quinta-feira, setembro 17, 2015

Deus morto fêmea


A hora em que Dimitri engasgou-se, pôs tudo pra fora, naquela hora. Eram três e vinte sete da tarde de uma quinta-feira. O ano eu não me lembro, mas foi no inicio do século. Acho que no final da primeira década. Vivíamos numa sociedade que ainda não tinha noção de si, não tinha noção de estar passando por uma época de transição. Normais que não tivessem essa capacidade de distinguir as mudanças (assim como os renascentistas não disseram: Eis, pois a Renascença! Coube aos historiadores nomear) em uma linha do tempo. Sim, até então era uma linha reta. A época, nunca dantes vista e sem dispor de pais e mães filósofos, que fossem capazes de dizer em sua totalidade, o que estávamos vivendo. A partir da morte de Dimitri Marcowich foi que me dei conta de que tudo parecia ser, mas não era. Tornou a vir o pensamento dos morros, fase-da-macumba, do império Austro-Húngaro, das manhãs de domingo. Tornaram a vir as umas lembranças, ou más recordações. As palavras do pastor sobre a nave, a comunhão, a dor de estômago e as inumeráveis cervejas da noite anterior. Os amigos que eu não conhecia. Nunca sabia o que estava se passando. Veio de novo essa memória. A sensação de que estava sendo passado pra trás novamente, mas por mim mesmo, novamente. Quis me afastar, correr, deitar dentro de mim. Língua gelada língua gelada. Como eu... A passividade em que vivíamos... Pessoas recusavam-se a serem artistas, mesmo sendo. Administradora de empresas que concatenava se era boa ou ruim minha influência de poeta. Melhor seria o meu refluxo. E os acrobatas da dor continuavam morrendo assim como Dimitri, assim como os camponeses de Madelstam. Os mais desavisados morriam no meio da rua, puramente para o deleite dos transeuntes. Logo escorriam pelo esgoto, feito uma gota de porra a ser limpa. Então, eram todos acrobatas da dor forçados a desfalecer nalgum momento sob o comando da urgência. Dimitri e eu éramos amantes. Dimitri tinha a mente vazia e talvez fosse isso que me fascinava. Era a mais inédita expressão do momento que estávamos vivendo. Carregava o Caos em seu bolso esquerdo e a Teoria da Relatividade no outro. Sempre foi gauche desde que o conheci. Tinha olhos de peixe morto e isso dava-lhe a virtude de nunca ser visto. Remontei a época em que Dimitri era vivo e o meu coração pulsava com alguma esperança ainda. Ainda que pairasse no ar sobre o nos a praga do milênio.

Nenhum comentário: