quinta-feira, agosto 14, 2014

Ideias abstratas




A filosofia é feita de ideias abstratas. Van Gogh, Gaugin tentava retratar a paisagem doravante a cor. Cor amarelo... como nomear aquela cor? A palavra insiste em falar da cor assim como a cor insiste em retratar a realidade. A realidade é de cada um como a filosofia. Como coisa abstrata ele mesmo contempla, reflete e crê no conceito, criado ou fabricado. Selecionar o pretendente e o problema, seu conceito e sua forma de crer. Alguém pode criar um conceito extraordinário (Nietzsche) surge a questão da rivalidade de pretendentes. A cidade ateniense tinha o seu problema e conceito, tipicamente grego. Na democracia ateniense a magistratura como objeto desejado tinha seus rivais, portanto, Platão cria uma escola para pretendentes desse poder. Essa rivalidade contribuiu com a ginástica, criou os jogos Olímpicos, etc. A filosofia exige a constituição do problema e a criação do conceito em função do problema proposto hoje em dia.
A história da Filosofia é, como na Pintura, uma espécie de arte do retrato. Faz-se o retrato de um filósofo. Mas é o retrato filosófico de um filósofo, uma espécie de retrato mediúnico, ou seja, um retrato mental, espiritual. É um retrato espiritual. Tanto que é uma atividade que faz totalmente parte da própria Filosofia, assim como o retrato faz parte da Pintura. O simples fato de eu invocar pintores que me levam a... Se eu ainda volto a pintores como Van Gogh ou Gauguin, é porque há uma coisa que me toca profundamente neles: é esta espécie de enorme respeito, de medo e pânico... Não só respeito, mas medo e pânico diante da cor, diante de ter de abordar a cor. É particularmente agradável que estes pintores que citei, para citar apenas estes, sejam dois dos maiores coloristas que já existiram. Ao revermos a história de suas obras, para eles, a abordagem da cor se fazia com tremores. Eles tinham medo! A cada começo de uma obra deles, usavam cores mortas. Cores... Sim, cores de terra, sem nenhum brilho. Por quê? Porque tinham o gosto e não ousavam abordar a cor. O que há de mais comovente do que isso? Na verdade, eles não se consideravam ainda dignos, não se consideravam capazes de abordar a cor, ou seja, de fazer pintura de fato. Foram necessários anos e anos para que eles ousassem abordar a cor.
 

Estou lutando com um quadro que comecei alguns dias antes da minha recaída, um ceifeiro; o estudo é amarelo, terrivelmente empastado, mas o ponto de partida era bonito e simples. E agora vi nesse ceifeiro - vaga figura que luta contra o demônio sob o sol para concluir o seu trabalho -, vi nele a imagem da morte, no sentido de que a humanidade seria o grão que é ceifado. Portanto - se você quiser -, é a antítese daquele semeador que eu pintei antes. Mas nessa morte não há nada de triste, tudo acontece em plena luz, com um sol que inunda tudo numa luz de ouro refinado. setembro de 1889 
Cartas a Théo, Vincent van Gogh

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