sexta-feira, janeiro 17, 2014

para Caio no autoexílio


Belo Horizonte, 16 de janeiro de 2014

Oi amigo,

Espero que esteja gostando da Guiness. Dizem que uma pratinha de centavo bóia na espuma. É verdade? Você já fez o teste? Está bebendo? Sei lá... não sei o que dizer. Eu estou tremendo de fissura. A vida é dura, meu amigo. Toma acende teu cigarro. Parou de fumar? O beijo é a véspera do escarro.
Eu e Tristessa nem sequer mais conversamos.
Agora são 23 e 30 de um imenso vazio insano.
Desculpa falar tanto de mim. Meu vacilo. 2013 praticamente não nos falamos. 2013 foi o ano de um mergulho atemorizante e catártico. Essa face que o homem não quer ver. Seja de Deus, ou de si mesmo, seja lá quem for o objeto-signo-interpretante.
Algo significou algo para alguém.
Quero saber de você também, claro. Espero sua correspondência. As de Deus-eu-mesmo-algo ainda não chegaram.
Falando em cartas. Terminei de ler As cartas entre Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Construto basilar do movimento beat, como eles citam no início. Começo a crer que algo existe em “criar”. O ato. Não sei de onde ele vem. Não sei por que vem. E depois, se veio, porque veio, ou se ficou, ossificou, sem dar a Deus, sem dar adeus. É uma tentação satânica.
Em pouco mais de um mês estarei completando o terceiro ciclo da minha vida e já recitei todos os sutras que podia.
Já jorrei todas as lágrimas que tinha.
Já enfrentei todas as guerras íntimas.
Já entoei todos os mantras.
Já catei todas as sobras.
Fui além do bem e do mal.
Comi todas as maçãs do pecado original.
Atravessei todas as madrugadas vãs.
Amanheci todas as manhãs atordoadamente.
Entardeci todas as diásporas de antes.
Sabotei todas as dinamites.

destruí todos os diamantes.
desabotoei todos os sutiãs de esquálidas garçonetes
incontáveis trepadas de beira de estrada
e fundos de mictório.
Porque, por qua? Por que será?
Somos todos iguais essa noite...


Boa noite boa,


Gustavo 

Um comentário:

Lucí disse...

As vezes me apaixono por vidas não vividas e palavras escritas.

Deve ser meu outro lado que vive exilado, por isso passo tanto por aqui, leio e releio.