sexta-feira, julho 11, 2014

para Cida do Valle e Cláudio Rodrigues, com amor e gratidão



“Não é não, pai. É um medo estranho de dormir, sabe?”
Anseios da alma. Eu dizia, mas só os pássaros da manhã, ouvia. Além dos anjos, como agora. Bocca chiuzi, feito a melodia, guardavam amplas claras, alvas e horripilantes, eternas auroras, como agora. Sim faltava-me, e faltou-me. o ar que respirava, quando impulsionado pelo frio da memória. Inventava o frio do amanhã. O frio seco e úmido do invento, inverno. O calor da solidão. Inverto. De fato, causa original do fenômeno, como agora, a solidão causa frio e medo. “Não estamos sós” vivem dizendo. Sobretudo com quem estaríamos então? Deus está por nós em nós, em nossos passos desatentos. Deus está conosco. Então, nesse vazio labirinto onde moro, queria que Deus conversasse comigo. Se ela mora dentro, aqui no meu corpo, do que penso, do que faço, do que escrevo, decerto não me entendo cem por cento, nesse tal Existir. Por um certo incerto, verto. Mas não me sinto inseguro, nem ajo errado em ser. Sou eu mesmo minha própria invenção. Brilho disperso e derradeiro que o fátuo fogo encerra. Inventei começos que nunca aconteceram.  Inventei meios que não tem fim. Inventei afim de vive-los, vê-los. Faze-los acontecer, enfim. Uma ideia que está no lugar de outra ideia, o pensamento. Nem que estivessem só em mim. E ali ficassem também. Estivessem, fossem, constituíssem, significassem. Em que consiste viver? Olha que eu já li O Ser e o Nada e acho que entendi. Já lhe disse que minha epifania é “quão? ”, o oposto da epifania de Hamlet “ser ou não ser? ”.  E não “como? “, “quando? “, “onde? ” ou “por quê?”. Com quando tenho fome. Ando quando é necessário. Vivo porque é necessário viver.
Que ânsia distante perto chora?
não há afeto, nem alma, nem caixinha de Pandora.
Escrever é o desespero com que tento balbuciar alguma coisa indizível. O QUE SENTIA? Nos dias não vividos que passei sozinho? Noites eternas e madrugada sem fim.
Devia chorar mais por ela.
Mas, o que fazer com o choro adulto? Escrever é meu canto de pássaro que se perdeu. Perdeu abrigo. Perdeu-se dos amigos, dos companheiros que com ele voavam. Perdeu sentido e adquiriu outros, como ainda perdido um pássaro tem asas. Sem verbo, sem dia, sem mim.


CONTINUAÇÃO

Por qual das razões? - ela me pergunta.
Sou um suicida – respondo. Por alguns segundos eu não morri.
Não, Guga – fala carinhosamente.
E prossigo – salvo pela modulação vocal bakhtiniana.
Você é um sobrevivente – garante.
Certamente sou – digo a ela, e esclarecendo o que afirmei sobre a força da modulação linguística começo uma descrever o que se passou naquele dia. minha mãe gritou "Afonso!", com um tom de voz que continha o perigo da urgência dentro de si. E foi assim. Ele me segurou, ela correu para pegar a tesoura. Click. Não me lembro mais nada. Urinei na cama (ato reflexo) próxima à janela onde pendurei o cabo que esmagava minha goela, e fui depositado cuidadosamente pelos braços de meu pai. Acordei olhando a cara dele que dizia "filho... filho...". Não tive resposta, senão "oi pai...”. Uma sad history com um happy end – misturei. Ao menos that’s what I wanna think – concluí. Dói. If din’t hurt, I wasn’t moaning so much – terminei. Ainda em inglês, pra disfarçar.
It means a lot for you and tells a lot about, about you.
Ela respondeu. Também em inglês.
Então eu disse “é uma coisa que se faz”. Meu corpo pedia. Exigia. Ciente do mal que sentia, simples
mente
eu nunca sequer havia cogitado essa ideia. Acho melhor sonhar.
Graças ao Pai, você teve a possibilidade de voltar - algo inspirou essa moça a dizer - e mudar o dia. Eu fico feliz por isso!
Então contei um fato que acontecera poucos dias antes.
Você acredita que um amigo falou em se matar? Justo comigo! Ele contou que seu guru espiritual havia praticado o autoextermínio. Perguntei “hara-kiri”? – ele é descendente de japoneses, o meu amigo, por isso. Respondeu “Não. Se jogou no mar, de uma ponte”. Então disse que ele não tem educação. Fiquei puto!
Acontece, parece prova... – alegou, tentando me acalmar.
Foi então que me lembrei de uma artimanha social.
Você quer desbancar uma pessoa? – pergunto. Diga a ela “Ei, você não tem educação? ”.
Tipo, olha aí a merda sem volta que você ia fazer... – voltou ao meu episódio.
Foi só o que pude dizer a ele – tergiversei. Reitero o que disse – não se pensa. Daí contei outro fato. Sabe, o Klaus falou certa conta.
Diz, Guga. – tratava de “Guga”, um apelido carinhoso que aceitei de bom grado.
Ele falou "deixe de sentir pena de si mesmo" e eu respondi "não é pena Klaus, é frio" compreende? – pergunto, para ver se havia entendido como eu quis me expressar.
Sim, sim, sim! – repetiu. “Mas ninguém sabe, de fato, o que se passa na cabeça de um suicida” pensei baixinho. E derivei novamente.
a lua está linda! A gente não pensa "estou com frio" apenas e só "sente", e depois "como eu fui burro" – não conseguia subterfugio para cambiar o rumo da prosa.
Então sinta o calorzinho bom de carinho – ela é linda, pensava. Mas continuei.
"Podia ter morrido" – explicava, colocando o sujeito em terceira pessoa – "mas era isso que eu queria?" Não sei responder. – Indago. Afirmo.
Muito amor colorindo sua vida. – cheia de afeto. Como eu gosto dela... e realmente sentia esse calor inexplicável aquecendo meu corpo.
Não, você não queria. – quanta certeza sobre mim. Como?
sim-não-sim, não-sim-não. – eu repetia.
Você quer amor! – dessa vez ela pareceu conhecer-me profundamente.
São triangularidades... não são dualismos. – descubro que triangularidades consta no dicionário.
Você quer amor? – “precisa perguntar? ” Pensei. E disse.
Quero. Me dá. Me vende. Me empresta. Me mostra! – mais do que depressa.
Você não sente, não percebe? –
Sinto! – pensei “será que não entendeu que é algo que se sente? ”.
Você o tem, Guga. Só isso... – ela havia compreendido.
Ooooooooooooooh! Que calorzinho... – voltava a sentir aquela afetuosidade abrasadora, candente, tropical.
O Klaus também te ama. – atestando, me enchendo, me preenchendo. – e te admira. E eu também. E a tua família. E os teus amigos. E os porraloka tudo! – ri, mas ocorreu-me dizer:
Só eu que não? Que merda! – mais um momento de epifania, mais um véu a se puxar...
Como você diz, “é massa! ” – usou meu linguajar. – Guga, a gente aprende a se amar. Lembrei da canção.
E o que eu faço com esse amor que amo tanto e que no entanto... – cantarolei – sabe que eu sentia frio realmente. E veja, nunca uso essa palavra real. De fato, senti muito frio às noites. Eu sentia. –
Frio real? – duvidou acreditando. Pergunta retórica.
Sim, indizível ranger de dentes. – respondi – eu sobrevivi, Letícia. Como você disse, ou nasci de novo como dizem. Sei lá... renasci.
Fez escalda pés? Água bem quentinha com camomila. – ela mudava de assunto quando eu mergulhava nele.
Dentro de mim. Renasci dentro de mim. – concluindo.
Hahahaha – ela riu e adjetivou – Beberão lindo, viu...
Quanto ao escalda-pés, hoje não deu... – a atmosfera fraternal livre fluía...
Dá arrepio, esquenta. – explicou e ficou com sede.
Vou beber água, tô com sede.
Estou tentando igualar a dessemelhança que possa existir. – pensei alto – ok, tenta ver a lua! Você me deu intuição de como vou fazer elaborar o livro, o Terceiro ciclo. Intuições de temporalidade. Madrugada infinita, o dia em que acordei palavra, a noite em que dormi palavra e acordei silêncio, dormi silêncio acordei palavra. – elucubrava – quando não pude mais dormir aprendi a escrever. E vou terminá-lo assim “hoje eu dormirei palavra, pois amanhã acordo para a VIDA! ”, bem autoajuda. – brinquei. E parafraseando Vinícius – o passado será apenas como passos que se perdem sem memória. Feliz vestal... esquecendo o mundo e por ele sendo esquecida. Brilho eterno de uma mente sem memória. Deus cria a si mesmo. Bem, pelo menos na minha história.
O céu está nublado, a lua deve estar de edredom. – ela voltou! Pensei que falava sozinho, eu e minhas personalidades. – E disse – Guga, simbora dormir?
Sim, vamos. Fica com Deus. – repliquei.
Estamos com Ele! – que alegria ouvir aquilo – que Ele guie nosso caminho!
amém! Amém! Amém! – repeti várias vezes, inclusive internamente. E agradeci – você me iluminou nessa noite. Você é a lua... beijo sua alma.
Eu acredito muito que Deus é onipresente. Então ele está aqui, aí, na grandeza do calorzinho do amor infinito. Que Ele esquente você. Beijo, até mais... – nunca havia sentido aquelas palavras tão de perto. Nunca havia ouvido tanto afeto. Ó cruel saudade que ri e chora... Deus, que Ele nos abençoe essa noite.

Obrigado por ser amiga e conversar comigo, o que no fundo seria obrigado por existir! Às vezes é chato existir, mas às vezes "viver distrai" como disse a Mardou certa vez. E eu concordo com ela, por idealismo. Quero mesmo distrair-me com o mundo, e viver distraído. Sem mágoas ou traição. Trair a si mesmo é um instinto. Casos... coisas que fogem à razão. Parece que eu disse algo sem nexo, né? Mas não. Há um sentido de verdade nisso o qual quero encontrar. Quero ser livre. Sou Cavalo. Nem todo rio corre pro mar. O mar simboliza a morte, mas no sonho eu boio numa lagoa de águas calmas.
Acho que é o poço de uma cachoeira. Já estive em tantas...cada uma mais bela. Essa é minha percepção de vida nesse momento. Assim é como eu a sinto. E assim, aliás, de fato, às vezes realmente* sonho, salvo o sentido relativo de real* - a palavra que evito, que devo evitar – o saber mudou meu modo de falar. Compreendo que tenha sido por adquirir novo panorama sobre o conceito, mas de vez em quando, bem, bom mesmo é ser livre para poder dizer “amigo, no real? É tudo uma grande ilusão" tenho medo agora, nesse exato momento. Um medo que jazz em silêncio. Embora no imo da minha ideia de sensação de noção de percepção, estou (de qualquer forma, também nessa página estou escrevendo) escrevendo vendo endo ndo de end
Memórias de um suicida, ou suicidado, devia se chamar. Não tenho mais tempo para contemplação. Ontem chorei muito ao escrever um pedido de desculpas, uma remissão sobre meu cotidiano gênero epistolar Diários é um romance confessional não-linear. O último capítulo sempre estará faltando. Pra que entender? A vida é cheia de surpresas, não é? Cansei de lamber ferida. Só quero só viver. Ser barco nesse rio. Já é um tanto não é? Às vezes basta só seguir pra frente
como
a vida
faz

Vocês são meus únicos amigos...

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