quarta-feira, novembro 25, 2015

consciência do silêncio



23 de novembro de 2015. Jardim Canadá.
Meu tio morreu
À priori, ou seja, antes do fato.

Título - Vem mãe

Abre-se a porta do meu quarto. Terça-feira sete horas da manhã.
O que era pra ser le premier bonheur du jour, a primeira alegria do dia, pássaros cantando, sol raiando... A porta abre-se e o que vejo é o rosto aflito da minha mãe que entra rapidamente e senta-se na minha cama. Durante o breve percurso ela diz e continua.
__ Tio Gil morreu. Ele estava se sentindo abandonado. Fez greve de fome. Eu queria tanto ter ido lá visitá-lo. Eu ajudei a criar. Meu Deus! Eu e a mamãe...
__ Calma mãe, calma - digo, ainda assustado, ainda surpreso, ainda dormindo.
Ela sai.
__ Preciso ligar pra...
Encosto novamente a cabeça no travesseiro. Meu Deus! - repito em pensamento. Início de um dia de reflexão. Meu Deus! - digo, reverbero novamente, daí dou-me conta que essa nem chega a ser uma expressão, senão uma tentativa de comunhão com o universo.
Esse tio tem uma história cheia de nuances que...  Bem, interessa contar a vida dele? Vocês gostam della comedia de la vida humana, não é mesmo? Gostamos, sim, pois a vida é espelho e enigma. Pois bem. Ele é fruto da relação entre meu tio mais velho e a mocinha que trabalhava na casa de meus avós. Meu tio bebia e numa dessas capotou o carro, morreu e levou consigo mais alguns passageiros. A mocinha, que era mais velha, por conta de sabe-se lá, tornou-se meretriz. Já o pequeno rebento, num ato de bondade, foi adotado em condições calamitosas. Tinha contraído paralisia infantil e apresentava um quadro grave de disenteria.

continua...

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