terça-feira, junho 30, 2015

Fonte padrão


Desta forma, Derrida se afasta de qualquer traço impositivo ou dogmático. Evita bater de frente com resistências muito arraigadas que seu texto, se levado - como deve ser - a suas últimas consequências suscitará. Não deixa de ser uma tática expositiva e política, tal como aponta em aí Estados d´Alma da Psicanálise, ao abordar a correspondência trocada entre Freud e Einstein, sobre a guerra. Ali, Freud aconselha uma abordagem indireta no manejo da pulsão de morte: o não enfrentá-la diretamente, contornando-a, sem ignorá-la.
Sören Kierkegaard, afirmava que o mais alto bem para o indivíduo consiste em encontrar sua própria vocação. Tudo que atua é uma crueldade. É a partir desta ideia levada as últimas consequências que o teatro deve ser renovado. Tudo que existe no amor, no crime, na guerra ou na loucura precisa ser desenvolvido pelo teatro, se ele pretende reencontrar seu papel necessário... acreditamos existirem, no que se chama poesia, forças vivas, e que a imagem de um crime apresentada nas condições teatrais adequadas funciona para o espírito como algo infinitamente mais temível do que o próprio crime realizado... queremos fazer do teatro uma realidade na qual se possa acreditar, e que contenha para o coração e os sentidos essa espécie de picada concreta que comporta toda sensação verdadeira. Assim como nossos sonhos atuam sobre nós e a realidade atua sobre nossos sonhos, pensamos que podemos  identificar as imagens da poesia como um sonho, que será eficaz na medida em que será propulsionado com a violência necessária. E o público acreditará nos sonhos do teatro com a condição de considerá-los de fato como sonhos e não como decalque da realidade; com a condição de que os sonhos permitam liberar no público essa liberdade mágica do sonho, que ele só pode reconhecer enquanto marcada pelo terror e pela crueldade

Bounced



Estou sozinho e os sinos tocam. Há cinco dias sem meu remédio. Sem destino, sem saber minhas prioridades, permitindo que a dúvida se instalasse. Há cinco dias sem escrever. Acordo, durante meu sono cortado, com um poema a pular para o consciente. Minhas costas doem. A situação de vulnerabilidade física que se tem talvez não seja consciência de todos nós, mas um dia o porquê se levanta e tudo recomeça, nessa lassidão tingida de espanto. Um poema de duas estrofes de três versos que se perdeu e deve estar em alguma gaveta do meu cérebro. Nada me desabona, além das palavras. Explicando, a minha maneira, que fosse meio eu meio você, percebe?, mesmo que você não veja a mesma paisagem de prédios e janelas acesas e a minguante, com seu sorriso amarelo, zombando de mim no céu, zombando dos que dormem. Mesmo que três xícaras de café sirvam somente um. Um cigarro de cada vez. Já não penso mais em nada, já não penso mais, já não penso. Você liga pra me procurar, você me persegue, onda anda minha vida? quem é essa galera? você se sente rejeitada. Você se esconde. A quem você mostraria a sua realidade? é como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade ou rasgar uma carta de amor. Os sinos tocam para marcar a passagem dos dias, enquanto a matéria envelhece. Eu me comprometeria a eliminar todos os tempos verbais. Exterminar o Tempo. Agora existo numa outra marcação da passagem das horas, biológica, rizomática. Meus músculos doem. Qual seria minha vocação? minha vocação... sim, minha vocação.

segunda-feira, junho 29, 2015

pequenices


Eu procuro as coisas pequenas. Principalmente aquelas que estão em mim. Aquelas que caíram no chão sem que eu percebesse. Aquelas que adoecem o meu olhar de tanto procurar, então é como ouvir flora cantando, nada será como antes... Eu procuro pelo mundo crianças coloridas que que jamais foram vistas. Por que eu busco as pequenas coisas? não que as grandes sejam feias, ou não despertem meu interesse. Não que as grandes sejam grotescas e horrendas. As pequenas coisas têm algo de grande em sua delicadeza, as coisas grandes terminam pequenas. As coisa pequenas fogem aos olhos, e, ou não, talvez por isso, talvez pelo fato de poder segura-las, segura-las não é bem o termo certo, suste-las na ponta dos dedos e admirar com encanto a amenidade de sua beleza, charme, graça, magia, suavidade, delicadeza, finura.Tanto as grandes quanto as pequenas são passageiras. Mas, quanto uma pequena flor cai em você é impossível não admirar. Geralmente as coisas grandes quando caem sobre nós são bombásticas... Gosto de ser pequeno. Girl you gotta love your man.

terça-feira, junho 23, 2015

Sou composta por urgências


Sou composta por urgências

minhas alegrias são intensas
minhas tristezas, absolutas.
Me entupo de ausências,
me esvazio de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos.
Eu caminho, desequilibrada,
em cima de uma linha tênue
entre a lucidez e a loucura.
De ter amigos eu gosto
porque preciso de ajuda pra sentir,
embora quem se relacione comigo
saiba que é por conta-própria e auto-risco.
O que tenho de mais obscuro,
é o que me ilumina.
E a minha lucidez é que é perigosa...
Se eu pudesse me resumir,
diria que sou irremediável!

Clarice Lispector

sábado, junho 20, 2015

Poema da cachoeira



É a mesma estação rente do trem
Toda de pedra furadinha
Meu pai morou alguns anos aqui
Trabalhando
Um dia liquidou
Ativo passivo
Cinco galinhas
E deram-lhe uma passagem de presente
Para que eu nascesse em São Paulo
Como não houvesse estrada de rodagem
Ele foi na de ferro
Comprando frutas pelo caminho 

Oswald de Andrade

Escrever é falar sozinho




Acho que não consegui, mas tento. Tento imitar o céu. Deus, as estrelas, sua desenvoltura de ser. Boba, tola, que ri a toa quando nos olha. Que boia. Que não tem sotaque, que não sabe lamber. Universal a pizza do Fantástico! e nada a ver. Cada notícia de mula, digo, da Crimeia. O Par, lamento. Comprando ração para os cachorros da via verba do governo. No governo, o vice, o mano. Bem, ração "pra cachorro"de novo... De puta... Deputado metendo fita. Ração de cavalo também vale? Legal é a trilha sonora da matéria. Se for pra burro não vai dar pra todo mundo. Bichos escrotos saiam da sul, putas do Sagrada dão falando muito e tiram minha concentração sanguínea paudurística. Como é brega essa Rede Glóbulo. Ando falando sozinho mais do que devia. E
squizofrenia e capitalismo. Um  anti-Édipo confundindo tesão com filosofia. Crendo em Deleuze mais do que devia. Falsificando a poesia e esse tapete me dá alergia, o espirro de Maiakovski.. É que eu só escrevo a base de um remédio muito doido, sabe? Essa porcaria de ontologia que espera sentado na portaria do Othon. Escrever é falar sozinho. Só. Só que alguém lê e é festa de São João...

quarta-feira, junho 10, 2015


ponto final

Recontagem progressiva



E o pequeno flautista sentou-se ao pé de uma árvore,
e disse coisas pitorescas que todos deviam ter ouvido
e as crianças guiadas por feitiço, em júbilo percebiam
a voz delicada que vibrava como notas da flauta Pan

e cantou e tocaram verdades ocultas
e nada faltou para quem por lá jazeu
dizia como a vida era florida na mata
repleta de encanto, beleza, maestria

seu mundo era pleno de pura magia
enfim pudera ver tudo que descreve
num breve soneto, sem vírgula nem
fantasia

segunda-feira, junho 08, 2015

minha vida não é uma metáfora..



Alguns versos não são para serem entendidos. Algumas coisas que eventualmente eu digo são um buraco negro. Uma menina perguntou-me se eu só coleciono metáforas. Eu ouço tudo que dizem, mas isso me dói, como se eu fosse um falsário, um falsificador de sentimentos. Sabe o que devo fazer? Escrever. É minha casa mental. Vou até o quintal tocar tambor, raspar meu facão no chão a fazer faísca. Dizer que nem tudo na vida é genuíno, mas minha é. É minha casa.

domingo, junho 07, 2015

o som da minha mudez




Você deve ter mesmo razão. Eu não devo amar ninguém. pode ir embora. Não tem pressa... tenho bastante tempo para te esquecer.

preciso de um argumento

 


Se minha amiga Francisca sente-se encantada de ver-me acender esses palitos de fósforo da caixa que comprei  E assim seguirei sobre o foco fora de foco dessas pequenas chamas. Pincelando o ambiente de fogo. Sabe, ontem estava bastante frio para caminhar até o boteco. Eu precisava de fósforos, precisava de calor, mas... Fico encantado com esse domínio do humano sobre o fogo. Tardes de solidão agora só me permitem rir moderadamente. É um riso meio chocho, meio de lado, sem abrir a boca. O que é a vida? Por que?, coração. Tardes de solidão para quem passou pelo cadinho da dor. 

sábado, junho 06, 2015

Como ando agora

















 


E essa são palavras que não estão no meu caderno de notas mais recente, digo, no qual escrevo agora, de páginas totalmente brancas, sem linhas, o que ganhei e pensei que nunca fosse usar. Nele eu já fiz umas manchas com tinta de carimbo, e também colei uma embalagem de caixas de fósforo. Gosto deles assim, sujos das minhas coisas que nunca encontrei. Água da palavra, a voz das águas. Tenho tantas palavras espalhadas por todas as partes e dimensões. Dentro de um conjunto deveriam encontrar-se aqui. Mas não é bem assim. A lua gira e meu compasso é outro. Quantas lindas luas eu vi naquele lugar. Quantas lindas vezes eu vi a lua. Agora vivo agitado, mas numa espécie de banzo poético, saudades que doem e não se mantêm, não sustentam a palavra de uma mulher. Queria estar perto, estar presente, presente no momento que vai traçando nossas vidas. Eu bem queria fazer a lua de travesseiro. Eu queria estar bem primeiro. Sentar calmamente na beira de uma fogueira. Olhar o céu com mais minúcia. Pesquisar as estrelas, onde estávamos aquele dia em que as... as estrelas giram. As estrelas giram, a Terra gira e os dias passam. Ando como um norte americano aqui no Jardim Canadá. Com muita roupa de frio e cachecol e rápido. Com pressa de não encontrar ninguém, nem nada... Porém, o Tempo não deixa de passar, nem o ônibus, nem os carros e carretas na rodovia. Rezo. Na volta da razão uma dança de alegria e mil asas pra voar. Uma canção que segue. Um Ícaro que lamenta outra história que não se repete mais. A marca da loucura. Camisa xadrez, roupa de lã, dor de solidão. Carece de cantar.

Minas é o mundo



Tambores de Minas


Era um, era dois, era cem
Mil tambores e as vozes do além
Morro velho, senzala, casa cheia
Repinica, rebate, revolteia
E trovão no céu é candeia
Era bumbo, era surdo e era caixa
Meia-volta e mais volta e meia
Pocotó, trem de ferro e uma luz
Procissão, chão de flores e Jesus

Bate forte até sangrar a mão
E batendo pelos que se foram
os batendo pelos que voltaram
Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram

Era couro batendo e era lata
Era um sino com a nota exata
Pé no chão e as cadeiras da mulata
E o futuro nas mãos do menino
Batucando por fé e destino
Bate roupa em riacho a lavadeira
Ritmando de qualquer maneira
E por fim o tambor da musculatura
O tum-tum ancestral do coração
Quando chega a febre ninguém segura

Bate forte até sangrar a mão
Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram...

sim, mas como?




De onde vem essa força que me faz sair de casa? Administrando o velho. Engolindo ou regurgitando o novo. De onde surge essa ideia de? Como dizer?, o que dizer dessa história?

sexta-feira, junho 05, 2015

Jacques Derrida. "As vozes de Artaud"


Jacques Derrida
"As vozes dos Artaud"



 
Marcaram profundamente por Derrida dedicados a Antonin Artaud vários textos de meados dos anos sessenta. Há todas as razões para confrontar sua palavra com a escrita e a voz dos habitantes de Rodez, como nesta entrevista com o Professor Grossman, considerado o maior especialista atual em Artaud, certamente, o maior poeta maldito do século XX.Enquanto muitos filósofos franceses que manifestaram interesse na escrita e pensamento de Artaud -Merleau-Ponty, Deleuze, Foucault ... - Jacques Derrida é, certamente, que o questionaram de maneira mais insistente e intimista. Os primeiros textos por ele estabelecidos por volta de 1965-1966, "Blown palavra" e "O teatro da crueldade e o fechamento da representação" que mais tarde iria aparecer compilado por escrito e com grande diferença. Vinte anos depois, em 1986, ele pareceu "balançar o tábula rasa" ("Forcener subjectile"), texto em que ele analisou o que chamou de "Pict-coreografia" de Artaud. Mais recentemente, 1996 data, é o texto lido por ele no "Artaud o Moma", no Museu de Arte Moderna sobre o assunto de uma grande exposição dedicada aos desenhos de Artaud, e ao voltar ao perguntam sobre "a força de perfuração de percussão" de seu cenário escrita e desenhada.Em uma entrevista anterior sobre Antonin Artaud que ele deu para a revista Europa, evocou a "paixão" que você sentia por ele a partir de uma jovem
idade, quando vivia na Argélia; ele fala sobre como foi identificado no momento em que o sofrimento Artaud reclamou em suas cartas a Jacques Rivière, o "impoder" de seu pensamento, seu desamparo, sua incapacidade de escrever. Difícil imaginar como é represar de impotência o pensamento...Se eu tentasse me lembro da primeira vez que o nome de Artaud teve alguma ressonância para mim, eu acho que seria certamente Blanchot a leitura de um texto que se refere à correspondência com Jacques Rivière. É assim que eu leio as cartas de Artaud e reajo identificando-me, senti simpatia pelo homem que disse que não tinha nada a dizer, ninguém ditou nada, nada para falar, embora ele tenha vivido uma paixão, o instinto escrevendo e, certamente desde então, a encenação. Durante todo o tempo, e eu quero dizer longos períodos, com os anos, décadas, teve que tentar pensar o que esta experiência de "não ter nada a dizer" antes de escrever era essencial para toda a escrita. De certa forma, a responsabilidade de escrever, do que chamamos de criação em geral, é experimentada como algo oco, de um tipo de Kenos ("A DOUTRINA DO ESVAZIAMENTO DE CRISTO") vazias. A escrita, de modo que, no final, o que seria dizer não existia antes do ato de falar; porque, se o conteúdo do que estava a ser dito antes, não teria, por um lado, a responsabilidade no ombro, não haveria risco, e em segundo lugar, gostaríamos de ser reconstituído ao mesmo tempo que a dicotomia e hierarquia entre autor, texto e cena. Os mestres autores, sabem o que você quer dizer e ele dita: ele dá a si mesmo e, portanto, escreve sob o ditado sob a autoridade do autor, que sabe o que ele significa. Eu ligaria, talvez com ousadia, talvez imprudentemente, agitação ele expressa em suas primeiras cartas a Jacques Rivière com a maneira revolucionária em que Artaud  vai falar mais tarde sobre o teatro da crueldade, onde precisamente ele irá questionar a relação entre o autor e cena, o texto escrito e gesto. Para ele, o teatro da crueldade envolve o deslocamento ou reversão da hierarquia. Nada do que é antes do ato, o gesto existe, então você tentar escrever, pensar ou agir. Teatrais "hieróglifos" de que fala são precisamente os movimentos do corpo que não obedecem um determinado texto ou um significado que é anterior. Entre esta experiência do vazio, do "nada a dizer" e tudo depois que Artaud definir a revolução que levou na literatura e teatro, há talvez uma afinidade, uma continuidade significativa. Então, por que eu me identificava com Artaud em minha juventude? Durante a minha adolescência (que durou um longo tempo até 32 anos), comecei a sentir paixão pela escrita, sem escrita; Eu tinha uma sensação de vazio, eu sei que você precisa para escrever, eu sei que você quer escrever, eu tenho coisas para escrever, mas, basicamente, tudo o que eu tenho que dizer que não se parece com algo que já foi dito. Eu me lembro quando eu tinha quinze, 16 anos acreditava-se que protéica (palavra com Gide e descobriu que eu gostava muito). Você pode adquirir qualquer forma, escrever em qualquer tecla para saber que nunca o faria realmente o meu; Ele fez o que era esperado de mim ou me refletida no espelho do outro me tendeu, e dizer: "Eu não posso escrever qualquer coisa, porque eu posso escrever qualquer coisa". Então eu pensei que reconhecer esse vazio de Artaud se aprofundou. É como eu disse, no fundo eu não sou ninguém, eu posso ser qualquer um, eu posso tomar qualquer posição, o que é o meu caminho , então, qual é a minha voz? (...) Mesmo agora, quando eu escrever alguns dos meus textos, mutatis mutandis, eu ainda parece a mesma brancura, o mesmo desespero, o mesmo senso de impoder - "Eu nunca vou fazer isso", eu digo, mesmo se coisa é modesto, assim são os quatro páginas. É um sentimento que eu não vai desaparecer, mesmo quando isso acontece, e com razão, por ser alguém que tem escrito extensivamente. Como Artaud, mutatis mutandis, que escreveu muito e no final ele não parou.nbsp;Em seguida, ele leu Artaud muitos anos ...Foi um longo tempo, até que, sob provocação para escrever algo sobre Artaud para um número da revista Tel Quel (era 1964 ou 1965 e tinha acabado de conhecer Sollers e Paule Thevenin), lê-lo intensivamente ou extensa finalmente sistemática. O que eu escrevi em "A palavra soprada" e "Teatro da Crueldade eo encerramento da representação", e depois "balançar a ardósia limpa" ou "Artaud o Moma" poderia ser articulada com o que eu escrevi em nesse momento. No gesto fundamental de Artaud eu encontrei o que eu precisava para testar o que eu estava tentando trabalhar em diferentes textos, por exemplo, o princípio Gramatologia ... naturalmente, a palavra "soprado" alvo (soufflée), significando mal-entendido que este epíteto tem em francês, não tinha qualquer relação com o que Artaud disse em cartas a Jacques Rivière. É-me "tiras" da palavra, ele disse, e esta experiência de desapropriação, expropriação, é um protesto ambígua, como eu poderia mostrar isso. Esta expropriação é tanto sofrimento e que molda a voz, o grito de Artaud no processo de escrita. Na ambiguidade da palavra soufflée (o que significa, ao mesmo tempo emitido por um ponteiro e confiscou, rasgado), não havia, é claro, uma relação com o que foi que a primeira experiência Artaud confidenciou a Jacques Rivière.nbsp;Você que têm escrito muito sobre Nietzsche, ele quase não voltou para a comparação que é muitas vezes feita destes dois autores sob a categoria de "gênio louco" ...Supondo que havia uma categoria aceitável de "gênio louco", o que eu não acredito, mas, mesmo aceitando a hipótese, os "gênios loucos" são sempre "grande" e "louco" de diferentes maneiras: Nietzsche e Artaud tem nada a ver, Holderlin e Nerval são casos completamente diferentes. Existe apenas uma idiossincrasia do indivíduo, sua genealogia, o seu passado, a sua escrita, mas também uma singularidade da cultura da época, a maneira em que o "gênio louco" em questão foi recebido, tratado, um determinado numa cultura país em particular. Não é o mesmo como um "gênio louco" na França, Inglaterra ou na Alemanha; no século XIX, no século XX ou hoje. Quando tentamos vislumbrar a fronteira porosa entre Artaud de trabalho e história médica, vertiginosa. As pessoas que gostam Artaud, sabemos que temos de ser muito cautelosos na interpretação de seu trabalho e sua experiência com a instituição médica, no entanto, eu acredito que uma leitura de Artaud deve considerar muito a sério a história da medicina . Artaud escreveu vivo e em um momento muito específico de terapêuticas que dominavam então. Lembro-me de visitar um de seus médicos, ao qual vou me referir a apenas como Dr. Fo ..., procurando cartas, manuscritos. Paule Thevenin queria perguntar para eles para que eles possam transcrever prestado. Isso foi no final dos anos sessenta ou setenta. Eu fui ver o médico que hospital provincial onde viveu: não me recebeu. Ele havia conhecido Artaud em Ville-Evrard. Ele era um médico católico, como eles normalmente são católicos: uma grande família com muitos filhos. Durante a minha visita, ele levou as cartas de Artaud e as crianças brincavam com eles. Ele disse literalmente: "A química com essa história agora, Artaud teria retificado em 15 dias." Talvez ele estava certo em um sentido. Não que eu aprovo o que você disse, mas pode ser verdade que as relações com a psiquiatria Artaud (e seu próprio trabalho) teria sido diferente em outra época.Bem como a história da relação entre Artaud e Dr. Ferdière, que foi chefe do hospital psiquiátrico de Rodez.De certa forma, Artaud havia feito seus médicos serão matriculados em uma aventura socioliteraria. Esta é uma questão que também deve ser objecto de um estudo sério. Como sabemos, Ferdière estava perfeitamente consciente de Artaud talento literário; Ele fascinado sem dúvida. Um amigo me disse que Ferdière tinha mesmo de ser fotografado com Artaud, durante uma sessão de eletrochoque. É algo preocupante. E em relação ao arquivo Artaud, os tratamentos que sofreram o choque elétrico, os efeitos da guerra ... toda a história política e médica muito específica do período deve ser estudado, não extrínseca, como parte da sociologia ou história das ideias, mas intrínseco, relacionados com os textos e trabalhos gráficos de Artaud. É trabalhar ainda a ser feito.Artaud ficheiro inclui a sua própria voz gravada, como é conhecido. Quão importante é a voz do escritor para você?Voltar para a história, nem todos os "gênios loucos" deixou a sua voz arquivados. Artaud tinha uma voz e um conceito de voz, um conceito da frase, a dramaturgia de voz, excepcional. Se você ouviu essa voz, por exemplo, na gravação Para terminar o julgamento de Deus, você não pode continuar lendo seus textos, da mesma forma, especialmente em tempos de guerra ou depois. Eu li isso deve envolver ressuscitar sua voz proferindo imaginando ler seus textos. Não conheço outro autor no ato de enunciação é tão presente em seus textos. Eu ouvi leituras Joyce de Celan, Valery, Heidegger-felizmente foram arquivados, pelo menos, as vozes de alguns escritores deste século. Mudou-se ouvir, mas sua voz é necessário para lê-los, não como essencial. Em vez disso, quando você ouviu a voz de Artaud não é mais possível para silenciá-la. Portanto, você tem que ler com sua voz, com o espectro, com o fantasma de sua voz para ser preservado no ouvido. Para mim, o arquivo de voz que eu acho preocupante. Porque, ao contrário do que acontece com a fotografia, voz arquivados está "vivo". Viver outra vida, e isso é algo que não acontece com outros arquivos. Na voz de um tipo de relacionamento se ouvir, ela afeta a própria vida. As poucas gravações de voz de Artaud que permanecem são essenciais a partir do que é deixado de seu corpo, de sua parte do corpo.A voz de Artaud pronuncia que "temos de acabar com o julgamento de Deus" ... mas como você apontou, o teatro da crueldade "Deus traz a cena" desde o início. Não é um novo discurso ateu, mas da prática teatral de crueldade "produz um tipo teológico" (A escritura e a diferença).Na verdade, o que é notável sobre Artaud, em que combate o que chama de "deus" não é simplesmente um discurso mais sobre a morte de Deus teologia ou ateologia. Há um desempenho e uma encenação através da escrita, não uma morte de Deus, mas um assassinato infinita de Deus, que em última análise é um deus mais do que perseguir os crentes ou ateus. Eu acho que Artaud era nem crente nem ateu. Ele tinha em aberto com o que ele chama de "deus" contas, algo que vai ser encontrados todos os tipos de substituições metonímicos. Ele não poderia fazer sem o nome de Deus, mas o que chamou de "deus" quando proferiu sua maldição? Contra quem é liberado, pois quem toma a Deus quando ele nomeou? Estas são questões sérias que podem ser abordados como parte da tradição de reflexões sobre o nome de Deus (que profere o nome de Deus?), Ou que pode tratar como Artaud, ou seja, como parte da prática teatro como parte da prática gráfica (constrangimento sexual de Deus, é o título de um de seus desenhos). É uma interpelação, Artaud desafia Deus, ele se dirige a ele provocativamente, de frente para ele ou ela de volta. Que tem seus efeitos-não quiser chamá-los "ateológicos", porque implica uma série de coisas que não têm relação com Artaud, efeitos de morte, mas o que o nome de Deus se originou, sobre o que Deus tem sido apontado na tradição cristão ocidental. Por um mundo sem Deus? Ou para um mundo com um Deus radicalmente diferente? A questão permanece.

quinta-feira, junho 04, 2015

Magda Konopka


Ensejo...




Continua aqui tudo aquilo que fugiu da minha cabeça pela rua, fugiu da pena e pela pena em que escrevo. Se não está aqui e se aqui estivesse e se eu estivesse aqui esse azul que preenche lacunas, mas agora você está próxima de chorar. Esse desastre doméstico e coisas mais complexas. Tudo que você prometeu sem ver. Arquitetos da Roche planejam uma pastilha-ponto-psico-caótico. Escrevo essa carta sob o crivo do olhar alheio. Falsificador de poesia para não haver censura redundante. Escrevo pensando no silêncio agora. Não digas que é o fim tentando não entender floreios e voltas, mas a dor mística encara seu fascínio. Seja minha, seja sua, seja, de quem for, do tempo vazio interior da letargia em contraponto ao tédio. Entrego-me à vida sem dúvidas e receios. Minha carta elaborada come palavras. Nada de redenção! e nenhum alívio. Mas eis que aqui estão! caídas como as harpias de Zeus, anjos do próprio demônio. Depois de algumas tantas tentativas, ter limite um tanto rebelde, a tendência de abolir o erro. Minha perda de fôlego é proporcional ao fôlego daquilo que duvido. O erro redefine a cor daquilo que propõe, secretamente. O ambiente das tragédias é o que move o mundo.
Uma festa pagã para um deus Pã. As horas passam e a dor não volta atrás, acelera. Um grito de mulher quebra o silêncio da madrugada, bem clichê. Correr como um lince, morrer no asfalto. Aquela noite não foi apenas uma noite, foi a noite da ‘lei seca’ em que uivamos pra Lua no terraço da casa da Bailarina. Sentia nas veias sujas de sangue sujo avinagrado aquele amor impossível, inviável e antagônico. Apesar de, por dentro, minha revolta com a vida, com o mundo, a minha revolta enlouquecida de álcool, de vinho, de cachaça, uísque e velho barreiro, ouvindo Billie Holiday, Chet Baker e Marvin Gaye... Não pude evitar tocar aqueles seios negros, perceber o amor estranho amor entre eles. Esse meu amigo, homossexual indefinido de muita força vital de homem, e um lado feminino estranhamente forte. Essa noite a Bailarina jogou as cartas para ele. Brindamos com belo vinho, cantamos em coro, choramos juntos à vida e à alegria. Também não podia definir That Black beauty psicanalisada, That Black beauty que já leu Feuberbach, Kierkgaard e os modernos Samuel Beckett, Vergílio Ferreira. Entende um pouco da vida, é médica e mora em Brasília. Aquela voz um pouco rouca e eu, um pouco louco. Não estava mais ao meu alcance entender aquele amor. Um amor de épocas passadas, um amor condenado, um amor tolerante, clemente, intenso e desumano ao mesmo tempo. Um amor que não encontra nada em si sobre ele mesmo. Que goza pelo cu. Que ama uma mulher e um homem. Não eu, ele.

Assim que der eu te ligo...


Sou um vira-lata. As mãos frias eram sinal da constante tensão em que vivia. Sintoma. Sintoma quer dizer também a queda, o acontecimento infeliz, a coincidência, o fim do prazo, a má sorte. As palavras agora são pó e cinza, espalhados na estrada do vento, e já se perdeu pelo ar. Sonhei que era uma sacerdotisa grega. Ria, calada e sóbria, um pouco além do padrão de maldade daquela época. E o sonho acaba. Um poeta ainda seria artista trabalhando na bilheteria de um cinema? O mundo dá-te um pouco de malícia e muita maldade. O Estado Liberal Democrático é isso. Fluxo de moeda corrente em pão e poesia não se mede. Suponho que haja coisas que retrocedem por si mesmo. A água encontra seu caminho. Devoro o que possa haver dentro de mim, raiva, ferida, mágoa, amor, dor com rima pobre. Caminhar é assim. Perco-me, às vezes, em vários personagens. Tristeza e Alegria coexistem num jogo de espelhos. Confecciono um quadro de memórias sem concepção de passado, não posso renunciar a nada. Construo uma nova roupagem para o ato da loucura. Sonhei coisas belas para o desenho da nossa trama, mas nossas almas só se encontravam na cama.

Faz parte...



Estive doente. Estou doente. Das coisas da vida. Você não sabe o que sofri. Não me interessa saber quem sofreu mais que eu, isso não é competição. Se você não se interessa por minha dor, passa com indiferença, quê fazer? foda-se. Dê-me forças para aceitar e aceitar o que há em mim, esse monólogo interminável. Psicótico, sociopata, suicida. Dessa maneira é fácil ser iconoclasta, marginal, antissocial, anormal, desencaixado. Abro a janela que dá vista para o céu. Observo o movimento das nuvens. As mãos raladas de beijar no asfalto e a língua rasgada desse mesmo beijo. As pessoas normais guardam seus problemas emocionais e suas neuroses em casa. No ostracismo do quarto, coloco fragmentos no papel ao custo de más recordações, e lágrimas. A ambientação, o percepto - a sensação de noção de percepção. A dor na coluna de ficar muito tempo deitado, sozinho. Sonhando, homo-ludens. Sinto falta de um Adeus, porque fiquei vazio de Adeus. Como se eu fosse invisível, como se eu não existisse. Uma tempestade em meu universo. O sol parece triste.
Sinto falta de mim mesmo
da metade que levou quando partiu
Como membro que se regenera
outro a ser o que era
O mundo é inerte. Abram as janelas, deixem o ar entrar. Deixaram que noite caísse lentamente, novamente. Não tente entender a minha dor. Viva sua ascensão na Francis Bacon Road. Cabedal de informações inúteis.

quarta-feira, junho 03, 2015

Sinapse


eu preciso de você
meu cérebro precisa
de você
meu corpo precisa de
você
preciso que você não
recapture a serotonina
deixa que ela flua legal
entre os meus neurônios
pro sangue fluir legal
nas minhas veias
pra eu poder ser
um menino legal
por favor atenda o meu
pedido
Oxum maré que espanta
o mau olhado

Eu = Eu







Oi, Raposa do deserto, ideias mortas. Ontem tive um pesadelo. Quem de fato sou eu pra você? Uma gota d’água no cacto gigante? a gotícula, gota, a gotícula de orvalho que sacia e dá vida do verme aos pássaros, inclusive você. Enquanto nas florestas tropicais, grandes pererecas no topo das árvores descem pra se acasalar. O que eu significo, além dessas palavras? grandes palavras. Vergonha? enredo? coração? cheiro de medo? perceptos? afectos? translúcido opaco raro ou comum? não responda. Apenas uma cabeça agonizante cáustica lancinante, a cicatriz risonha suave e corrosiva? marcado no seu corpo à carne viva? um pa de deux consigo mesma? não adianta. E se me expresso cafezinho , um pão-de-queijo bem quentinho, derretendo lágrimas & palavras no diminutivo da manteiga. Un ange en danger? Um anjo em perigo ou o perigo do próprio anjo? uma mancha de tinta? um olho? dois olhos? três olhos assim? coelhinho da páscoa, que trazes pra mim? um signo um índice um ponto ao acaso? Signos e sinais um peixe código ideograma hieróglifo? amores vão amores em vão amores vãos, caderno de notas? verdade na letrinha da tinta verde tinha trinta. Dor no gozo, tela papel e lábio silencioso. Se fosse adjetivado? temperança, desesperança, ilusão, paciência, virtude ou mal? nada dual, casual. Holocausto Haldol. A brisa gelada entre os lençóis significa a ordem das palavras. Sentia que me chupava cada vez mais e mais branca e alva pele clara entre os lençóis. Solidão e nudez, sorriso afônico.. Os entre-meios fim, início. Homem de Apolo Dionísio gozo retidão, lamúria nudez loucura sonho e solidão. Foda-se!...

enquanto isso...



A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo. E Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia.





Nietzsche

"Sem música, a vida seria um erro." Nietzsche...




Agora
que lembro
nas horas ao longo do tempo
Desejo
voltar
voltar a ti
desejo te encontrar
Esquecida
a cada dia que passa
nunca mais tive a graça
dos teus olhos que eu amei
Má sorte
foi amor que não detive
e se calhar distraiu-me
qualquer coisa que encontrei

música de Alain Oulman
poesia de José Carlos Ary dos Santos

Aaahhh!

Isso não é um cachimbo, assim como isso não é um grito...




















































mas se você achar que é... pode fumar!

dia 3



mulheres são como gatos: vêm quando não os chamamos e não vêm quando os chamamos"

Significado de Carência

s.f. Necessidade de alguma coisa básica; falta, privação: carência de alimentação.
Figurado. Necessidade emocional, afetiva e/ou sentimental: carência de carinho.
Jurídico. Tempo que deve ser respeitado após a efetivação de um negócio. Período de Carência. Geralmente, num plano de saúde, tempo que o segurado deve esperar, durante um prazo preestabelecido, para usufruir dos seus benefícios.
Economia. Tempo dado após a efetivação de um empréstimo que o separa do momento de sua amortização.
Doença de carência. Patologia ocasionada pela falta de vitaminas, de uma substância mineral ou orgânica necessárias à vida.
Psicologia. Carência afetiva. Ausência total ou parcial de laços afetivos, geralmente entre pais e filhos, podendo causar perturbações psíquicas nos envolvidos.

terça-feira, junho 02, 2015

Confissões de Santo Agostinho


[Deus concebido como um ser corpóreo e difuso no universo]




Estava já morta a minha adolescência, má e abominável, e entrava na juventude, quanto mais velho em idade, tanto mais abjeto em futilidade, de tal modo que não me era possível conceber uma substância a não ser aquela que se costuma ver com estes olhos do corpo. Não te imaginava, meu Deus, sob a forma de um corpo humano, desde que comecei a ouvir falar de filosofia; sempre evitei isso e alegrava-me por ter encontrado a mesma maneira de ver na fé da nossa mãe espiritual, a tua Igreja católica; mas não me ocorria outra coisa que pudesse conceber acerca de ti. E, sendo eu homem – e que homem! – esforçava-me por te conceber como supremo, único e verdadeiro Deus, e, com todo o meu ser, acreditava que tu és incorruptível, e inviolável, e imutável, porque, não sabendo por que razão nem por que modo, no entanto via claramente e estava certo de que aquilo que é corruptível é inferior àquilo que não é corruptível, e aquilo que é inviolável, sem qualquer hesitação eu punha-o antes do que é violável, e que o que não está sujeito a nenhuma espécie de mudança é superior àquilo que pode sofrer mudança.

Aí está meu coração, Senhor, meu coração que olhaste com misericórdia quando se encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que ali buscava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo minha maldade outra razão que a própria maldade. Era hedionda, e eu a amei; amei minha morte, amei meu pecado; não o objeto que me fazia cair, mas minha própria queda. Ó torpe minha alma, que saltando para fora do santo apoio, te lançavas na morte, não buscando na ignomínia senão a própria ignomínia?



Para uma criança que eu não podia falar
«Com efeito, eu já não era a criança que não sabia falar (non enim eram infans, qui non farer), mas um menino que falava (sed iam puer loquens eram). E lembro-me disto (et memini hoc), dando-me contamais tarde de como aprendera a falar.»

Tradução de Manuel Bandeira

segunda-feira, junho 01, 2015

Merda de memória...




Quero escrever um milhão de coisas, sei que não vou conseguir nem a metade. Sou realista, mas ainda não sei qual realidade. No caso desse texto a realidade é essa. Minhas costas doem e estou apenas começando a descobrir um sentido na vida. Para lidar melhor com as adversidades. como a dor nas costas, que para mim significa medo da vida. Assim como um resfriado significa carência afetiva. De como vejo cravos no meu joelho, de como faz frio. De como sufoca essa dificuldade em se expressar. De como os excessos podem ser perigosos. De como procuro tão pequeninas coisas que me fazem doer a cabeça, os olhos, o corpo todo. Essas coisas que ficaram no passado e que por isso são inalcançáveis. A posição que estou sentado não me faz bem. Ando como um lobo. Hoje é lua cheia. Um andar de lobo, Wolfgang. De como me culpar, como não lembrar dessas miudezas da vida que são momentos tão efêmeros e... inesquecíveis? De como não me culpar por buscar essas coisas, e de como esquecê-las. Aquelas noites na varanda de um lugar onde nem moro mais, aqueles beijos...