quarta-feira, abril 23, 2014

Carta sem fim



Caio,

vou abrir meu coração pra você. Talvez doa certas coisas que vou escrever. Sou seu amigo desde aquele dia que o Sol nos apresentou. Você queria fazer um livro em parceria usando um pseudônimo, como se fossemos um só autor. Eu lembro. Você disse que não tinha tantos textos. Eu já havia publicado o 4:44 e escrevia incessantemente. Não quis render aquele assunto. Achei-te um bundão. Você se preocupava com a Vanessa, em não deixa-la esperando. Por isso. E depois ela fez o que fez... destruiu seus sonhos. Você era um menino dedicado, eu sei. Depois disso, desse golpe não sei se se tornou mau, ou sei lá o que. De fato essas coisas nos embrutecem. Petrificam nosso sentimento. Vitrificam ilusões que par serem quebradas logo em seguida. Gelam a alma e no calor de uma brisa de aço se dissolvem. Acabou de passar o primeiro ônibus da madrugada. Que sai as 05h00min quando o dia recomeça. Acho que nele canga a tropa proletária rumo ao Absurdo que Camus descreveu em seu livro, sua teoria magna de observação e busca pela verdade. Sabe como tive acesso a esse livro? Fui comprar cerveja num quiosque em San Carlos de Bariloche e lá estava – El mito de Sísifu. Amigo, Camus é um filho da puta desumano. Tenta nos provar que a condição humana do homem comum é uma merda. Uma tremenda perda de tempo no vão da existência. Melhor seria se estivéssemos todos mortos, no caso. Ele humilha o trabalhador, que, de fato, não questiona o porquê dos porquês. Camus escreveu, ou disse, sei lá [acabam de jogar o jornal prédio adentro] que jamais devíamos ter guardado a Esperança na caixa de Pandora antes que ela também saísse junto as outras virtudes. O argelino não sabia que a Esperança é o que nos faz suportar a intermitência dos dias e noites. Esperar o ordenado que vem ao fim do mês e não morrer de fome. Quem não tem esperança não sabe pescar. Essa é uma verdade, salvo o sentido relativo de verdade. Verdade é uma caixa vazia. Não cabem considerações coerentes dentro de um só conjunto de conceitos que não se contradigam.  E o que fazem os filósofos? Buscam uma só verdade. O budismo recomenda que nos tornemos íntimos do problema. Afirma, dentro de um raciocínio quase didático, que fugir do problema é inútil. Ele virá te incomodar na hora em que pousamos nossa cabeça no travesseiro e enfim sós com nós mesmos, temos que nos entregar ao sono, ao mundo do outro mundo que não conhecemos conscientemente. De fato isso acontece. Sempre que tento não pensar, ocorre de ser semioticamente impossível e os porquês de tantas questões que ferem meu corpo e alma vêm-me de encontro, inevitavelmente. Por isso, como sabemos, problema é também uma questão no sentido lógico, e a ele dedico meu tempo tentando desvendar, descobrir ou fazer com que se revele o ponto X oculto e enigmático. Problematizar não é, para mim, deitar-me sobre o sofrimento, mas sim descobrir a causa, a raiz, o ponto de partida que o leva a tantos desdobramentos. Pode ser que, figurativamente, eu me deite sobre o problema, mas agora, com olhar crítico que não é crítico, avalio suas formas de desdobramento. Fiquei muito prolixo? Explico. Sou gentil e piedoso. Complacente talvez, mesmo às coisas que me causaram ódio. Odeio dizer que sinto ou senti ódio, por algo, por alguém ou por mim mesmo. Odiar não é um sentimento legal. ainda que  
eu veja as coisas sem afastamento. Ódio e amor andam juntos. Se Deus é amor, também é ódio. Além do bem e mal, é o que absorvi da litero-filosofia nietzcheana. E isso em mim está bastante claro. Claro como o dia que acaba de nascer. 6:03 e ainda tenho muito a dizer que não me facilitam a transmissão pelo signo. A linguagem, como vimos, é tão ineficiente quanto é fácil de contestar. Não representa nada daquilo que sentimos, mas tentar dizer mesmo assim. Concordamos nisso certa vez, se bem me lembro. O sistema de signos linguais que representam as idéias, coisas que estão no lugar de outras coisas, nunca será fiel ao pensamento. Sentir é não pensar. Os contemporâneos sabem disso. Logo somos, como definiu Derrida, animais tentando se auto biografar. Essa novela onde sempre faltará o capítulo último, último ato da vida, a morte.  Senti quando seu pai estava doente. Éramos mais próximos na dor. Eu chorava por mais um amor a menos e você pelo saudoso Juvenal. Cheguei a escrever que aquilo me tocou profundamente, mas você leu e não gostou. Quis que o sentimento fosse apenas seu, egoisticamente, mas não escrevi por maldade. Escrevi que me tocou a cena, a morte, tragédia maior da vida e os fatos que envolviam o aquele acontecimento. Nada permanece, nisso o budismo é coerente, mas como nós, pobres ocidentais de merda, devemos aceitar a perda? No dia em que saí do hospital, após a malfadada tentativa de auto-extermínio (prova de incompetência mor) as coisas não seguiram como eu esperava. Manú afastou-se de mim abruptamente, sem que eu pudesse ao menos ter a chance de um breve adeus. Desde esse dia, adormeci palavra e acordei silêncio. Adormeci vida e acordei palavra. Escrevo a partir desse dia oito de março de 2013 tudo que guardado estava a ser por mim desvendado. Quis tornar-me um ser que busca, sem sucesso, que Deus me revele não uma, mas “a” epifania, talvez celeste, talvez tardia, e que talvez explique tudo que eu queria. Ser, ou nada ser? Foda-se Hamlet, foda-se Sartre. Um existencialista fescenino e um personagem sem caráter. Matasse a si mesmo fucking Hamlet. Suicidasse-se então esse Jean-Paul Sartre. Entretanto vivo o mesmo paradoxo existencialista. Amo a vida. Odeio a vida. Escrever, viver, peidar. Soltar todos os vendavais cerebrais que nos ocorrem, eu não etária vivendo morte desse teorema inventado. Não fosse ter aprendido contigo que “se a vida é isso, então de novo!”
Daquele que te ama, do choro infantil que tenta balbuciar o inexplicável ao fraternal abraço,

Gustavo


Evoé!

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