sexta-feira, agosto 29, 2014

um ano e cinco meses






“Não há missão mais nobre do que se aproximar da Divindade mais do que qualquer outro homem, e então disseminar os raios divinos entre a humanidade”
Beethoven

29 de gosto de 1930 – Ano do cavalo. Noite.

A lua derrama seu sorriso sobre mim. Fina como os dedos de uma dama. Amorosamente ela reflete em tons de amarelo, rente ao horizonte. Flavescente como as horas finais do dia. Suave e bela, ela parece-me enviar um beijo secreto, que só existe além de nós, sem passado, sem futuro e sem arrependimento. Em adagio andantino, como uma melodia. Lenta e envolvente como as notas que precedem a última ária de uma sinfonia, uma ode à alegria. Ao mesmo tempo em que me parece um lamento, ela me rende uma prece. Eu, flébil e solitário, me rendo.
Estou contente em vê-la.
É o anúncio de uma nova fase, e ao mesmo tempo, um olhar de despedida. Um olhar de cumplicidade, doloroso e vacilante. Que nunca mais vai percorrer o tempo. Em breve ela irá embora, embora nada será como antes.
Agora que escrevo eu me lembro que naquele instante retribuí o sorriso do mesmo modo. Lento, doce e erradio.
Sinto que já não sou eu quem fala através da minha voz. Perdeu-se nos ventos que cortantes desse ambiente.
Não sei o que sente quem está morrendo, mas sinto que estou próximo do meu destino. Embora eu não esteja certo disso. O rio que orientava minha trajetória secou durante o caminho, o que me fez seguir o risco do que um dia, teria sido seu leito. A verdade é que o risco se cobriu de areia, e novamente tive que seguir adiante. Inevitavelmente, sem orientação, sem rumo, sem rumo, sem margem e sem destino certo. Talvez seja por isso que algumas pessoas que se perdem no deserto passam a ter alucinações... Acreditava que a verdade fosse o panorama que se enxerga depois da curva de um rio. Portanto, no deserto a verdade inexiste. Somente a imensidão e a verticalidade entre o céu e o infinito vazio. Isso me fez crer na ideia de eternidade.
Se me alguém me perguntasse agora "por que escrevo", não saberia o que responder. Escrevo porque sinto-me como um grão de areia desse deserto. Decerto que a noite me aproxima dessa eternidade e sinto que posso tocar as estrelas com a palma da mão, e acariciar cada uma delas com a ponta dos dedos. No deserto morre-se de ilusão ou de sinceridício.


Um comentário:

Anônimo disse...

Respire fundo / afirmação / alegria/ use e abuse da vida enquanto pode. Bjaí/ Juão