domingo, maio 31, 2015

Cadernos de notas

O Quê há por trás de uma obra de arte? É uma pergunta que tenho feito já algumas vezes. A pintura, a escultura, a literatura, o teatro, qualquer obra de arte, o produto que rapidamente e, aparentemente, anteriormente é a "observação da realidade, a elaboração conceitual"... Quase todos os artistas tomam "notas" antes de trabalhar. Claro que podem ser notas visuais, desenhos preparatórios, ideias. Muitos fazem-no em cadernos deixando um legado de preciosas e significativas impressões. Frequentemente interpretações para decifrar a complexidade do trabalho. Não são recados nem livros de artista, mas cadernos pessoais mais modestos, coleções de anotações gráficas intimista e rápido, sem pretensões artísticas deliberadas mas imbuído de significado. Leonardo, grande observador da realidade, chama incansavelmente qualquer objeto: o coração humano para as plantas, os tendões do ombro até o focinho de um cavalo de cópia da vida. Por outro lado, é um exercício cognitivo fundamental. A na sede de conhecimento, como poucos antes e depois dele, muitos continuam fazendo. Um dos mais ilustres viajantes foi certamente Goethe, autor de um ensaio poderoso em três volumes intitulados "Viagem a Itália" contendo na íntegra todas as suas rotas ao longo da península da Sicília. O desejo do romancista de aproveitar atmosfera evocativa e vistas pitorescas é um passo muito curto. Serião esboços exóticos de um céu tempestuoso? Vejamos o caso de William Turner (1775-1851), um dos observadores mais prolíficos de fenômenos naturais, cheio de desenhos e aquarelas e pilhas de cadernos onde as obras de arte permitem compreender plenamente o seu gosto por cada manifestação sublime do poder da natureza fez alguns...



Aqueles de Van Gogh parecem quase cadernos de escola, com muitas folhas em praças, em que Vincent nota febrilmente sentimentos e pensamentos, bem como o delinear dos trabalhos que pretendia pintar. Páginas desses cadernos, muitas vezes tornam-se letras a seu irmão Theo.



















Acho que atualmente todos fazem seus cadernos de notas, ou Moleskine, se assim preferirem nomear. Eu vejo uma forma ambivalente arte+texto. sou adepto do modo intimista de se materializar a ideia e o caderno do artista está mais próximo do espectador. É uma vazão das ideias, um expurgo da alma. O escultor faz desenhos do que irá esculpir Michelangelo, Bernini, etc. Os desenhos de Michelangelo são de matar, feitos em sanguínea - um lápis com cor de sangue. O meu trabalho de caderno, com estes textos doidos, fortes, sem sutilezas transformados em uma peça teatral, ou até mesmo qualquer uma frase solta... Penso assim. Vejam alguns vários cadernos de notas. O que eu queria dizer de fato é que existe um "lavoro" depois desse olhar primordial. Isso. Lavoro, trabalho.  Existe essa força que não cessa. Que são quase as primeiras imagens gravadas pelo inconsciente Dentro dela cada cor representa uma parte nossa. Os cadernos são uma coisa única. É o que vem primeiro. Dispensa a oralidade, o simbolismo. É a qualidade primeira do signo. É o fundamento da percepção. Sendo pura possibilidade, não possui distinção nem clareza. Por meio do fluxo contínuo de signos primários, percebemos inconscientemente a continuidade do espaço e do tempo. Como pura qualidade, está incorporado num existente para ser percebido como a qualidade individual, única, singular. Está necessariamente incorporada em todos os demais tipos de signos, mas não incorporam nenhum. É pois, uma qualidade sígnica imediata, tal como a impressão causada por uma cor, forma, textura. Esse quali-signo é uma espécie de pré-signo, se essa qualidade se singulariza ou individualiza. pode gerar uma ideia universalizada (uma convenção, uma lei que substitui o conjunto que a singularidade representa), tornando-se assim um objeto que significa algo dentro de determinada cultura. Se o indivíduo acha que as sensações são de seriedade, para o azul, e de delicadeza, para o rosa, é porque ele percebe essas cores dessa forma singular. Somente depois de atravessar um segundo processo essa impressão ganha sentido. Polissêmico e polifônico...



Um comentário:

Pedro Lima disse...

"Como se desenha uma casa", de Manuel António Pina
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.