandar pra todo o mundo e quem quiser, pode ler. Mas não é crítica. Eu não gosto de críticas… 
     Que coisa louca Nara, parece até que a voz do teu pai virou uma flauta…Eu não sei… isso tudo foi ficando brasileiro e acabei me lembrando daquela vez que a gente foi pra praia… (O Trigo levou o contrabaixo no barco!!!)  Vou ficar aqui arquitetando nossos caminhos porque de um jeito ou de outro, estaremos sempre juntos! Com amor, brisa.


Nydia Bonetti - uma história de vida


   

" Da esquerda para a direita: Minha prima Cida, minha mãe, Mafalda, eu no colo. Minha irmã mais velha, Lucia com os olhinhos quase colados na mesa e a menorzinha de pé, Cristina, minha irmã mais nova."











Nydia Bonetti
Ah... Eu amo essa foto. Sou a do colo, naturalmente. Minha mãe, minhas irmãs e a maior é uma prima.

Gustavo Perez
O que me desperta interesse em você, Nydia, é saber sua história de vida. Pode nos contar mais sua infância? Sua família é de origem italiana?

Nydia Bonetti
Sim. Minha avó materna era de Ferrara. O lado paterno, da Toscana. Bem, nasci em Piracaia, nesse casarão da foto. Quando nasci, minha avó ainda mantinha um Hotel, nessa casa. Os homens da família trabalhavam na oficina, na pedra, eram marmoristas e escultores. Tive uma infância normal, a família sempre sem grana, mas um ambiente onde a arte estava sempre presente. Talvez tenha sido o que me levou a escrever.
Tenho muitas histórias pra contar sobre minha infância!
Na época em que funcionava o hotel, até Plínio Marcos ficou hospedado lá! Era uma festa!

Gustavo Perez
de que forma a arte entrava nesse cenário da sua vida? Conte-nos mais histórias.

Nydia Bonetti

Foi um filme rodado aqui - A Santa Donzela. O Zé Wilker fazia um Padre. O Plínio era o escultor. E a escultura foi feita por meu avô. A Wanda Stefania pousou nua. Nunca vi aquela oficina tão movimentada. (risos)
Trabalharam o Jofre Soares, Eva Wilma, um filme do Flavio Porto. Foi muito divertido. Uma história louca, em que o Padre encomenda uma imagem para a igreja e o escultor esculpe a amante dele, mulher do prefeito. Gostaria muito de rever esse filme.

Pedro Limaesse hotel em Piracaia mesmo, as locações no caso.

Nydia Bonetti
Passou muita gente interessante pelo casarão. Mas quando eu tinha uns 13 anos, o hotel deixou de funcionar. Sim morávamos no hotel, da minha avó. Era o número do casarão e o do telefone, na época.

Pedro Lima
Telefoninho de manivela, né?

Nydia Bonetti
Sim! Preto, de manivela. Pretendo usar essa foto na capa do livro.

Pedro Lima
Além da imagem do interior de novo, a natureza era desde sempre um elemento muito forte não?

Nydia Bonetti

Sim, muito forte. A cidade era minúscula. Hoje tem 20.000 habitantes. Na época da infância talvez tivesse uns 5.000 no máximo. A natureza aqui é muito bonita.
quando eu nasci a casa ainda era branca número 11 o telefone preto, de manivela número 09 e o céu, azul infinito. Mandei para o Rumos - Itaú Cultural, um projeto intitulado - Casa 11, telefone 09. Um poema do livro.
mais que ouvidos, as paredes têm memória dentro do velho casarão em que nasci, eu as abraço e peço: - que me contem histórias onde me encontro.

Gustavo Perez
e quando você pretende lançar o livro?

Nydia Bonetti

É um projeto de poemas singelos, mas que eu gosto muito. Mandei para o Projeto Rumos - Itaú Cultural. O resultado sai em maio. Mas estou lançando o SUMI-Ê em janeiro.
Não sei se viram a capa:




Esses dois livros são da minha fase de singeleza "quase oriental". Minha poesia se transformou nesses últimos 5 anos, ganhou um peso maior, ficou mais grave. Mas gosto dos poemas do Sumi-ê e resolvi publicá-lo.

Gustavo Perez
pra finalizarmos eu queria fazer um ping-ping com você, certo?
Vamos lá.
Deus

Nydia Bonetti
Acredito.

Gustavo Perez

uma cor

Nydia Bonetti

Branco.

Gustavo Perez

o que te incomoda nas pessoas?

Nydia Bonetti
falsidade

Gustavo Perez
uma frase ou pensamento que marcou sua vida.

Nydia Bonetti
Há um tempo para o pássaro, um tempo para o peixe. E dentro e fora do homem, um tempo eterno de solidão. Paulo Mendes Campos

Hiperônimos não são mais polissêmicos

O Papai Noel vem vindo, e momento em que a atenção midiática e, com ela, a atenção dos habitantes da cidade se voltam para a obra, encurto caminho aos interessados em ler o que há por aqui.
conversei com a escritora Nydia Bonetti, que nos falou sobre sua vida, sua trajetória e bem como seus olhares longitudinais para uma infinitude de coisas. O ato de criação, as dobras do tempo, as manobras que se fazem entremeios.
Vou para o sol e me deito na sombra. O reflexo está de bom tamanho. Sinto-me cada dia mais estranho. De-uma-hora-pra-outra as coisas perdem sentido. Há um grande lapso semântico. Fluxos sendo represados. O que não pode ser contido está contido. É.
Uma inversão pode te levar pro mesmo lugar.
Modifica a ambivalência do que já era ambíguo.
Despe do dualismo do juízo determinante
caminha ao lado do ser humano.
Tal qual um cardume de hipermetropes pára-quedistas numa pintura de Chagal ao som dos violinos, assim sobrevém os críticos.
Ambivalência de qualquer sentido muda.
Nydia é potência. Onde a felicidade repousa na consciência triunfante de vitória.
Falamos sobre poetas cubanos, da poeta portuguesa Florbela Espanca, do modos vivendi dos antigos tempos... mas o que realmente saltou sobre os nossos olhos foi a poesia de Orides Fontela
Ao evocar Orides, falar sobre ela, questionar o deslocamento da palavra, do interior geográfico para os grandes centros urbanos, além de procurar interpretar, compreender e conceber o “bem-estar” da palavra, rendemos uma pequena homenagem à Orides Fontela.  
 

Gustavo Perez
Oi Nydia, gostaria de fazer uma entrevista com você.

Nydia Bonetti
Oi, Gustavo! Desculpe. Tive que atender a porta. Uma entrevista?

Gustavo Perez
Sim, Nydia. Um bate papo informal. Tenho curiosidade em saber quando você começou a escrever. Quando você começou a escrever?

Nydia Bonetti
Podemos sim. Mas temo decepcionar você. (risos)
Escrevo desde os 13 anos. Quase sempre poesia. Mas guardava tudo bem escondido em gavetas e caixas.
Gustavo Perez
Que interessante. Mas porque você as guardava?

Nydia Bonetti        
Nunca pensei que alguém se interessaria em me ler. Escrevia por puro prazer e para exorcizar meus bichos. Era muito insegura. Por algum motivo que ainda não compreendo bem, escolhi a área de exatas. Fui fazer engenharia e abandonei a poesia por longos anos.
Gustavo Perez
Você sente que a escrita revela mais de nós mesmos do que outras artes? Durante esses anos Você não escreveu? Ou seja, foi um período de recesso criativo?
Ah... com certeza. A escrita é das artes a mais explícita, mesmo em se tratando da poesia, cheia de metáforas.
Escrevi pouco durante o período da faculdade. Depois fiquei mesmo um bom tempo exilada daquilo que mais gostava. Costumo dizer que vivi no limbo por muito tempo. Claro que pode me chamar de você, por favor.

Gustavo PerezQuais são seus autores de estreita ligação, mesmo que não tenham influenciado sua forma de escrever?

Nydia Bonetti
Na poesia, muito cedo me apaixonei por Drummond. Mas tinha outro amor na área - Paulo Mendes Campos. Li muito Bandeira e Pessoa também. Só bem depois fui conhecer a poesia de outros cantos, como a cubana, que gosto demais!
Na prosa, li tudo de Graciliano Ramos, ainda muito jovem. Fiquei fascinada por aqueles cenários de "secura". Acho que até hoje carrego influência desses desertos de Graciliano.

Gustavo Perez
Interessante. Essa "secura" é um manancial.
Bem sobre a poesia cubana, eu particularmente, não conheço. O que te atrai na poesia cubana? Você poderia citar um autor e sua preferência?

Nydia Bonetti
Gosto muito da poesia de Abel G. Facundo, Victor Rodriguez Nunes, Aramis Quintero e outros tantos.
Olha isso:
Olha isso:

um poema de Abel G. Facundo

Van_Gogh_Vase_with_Three_Sunflowers
O GIRASSOL SEM PÉTALAS




Un hombre que cultiva su jardín,
como quería Voltaire.

J. L.Borges



Vou semear jardins em meu quarto,
sei que ambos tememos a morte.

Ele aprendeu a encher minhas camisas com sua sombra,
a cobrir minhas porções com seus lamentos
de bailarino estreito.

Às vezes quando não existe o mundo,
nós dois vamos desnudos a matar a manhã.
Os versos que brotam dele aliviam nosso medo,
e em farrapos eu rompo uma face
quando nas horas bárbaras a luz já não é a luz.

Vou semear jardins em meu quarto,
neste cravo que sangra por sua pele,
hei de pendurar o óleo onde um pintor qualquer
quis traçar girassóis para Vincent.



Gustavo Perez
Muito bonito. Lindo.

Nydia Bonetti        
Outro Abel:

um poema de Abel G. Díaz*
SENTIDO

Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem

Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura

Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher

tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”

e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse

* nascido em Morón, Cuba - 1952

Nydia Bonetti
Eles são geniais! Depois te passo outros, se quiser.

Gustavo Perez
Bem, pelos dois poemas, concordo contigo. Claro. Vou agradecer.
eu queria saber o que te motivava a escrever aos 13 anos. Como era o ambiente ao seu redor?

Nydia Bonetti
Sobre como comecei a escrever, com 13 anos: venho de uma família que sempre leu muito. Nasci em Piracaia e morávamos num casarão colonial, avô, avó, pai, mãe, irmãs, tios, primos... Meu avô e meu pai eram escultores e havia muita literatura sobre arte em casa. Tinha um tio ator, que tinha muitos livros de teatro e uma tia fascinada por poesia. Então desde menina li muito e escrever foi natural. Ganhei meu primeiro livro quando tinha 6 anos. Mas ter lido Drummond talvez tenha sido o fator crucial que me levou a escrever poesia.
  

Pedro Lima
tudo bem Nydia, prazer!

Nydia Bonetti
Olá! Tudo bem?

Pedro Lima
Tudo ótimo! Obrigado pela abertura... vamos a conversa...

Nydia Bonetti
Parece que a poesia migrou dos grandes centros para as cidades pequenas nesses últimos tempos.

Gustavo Perez
e de que forma você interpreta esse refluxo?

Nydia Bonetti
Veja o caso do Wender Montenegro, Wilson Nanini, Mariana Botelho e outros tantos. Não sei explicar esse refluxo. Claro que os poetas urbanos continuam existindo, mas talvez por uma questão de linguagem, se preste mais atenção agora aos poetas do interior.
Ou seja:
Eu "canto" o que vejo da minha janela. E o que vejo? Um pasto cheio de bois, montanhas, pássaros e a estrada que me dá a sensação de liberdade. Estou aqui, mas posso ir. :))

Gustavo Perez
as janelas...

Nydia Bonetti
Ah... as janelas... 
Há quem me chame de "poeta oriental", por cantar as miudezas da vida cotidiana.

Gustavo Perez
Nydia, na faculdade eu tive um colega de Itabira. Nele eu pude perceber o quanto Carlos Drummond era, digamos uma quase  persona non grata. Ele fez sua carreira como escritor migrando para um grande centro urbano que é o Rio de Janeiro, mas imagino que, de fato, em qualquer lugar ele seria conhecido e reconhecido.
Nos nossos dias de hoje, você poderia avalizar que essa migração é desnecessária?

Nydia Bonetti
É sempre assim... Eu me sinto uma estranha por aqui, entre as pessoas. Gosto da calma do lugar, da proximidade com duas grandes cidades - 90 km de Sampa e Campinas. Mas a vida cultural é zero aqui.
Acho que a literatura sempre esteve restrita a "nichos" específicos.

Gustavo Perez
Isso desabona uma cidade de seu manancial de inspiração?

Nydia Bonetti
Se você não fizer parte de algum, corre o risco de ser esquecido, ser deixado de lado. Foi o que aconteceu com Orides Fontela, uma poeta magnífica, uma das minhas preferidas.
Não, nada, pelo contrário! Escrevo muito porque não tenho com quem conversar. (risos)


Pedro Lima
Tudo bem Nydia, prazer!

Nydia Bonetti
Olá! Tudo bem?

Pedro Lima
Tudo ótimo! Obrigado pela abertura... vamos a conversa...

Nydia Bonetti
Parece que a poesia migrou dos grandes centros para as cidades pequenas nesses últimos tempos.

Gustavo Perez
e de que forma você interpreta esse refluxo?

Nydia Bonetti
Veja o caso do Wender Montenegro, Wilson Nanini, Mariana Botelho e outros tantos. Não sei explicar esse refluxo. Claro que os poetas urbanos continuam existindo, mas talvez por uma questão de linguagem, se preste mais atenção agora aos poetas do interior.
Ou seja:
Eu "canto" o que vejo da minha janela. E o que vejo? Um pasto cheio de bois, montanhas, pássaros e a estrada que me dá a sensação de liberdade. Estou aqui, mas posso ir.

Gustavo Perez
as janelas...

Nydia Bonetti
Ah... as janelas... rs
Há quem me chame de "poeta oriental", por cantar as miudezas da vida cotidiana.

Gustavo Perez
Nydia, na faculdade eu tive um colega de Itabira. Conversando com ele eu pude perceber o quanto Carlos Drummond era, digamos, uma quase persona non grata.
Drummond fez sua carreira como escritor migrando para um grande centro urbano que é o Rio de Janeiro, mas imagino que, de fato, em qualquer lugar ele seria conhecido e reconhecido.
Nos nossos dias de hoje, você poderia avalizar que essa migração é desnecessária?

Nydia Bonetti
É sempre assim... Eu me sinto uma estranha por aqui, entre as pessoas. Gosto da calma do lugar, da proximidade com duas grandes cidades - 90 km de Sampa e Campinas. Mas a vida cultural é zero aqui.
Acho que a literatura sempre esteve restrita a "nichos" específicos.

Gustavo Perez
Isso desabona uma cidade de seu manancial de inspiração?

Nydia Bonetti
Se você não fizer parte de algum, corre o risco de ser esquecido, ser deixado de lado. Foi o que aconteceu com Orides Fontela, uma poeta magnífica, uma das minhas preferidas.
Não, nada, pelo contrário! Escrevo muito porque não tenho com quem conversar. (risos)

Gustavo Perez
O Suplemento Literário de Minas Gerais, publicou poemas de Orides Fontela que foram traduzidos para o francês. O interesse de ser lida em língua francesa a torna um patrimônio nacional.

Nydia Bonetti
Tenho um poema onde falo sobre isso, que foram traduzidos e publicados em francês.
Ela é maravilhosa!

Gustavo Perez
Sou também grande admirador, mas talvez seja leigo demais para conhecê-la.  Você pode nos contar mais sobre ela?

Nydia Bonetti
Hoje no meio acadêmico já se respeita muito Orides.
Ela tinha um gênio difícil, era boêmia, mas não tinha muitos amigos. Vivia na pobreza. Amava os gatos, mas teve que sacrificá-los por não ter como mantê-los.

Pedro Lima
Vou me posicionar entre os leigos e já agradecer o primeiro contato...
E justo as origens da Orides parece ter a ver com a questão dos "interiores" sobre a qual tocamos.

Nydia Bonetti
Tenho muita coisa em arquivos sobre ela. Depois passo pra vocês. Ela era de São João da Boa Vista. Um poema de Orides:

INICIAÇÃO

Orides Fontela

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

— és infinitamente mais estranho..

Nydia Bonetti
Só mais um:

FALA
Orides Fontela

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e palavra é densa e nos fere.

 (Toda palavra é crueldade.)

Fico arrepiada sempre que leio Orides. É estranho... Algumas pessoas dizem que alguns dos meus poemas lembram Orides.
O que me deixa muito feliz.

Pedro Lima
então o arrepio passou por entre essas janelas abertas... Rio/BH/Piracaia... desde são João  da boa vista.

Nydia Bonetti
Tem uma fala dela, dizendo por que não falava de amor. Posto sempre por aqui. Vou ver se encontro. Se quiserem. É magnífica! Ela fez Filosofia na USP.


Estava sugerindo deslocar a questão do interior para de interior.
como você enxerga o deslocamento de Orides? foi proveitoso ou maléfico?

Nydia Bonetti
Acho que realmente a saída do interior não fez bem a Orides. Eu não sobreviveria numa cidade grande hoje. Mas ela não tinha mais para onde ir. Morreu na miséria. Talvez se pudesse, teria retornado.
Costumo de me autodenominar "bicho do mato". Sempre fui muito tímida, muito caseira. Mas vivi por alguns anos em Campinas. Hoje não suporto a ideia de sair daqui.
Olha só, achei:



“Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero... Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. (...) Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. (...) Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não freqüento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.”
Orides Fontela

Muitas vezes me sinto como Orides. Uma estranha no ninho.
O Olimpo é mesmo difícil de ser invadido.

Gustavo Perez
Ela viveu num período anterior à cibercultura, onde a informação corre mais rapidamente, mas acho q ela aponta uma pista aí, à moda de Brecht...

Nydia Bonetti
Não sei se faria muita diferença em se tratando da crítica.
Mas com certeza, os leitores comuns teriam descoberto Orides, sim!
Os críticos brasileiros são muito tendenciosos. Parciais.

Gustavo Perez
como a crítica literária observava Orides há alguns anos?

Nydia Bonetti
Não observava. Não é triste?

Gustavo Perez
São glossadores (neologismo criado por Deleuze). Agora eles a colocam em alguma "lista"?

Nydia Bonetti
Mas ela ganhou um Jabuti de Poesia, em 1983, e outro prêmio. Mas depois ficou esquecida. Não dá pra entender o fenômeno OF. Agora alguns críticos se lembram dela. Há muitos trabalhos acadêmicos sobre ela.

Gustavo Perez
Quanto a Florbela Spanca, qual seu sentimento em relação à poeta portuguesa?

Nydia Bonetti
Gosto muito de Florbela. Essa pintura no meu perfil é Florbela! Em comum, ambas - transformaram em poesia seus sofrimentos íntimos.
E inquietações.

Gustavo Perez
você acha que a exaltação do sofrimento é uma reminiscência do ultra romantismo?

Nydia Bonetti
Acho que não exaltaram o sofrimento. Transformaram em poesia. Não tem como separar a obra da vida do autor. Tiveram vidas difíceis, o que se reflete nos poemas. Ambas eram depressivas.

Gustavo Perez
A arte as "curava" de alguma forma?

Nydia Bonetti
Com certeza. A mim, a poesia me mantém num certo grau de equilíbrio.

Gustavo Perez
Falou-se de Orides Fontela, mas, no seu modo de ver, qual era o sofrimento de Florbela Spanca?

Nydia Bonetti
Tiveram vidas difíceis. Orides com seu gênio, dizem que era briguenta, perdeu a lucidez, vivia sozinha, sem dinheiro. Florbela teve uma vida completamente diferente. Teve seu trabalho reconhecido em vida, tinha vida social intensa, mas não saberia analisar assim, o grau de sofrimento interior de cada uma delas.
Tenho um amigo poeta que diz que o que menos interessa sobre um autor é sua vida pessoal. Mas temos esse interesse, é normal. De Orides, por exemplo, se conhece mais a biografia do que a obra, com certeza.

Gustavo Perez
O ruído do hipertexto a incomodar, ainda que reine o mais absoluto silêncio. O pensamento dinâmico emocional energético e seus efeitos colaterais. Além do fato de ficarmos obrigatoriamente imediatamente ligados em nós mesmos o tempo inteiro. Isso causa aflição, sem dúvida. Você concorda que adquirimos outro grau de insatisfação?

Nydia Bonetti
Acho que há autores e autores. Hoje há muitos poetas "felizes", que fazem uma poesia quase humor, tentando seguir na trilha de Leminski.
Mas Leminski só houve um. Essa mania de "querer parecer" não produz escritores autênticos.

Pedro Lima
Não incorramos nos rótulos e também nas categorias mentais, não queria induzir a isso... mas você acha que tem a ver... Ou seriam fluxos, fluxos...
Esses seriam os "maníacos"?

Gustavo Perez
A mania geralmente acompanha alguma compulsão. A compulsão é a obsessão pelo objeto. Qual o nosso objeto, nesse caso?

Nydia Bonetti
Maníacos - acho que somos todos um pouco. O que nos leva a escrever? De onde essa necessidade? E escrever em versos, o que poderia ser escrito em prosa? Não seria por si só uma "mania". 
Acho que é sim a compulsão que nos leva a escrever.


Nydia Bonetti
O objeto - talvez a própria linguagem. Esse "poder" de manipular a palavra, acaba nos viciando. Ou não.

Pedro Lima
Digo, talvez mais que bi-polares, tenhamos muitos pólos. E a vazão de escrever ajuda a compreender...

Nydia Bonetti
"Antenas da raça" - muitos pólos.

Pedro Lima
vício-recompensa-prazer-desejo... Os agenciamentos não? a poesia como agenciamento do desejo?

Nydia Bonetti
Sim!

Gustavo Perez
A busca pelo objeto não leva necessariamente a um objetivo, você concorda Nydia?
Como se dá seu processo criativo?

Nydia Bonetti
Concordo. Escrevo mesmo por compulsão, como falamos acima. Todo tempo livre que tenho quero escrever. Preciso. É uma necessidade. Escrevo pra ninguém. Mas se publico, talvez haja o desejo de ser ouvida.

Pedro Lima
E você publica basicamente no blog... Por onde anda a poesia de Nydia? Transitas pelo universo virtual e material sem preconceitos...?


Nydia Bonetti
Muitas vezes o poema me chega pronto, como se soprado. Outras vezes é um trabalho árduo, de tirar leite das pedras. Claro que os primeiros são melhores. Embora os "críticos" gostem mais da segunda categoria.
Publico no blog, mas atualmente mais aqui no Facebook. Tenho poemas publicados em revistas literárias, numa antologia do Centro Cultural São Paulo; num projeto de incentivo à leitura, e outros cantos.
Tenho horror a preconceitos.

Pedro Lima
Evoé

Nydia Bonetti
Acho o meio intelectual muito preconceituoso, por ironia.

Pedro Lima
Do universo material, fiquei pensando, tem a sua engenharia, não é Nydia... onde ficou...

Nydia Bonetti
Fiz engenharia, mas trabalhei como bancária, por muitos anos, no BB. Terminei a faculdade numa época difícil, os engenheiros iam todos trabalhar no Iraque, lembram?
Depois Tive um comércio - Uma loja de produtos naturais.

Pedro Lima
Não chegou a virar suco, não? Lembra desse filme, O engenheiro q virou suco?

Nydia Bonetti
Só depois fui trabalhar com uma irmã arquiteta. Mas faço mais um trabalho burocrático.
Literalmente virei suco. (risos)...
É do meu tempo.
  
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