quarta-feira, agosto 20, 2014

palavras de cumplicidade à uma jovem poeta



20 de agosto de 2014 - ano do cavalo.







Oi Carol,

Escrevo também, por alguns dos mesmos motivos. Acho que, de fato, as letras esperam a vez de serem soltas em forma de palavras que vão formando uma imagem, de se transformarem, de transformarem, seguindo regras, mas sem regras, por uma pulsão, nem de morte nem de vida, nem tão certas ou imprecisas, em descompasso com métrica, sem fato, sem motivo e (ou) sem vírgula. Meus infinitos porquês também não encontram resposta, minhas florestas também não dão fruto. Sigo também uma trilha, sem, apenas. Não sei de onde ela vem ou se veem, ou se são cegas. Sei que elas não sossegam e sei também que são surdas. Nem sei se são minhas, ou suas ou sei lá de quem. Pode ser que sejam várias, ou calha de ser só uma, alegre ou triste – a palavra. Somadas, desesperadas. Não sei se brotam do corpo ou se partem da alma, que partida se reparte em várias. Múltiplas variantes que se auto organizam conectando os restos mais ínfimos de superstição dentro de si para nascerem. São apenas encarnação, apenas porta-voz, médium de forças superpoderosas.
O conceito de revelação, no sentido de que, de repente, com uma seriedade e uma fineza indizíveis, algo se torna visível, audível, algo é capaz de sacudir e mudar uma pessoa - no mais profundo de seu ser, conta de maneira simples a situação. Quando tenta ser complexa, aí é que são elas. Ela nunca se contenta, com léxico, sintagma ou sintaxe. Ética ou ponderada, austera ou crítica. Ela espera, ela espera... A gente ouve a gente não procura. A gente pega, a gente não pergunta quem está dando. Como se fosse um raio, um pensamento vem à luz, por necessidade, em uma forma sem hesitações. Quando passa não sei me olha. Um encantamento, cuja tom monstruoso dissolve-se. Se numa torrente de lágrimas, o passo ora toma de assalto, ora fica lento, involuntariamente. Não sei se mente, ou fala a verdade corporificada. Ela fala, sussurra, ela grita. Não sei no que, ou em quem, ela acredita. Se reza uma oração, se tem dogma ou se tem bíblia. Se vem do genoma ou da genitália – nunca tive escolha. Quando cai do alto... ou brota do fundo da terra. Surge do chão do quarto, do teto, da nuvem. Se molha meus olhos, não sei se chovo quando lacrimeja. Ainda que por favor ou por amor.


Peco quando peço
sem cedilha 



Parece que é a mesma. A mesma trilha a ser percorrida, a mesma prece, sob um diferente mesmo prisma. Desatento, ela passa a existir. Ela não tem hora marcada, também não marca hora. Ela (               ) assim do nada, quando menos se espera. Paeter onipotentis eterni Deus. Vou pro sol aquecê-las, sê-las, esquecê-las. O fio de Ariadne - a palavra. Berro eu grito, se cio, dissocio. Eça cicia, delícia delicia, e põe tudo a perder. Ela é meu tesão predileto. A dimensão onde vivo, meu chão, meu teto. Quando ela se aquieta eu deito. Eu a amo e nem sei nome, epíteto, apelido, apodo, vulgo. Como, onde ou quando... ela vem às vezes ou só vez em quando. Quando ela vem... ultrapassando e atravessando o tempo, aquém da anti-matéria, além do espaço quântico. Não espacial quando tanto. Entristeço quando some. Alegro-me quando chega. Ela se abeira de mim ao pé da cama. Ela também me ama e me odeia. Deita comigo todo dia, arde, e todo dia eu espero seu alarde, toda tarde. Toda noite, noite, noite que é o meu açoite sê-la star. Sonda-me no silêncio da mais profunda madrugada. Ela é meu orgasmo, meu segredo mais íntimo. Um estar-fora-de-si completo, com a consciência mais distintiva de um sem-número de tremores e transbordamentos finíssimos, que são sentidos até os dedinhos do pé.
Uma profundidade venturosa, na qual o mais dolorido e o mais sombrio não têm efeito de antítese, mas sim de condição, de desafio, como se fosse uma cor necessária no interior de uma tal abundância de luz. Um instinto de relações rítmicas, que cobre vastos espaços – a longitude, o desejo de um ritmo estendido ao longe é quase a medida da força da inspiração, uma espécie de equilíbrio contra sua pressão e sua tensão... Ninguém vai entender o que eu digo. Ela é uma falsa crença mantida com ampla convicção, um indício que ocorre com frequência. Quando a lua se ergue sobre o galo e o sol se deita no horizonte, ela roça meu rosto. Suave arrepio.
No solstício de inverno, dia mais longo do ano, ela aparece e transforma o panorama dos meus planos. Silenciosa muda. Querendo-me como antes. Como amante, não sei, não sei ao certo. Ela se transforma como areia das dunas de um deserto. Deserto, abismo. Ela abisma também o fundo de minha alma, e no sigilo mais profundo ela vaga. Quando escuto sua "voz" sonhada em algum leito loquaz simplesmente....
e
s
c r e
v
o
-
A palavra
minha crença, minha ligação com deus
minha religião
meu templo

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