sábado, agosto 15, 2015

Terceiro ciclo

Tenho escrito pouco ou quase nada. Cansei dessa repetição inglória. No momento procuro uma pessoa que saiba fazer minhas palavras se transformarem em objeto chamado livro, em poucas palavras - papel, capa, etc. Tenho tido dificuldades, apesar de ter a verba garantida graças aos digníssimos cidadãos de Nova Lima, onde meu projeto foi aprovado. É um trabalho, ou melhor, foi um trabalho de dez anos escrevendo. 



São
passagens da minha vida que eu preciso expurgar para me purificar. São pequenos contos da vida cotidiana que ao longo desse tempo somam quase seiscentos fragmentos, por volta disso. quinhentos a seiscentos pedaços de mim. Cada um com um tom de voz. Cada um com uma entonação bakhtiniana própria peculiar ao momento que vivi. Uns raivosos, outros temperamentais. Sim, eu também sinto ódio. Um ódio santo, comparado ao amor, estão classificados na mesma linha vital e, ao contrário do que pensava, não são opostos, pois enfim, descobri, passados esses anos de observação, que o dualismo não existe simplesmente. Todo dualismo - forças contrárias que necessitam uma da outra fundamentalmente se repetem em todas as coisas desafiando as leis da fisicalidade e da metafísica e que se repelem e se atraem mutuamente dissipando-se em diferentes intensidades. O antagonismo - oposição de ideias, sistemas, incompatibilidades, divergências. O maniqueísmo - reconhecimento de que toda matéria é intrinsecamente boa ou má. Cheguei à, talvez débil conclusão de que ambos as partes são meramente previsíveis. Se faz-se tal coisa em sentido filosófico (coisa é tudo aquilo subsistente por si mesmo, a filosofia kantiana afirma ser uma coisa aquilo que existe independentemente do espírito, no sentido usual, coisa é tudo aquilo que é percebida pelos sentidos)há de haver uma ação oposta. Cartesianamente simples. Devo considerar a existência de uma única coisa, a substância, a coisa em si, da qual tudo o mais são modos. Como dentro de um contexto absolutista racionalista como exemplo atual  compreendo a mente como uma construção hipotética. Portanto eu, ser humano, sou, fui multiplamente conceitual e imprevisível, assim como foram comigo aqueles que participaram do meu pequeno universo. Fato é que em 2002 publiquei um livreto de quarenta e sete páginas intitulado 4:44 - hora em que me deixei esquecer um amor, título de um poema que deu nome ao opúsculo. Era ano do cavalo no zodíaco chinês e eu completava meu segundo ciclo aos vinte e quatro anos. O livreto naquele ano foi meu passaporte para a realidade literária. Curto, mas que incitava o leitor a revisitá-lo. Podia-se ler em apenas três minutos, mas o conteúdo era, digamos, lugar comum. Afinal, quem vai representar o amor e suas mazelas? Agora, doze anos depois, completa-se o terceiro ciclo da minha vida. Coincidentemente meus pais nasceram no ano do cavalo também, ambos - 1942. o que pode significar tudo, o que é, para mim, igual à nada. Enfim, eis um desfecho a ser golfejado, desatado, jorrado, lançado, manado para finalmente irromper e verter uma nova estação no céu da minha velhice, nas coplas da minha trilha.


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