quarta-feira, outubro 08, 2014

Mea culpa




Abro os braços em cruz.
Grita que quer viver! Estou de mudança. Mudando de casa, habitación. Mudando de casca, mudando de pele. Choro. Como sempre. Agora com o peito apertado. Prantos disfarçados de passado. Lágrimas do sul ainda não vazaram e entornaram e choveram e despejaram e deitaram sobre as faces e se estenderam e se alastraram pelo rosto, pelo corpo desnudo, sobre a pele. Todo dia a dia é ontem, e o ontem não existe mais. Chove agora. Dor de solidão, mas as palavras... recolhem pedaços de mim e fogem sem dizer. Meu peito está apertado, Klaus. Mudar dói demais, você sabe. E sangra.
Quando meu pai, silencioso e sério, proferiu no universo onde o silêncio mora, seu grito de guerra, de que jamais deixaria a família passar fome, era apenas um menino, Deus-menino, e virou homem. E a profecia se cumpriu e a fome nunca bateu à nossa porta.
Um dia, uma noite, também proferi na varanda do Maletta que iria “varar com força” e bati o pé no chão, e ali ficou meu coração.
Que a profecia (tão minha que tenta reviver) também se cumpra.

in dúbio pro réu

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