segunda-feira, agosto 17, 2015

Quem sabe o que não sabe?

Eis pavões que escondem zelosamente sua cauda e nisso
colocam sua soberba
Nietzsche


Charles Corbet


Hoje é a segunda vez que venho aqui expressar minhas impressões sobre a vida. E na latência do mundão panela de pressão vejo que faria muito sentido prosseguir no tema anterior, sobre a situação em que se encontram as 8 mil famílias do Isidoro, em Belo Horizonte, diante da iminência de uma violenta ação de despejo prestes a ser empreendida pela policia militar. Estas pessoas pedem apoio e eu não poderia deixar de repassar este pedido aos nossos leitores. A polícia anda rondando as ocupações e enquanto isso os moradores clamam por socorro. Mas percebem quanto é difícil fazer com que os outros que aparentemente não tem nada a ver com a situação, se sensibilizem a ponto de que tornem suas a causa do Isidoro. As pessoas dificilmente tem referencias pra dimensionar o medo e a necessidade de quem vive sob a ameaça do despejo... as pessoas estão condenadas às suas próprias referencias. Mas, não pretendendo barrar o fluxo da inspiração que me vem, opto por uma abordagem mais genérica em torno de algo que a meu ver, se relaciona tanto com os dilemas do Isidoro quanto com os de todo mundo. A comunicação interpessoal, que neste momento preenche as cabeças de milhões de pessoas com dilemas relacionais, previsivelmente repetidos sobre a superfície da terra. Iguais aos meus, aos seus, variando aqui ou ali numa peculiaridade ou outra, matando as minhas esperanças egocêntricas de me sentir especial entre os demais. Tanto de gente amando a si, acreditando amar o outro. Eu de cá vendo tudo isso acontecer, vejo-me mergulhada até o côco nesta coisa que chamamos, talvez por engano, de amor. E eu de cá da minha vidinha limitada percebo meus erros mais iguais aos dos outros do que meu ego torto ousa admitir.  Felizmente e infelizmente, não tarda e minha ilusão segue trabalhando para me confortar. Convivo assim, com essa mania de achar que todo mundo tá errado neste pardieiro. Todo mundo menos eu. A dificuldade que eu tenho pra lidar com meu próprio erro equivale a dificuldade que tenho em acreditar que exista vida em outros planetas. E dificuldade, como sempre, provém da ignorância. Por óbvias limitações ambientais nenhum de nós teve chance de passear pelas galáxias a procura de outras vidas em outras terras, ou seja lá o que for, além da terra. Assim a gente segue a nossa vida confortável no aconchego do nosso planetinha e evita grandes preocupações diplomáticas. Paralelamente, eu aqui em mim, orbitando em sociedade, dificilmente vou conseguir sair de onde estou pra procurar vida inteligente em outros corpos.  Ainda mais se estes outros corpos manifestam qualquer coisa que contrarie a minha opinião pessoal sobre as coisas em volta. No sem fim do meu eucomigomesma acabo por não ter nenhuma ideia confiável de nada, nem de mim nem dos outros. Porque quando se dá respaldo à pretensão de ser a única pessoa com a razão e jamais se aceita a possibilidade do próprio erro, não só subestimamos a capacidade do outro de ter um posicionamento coerente sobre as coisas, como damos provas irrefutáveis de nossa debilidade na autocrítica. Apaixonada e apegada a uma imagem perfeita que pintei de mim, fico olhando pra ela, sem poder vislumbrar o que tem em volta e além. Um lado de mim entende isso e vez ou outra consegue ser pragmática, outro lado de mim fica muito puta e se recusa aceitar. Como assim eu não sou o centro do universo, isso é ridículo!.. Daí que meu lado mais sereno me pergunta quantas vezes eu pude de fato saber o que eu fui, ao invés de ficar acreditando que eu era o que eu gostaria de ser. Meditando sobre isso, me arrisquei uma conclusão: Certezas são muito perigosas - entendendo o que todo mundo já sabe, embora também não entenda. Quando eu acerto e recebo elogios, minha vaidade vibra e louva esta imagem que eu desenhei de mim mesma. Quando eu erro, e tenho tranquilidade diante das criticas, minha generosidade em aceitar a razão do outro volta na minha direção no mesmo instante, e sou capaz de acessar algo que de fato me conduz a superação. Se evoluir é um caminho, imagino que seja por aí. E quero acreditar que qualquer ser humano, mesmo o sujeito mais iludido e autocentrado, mesmo o Coronel Machado que tá chefiando a operação de despejo contra a Isidoro, seja capaz de botar a mão na consciência pra questionar as próprias certezas vez ou outra.  Todo mundo pode e merece a compreensão de que o erro não só é humano como pode render bons frutos. Só não vale sair errando a revelia... A mandinga só funciona se a intenção mais honesta é fazer bem feito, pelo bem de todo mundo. Sem essa de viver de errar e pedir desculpa, e dois segundos depois pisar na bola de novo. É assim que é... pelo menos é o que me parece daqui, de onde minha vista alcança. Pode não ser uma verdade absoluta, mas por enquanto tem sido a minha verdade, tudo que eu tenho até então. Pois é, só vivi eu ainda.

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