quarta-feira, abril 30, 2014

Vigiles lucernas, o banquete de Horácio

poema de Cláudio Rodrigues



in médio virtus (Horácio)

I

Summa volupia
o senhor é convosco
entre as mulheres
e os homens.
Baco é contigo.
de vino véritas.

Seguir a natureza
e nada em excesso.
O meio-termo de ouro
entre extremos contrários.

A natureza é sábia
e o vinho ensina
que o prazer é divino
e o olho
que tudo vê
no prazer se compraz.


II
O poeta lembra-se da morte
e convida a beber.
Unge-se, perfuma-se,
coroa-se, reclina-se,
deita na taça
o amigo,
e o sorve.


III
Ao fim do dia,
 – supremo sole –
te espero amigo
e festa farei contigo.
E o tempo que passa
é o vinho que reina,
segundo Alcino o poeta.

O dia em um dedo,
o sol declina,
bebamos amigo,
reclina-te comigo.

O vinho, candeias
a vazante e a maré-cheia
são tuas veias,
à lua plena

IV
Die solido
vigiles lucernas
ao dia sólido
beber é vetado.

Vigiles lucernes
os crânios, crateras de vinho
como candeias
cheias de óleo.
E luz
a mente do homem
repleto de vinho.
É um sol
 – vigiles lucernes –
vigilantes lucernas

V
O sol se põe,
o vinho desce

Ao die sólido,
a urina é vertida

Homens secos
ao die  sólido,

úmidos ao sol
que se oculta.

VI
O poeta lembra-se da morte
e convida a beber.
Oferece um bode a Baco,
um cordeiro a Fauno
ou um porco ao Gênio
tutelar de cada conviva.
Sabe
que é breve a vida
e liba.

Ungem-se, perfumam-se, coroam-se,
coroam com rosmaninho
pequenas estátuas
de Lates e Penates,
e reclinam-se em trançados de linho.
E se há piedade
pode não haver vítima,
basta a oferta
de um pouco de trigo e de sal.

Após o sacrifício
se  come,
após vem o symposium
o convivium
o momento de beber.

Antes do festim
servem-se uvas
passas, nozes, figos
secos,
e quanto à ceia
o quantas mensaras
as boas coisas
de que se serve:
A vida é um banquete
do qual se deve
sair satisfeito.

Amigos e amigas,
e amigos de amigos e amigas
chamados umbre
sombras.
Não há nada no mundo
como um amigo!

VII
Rure beado
rude felicidade,
maior felicidade
de rures amantes.

Amabes insania
loucura mística
além do ser
o ser
o sempre além
o não sofismar do ser.
O Baco venerandos
o deus loquaz
o deus veraz.
Os dulces amores.


VI
E cantam
os mitos
da origem
do mundo
e da lira:

a
Caos, imensa boca
em abismo
engole a terra
 e cospe
o caroço de uma azeitona.
E quando de Geia surge Urano,
Eros de imediato aparece
e os une.

b

Mercúrio faz

a curva lira
da carapaça
de uma tartaruga
e tripas de um boi
e a entrega
ao irmão Apolo.

c
A lira de Orfeu
abranda feras
e seduz aves e lebres.
A lira de Ánfion
remove pedras

e funda cidades.

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