terça-feira, setembro 16, 2014

Por Francisca Bello



Caderno de notas sob um olhar descalço
Fim de um ciclo e signos que se arriscam

Textos e imagens, aparentemente sem nexo de estarem próximos num mesmo espaço. A visão das páginas nos faz pensar em um processo íntimo de memorias, sentimentos que só o dono do caderno sabe porque o fez assim. Usado com suporte do trabalho, foi idealizado e confeccionado pelo artista o que nos remete aos artesãos e alquimistas do passado. À arte povera e à Artur Bispo do Rosário na utilização de materiais como papel craft. Fio de plástico, folhas de papel chamex, lápis grafite. Uma peça de metal, usada para ajudar a enfiar a linha em agulhas, com uma linha preta trespassada na peça nos faz lembrar novamente Bispo, no aspecto do fazer, costura, bordado, texto. Borrões esfumados, como nuvens, quase que cortando o texto ao meio, como se o artista quisesse descansar. Como a nuvem descansa a terra do calor do sol, porém efêmera, mutante. Passageira como a vida e o que vivemos nela. No outro instante segue seu ritmo, escrevendo. Surgem frases fazendo um caminho no papel, montanhas, no sobe e desce como que vencer obstáculos e descansar nos vales. Dois quadrados, coloridos e colados aparecem acima de uma cascata de fios de cores que com um texto "de cabeça para baixo terminam  a outro quadrado também colado. Cascata de fios de cores que terminam próximo a outro quadrado com um texto de "cabeça para baixo" talvez dizendo que há algo no mesmo sentido que o quadrado esteja acontecendo. Cão, pedaço de jornal com notícia, o animal protegendo o que não se pode ter conhecimento.
O artista usou de um símbolo da guarda, da amizade ao homem para resguardar o que fique resguardado. Finalmente, com texto e um solitário, aparecem dois autorretratos, como Durer, Rembrant e tantos outros os fizeram.
Fica no limbo entre o criador da obra e o espectador o mistério do ato da criação. Esta é a beleza da criação artística, venha ela da forma que vier.Assim como este "Caderno de notas" de Gustavo Alvares Perez.
Francisca Bello é ombudsman do Papagaio Mudo

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