sábado, maio 31, 2014

Comum a todos



De tudo que poderia ser ficou a dor.
Exposta como bandeira
desfraldada para ser vista
de longe.
Eu o reconhecia na multidão
pelo andar que o marcou diferente
mas para mim, sinal de chegada;
coração aos trotes, era ele, sim;
era ele que vinha de mentira qualquer
ah, não importava,era ele!
E para ele minha flor-de-laranjeira,
o medo, o riso, os descalços pés
e o amor impune.
Nenhuma poesia será assim.
Todas dirão: igual.
Minhas todas conotações
partidas e sangrando,
bifes da carne trivial
no prato colorex.
Tanta poesia jogada fora
(restos de comida aos porcos)
pérolas lixiviadas do meu rio
que não se acalma
nem se extingue
nem se cala.
       
Cida Valle


   Imagem de Edson Felizardo


.

sexta-feira, maio 30, 2014

"Boca a boca"

Ele era diferente em tudo e de todos os homens aos quais amei. Seu beijo era penetrante, a língua entrava em minha boca e fazia um "tour". Passava por toda ela,por todo o infinito que um beijo possa ter. Boca a boca, loucura de prazer. O beijo, a maior e mais deliciosa intimidade entre dois corpos. O dele.tinha o gosto de boca gostosa, quente, sábia em dar e receber gostosura. Ele era de uma insanidade encantadora, fazia o outro viver e morrer. Opostos que sequer chegavam a ferir e sim de enlouquecer de vontade de estar sempre ao seu lado. Sem sentir falta de qualquer coisa que fosse.Boca que comia do meu corpo, dos meus segredos, dos meus mistérios, da minha vontade de ser sua fêmea, sua mulher, sua amante. Seu amor até morrer.

Hokusai
Francisca Bello

quinta-feira, maio 29, 2014

EDITORIAL


Bem, tenho agora o difícil missão de relatar o que ocorreu nos domínios da literatura brasileira. Acontece na ABL (Academia Brasileira de Letras) um discreto, porém incomum burburinho que alcançou diretamente o além-mundo. O caso da adaptação de Machado de Assis que visa “facilitar a leitura”. 
A equipe, no entanto, que promoveu a adequação das obras para uma linguagem dita atual não se deu o trabalho de indagar a opinião de especialistas. Arrecadou do governo federal uma quantia exorbitante para publicar, divulgar, difundir e disseminar sua proeza em escolas do ensino público. 
Desejo aqui expor nossa política do privacidade. Afirmo que nunca atacamos direta ou indiretamente quaisquer instituições públicas ou privadas, assim como figuras públicas ou desconhecidas. Porém, ouso expor minha opinião de cidadão. Sou contra. 
Sabemos que a doxa – opinião pessoal – geralmente é volátil e imprecisa. Contudo, quando se trata de imortais debatendo um assunto referente ao patrimônio intelectual e cultural da nação, é de nosso interesse saber. 
a colaboradora Aparecida do Valle, adentrou os salões da academia e entrevistou o excelentíssimo professor DOMÍCIO PROENÇA FILHO, doutor em Letras e Livre-docente em Literatura Brasileira, membro da ABL, para discorrer sobre o assunto. 
Não estamos aqui pra julgar o caráter dessa ação irrevogável. Assim como sequer podemos avaliar a priori a qualidade dessa adaptação. Mas como brasileiros e, diante da falência das bibliotecas públicas, desejamos saber o leva um ministro liberar verba para um projeto dessa grandeza. 
A escritora Patrícia Secco, autora de mais de 300 livros infanto-juvenis é a figura principal do caso que está se tornando polemica nacional. Como pode uma educadora promover a banalização de obras de valor e conteúdo irretocável? Quantos dicionários e gramáticas podíamos adquirir com um milhão de reais? 
Bem, fica a pergunta. 
Em breve saberemos o que acontece no desenrolar dos fatos. 
Aguardem a edição de domingo. 

Ass.
Gustavo Perez

Javalis

Javalis



Bombom sem chocolate 
podridão de cabeceira
E eu dizia boca a boca
e imediatamente... 
morreu afogado
Beleza sem precedente
requer oxigênio
Questão de parafusos
em barcos de salvamento
que não incomodem o feto.
Ela nada e nada,
e na mesma - voa baby!
E eu dizia: boca a boca,
observa Vai apetite
Ela nada e nada,
Caramba! não podia explicar
e nem seu Deus perdoar...

I'm sorry


DESCULPE I'm sorry
terra insuportável
Parto da terra exorbitante...
Mas na primavera, tão fascinante
Como abraço frio de água!

Sente-se, não tenha pressa,
não sou tão inteligente
Epígrafe único nome
Escritor poeta pobre...

Que mergulhou na piscina da garganta
Capítulo continua sendo
pairando sobre água e silêncio,
No seu fio curto de cobre...

Que para nadar e vir pra mim
Ambos doutores...
E vejo você à esquerda
Bem, no armário o monstro

Nessa casa tudo acertado
Em meados dos anos vinte...
E em seguida morto
Em meados dos anos vinte...

Afogou-se nas palavras
aquelas que nunca disse
Sem elas sem língua sem fala
em meados dos anos vinte

Sapatos desajeitados

Sapatos desajeitados


Eu certamente vil
vamos matar a loira
embora que não consegui 
Vamos torturar isso conquistou a morena

Já é tempo de mais do que tempo
deixá-la em uma gaiola
deixá-la na cabeça com um buraco de
mulher, cabelos negros vamos abusar

conforme dito nos meus olhos e testa
digamos à parede
e lançou seu corpo na vala
vamos! não vamos dizer a ninguém

e enterrá-la na memória
não há nada mais nojento
do que era apenas um sonho
um madrugar de abril...
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terça-feira, maio 27, 2014

Para Ninguém

Despedida



talvez apenas vasculhou pedaço
da poesia como eu te amei
amigos meus e não só
Eu por você qualquer prosa
e fui terrivelmente solitário

poesia eu não te amo
Eu não escrevi-lhe o sangue venoso
e não me trouxe qualquer esperança
mas aproximou-se em silêncio da cabeça

você ainda mora meus poemas
e não tenho ideia ou conhecimento
você costurou minhas asas
ainda vamos, te peço

.

Rodrigues

Três poemas para Cláudio Rodrigues

condenado perto de três estações
quem de nós não dançar
muito _ muito poucos impecáveis
alma tão negra como o dinheiro

que aprendemos na porra da literatura
mas para nós foi bom
brilho de ouro
xadrez recomposto

bobo rima rotina
pica pouca, pouca menina
Leve-nos Astro maior
porém trazido à cornice

fomos a uma balconista
para sobreviver aqui
árvore de Natal cheiro no lavabo
abafa da nossa morte
 


...



Onde está sua mala preta
no qual a estação
fazê-lo Madame
que perfurou

lá susceptíveis cabelos
outras rimas sem fibra
sem cérebro
sem respirar ou suspiro

há provável DNA
ou impressões
fino tecido do real
e sua correção de menino




...




Mamãe nos levou
jardim de infância de manhã
Jogamos a juventude
açaimar a salada

mas a maturidade presas
sorrimos
comi um monte de abominações
arma de vida

e agora vejo
cuidando do mundo
tremo afundado
fac-símile para

solas gastas e
sonhos
caras esperando
sacos pretos



.

Para Cida Valle

C


não saia de si mesma e não deixe que a vergonha
que não inspira nenhum rebanho de porcos de eventuais choques do time
embaçada sobre cérebros não desenham padrão
peçam permissão para chorar, mas sem precisar também

é melhor entrar nele tão duro
dizer-lhe o que quiser, mas o principal é obsceno
como escreveu o poeta em que as peles necessárias
no rosto e disparou o pente cheio

São muitos por favor não substitua o conceito
e viva a sua vida não especificamente condicionada
se você ver uma mosca em seu batom
aqui está toda a filosofia e sua personalidade, isso é bom





Gustavo Perez

sobre os pintores do realismo russo

Lev Chitovsky
Falsificar poesia

e as linhas de malabarismos
Eu gosto deles Baby
"Vamos lá, porque é urgente"

deixa escapar desajeitado e
não ressoa em nossos olhos
como um novo volume sobre os escoceses em nós

Mas a música ainda tão impaciente
lágrimas e suor escorrendo
minha antena se dobra em haste

e agora - algo me chama

A filosofia nos contos de Machado de Assis - Parte 2

assistam


.

Machado por Martinho

   




nota

Trapaças na casa do Bruxo do Cosme Velho

No horário combinado eu ajeitava documentos na bolsa, verificando pela centésima vez o gravador e a câmera fotográfica, pronta para captar espectros. E talvez respostas esclarecedoras.
Fingi naturalidade quando disse meu nome e quem me aguardava à recepcionista com o sorriso bem treinado.
Mais uma portaria, novo atendimento e nova verificação dos documentos.
O porteiro viu alguma importância no meu tom sério e se desculpou pela demora no atendimento. Indicou-me a entrada, anunciou meu nome. No elevador do prédio novo eu conferia a modernidade e pensava que este não era um local adequado para os fantasmas dos Imortais.
Engano meu.
O cenário do novo esconde mais mistérios do que se pode supor.
Conheço salões decorados com objetos antiquíssimos. Retratos de Cecília e seus doces olhos, quadros em solenes molduras de mais imortais.
Sou recebida no Salão Josué Montello, onde me acomodo admirando Caju, tapeçaria de Concessa Colaço. Mas quero saber do Dono da casa, Machado de Assis. Estaria, mesmo, inquieto seu espírito, como dizem os folhetins e esta nova e mágica geringonça, a internet?
Não imaginei diferentes as horas de espera. Oferecem-me café, mais uma hora e os sofás me acolhem, cansados. Imagino ali, sentada à frente, a escritora que tem assombrado a Cultura com sua versão simplificada, digamos assim, de "O Alienista". Digo assombrado à Cultura brasileira, mas não ao Ministro, que incentivou o "projeto" com um milhão de reais dos cofres públicos.
Ah, sim, em tempo: serão 600.000 exemplares distribuídos nas ...escolas públicas, para os "jovens leitores”. Jovens, mas não culpados disto, para receberem a sentença de deglutir obrigatoriamente uma sopa de letras mal cozidas, com temperos artificiais e corantes adulterando o paladar único, elegante em sua miscigenada e única forma.
O que diria Machado?
Não teme represálias dos fantasmas, esta senhôra?
Na terceira hora de espera recebo as desculpas do Imortal que me receberia:
Há um alvoroço na Casa, que eu o desculpe, há emergências!
Sorrio e cumprimento as vagas presenças. Tão previsível, o desacerto...
Coisas do Bruxo do Cosme Velho. 


                                                                por Cida Valle

segunda-feira, maio 26, 2014

carta para Kozeta

Kozy, 

Esse é um texto, talvez uma carta, sim, que começa do meio pro início de do fim pro meio sem que termine, e daí? É direcionada a você e sinto-me honrado de poder fazê-lo. Escrever pra alguém que pessoalmente não conheço? Conheço sim. Tive acesso ao objeto, no caso o sujeito que é você. Venho aprendido ao longo do tempo. desde que nasci, acho. tenho um coração simples, creia, não duvide. Contudo a vida tornou-me agressivo. O que as pessoas confundem com “violento”. Não vou gastar tempo aqui dizendo que já disse tantas vezes que te admiro. Admiro sua maneira de ser simples também e de alguma forma sinto que seu contentamento provém de um sofrimento íntimo indecifrável que só você conhece. Ou talvez nem você saiba o tanto que fez de ti um ser humano belo. Digo isso porque sei reconhecer o sentimento. Sou sensível a eles, não sei porque. É algo que não consigo descrever. Lembro quando fiz aquela entrevista e você ficou feliz. Queria fazer outras muitas pessoas felizes. É uma boa forma de esquecer de si mesmo, da própria dor, da própria angustia, da solidão, do medo, do desespero dos iconoclastas que destroem a imagem do próprio sonho. Como escreveu o filosofo “É ameaçador sonhar. Sempre é um sonho devorador que pode nos engolir. Ademais que os outros sonhem é muito perigoso. O sonho é uma terrível vontade de poder e todos somos mais ou menos vítimas do sonho de alguém. ” Ou do próprio. Destruir a ilusão do sonho, o sonho que em si já é algo intangível, a ilusão idem, é como perder a esperança na vida. Tornar-se um tolo. não sei bem o que quero dizer aqui, Kozeta, mas seguirei escrevendo. As horas do fim são as mesmas do início. Quando morre alguém outro alguém está nascendo. E o tempo não se importa com isso. O Tempo é o Tempo. Passa depressa para nós que estamos morrendo, digo, embora lindos, belos, saudáveis, a decrepitude nos alcançará a um dia, o dia do último suspiro. te admiro, Koz. Você me desperta paz. Você me mostra como “ser” apenas, e penso que a vida deve ser isso e nada mais. sei que deve ser ridículo meu sofrimento, se formos ver que me prendo ao meu, e como fera empedernida na vontade de entende-lo fico aqui, lambendo ferida, dentro da toca onde posso ser apenas eu apenas. Pena que o mundo fervilha lá fora e sinto falta do convívio entre os iguais. Iguais não somos, claro. Como sentir afeto ao próximo sendo que a desilusão invadiu meus pensamentos? bem, estou revelando o que sinto de mais íntimo. Minha tristeza me faz feliz de alguma forma. Sinto que é como eu disse, a busca da verdade. Talvez ela não exista, eu sei. É um signo que não cujos conceitos vários não cabem dentro de um único círculo. Coerência. Coerência é buscar segurança na estrutura, pois a estrutura nos dá de algum modo, o poder de avaliar o que bom e o que é mal. E só queremos que o bom se aproxime, não é? Passei por cima desse conceito maniqueísta = se não é bom é ruim, é mal, mau... algo paira além de julgamentos que são tão óbvios e que simplesmente reduzem o efeito aos resultados que ele causa. volto no inicio de tudo. Volto ao ponto em que ninguém quis saber o que me deixa desiludido. Espero que não se sinta desgastada por essas palavras de lamuria e desabafo. Mas é que nunca ninguém quis saber o que me deixou tao desorientado a ponto de perder a inocência e não querer acreditar mais no ser humano e na vida limitada que o indivíduo imagina ser o mundo. Muito embora eu não consiga perder as esperanças. muito embora eu nunca tenha quisto por vias de fato novamente o auto extermínio. Aquele sábado eu me deixei levar pela total descrença. Amava. Acreditei no meu amor, algo que sei que é algo somente meu é muito egoísta. Nunca foi meu o amor. Ou foi somente meu, se me entende. E que depositei em lugares insólitos da esperança onde outra pessoa habitava. Éramos um. E duas metades nunca formam um inteiro. kozy, entrei pra dentro de mim mesmo. Habitei a imaginação que busca compreender porque o homem comete a dessacralização dos desertos. Do deserto afetivo, geográfico, íntimo. Discorri sobre tantos porquês sob a efigie da palavra. E, infelizmente, a palavra não diz nada. ainda sofro. Meu corpo pede abrigo. Isso é animalesco, irracional, perigoso. E acaba assim, pelas beiras, pela terceira margem de mim mesmo. Não tem fim. Peço que seja sempre minha amiga. Pois, “um pensamento preenche a imensidão”
Um beijo de quem te admira,
Gustavo


Ps: A vida é mesmo cheia de surpresas

sábado, maio 24, 2014

Afinal...

Belo Horizonte, 24 de maio de 2014

“O ato mais sublime é colocar outro a sua frente”
William Blake

Mãe, 

Quando mudamos para esse apartamento, pensei que a vida fosse me dar uma chance, Ou melhor, pensei em dar a ela uma chance. 
A chance de ser bela, suave, tranquila. A chance de ser apenas uma vida a ser vivida. Sem brigas ou discussões. Sem lágrimas ou cicatrizes, sem mágoas ou manchas de sangue. Sem discursos de arrependimento, sem lamentações. 
Pensei em não pensar nas coisas que não fiz ou não fui. Sem remorso. Sem ócio, sem ódio, sem tédio. Sem remédios imprescindíveis. Sem associações indivisíveis, sem nuvens negras sobre o meu passado. Outros tempos, sem tantos contratempos – inevitáveis em nossa passagem pela existência. 
A vida contrapesa os erros cometidos. 
"A consciência nada tem a ver com a moral, nem com a lei, e pode travar com elas os mais terríveis e mortais litígios: mas é imensamente forte — mais forte que a preguiça ou o egoísmo ou a vaidade."
A vida em linha reta. Letra por letra que completa a palavra, e a palavra que faltava em minha vida – Paz. Paz de consciência, paz apenas, paz de poeta.

"Podemos recuperar a inocência a qualquer momento, desde que reconheçamos e suportemos até o fim o mal e a culpa que nos tocam, em vez de procurarmos culpar o próximo." 
Apenas uma questão de regras, normas, dia após dia, a cada dia, dia a dia. 
Cotidiano, rotina. Todo se completa, tudo que compõe nossa existência no planeta. 
Chance de sentir-me capaz de sê-la, vivenciar a placidez do dia, sem graves problemas. Viver a serenamente as horas. 
Uma derradeira chance de ser feliz e sorrir. Alegre por poder recomeçar. Fazer do mundo minha área de trabalho, meu desktop. Seguir adiante sem olhar pra trás. 
A vida por si mesma e simplesmente. Sem mentiras. Uma vida simples, talvez ingênua e sinceras. Era tempo de recomeçar. 
Não viveríamos mais a sensação que tinha de abandono e solidão, o pranto. Esqueceríamos aos poucos o que passamos juntos, que só nós dois sabemos como foi. Significou muito sentir que sou amado. A porta de saída desse labirinto próprio. 
Opróbrio que seria consertado. 
Se me perdi nas incursões do desacerto, quis prevalecer a recompensa. Nova chance sobre novo teto. Quando nos mudamos para esse apartamento, papai voltou depois de tantos anos.   Quanto eu sentia a falta do meu velho, tanto. Quanto eu queria vê-lo ao nosso lado... perto, fazer feliz com meu novo começo. Recomeçarmos juntos, unidos pelo amor. 
Pedi a Deus a dadiva do esquecimento. Esquecer que a vida furtou-me sua presença. Reatar laços fraterno. Desfrutar do indizível prazer e aconchego. Ouvir cada conselho. 
Anti-herói da minha ousadia.  
A resignação de Ícaro redimido, aquele que sonhou ser um pássaro. Mas “nenhum pássaro poderia voar tão alto se voasse com as próprias asas.”

sexta-feira, maio 23, 2014

medo


Belo Horizonte, 23 de maio de 2014. Ano do cavalo.
19h00min



Adormeci palavra e acordei silêncio
Acabo de chegar de uma longa jornada
oriunda das plagas desse meio

Perdido no deserto das ideias



Queria coisas que não me fizessem chorar mais. Fim de tarde, fim de tardinha, luzes do clarão horizontal das horas, Chet Baker na vereda, nós na varanda, calma muda sonora, horizonte sem memória, alma que repousa, consciência exultante de potência e vitória, o que antes diante agora tão distante, que chora, notas que repicam de repente e canta, e voltam, soltas, poucas, longas, dizer adeus até o minuto último, íntimo, noite que se mostra, gosto de saudade, arrepios na pele, Emanuelle, e voam.



 E quando a madrugada pesa
 ouço os passos do relógio
 ponteiros em sapatilha
 de ponta
 fina e aguda espada,
 o Tempo.

 Dispo
 len  ta
 a camisola
 exponho o peito
 à ponta:
 sem mais medo,
 aceito:
 Transpassa-me,
 Tempo.

                                          Cida Valle.

terça-feira, maio 20, 2014

Criação

Bem, quem disse que os artistas não trabalham? Quem disse que os artistas têm somente vagas inspirações? Enquanto os trabalhadores vivem o pragmatismo diário, de horários de descanso, e para as refeições. A “hora do almoço” é uma criação recente, pensada pelos ingleses que fizeram a Revolução Industrial. Alimentar homens e máquinas determinava essa necessária condição. Em outros tempos, grupos de criação, os chamados coletivos, se reuniam nos porões escondidos da soberana lei de czares russos e assim criaram a Modernidade. Óssip Mandestalm, Dostoievski, Gogol, Tchékov e Tólstoi foram figuras fundamentais para que outra revolução se tornasse realidade – a revolução do pensamento.
A divagação faz parte da formação da ideia, do ideação, da concepção, da imaginação, do diagrama e desenho. No momento seguinte, não fundamentalmente logo depois de ser concebida ela acontece (o vir a ser) no plano de imanência como artifício básico do imaginário. A ideia-objeto encontra-se em um lugar distante da Razão, habita à imagem de elusivos deletérios, esconde-se a sombra de diletantismos próprios, e mostra-se à luz de cômodos venenos que nos embriagam.
Deleuze reafirma, com certa propriedade, que a ideia de ideia(Bakhtin) surge por meio daquilo que o sujeito já viveu, experimentou, viu, ouviu, ou teve acesso. No entanto, creio que a entusiasmo criador pode surgir de algum distúrbio inusitado, algo que foge ao pessoal e coletivo, uma histeria ígnea que dimana em eflúvios talvez não-simbólicos e indivisíveis, que acinte (ou não, no caso da loucura) fulminante e desprovida de moralidade comum, como ato criação.
O sujeito então funciona como vetor desse objeto-ideia, como ferramenta. Não como origem. Apesar de ser o imo criativo-criador da ideia-objeto, o sujeito subjetivo transforma em objeto tátil aquilo que uma vez esteve em seu interior. A objetividade é subjetiva. Ele se vale da matéria da qual dispõe para consolidar o pensamento, a coisa em si (Kant, Der Kategor). Nomeia de forma estrutural, constrói, afere valores e qualidades, determina.O ato de criação passa por etapas que estudos da neurologia empenham-se em descobrir através de estudos epistemológicos, embora ainda não haja alcançado definição capaz concluir um círculo perfeito esperado.
Como avaliar o traço? de onde surgiam as pinceladas de Gogh e Gaugin? Como valorar um matiz de cor, uma queda cromática? Quanto vale um verso rimbaudiano? Jean Cocteau trabalhou durante seus últimos anos em uma obra que permanece inacabada.
A concretização de signos de arte, não se alcançam necessariamente o produto final, obnubiladas por uma série de reveses.

Johann Sebastian Bach





Adormece, encanto e luz,
que sigo em passos
ante-passos
para que não acordes
nunca, nunca mais
de tanto amor.
Adormece, que te acalento,
lenta flor
des-pétala,
imunda,santa,louca,
pura.
Adormece agora
que te amo

para nunca, nunca mais...


.

A madame e a moça do caixa




O policial mandou que a moça do caixa pedisse desculpas à madame.
Não havia a possibilidade de desculpas, nenhuma ofensa fora dita.

"A moça do caixa da padaria de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro ensolarado e rico, trabalha há vinte anos no mesmo lugar.
Madame reclamou do preço do café. Ouviu que só havia café expresso, mais caro que o café comum. Madame reclamou, insultou, chamou a polícia, madame exigiu desculpas. Madame não tolera ser contrariada por uma "empregadazinha de padaria".

Seguiu a trabalhadora algemada para a delegacia numa viatura policial, com hematomas nos braços causados por "algum descuido do policial".

Em tempos de internet, hashtag Fato.
    
                                                                                                                                                                         

..

Apesar de você - Chico buarque

.





..

A título de comentário

 
PARALISAÇÃO        OU    MOBILIZAÇÃO  ?
  
"Salve, lindo pendão da esperança! 
Salve, símbolo augusto da paz!"


Toda a movimentação de verdeeamarelo desta Terra de Vera Cruz
ameaçada pelo rufar dos seus tambores, Brasil.

Ah, Terra de Santa Cruz, não te mereceram os que te profanaram nas urnas, vendendo ao povo sagrado os dentes, a eles roubando o pão e a alma. Ah, Brasil!


Não te honraram nas ruas co'as janelas enfeitadas em bandeirinhas baratas, plásticas como os teus políticos, não te enfeitaram como deveriam, Brasil...
__ Enfeita-se o pavão ? pois...
Que se lhe cubram os pés, como estão fazendo nas ruas e praças e avenidas onde teu povo não caminha.
De lá de dentro da casa-grande-e-senzala grita a mucama, ainda historicamente negra, que chegam os nobres visitantes.
Encolhe-te e foge, Brasil de macunaíma, ou vem expor-te, desdentado, feio, pobre e sujo?
Eis a questão.

segunda-feira, maio 19, 2014

clu clu


O que é ter uma ideia em alguma coisa?

Parto do princípio de que eu faço filosofia e vocês fazem cinema. Admitido isso, seria muito fácil dizer que a filosofia, estando pronta para refletir sobre qualquer coisa, por que não refletiria sobre o cinema? Um verdadeiro absurdo. A filosofia não é feita para refletir sobre qualquer coisa. Ao tratar a filosofia como uma capacidade de “refletir-sobre”, parece que lhe damos muito, mas na verdade lhe retiramos tudo. Isso porque ninguém precisa da filosofia para refletir. As únicas pessoas capazes de refletir efetivamente sobre o cinema são os cineastas, ou os críticos de cinema, ou então aqueles que gostam de cinema. Essas pessoas não precisam da filosofia para refletir sobre o cinema. A ideia de que os matemáticos precisariam da filosofia para refletir sobre a matemática é uma ideia cômica. Se a filosofia deve servir para refletir sobre algo, ela não teria nenhuma razão para existir. Se a filosofia existe, é porque ela tem seu próprio conteúdo.






.

por Renata Ferri

Contos de verão

O pé de manga

Mangueira, né. Mas para não confundir com a escola de samba ou o instrumento de molhar o jardim, chamemos hoje de pé. Juliana, que tinha um rosto encantador e as coxas grossas, menina da cidade que cantava Elis Regina ao som do saxofone, nunca tinha subido em árvore. Com o pé carregadinho de manga ubá, era até perigoso ficar ali embaixo dando sopa, pois as frutas caiam bombardeando qualquer cabeça com o suco amarelo.
Decidida, Juliana inventou e disse que por aquela estrada de terra que ia até a cidade ela não voltava, sem antes conquistar o tronco nas alturas e chupar manga do pé. Por favor garçom, um drink, mango daquiri, aqui para a cantora molhar a voz. Desta vez não seria assim, nada de liquido em caixinhas, garrafas ou copos sobrepostos em bandejas. Ela queria buscar o néctar com as próprias mãos.
A claridade do dia nublado invadia as frestas deixadas pelas tantas folhas verdes que povoavam a copa da árvore. Tentou alcançar o galho mais baixo, porém, as pernas curtas e grossas não permitiram que isso acontecesse facilmente. Recebeu ajuda do amigo, que ofereceu pezinho. E pra cima ela foi. E estava sentada longe do chão, com o galho firme entre as pernas.
Não era suficiente. Juliana ficou de pé, trepou no tronco. Agora já não tinha medo de nada, sentiu-se protegida pelo perigo da queda. Se fosse para se espatifar, que fosse com mais tenra manga na mão. Macaco, bicho preguiça, jabuticaba tiveram inveja da destreza desenvolvida por Juliana em busca do objetivo. De mão cheia, catou a fruta mais atraente que havia em seu campo de visão. Com os dentes, arrancou a casca e mordeu, sugou o gosto doce que escorreu pelo canto da boca, na blusa de boutique e melou os cabelos soltos, longos.
Quando todo o prazer havia terminado, a menina cantora olhou para baixo e viu que não conseguiria descer e nem sequer sabia como e porque tinha chegado tão alto. Como solução, chamou o garçom, pediu uma escada e um drink de morango, fruta que nasce no chão. 

Desculpe, foi engano

.


Te amo ainda,
minuto a minuto
Ainda sofro

Somítico, semiótico
pouco a pouco

ando


Ainda perdido no meio
do povo

voo
sem saber
como


.
.

depoisdashoras

Meu pai foi embora. Partiu para o interior, o mundo exterior. Somos eu e minha mãe agora e tenho um nó na garganta. Não vi o dia, não me despedi, mas esse nó não é de choro nem canto, acompanha-me. O mundo-hoje_tempo-agora, a cada dia, tardia_tardinha_minha certa madrugada. Essa quer ser uma página rosa, reflete no vazio dos meus olhos, como nuvens tingidas de crepúsculo. A primavera é uma longa espera. Floresce, mas despeja nos hiatos, mas ou um pássaro.Vago em vão. Voo...

domingo, maio 18, 2014

"A voz ditou"

"A insatisfação é inerente ao ser humano, a satisfação é a morte"

Cheguei. Tudo ao entorno acontece. Eu quero, não consigo. Eu tenho, não gosto. Eu luto, não ganho. Eu canso, não descanso. Eu vivo, ainda não morri. Tirem este entorno de perto de mim.


tápies

.

sábado, maio 17, 2014

so far

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, maio 16, 2014

Para Pedro 2









“A amizade é o amor sem asas” escreveu Lord Byron.
Quando eu me sentia tão só, maltrapilho e maltratado (lembro-me de um tango rasgado “El perito compañero también me abandonó”) eis que fiz contato com um amigo de meu irmão.
recomendei que desse uma olhada nesse meu blogue que trato com discreto amor paternal e que ilumina meus dias como uma manhã de verão.
Desde que saí do hospital André Luís, por conta de uma mal sucedida tentativa de autoextermínio, o que eu, aliás, considero o cúmulo da incompetência. Fui salvo pelos meus pais e já descrevi essa passagem estranguladora que espero esquecer. Mas entendo esses momentos, movimentos sinérgicos, regulação química, potencialização, recomposição energética que passa pelos desejos.... e pelas atitudes.
hoje, passado esse deletério humano que me fiz durante o ano de 2013, constituímos uma forte amizade que promete ser o eixo de um movimento cultural, construto de uma geração que só faz crescer, mediante signos e sinais do acaso. Meliante, mediante, lá no avarandado, no segredo dos olhos, na militância poética, na flor de janeiro, vento que vem do mar, bem além do fim do medo, na luz do novo começo, no meu jeito de recomeçar inícios, no bem querer, no estado de espírito, na gira, no difícil estar consigo mesmo quando as luzes se apagam e temos que dialogar com as sombras do apartamento.
Um solo de oboé e frases incompletas da ária que estamos a compor.
Paciência.
Lord Byron estava errado. A amizade é um pássaro livre.

"Caixa de Boneca"

Tão infantil o nome dado para este momento difícil que o é o de criar. Mas a caixa da boneca está lá, em cima do guarda roupa, proibida de ser tocada, lá solitária. É um momento filosófico, de decisão, de desespero e medo. Querer a boneca e sua caixa que lhe foi presenteada e não poder toca-lá. A boneca, a caixa não podem se estragar. A posse, o aconchego no colo da dona, a brincadeira de casinha, tudo isto é proibido. Este mundo da brincadeira é fantástico,mas o real está ali, naquele quarto de menina, solitária em seus desejos, na sua falta de alguém para estar com ela, de brincar, acariciar, aperta-la nos braços, e quando ela imaginou que seu presente, sua boneca lhe poderia fazer-lhe tudo isto, ela descobre que no quanto os dois mundos, o dela e o da boneca são iguais. E dentro desta  caixa, a boneca quiçá queira pular, sair e viver com garantias de ser feliz assim como a sua dona", dentro da caixa eu coloquei, junto à boneca um escrito, "Me coloquem aqui e não me deixem sair".
                                                                      




























onde você vive?



Eletric chair

Que tanto um fato pode te assombrar? Por quanto tempo? Eu achava legal naquela moça jupteriana o jeito com que zombava da minha dor, como se conhecesse a fundo os mistérios do coração.

Fui a seu aniversário (os jupterianos também comemoram o dia do nascimento e um monte de outras coisas, de forma bem peculiar). Ela me disse alguns dias antes que achava estar apaixonada por um jovem terráqueo. Pois bem, em seu aniversário, eu não participava do assunto, mas ouvi e pude ver quando lhe disseram que o rapazola estava com uma gatinha do minimal. Vi seu jeitinho. Céus! como seus olhinhos tristes ficam feios, à laia das feras conformadas com o confinamento monótono e eterno. O que faz dela uma principiante no que se refere ao amor, esse sentimento abstrato e demasiado humano, como uma criança terráquea.

quinta-feira, maio 15, 2014

Encontro no abismo

O livro é uma coleção de contos, escrito durante a década de 1940 para um cliente privado conhecido simplesmente como "colecionador". Esse "coleccionador" contrata Nin, juntamente com outros já bem conhecidos escritores (incluindo Henry Miller), para produzir ficção erótica para seu consumo privado. Apesar de ser dito para deixar linguagem poética de lado e concentrar-se em cenários sexualmente explícitos, Nin foi capaz de criar uma destas histórias literárias que florescem, e uma camada de imagens e ideias para além da pornografia.As histórias variam em comprimento, algumas tem menos de uma página e outras mais de cem, e estão ligados não só por permissas sexuais, mas também pelo estilo distinto e ótica feminina de Nin.

quarta-feira, maio 14, 2014

Nobel

[Amós Oz] A Caixa Preta.djvu

Übermensch



A ideia de Nietzsche de "super-homem" (Übermensch) é um dos o conceito mais importantes em seu pensamento. Mesmo que ele seja mencionado muito brevemente apenas no prólogo de Assim Falou Zaratustra, pode ser sensato conceber que Nietzsche tinha algo em sua mente sobre como um homem deve ser mais do que apenas humano - todo-demasiado- humano, independentemente se ele era ou não. Todas essas ideias foram ponderadas e desenvolvidas em todas as suas obras. O conceito, em seguida, parece revelar muito sobre a forma como Nietzsche viu a vida
Um super-homem, como descrito por Zaratustra, o personagem principal de Assim Falou Zaratustra, é aquele que está disposto a arriscar tudo por uma questão de aprimoramento da humanidade. Ao contrário até o último homem, cujo único desejo é o seu próprio conforto e é incapaz de criar algo além de si mesmo, sob qualquer forma. Isso deve sugerir que um super-homem é alguém que pode estabelecer os seus próprios valores, como o mundo em que os outros vivem suas vidas, muitas vezes sem saber que eles não são predados. Isto significa que um super-homem pode afetar e influenciar a vida dos outros. 
Em outras palavras, um super-homem tem seus próprios valores, independente dos outros, o que afeta e domina a vida dos outros que podem não ter pré-determinados valores, mas apenas instinto de rebanho . Um super-homem é, então, alguém que tem uma vida que não é apenas viver cada dia sem significados, quando nada no passado e futuro é mais importante do que o presente, ou mais precisamente, o prazer e a felicidade no presente, mas com o propósito para a humanidade.
Tambores de Pedra


1
A parede fala,
a parede canta,
conta histórias,
marca o tempo,
separa o antes  e o depois.
Reparte o espaço entre aqui e ali.
A parede
palavra é.
Urra em formas e cores.

2
Tambores de pedra
dentro da caverna.
Clamores de vida
dentro da caverna.
O coração da pedra
dentro da caverna.
Caverna
dentro da caverna.
Corpo no corpo.
Som – silêncio de pedra.

3
Pedra bate em pedra, pedras
repercutem.
Língua de pedra falo.
Silêncio.

Medrar-se na pedra.
O tamanho do homem
é medida do mundo.
Dentro da caverna.
O corte do diamante

Coração de grafite.