sábado, agosto 23, 2014

Campo grande de possibilidades


Viajar.
Eu queria na verdade era sair de BH. Saí de BH para fugir do apego desmedido que crescia dentro mim, uma sensação medonha de estar no lugar onde eu gostaria de envelhecer pelo resto da minha vida. Osso. Eu que nunca morei na praia.  Eu que nasci e me criei em São Gonçalo do Rio Preto, e pra cursar ensino médio, subi o morro pra Diamantina, a 50 km dali, e depois pra fazer faculdade vim morar na capital. Morei em três cidades mineiras e quando me desloquei foi pra estudar.  Nunca meramente por escolher um lugar no mapa onde eu quisesse viver. Hoje, caio na estrada nessa ânsia de experimentar antes de escolher.
Então cheguei aqui em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. 
Ativista sem palpite, procurei informações sobre os movimentos sociais da cidade, as organizações políticas, a cultura independente, onde estavam, o que questionavam. Das respostas que ouvi a maioria se limitava a dizer que não estava muito por dentro, mas que pelo que sabia, movimento social aqui era “só MST mesmo”.  De fato, do avião pude perceber que a paisagem é praticamente toda dividida entre enormes propriedades pecuaristas. Logo, à margem dessa dominação, estão os pequenos produtores e as comunidades indígenas.
Por um momento pensei que para além disso, talvez não existissem razões pra protestar. Certo? Errado. Sempre há.
Além da pecuária ostensiva que ameaça comunidades indígenas e produtores rurais, em Campo Grande existe um escancarado monopólio político que persiste eleição após eleição. Partidos de direita perpetuam-se nos cargos de poder, de tal modo que também estão devidamente representados e fazem operar seus interesses até mesmo dentro do Ministério Público. O último prefeito da capital sul-mato-grossense, que se elegeu pelo voto popular, interrompendo a permanência de vinte anos de poder do PMDB na administração municipal, teve seu mandato cassado num episódio cuja opinião pública entende como tendo sido um golpe da direita.
Arbitrariedades seguem.  Para ilustrar um pouco mais, haja visto as inúmeras reclamações que denunciam a negligência e discriminação que manifestações culturais de origem africana tem sofrido na cidade por parte de seus dirigentes. Manifestações com influências do candomblé, umbanda, e até capoeira já foram barradas pela administração municipal. Na contra mão, um grande evento gospel evangélico está sendo produzido com investimento de dinheiro público. Detalhe: a secretária de cultura e o prefeito atual de campo grande são evangélicos.
Do macro ao micro, recentemente, com alguns recém-conhecidos, eu conversava descontraidamente num parque público, bastante arborizado a céu aberto. Uma das pessoas que estava comigo sentou-se no encosto de um banco de concreto, colocando os pés sobre o assento. Um guardinha municipal se aproximou. Pensei que ele ia dar chilique por causa do baseado que a gente discretamente tentava bolar, mas pra minha surpresa, ele apenas disse: “Rapaz, senta direito no banco, por favor.” Meu queixo caiu. E caiu um tanto mais quando o dito rapaz obedientemente corrigiu sua postura no assento.  Em pleno parque público arborizado e a céu aberto. Um tipo de cerceamento medíocre e gratuito, movido pelo bel prazer de exercer autoridade sobre o outro, massacrando a sua liberdade individual de pôr a sua bunda onde você quiser contanto que não ofenda e desrespeite o espaço individual alheio. E o pior, o cara, o mal sentado, aceitou e obedeceu caladinho.
Conversei com ele e com outras pessoas sobre estas questões. Em todos os momentos percebia que sim, os campo-grandenses da minha geração estão bem informados e tem sempre uma opinião crítica contundente a colocar, mas estranhamente, ainda não demonstram nenhum ímpeto de questionamento direto a estas arbitrariedades e abusos políticos. Um certo conformismo desistente e derrotista.  
Como essas pessoas que reclamam, reclamam...  e no fim dizem que não gostam de política. Eu pessoalmente acho que essas pessoas confundem as coisas. Porque na verdade o que acontece é que a política simplesmente não se dá do modo que elas gostariam. 
Tenho pra mim que não há nada que retarde mais o processo de construção política de uma sociedade do que essa nossa insistência alienante em alimentar nosso desinteresse pela política. Primeiro porque política é antes de qualquer outra coisa, algo que rege nossas micro-ações cotidianas, a micropolítica, a cada momento que dirigimos palavras num diálogo, observando interesses a alcançar, estamos praticando política. Segundo porque o que nos incomoda não é a política... é este bando de gente mal educada que o povo teima em eleger e que só faz merda desde a hora que entra até a hora que sai - quando sai - do poder. E daí que persistindo em ver o problema como se não fôssemos parte dele a gente se transforma numa classe social apática e indefinida, digamos que até meio folgada, que se dá ao luxo não gostar, resmungar e não fazer porra nenhuma. Desperdiçamos a chance de assumir a responsabilidade e exercer o poder que nos cabe nisso tudo.
Eu também fui assim. Eu também gastei muito tempo da minha vida reclamando, achando tudo uma merda sem solução. Mas aí veio o carnaval chutando a família mineira* e me mostrou que não importava tanto pelo que se luta... A luta em si é necessária, pra que a gente se dê conta de nossa própria força e responsabilidade nesta engrenagem, e na medida em que conquistamos espaços que nos são de direito, percebemos quantos mais espaços temos ainda, por direito, a conquistar. Num belo horizonte eu vi raiar o dia em que todas as pessoas a minha volta, mesmo sem saber porque lutavam, entenderam que lutar era a única coisa a se fazer. E que lutar por si só, já era uma conquista. E da luta fez-se a festa, da festa fez-se a luta, e assim o movimento segue. Os políticos continuam corruptos, a polícia continua estúpida e violenta, as leis continuam abusivas... Mas o povo a cada dia se liberta um pouco mais da espessa nuvem de ignorância, e a cada dia novas pessoas se unem, mais conscientes e seguras do que podem e devem fazer, independente do que delimitam as regras, para propor alternativas.
Toda a merda que há não tem a menor chance de mudar antes que se mude a mentalidade da sociedade que assiste passiva a tragédia política brasileira, e movida por um senso de derrotismo precoce, sem nunca ter ido à luta, se permite ser explorada.  E o que se pode fazer ao invés disso? Ora! Protestar.  É um mínimo, e já ajuda muito. A cada vez que uma injustiça se anuncia ou é cometida e todos assistem calados, um tantinho de gente se dá bem as custas de um monte de gente que se ferra, enquanto outros montes de gente seguem na ignorância.  A cada vez que o protesto acontece, pode ser que o mesmo tanto de gente se dê bem as custas do mesmo tanto de gente que se ferra, mas se o protesto é bem feito, cada vez mais pessoas vão se dar conta do que acontece no mundo, para além de sua esfera pessoal, e conscientizam-se (devagar devagarinho, assim como caminha a humanidade) como tudo está interligado e todas as vidas se afetam no tecido social.
Não há tempo a perder peitando polícia e autoridade... Qualquer mudança dessa minoria só é possível depois de uma mudança no interior das classes oprimidas, sobretudo as que ainda não se deram conta do quanto são oprimidas, ou se já, jamais se dispuseram ativamente para sair deste lugar.
Bnegão disse (quem sou eu pra duvidar...) “discutir sobre o fim da violência” - e aqui cabe pensar como violência qualquer tipo de opressão e injustiça – “é quase que total perda de tempo, paliativo... Nada muda, enquanto não mudarem os valores na raiz de todos, eu disse, todos... exploradores e explorados, violentadores e violentados, por que tudo é meio a meio, tudo caminho lado a lado”.
E por aqui concluo, na esperança de ter conseguido plantar qualquer semente de desobediência civil e consciência política ativa em solo campo-grandense e no imaginário de quem quer que me leia. As vezes a melhor coisa melhor que pode acontecer na vida de uma cidade é sofrer uma grande injustiça por parte de seu governante, uma injustiça tão grave que leve a rebelar-se até o mais conformado dos civis. O que seria de BH se prefeito Márcio Lacerda não tivesse proibido a população de ocupar a praça? O que seria de mim se eu não tivesse o Marcio Lacerda pra confrontar? Na certa estaria ainda na comodidade alienada de minha vidinha egoísta, escutando música dos 60 e 70, achando que a minha geração era perdida, a política uma merda, e que eu não tinha nada haver com isso. Presente na vida de uma cidade é fazer um a um despertar para a realidade de que tudo está a seu alcance, mas que pra chegar é preciso iniciar o movimento. É nosso direito e nosso dever.
Não acredito que as pessoas sejam mais ou menos do que elas querem ser. Pessoas são o que querem ser. E só se é a parte oprimida quando se quer sê-lo ou quando se aceita a condição. Dá no mesmo. Aceitando uma injustiça, somos cúmplices dela. Uma pessoa deixa de ser oprimida no exato momento em que se rebela. A partir deste momento não há mais quem oprime e quem é oprimido... O que há é a luta. 

“Lute por seu direito de festejar. Festeje o seu direito de lutar. Na vida, pra cima, e já.”
                                                  Bnegão

por Mariazinha





Nota: referência a famosa marchinha do bloco da Alcova Libertina, que canta: chuta! Chuta! Chuta! ...chuta a família mineira!) e ressalta o carnaval como lugar do triunfo dos libertinos contra os moralistas tradicionais mineiros.

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