sábado, maio 17, 2014

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Um comentário:

@Sin_apses ( Cida Valle ) disse...

A intensidade deste grito poético sempre e ainda me surpreende.
E não é a Poesia eterna surpresa, embrulhada nos papéis com os quais no (tra)vestimos?
Augusto dos Anjos, discriminado e marginal,como o somos muitos de nós. E único.
Evoca o desprezo, o desesperado clamor de ser reconhecido, acolhido;pérola em ostra. Tem amor. Um amor demasiado que se dá, herege...e sofre.
Com a visceral humanidade se esvaindo em poesia, fecha dramaticamente o verso, como o veio da vida.