quarta-feira, setembro 17, 2014

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Pedaço de mim que estava preso na garganta, saiu como fumaça de rancores, raiva, desejos de vingança, alucinações. Vociferando ao léu, no púlpito das intrépidas memórias, palavras ordinárias contra a dor. Saudades e ódio, para inutilmente tentar fugir de um desmoronamento. Túneis e pontes, conexões entre o passado e o presente na cachoeira de domínios. Quando os seus olhos de menina vulnerável à sombra de um desdenhoso anjo libertário. Confiar em mim foi como mentir uma traição cotidiana que nos acometeu durante algum tempo. Tempo demasiado denso desde o princípio. Aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhã sublinha essa lembrança, envolve-me o olvido. Falta-me o seu ventre, suas coxas e as minhas coxas, o seu misterioso riso de mulher. Falta-me a nossa cama para o meu longo cansaço. Falta-me a sua vagina ensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura. Espera em sua casa, nessa espessa noite que atravessa.

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