segunda-feira, julho 07, 2014

Coluna de Cláudio Rodrigues - excepcinalmente hoje, segunda-feira



Sobre Divórcio
um romance de Ricardo Lísias


Casado há quatro meses, o escritor Ricardo Lísias folheando ao acaso o caderno de diário de sua mulher, conhecida jornalista cultural, descobre que ela o trai e mais ainda, o que o perturba, que ela o despreza. “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu”, escreveu a mulher. Confuso diante disso, ele sai de casa, refugiando-se em um barracão que mantém como escritório, onde tenta se recompor. Dividindo-se os capítulos nas etapas da corrida de São Silvestre, que ocorre na cidade de São Paulo na passagem do ano, em cada qual relata as etapas do resgate e a recuperação de si mesmo, intercalando com fragmentos do diário que vai revelando ao longo do livro.
Este é o tema do romance Divórcio, sexto título publicado por este autor que tem se afirmado um dos mais importantes de sua geração. Lançado pela editora Alfaguara no ano passado, além de bem recebido pela crítica e pelo público, gerou polêmica desde o seu lançamento, exatamente por romper os limites entre ficção e realidade ao confundir o narrador e o autor. Lísias já havia se utilizado deste método em seu romance anterior, O Céu dos Suicidas, publicado pela mesma editora um ano antes, em que relata a morte de um amigo.
O rompimento os limites entre ficção e realidade é uma das tendências da literatura de ficção contemporânea. Dos autores que se utiliza deste procedimento destaca-se o escritor catarinense, radicado em São Paulo, Marcelo Mirisola. Em seus textos, entre contos e romances, Mirisola cria um narrador personagem como uma máscara, uma persona, mergulhado em seus delírios pessoais e suas histórias de amor, desamor e depravação, apresentando situações e idéias consideradas fora dos padrões politicamente corretos, o que vem gerado muita polêmica. Mas apesar do nome próprio de que se utiliza e alguns dados de sua vida pessoal, seus textos estão longe de serem auto-biográficos. Entre os romances que mais se aproximam do método utilizado por Lísias em seus dois últimos títulos, destaca-se O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, em que o autor utilizando-se de um narrador na primeira pessoa, relata as experiências de um pai cujo filho tem síndrome de Down, sendo que o autor realmente tem um filho com esta característica. Como nos últimos romances de Lísias, neste livro a história pessoal penetra o espaço do ficcional de forma a que não se possam distinguir as duas instancias.
Este método de borrar as fronteiras entre o ficcional e o real num jogo de espelhos, no romance Divórcio causa desconforto o que fez gerar polêmica desde a sua publicação. O texto foi considerado por alguns críticos um “romance-vigança”, por expor em suas páginas o seu processo de divórcio e ao se fazer um retrato de sua ex-mulher, pois a cada novo fragmento do diário que ao longo do livro é colocado a público, revela-se ser uma mulher fria e calculista.
Defendendo a autonomia estética do romance, Ricardo Lísias afirma que em Divórcio nada é real, mesmo que o narrador ao longo do livro afirme por várias vezes o contrário ao repetir “Estou de fato dentro do livro que escrevo”. E o que se procura ao borrar as fronteiras entre o real e o ficcional é causar desconforto, provocar o leitor para tentar tirar a literatura do marasmo, trazer inquietação para uma ficção que tende a ser acomodada.
O autor utiliza-se de repetições com alterações que seguem paralelas ao seu esforço para aprender a correr e se preparar para a corrida da São Silvestre, que acontece no último dia do ano na cidade de São Paulo, ele intercala cenas das etapas do treino com fragmentos do diário de sua ex-mulher. E a cada vez que repete um fragmento do diário, apresenta uma modificação, expondo desta forma a feitura do próprio livro. Como diz o próprio Lísias em uma entrevista ao blog Brasileiros, o livro pretende colocar e discutir questões do narrador para um público ainda bastante acostumado aos padrões do realismo do séc XIX. O narrador moderno já se coloca dentro do jogo ficcional, o que confunde o leitor que não consegue distinguir o narrador do escritor.
Publicado no mesmo ano das manifestações de 2013, o romance tem a força de um libelo, uma forte carga poética aliada a um potencial político, atacando a grande imprensa e a comercialização da cultura.

Cláudio Rodrigues

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