segunda-feira, agosto 31, 2015

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O mistério que envolve esse teorema envolve esse enigma e sempre se repete à mesma volta. Você bebe a água e eu te bebo. Fico ébrio. Você coloca suas pernas sobre as minhas coxas e eu sinto o seu sexo. Quero engolir sua boca, mas você me beija mais do que eu te beijo e eu adoro. Sinto teu seio pequenino de ninfeta, arrepiado e duro no escuro. Você embriaga-me como quem nada quer e bebe pra matar minha sede. Parecem intermináveis as horas feito minutos. De tudo esqueço. O trabalho inexistente esquece-me de hoje de ontem de antes de ontem. Esqueço que me maldiçoou com sua soberba, sua irracionalidade, com seu atavismo. A vida importa. A vida importa porque suas maluquices de ninfeta fazem-me ter mais responsabilidade. Adoro seu cabelo todo lindamente atrapalhado sobre seus olhos sobre o meu rosto. Seu beijo é o gostoso no caminho percorrido ao instante eterno, efêmero e derradeiro em que te quero. A paisagem, essa fogueira elétrica ao lado da cama e você. A Lua lá fora espreitando nosso desejo com sorriso de Gato. Nesse momento quero esquecer meu passado. Quero esquecer outras luas, outras primaveras, outras trepadas, outros beijos. Nessa hora você se entrega e sobe sóbria sobre mim. Eu, bêbado de ti. A palavra, nada diz. Não importa que devore minha alma.
Gats vida mut


O dia foi calmo e silencioso.
Nada de palavras, vazio de tempo, reflexões em off



Dia de restabelecimento, dia da santa
e a tarde passa como um vento
shhhhhhhh...

A cama parece meu último refúgio
mas eu não conheço nenhum Jesus da Silva
e não sou capitão de nada

Abespinhado apenas,
enquanto Açucena caminha sobre o abismo.

gavetas




Pequenas paisagens guardadas nas gavetas da memória, fazendo alusão ao título das noites passadas. Pequena menina azul, você agora descansa em outros braços. Agora a noite dança em seu compasso. Melodia previsível sem palavras. Digo-te em segredo que há um altar quando acordo, durante do sono cortado por uma poesia subconsciente. A situação de vulnerabilidade física talvez não seja consciência de todos nós. Duas estrofes, de três versos e se perdeu e em alguma gaveta. Nada desabona as palavras.  A mesma paisagem de prédios e janelas, luzes acesas, lua minguante. Zomba de mim com seu sorriso amarelo. Você liga pra me procurar onda anda minha vida? Quem é essa galera? Você se esconde. A quem mostraria sua realidade? Como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade, feito rasgar uma carta antiga, um recado que não significa mais nada. Os sinos tocam à mesma hora, um dia mais.

tenta-se



Para entender as mulheres é preciso entender de cores, é preciso entender as fases da lua, é preciso entender. É preciso ter um olhar holístico sobre todas as coisas, sem coisificar os seres vivos e tampouco dar vida aos inanimados, mas sabendo que, mesmo estáticos, todos participam do movimento. Não circular nos altos e baixos da régua da história. Personagens vivificam a cena do príncipe e a princesa espera a lua, cheia de melindres. Para entender as mulheres é preciso informar-se de nuances, de matizes de cores, da mudança de luzes. Qualquer logaritmo concebido para conceber. É preciso saber a resposta da pergunta, ainda que essa seja incognoscível. Colagem de pedaços isolados, rasgados, mas que juntos estão em harmonia. Um olho daqui e o nariz na linha do horizonte, sempre a sorrir e a piscar ao mesmo tempo. Junta os retalhos e recomeça a costurar. Começa a cerzir metáfora com possibilidades.

sem mim




Pedaço de mim que estava preso na garganta, saiu como fumaça de rancores, raiva, desejos de vingança, alucinações. Vociferando ao léu, no púlpito das intrépidas memórias, palavras ordinárias contra a dor. Saudades e ódio, para inutilmente tentar fugir de um desmoronamento. Túneis e pontes, conexões entre o passado e o presente na cachoeira de domínios. Quando os seus olhos de menina vulnerável à sombra de um desdenhoso anjo libertário. Confiar em mim foi como mentir uma traição cotidiana que nos acometeu durante algum tempo. Tempo demasiado denso desde o princípio. Aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhã sublinha essa lembrança, envolve-me o olvido. Falta-me o seu ventre, suas coxas e as minhas coxas, o seu misterioso riso de mulher. Falta-me a nossa cama para o meu longo cansaço. Falta-me a sua vagina ensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura. Espera em sua casa, nessa espessa noite que atravessa.

um fescenino acorda


Os pratos se quebravam e não era um casamento grego. O Cigano esteve aqui em minha casa e eu lhe presenteei com uma foto, uma revista, uma meia e uma cueca. Era noite de esquecer-se de tudo. O começo da decomposição. Noite de esquecer você e extirpar com a navalha alguns miomas intelectuais.

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Confissões à Lua

meus dias de amanhã
feitos de vários ontens


concretização de coisas
cotidianas


e as horas vãs
preenchidas pelo medo
fazem a insanidade do tempo


me disse coisas ao pé do ouvido
coisas que eu
não posso entender


um lamento
um blues dolorido
lembrar do passado
me deixou entediado

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BEAT PARALELOGRAMO. Andar pelas ruas, as mesmas ruas. Estar sozinho ou acompanhado, viver uma realidade paralela. No meio das pessoas, pareço tão louco quanto devo ser. Perto de mim, meus vários. O eu de pé, o eu de chapéu, o eu sentado esperando os vários minutos calados passarem com imprecisão. Ando durante o dia. O eu que vai pela noite durante a noite pela noite. Dia a dia, espero-te à tardinha, quando nos encontraremos felizes a olhar o céu, que vai nos encher os olhos de nuvens. As lágrimas escorrem da exultação mórbida de um luto. Perdido no globo que eu não me encontro. Não peço informação, mas não faz diferença. Estou inerte, indiferente a tudo isso. Vivendo como criatura da noite. Observo os desejos de amor, os delírios de amor, amor contido no vazio do ego que implora alguma existência. Histórias que trazem um personagem oculto. Amores que fazem da vida o pior e o melhor da vida. Litígios da aproximação...

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Parece que as coisas não acontecem e de repente se acontecem e tecem a longa rede da realidade que vai se alternando entre bons e maus momentos. Vai-se acalmando como uma lenta, leve, suave melodia que dorme ao meio dia, vai-se do aéreo da mais culminante nota no tom mais elevado do jazz, da batera, do tumtum, papum, e acaba no piano ma no molto, alegro ma no moltopresto ma no moltoadágio. Lembrei-me da minha incansável stamina para certas coisas. Enquanto a fenda da vida não se abre, tudo corre rápido, vai e acaba. A música e recomeça, e eu, meio tonto, não ligo, relaxo. É assim. Não me leve a sério, permanece o mistério. Suave aroma de cânfora, chocolate e vinho. Perfume francês e cafezinho pra depois. Rememorando aromas.

Seguimos falando sobre o mesmo tema

what the water gave me 1938

Frida Kahlo







Apenas não poderei revelar qual.
Esse é mais um texto secreto, sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desaferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente

Embora não possa prever o resultado da Copa. O dia raiou sem maiores problemas, contudo esse não era o grande dilema. Quem vos escreve é a editora do blog, Bruna. O Gustavo, pela segunda vez, não nos enviou seu texto, como vem acontecendo. Esse espaço é reservado ao editorial, que é sempre fechado na última hora para esclarecer o leitor dos deslocamentos semânticos e episódios que serão abordados durante a semana. Em geral, embora ele não seja apegado a gêneros, o Gustavo sempre escolhe o tema mais dadaísta que consegue. Sua abordagem, seu tom de prosa falsamente auto confessional e sua coragem de fazê-lo nos impressiona. Ele sempre condiciona os demais colaboradores do blog ao seu próprio cronograma. Tantas vezes randômico e em nível sublime de entendimento. Tanto tantas que as vezes nós mesmos nos esquecemos o que foi acertado, ajustado e fechado nas reuniões de pauta. Assuntos do interesse comum de todos que aqui colaboram e que sejam compatíveis com os episódios da semana. “Estou de cama” foi a mensagem que ele mandou da última vez que não enviou seu texto. E então cá estou eu em seu lugar, na última hora, escrevendo para cobrir o espaço que ficaria vazio. Até hoje não se encontrou uma definição precisa para o que chamamos de notícia. O editor chefe da New York Times disse certa ocasião que notícia é aquilo que interessa a todos. Sim, é de interesse comum e geral, mas não queremos saber qual a última vez que choveu no deserto do Saara, tampouco nem todos os americanos de Nova York esperam saber qual foi o resultado da última partida de futebol da Copa. Nove entre dez indivíduos franco canadenses habitantes da Guiana e suíços alemães que vivem na Itália preferem ver ouvir samba ou uma série da TV americana. Essas são algumas das informações que o Gustavo consegue obter em suas pesquisas e nos manda. Ele nunca cita as fontes e sempre atrasa. Já recomendamos que deixasse algum tema em mente previamente, mas ele reclama dizendo que “eu sou um artista” (sic.) e outras vezes nos manda mensagens obscenas. Contudo, essa semana ele nos deu grande alívio ao escrever “estou na frente do computador, logo enviarei o texto”. Mas quando fomos checar lá estava registrado que a mensagem havia sido enviada de seu Ipod e logo em seguida ele postou no Facebook fotos do posto 9 em Copacabana e outras tiradas num bar em Ipanema. O texto chegou só no dia seguinte. Bem, tudo em volta está deserto, tudo certo, tudo certo como dois com dois são cinco. Quem quiser saber da vida pessoal do Gustavo não pergunte pelo Facebook. Ele raramente responderá a verdade. acompanhamos o resultado da Copa, capo, como nos convém, ou quando o senhor nos chama. Dessa vez soubemos por fontes escusas que ele, após pernoitar em um hotel da Tijuca, partiu acompanhado de uma argentina para a Grécia. Dizem que ele quis protestar contra a Copa. Soubemos também que a argentina se chama Francisca, é uma sex simbol, tem 97 anos e é boa de cama. Well well, assim termina o suposto editorial da semana.

Um giro pela arte com Nilo Zack

“O grafite está para um texto, assim como um grito está para a voz”
Paulo Leminski


Conversamos com o artista Nilo Zack, pintor de ilusões





G.P.
Zack, você desenhava na infância? teve alguma fonte de inspiração dentro de casa? Como surgiu a inspiração primordial?
.
N.Z.
Eu desenho sim desde criança, tenho alguns desenhos que datam de mais ou menos 1990, quando eu tinha 4 anos. Como toda criança falava sem parar e para me manter calado e fora de confusões minha mãe me colocava num canto para desenhar, e ali eu permanecia por um bom tempo.
Meu pai e pintor letrista (faz letreiros, faixas e etc.) então sempre tive contato com tintas e pincéis acredito que daí vem a influência.
.
G.P.
Qual o caminho que trilhou em seu trabalho, para chegar aos indiozinhos que você cria?
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N.Z.
comecei no Graffiti em 2004/2005 numa oficina de um projeto social no Taquaril, depois fui me aprofundando nas técnicas de pintura e procurando conhecer um pouco o universo das artes. Em 2010 em um trabalho para a faculdade surgiu o primeiro "Menino Palhaço" que foi baseado em meu sobrinho.
.
G.P.
que tipo de música você ouvia na adolescência?
.
N.Z.
como um típico adolescente tive minhas fases, mas as mais marcantes foram o Rap e o Rock.
.
G.P.
e como você faz com as dimensões, Zack? Imagina, ou faz um rascunho, ou sei lá, sua visão dimensional...
N.Z.
imagino na hora, gosto sempre de usar toda a superfície que tenho.
Eis que nosso amigo Cláudio Rodrigues assume a entrevista.

C.R.
seu traço é incrível, parece ficar horas se exercitando. Como é seu dia a dia quanto ao grafite?
.
N.Z.
pinto 5 vezes na semana, às vezes só alguns traços pra sentir o cheiro da tinta...
.
C.R.
interessante. Mas você atingiu uma perfeição que parece que fica horas pintando. Como você chegou à perfeição de que estou falando? Qual foi seu percurso no desenho, na pintura e como chegou ao grafite?
.
C.R.
De 2010 a 2012, ficava muitas horas pintando, já cheguei a pintar 12 horas direto, no trabalho feito na rua dos Guaicurus com São Paulo. Comecei com desenho quando criança, depois comecei a pintar com a Pichação, dela fui pro grafite e dele pro mundo das Artes Plásticas...






Grafite ou grafito (do italiano graffiti significa em Latim e Italiano “escritas feitas com carvão” grafite vem da palavra “graphein”, que em Grego significa escrever, sendo também o nome que se dá ao material de carbono que compõe o lápis. Mas, se analisarmos em termos mais genéricos ainda, até mesmo as pinturas rupestres, dos Homens das cavernas, podem ser consideradas uma forma Pré-Histórica do grafite.
Considera-se grafite uma inscrição caligrafada ou um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade. Por muito tempo visto como um assunto irrelevante ou mera contravenção.
hoje o grafite já é considerado como forma de expressão incluída no âmbito das artes visuais, mais especificamente, da street art ou arte urbana - em que o artista aproveita os espaços públicos, criando uma linguagem pessoal para interferir na cidade. No entanto ainda há quem não concorde, equiparando o valor artístico do grafite ao da pichação, o que é bem mais controverso. Consiste em um movimento organizado nas artes plásticas, em que o artista cria uma linguagem intencional para interferir na cidade, aproveitando os espaços públicos da mesma para a crítica social.



Afinal, o que é o texto?

Ao discutir a posição do grafite diante do conceito de arte, tal como é concebida na contemporaneidade, nos colocamos a frente de um enorme giro em torno da Arte ao longo da evolução da raça humana.
Ao fim da caçada, com as mãos lambuzadas de sangue, o homem das cavernas apoia-se em uma das paredes e, por um acaso, deixa o gravado o primeiro registro de sua existência. Deve ter sido assim que tudo começou. Ao perceber que aquela era a representação de sua mão, ele tenta reproduzir outros modelos gráficos (do latim graphicus, -a, -um, desenhado por mão de mestre, perfeito, completo, do grego grafikós, -é, -ón, capaz de desenhar ou de pintar) do pensamento. a descoberta das pinturas pré-históricas promove uma grande discussão no mundo científico, entre os evolucionistas, que tentam atribuir sentido lógico a elas. Não se imaginava o que homem pudesse ter “consciência” do próprio pensamento. Elas exibem uma iconografia variada, em vários "estilos", técnicas e materiais. Em geral, trazem representações de animais, plantas e pessoas, e sinais gráficos abstratos, às vezes usados em combinação. Sua interpretação é difícil e está cercada de controvérsia, mas pensa-se correntemente que possam ilustrar cenas de caça, ritual, cotidiano, ter caráter mágico, e expressar, como uma espécie de linguagem visual, conceitos, símbolos, valores e crenças. Muitas composições são louvadas pela sua beleza e refinamento e seu apelo visual. Por tudo isso, muitos estudiosos atribuem à arte pré-histórica funções e características comparáveis às da arte como hoje é largamente entendida, embora haja uma tendência recente de substituir a denominação "arte" rupestre por "registro" rupestre, considerando a incerteza que cerca seu significado. Permanece, de todo modo, como testemunho precioso de culturas que exercem grande fascínio na contemporaneidade, mas são ainda pouco conhecidas. Fato é que, todo registro gráfico contém uma mensagem que será transmitida e interpretada e reinterpretada, pelo sujeito observante, infinitas vezes. E o Homem da pré-história obviamente sentia fome, um legi-signo simbólico que conhecemos através da palavra fome. Contudo, nesse período (período quaternário, quando o homem surge sobre a face da gleba terrestre) os primeiros bípedes viventes e pensantes não dispunham de uma linguagem preconcebida (sistema de signos linguais utilizados para representar uma ideia. Ideia - uma coisa que está no lugar de outra coisa) para transmitir o pensamento. Então ele reproduzia, de fato, a imagem da caçada que lhe vinha à mente.

















Bem antes




O texto está por toda parte.







É muito curioso verificar a que ponto a filosofia, até o fim do século XVII, fala-nos afinal, o tempo todo, de Deus. E no fim das contas, Spinoza, judeu excomungado, não é o último a falar-nos de Deus. O primeiro livro da Ética, sua grande obra, chama-se "De Deus". E em todos, Descartes, Malebranche, Leibniz, tem-se a impressão de que a fronteira entre a filosofia e a teologia é extremamente vaga. Por que a filosofia comprometeu-se a tal ponto com Deus? Foi assim até o golpe revolucionário dos filósofos do século XVIII. Trata-se de um comprometimento ou de alguma coisa um tanto mais pura? Poderíamos dizer que a filosofia, até o fim do século XVII, deve sempre atender às exigências da Igreja, e que ela é portanto forçada a dar conta de muitos temas religiosos. Porém sentimos muito bem que seria demasiadamente fácil; poderíamos dizer igualmente que, até essa época, sua sorte está um tanto ligada a um sentimento religioso. Eu vou retomar uma analogia com a pintura porque é verdade que a pintura está repleta de imagens de Deus. Minha questão é: basta dizer que se trata de um constrangimento inevitável nessa época? Há duas respostas possíveis. A primeira é sim, trata-se de um constrangimento inevitável dessa época que remete às condições da arte nessa época. Ou então dizer, um pouco mais positivamente, que é porque existe um sentimento religioso ao qual o pintor, e sobretudo a pintura, não escapam. Tampouco escapam dele a filosofia e o filósofo. Isso basta? Não seria possível uma outra hipótese, a saber, que nessa época a pintura tem tanta necessidade de Deus justamente porque o divino, longe de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar de sua emancipação máxima? Em outras palavras, com Deus ele pode fazer seja lá o que for, ele pode fazer o que não poderia fazer com os humanos, com as criaturas. Assim, Deus é investido diretamente pela pintura, por uma espécie de fluxo de pintura, e, nesse nível, a pintura vai encontrar por sua conta uma espécie de liberdade que ela não teria encontrado de outra maneira. No limite, não existe oposição entre o pintor mais piedoso e esse mesmo pintor enquanto faz pintura e que é, de certa maneira, o mais ímpio, pois a maneira pela qual a pintura investe o divino é puramente pictural, onde a pintura encontra, precisamente, as condições de sua emancipação radical. Dou três exemplos: El Greco... Essa criação, ele só poderia obtê-la a partir das figuras do cristianismo. Então é verdade que, num certo nível, havia constrangimentos se exercendo sobre eles, e num outro nível, o artista é aquele que - Bergson dizia isso do vivo, ele dizia que o vivo converte os obstáculos em meios, essa seria uma boa definição do artista. É verdade que há constrangimentos da Igreja que se exercem sobre o pintor, mas há transformação dos constrangimentos em meios de criação. Eles se servem de Deus para obter uma liberação das formas, para levar as formas até um ponto em que as formas já não têm nada a ver com uma ilustração. As formas se desencadeiam. Elas se lançam numa espécie de Sabá, uma dança muito pura, as linhas e as cores perdem toda necessidade de serem verossímeis, de serem exatas, de se assemelharem a qualquer coisa. É a grande liberação das linhas e das cores que se faz em favor dessa aparência: a subordinação da pintura às exigências do cristianismo. Outro exemplo: uma criação do mundo... O Antigo Testamento lhes serve para uma espécie de liberação dos movimentos, das formas, das linhas e das cores. De tal maneira que, em certo sentido, o ateísmo jamais foi exterior à religião: o ateísmo é a potência-artista que trabalha a religião. Com Deus, tudo é permitido. Eu tenho o vivo sentimento de que com a filosofia foi exatamente a mesma coisa, e que se os filósofos nos falaram tanto sobre Deus - e eles podiam muito bem ser cristãos ou crentes -, não foi sem um intenso gracejo. Não era um gracejo de incredulidade, mas uma alegria do trabalho que eles estavam prestes a fazer. Assim como, eu dizia, Deus e Cristo foram para a pintura uma extraordinária ocasião para liberar as linhas, as cores e os movimentos dos constrangimentos da semelhança, também para a filosofia Deus e o tema de Deus foram uma ocasião insubstituível para liberar aquilo que é o objeto de criação em filosofia - ou seja, os conceitos - dos constrangimentos que a simples representação das coisas lhes teria imposto... É no nível de Deus que o conceito é liberado, porque ele já não tem a tarefa de representar alguma coisa; ele torna-se a partir desse momento o signo de uma presença. Falando por analogia, ele assume linhas, cores e movimentos que ele não teria jamais sem esse desvio por Deus. É verdade que os filósofos sofrem os constrangimentos da teologia, mas em tais condições que, a partir desse constrangimento, eles irão produzir um fantástico meio de criação, a saber, eles vão arrancar dele uma liberação do conceito da qual ninguém poderá duvidar. Salvo no caso em que um filósofo vá longe demais ou com demasiada força. Será esse, talvez, o caso de Spinoza? Desde o início, Spinoza se colocou em condições segundo as quais o que ele nos dizia já não tinha mais nada a representar. Eis que aquilo que Spinoza irá chamar de Deus, no primeiro livro da Ética, será a coisa mais estranha do mundo: será o conceito capaz de reunir o conjunto de todas as possibilidades... Por meio do conceito filosófico de Deus realiza-se - e não podia realizar-se senão nesse nível - a mais estranha criação da filosofia como sistema de conceitos.

Em minha boca, esta fórmula metamorfoseia-se em seu inverso...


- Primeiro exemplo de minha "transvaloração de todos os valores": um homem bem constituído, um homem "feliz", precisa empreender certas ações e fugir instintivamente de outras, Ele insere em suas relações com os homens e as coisas a ordem que apresenta fisiologicamente. Para exprimir através de uma fórmula: sua virtude é a consequência de sua felicidade... Uma vida longa, uma rica prole não são a paga pela virtude. Ao contrário, a própria virtude repousa sobre aquele retardamento do metabolismo que, entre outras coisas, tem por consequência um a vida longa, uma rica prole, ou, resumindo, o cornarismo. - A igreja e a moral dizem: "O vício e o luxo levam um povo ou uma raça à aniquilação". Minha razão reconstituída diz: se um povo perece e vai ao fundo, se ele se degenera fisiologicamente, então seguem daí o luxo e o vício (isto é, a necessidade de estímulos cada vez mais intensos e cada vez mais frequentes, tal como os conhece toda e qualquer natureza extenuada). Este homem jovem empalidece e murcha precocemente. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é a causa. Eu digo: o fato de ele ter adoecido, o fato de ele não ter se oposto à doença, foi justamente o efeito de uma vida empobrecida, de uma extenuação hereditária. O leitor de jornais diz: este partido está a caminho de dissolver-se com um tal erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no fim - ele não possui mais sua segurança instintiva. Todo e qualquer erro, de toda e qualquer espécie, é a consequência de uma degradação do instinto, da desagregação da vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo o que é bom é instintivo. - E, consequentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés leves são o primeiro impulso).

Já é...

Hoje já é segunda-feira – descontinuidade, não mais o ano do cavalo...






Heis-me aqui, a mergulhar no vazio – assim seu corpo cheio de graça. Quando se acaricia essa moça, uma doce princesa – venho ao amor como na vida eterna. A porta fechada dos sentidos, sentir-se, como uma formiga que se arrasta. E – então no início do sexo, a tensão do fogo se contém na fonte. Não posso evitar a nudez desse rio. Resvala em meu rosto suave arrepio e no final pequenas brasas... Quando abraço sentimentos como folhas tremem - celebrar também mesmo sem abraços - recordando conversas...

As ficções da lógica

As ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número. Renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca, apenas por este fato, além do bem e do mal. O que nos incita a olhar todos de uma só vez, com desconfiança e troça, não é porque percebemos quão inocentes são as pessoas, nem com que facilidade se enganam repetidamente. Em outras palavras, não é frívolo nem infantil indicar a falta de sinceridade com que elevam um coro unânime de virtuosos e lastimosos protestos quando se toca, ainda que superficialmente, o problema de sua sinceridade. Reagem com uma atitude de conquista de suas opiniões através do exercício espontâneo de uma dialética pura, fria e impassível, quando a realidade demonstra que a maioria das vezes apenas se trata de uma afirmação arbitrária, de um capricho, de uma intuição ou de um desejo íntimo e abstrato que defendem com razões rebuscadas durante muito tempo e, de certo modo, bastante empíricas. Ainda que o neguem, são advogados e frequentemente astutos defensores de seus preconceitos, que eles chamam "verdades". E ainda que não o creiam, estão muito longe de possuir o heroísmo próprio da consciência que se confessa a si mesma sua mentira, isto é, muito longe do valor que se deseja ouvir, seja para advertir um amigo ou para colocar em guarda o inimigo ou para burlar a si mesmo. Ainda há ingênuos acostumados à introspecção que acreditam que existem "certezas imediatas", por exemplo, o "eu penso" ou, como era a crença supersticiosa de Schopenhauer, o “eu quero”, como se nesse caso o conhecimento conseguisse apreender seu objeto pura e simplesmente, enquanto "coisa em si" sem alteração por parte do objeto e do sujeito. Afirmo que a "certeza imediata", bem como o "conhecimento absoluto" ou a "coisa em si" encerram uma contradictio in adjecto (contraditório em si). Seria pois, essa a ocasião de livrar-se do engano que encerram as palavras.

cut-ups glu glu



quinta-feira, agosto 27, 2015

colé Manet...

Teve a perna esquerda amputada devido à gangrena e morreu dias após.
Ele tinha apenas 51 anos quando morreu e agora está enterrado...

O Despertar da Primavera foi a primeira peça de Frank Wedekind...





Ele tinha publicado em sua própria despesa em 1891, mas não foi realizada até Wedekind começou a sua própria companhia de repertório em 1906. A primeira produção nos Estados Unidos ocorreu em 1912, mas desde que o jogo foi em alemão não conseguiu atrair interesse geral. A peça foi finalmente realizada em Inglês em 1917. A performance de estreia quase não aconteceu porque o comissário de Licenças da Cidade New York tentou desligá-lo, alegando que a peça era de natureza pornográfica. Quase imediatamente, Frank Wedekind foi capaz de garantir uma liminar do Supremo Tribunal Federal que permitiu que o jogo continuasse. Infelizmente, o público pareceu concordar com o Senhor Comissário, e fechou o jogo após um único show. Durante a era nazista, a obra de Wedekind não foi realmente proibida, mas desde que ele não defendesse o ponto de vista defendido pelos nazistas, suas peças raramente foram produzidas. Após a morte de Wedekind e ao final da Segunda Guerra Mundial, o jogo era frequentemente produzido na Alemanha. O jogo finalmente retornou aos Estados Unidos em 1958, onde uma nova tradução foi realizada pela Universidade de Chicago Theatre. Ainda hoje o jogo é considerado controverso, embora seja amplamente respeitado, e muitos sentem a necessidade de defender as escolhas de Wedekind com uma variedade de estratégias. Muitos defensores afirmam que a peça é fundamentalmente autobiográfica na natureza. Algumas evidências sugerem que este ponto de vista, por Wedekind disse de Spring Awakening: "Eu comecei a escrever, sem qualquer tipo de plano, apenas com o objetivo de estabelecer o que quer que me atraiu. O plano surgiu após a terceira cena e foi compilado a partir de minhas próprias experiências pessoais ou, as experiências da minha classe de amigos". No entanto, os diários de Wedekind não contêm informações sobre Spring Awakening além de uma nota rara de que alguém tinha lido ou sugeriu que ele enviá-lo para publicação e tal e tal ... e em verdade, nem tudo que Wedekind escreveu sobre sua vida provou ser confiável. Quer ou não os acontecimentos de Spring Awakening foram pessoalmente experimentado por Wedekind, muitas das implicações mais surpreendentes do jogo são suportados pelo registro histórico. Na época em que Wedekind estava começando a escrever, houve um "aumento marcado de suicídio entre crianças em idade escolar" (entre 6 e 7 anos). Durante o final do século XIX Alemanha também viu uma explosão da população, que, juntamente com a migração do campo, levou a um grande aumento no número e tamanho das cidades. Repetiu crises econômicas em 1873, 1880 e na década de 1890 levou a um período de obsessão com o controle imperial consubstanciado pelo Kaiser, o pai simbólico da nação, que representava a "ideologia autoritária da lei, da ordem e da moral conservadora". Em Spring Awakening, Wedekind não só dramatiza um tal suicídio, mas também critica os efeitos nocivos da autoridade e cultura paternalista. Spring Awakening aborda um grande número de temas vagamente relacionadas principalmente através de uma série de diálogos. A trama não tem uma estrutura clara, e muitos dos atores são indistinguíveis uns dos outros. Além disso, Wedekind parece minar e satirizar um número de ideias sem fornecer contrapartidas positivas para substituí-los.
Frank Wedekind in 1883.
Esta confusão parece enraizada na tendência de Wedekind para minar ideias sem realmente apontando quaisquer dedos. De muitas maneiras Spring Awakening é uma sátira com uma mensagem política forte. No entanto, Wedekind nunca diretamente ou implicitamente acusa "o governo", ou "sociedade alemã", ou até mesmo personagens específicos. Wedekind parece estar atirando flechas em todas as direções, sem um único alvo claro. Uma compreensão mais completa da peça pode ser alcançado se o trabalho é visto como uma crônica dos danos causados, ao invés de uma grande polêmica que serviu para inspirar a ação. Wendla, Moritz, e Melchior são melhor vistos como um triângulo. Os três personagens, tanto interagir com e agir em paralelo uns aos outros como cada um na luta para fazer a transição para a vida adulta. O título da peça, Primavera (Primavera ou do) Awakening, refere-se tanto a idade adulta incipiente e a sexualidade incipiente das crianças que formam seu centro. Ambos os significados sugerem começos, a promessa do futuro, e um período de calor e paz. No entanto, até o final do jogo dois personagens estarão mortos - um por suicídio, um por um aborto malfeito. A peça de Wedekind força o leitor e o público a ver que as crianças não podem serem abrigadas das dificuldades da vida seus riscos. O que pode parecer um desenvolvimento pacífico é realmente difícil, assustador e preocupante com o perigo. Apenas Melchior sobrevive, auxiliado pelo misterioso homem em uma máscara. A identidade oculta do homem da máscara dificulta um entendimento completo da sobrevivência de Melchior, mas sugere que não há uma fórmula para garantir uma passagem tranquila da infância para a idade adulta.

segunda-feira, agosto 24, 2015

blue boys


um senão

Um esclarecimento: o Tempo não existe. Foi o homem (raça humana) que o inventou para pontuar o envelhecimento, o declínio da matéria, a impermanência constante. Se Tempo não existe digo, portanto que mais um elo de matéria se fecha nesse momento, como uma cicatriz. Dar destaque a linha temporal, é como "dar-se conta" de que somente o Tempo demarca, delimita e conta essa aventura, da matéria ao espírito, do concreto ao abstrato. Micronizamos o contágio das horas, exterminamos o Tempo que hoje* é somente uma questão global. A interface, a linha que me liga a essa realidade particular via cabo. Como uma torre torta, uma tocata, o hino estadunidense num dedilhado de Hendrix, e depois, um palco vazio. Porquês.

yes son?



Tempo estrutural


Tempo de encontrar uma razão pra viver.A propósito eu não gosto de usar essa palavra tempo para determinar hora, vez. Tampouco razão de viver sendo que sobrevivemos, em outras palavras, não temos escolha senão permanecermos, o que Descartes chamou de existência, até que nosso destino seja cumprido. Vejam que usamos esses eufemismos diários e a única certeza é nossos corpos são tangíveis e a única certeza é a impermanência. São únicas, no plural, e deve haver mais.Tempo de formular uma estrutura e segui-la. Seguramente não encontrarei felicidade, senão um pouco de equilíbrio que pode trazer tranquilidade que pode agir sobre meu cérebro ateu e inundar e preencher meus neurônios de prazer. Encontra-se equilíbrio. Procurar, buscar. Tudo metafísico. Como um barquinho à deriva no mar...

can you picture what will be...

Shalassa

É um paradoxo. Na cidade sinto-me só. E não me sinto só quando estou sozinho na natureza agreste. Sou um montanhista homo-ludens das cavernas. Por exemplo, quando faço o antigo Caminho de Mariana que começo subindo a Serra do Batatal - uma vertente da Serra do Espinhaço - e vou até o Caraça pela crista das montanhas, atravessando campos de altitude e descendo pelos vales... Não me sinto só. Rainer Maria Rilke em suas Cartas a um Jovem Poeta aconselha ao jovem, que acometido também pela solidão, que fosse de encontro à natureza. Sentar-se embaixo de uma árvore, observar as águas do rio. Talvez seja um sábio conselho, porque nesses momentos nos sentimos frágeis e pequenos diante da imensidão. Obriga-me a conviver dinamicamente comigo mesmo. Não é solitária porque estou em pleno contato comigo mesmo. Em contato absoluto. Esse frio me faz lembrar outros outonos que passeei pela serra.

Nietzsche


O andarilho Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: - eles buscam a filosofia da manhã.

Insubmissas Lágrimas de Mulheres


fala 3





Qual a vantagem de ser excêntrica?
eu sou...
Hoje eles me tratam como se eu fosse um homem
num samba da Lapa, meia noite
sou nobre e dei na França
com caçapa e tal

com martelinho e uma bola
dentro dos castelos das casas
pra validar, para praticar,
obrigada

de origem nobre numerada
usando a branca no lugar da outra
corre e segue
seis horas

um pouco de tudo...: Deus por Baruch Espinoza

um pouco de tudo...: Deus por Baruch Espinoza

Novo vídeo (cena 1, diálogo)


Por que não um café? Procurando nas cinzas o que já se foi, já se deflagrou. Com olhar fixo nas nuances. Cada pelo encravado. Estou mais magro, não, estou mais fraco. Ou mais forte. Procurando coisas minúsculas diante da vida de possibilidades, muitas ou parcas. Essa escassez não de não se sabe quê, ri de si mesmo. Esse adormecer febril, sozinho e tíbio, na palidez do amanhecer demorado. Sem saber que coisa quer, ou que coisas querer. Obstinado a burlar a si mesmo por tentar justificar a existência por uma só palavra, por qualquer palavra. Já se foi, fugiu em debandada. Existiu e, simultaneamente, ainda existe. Essa hipofagia na cama e no estômago, e na cabeça. O olhar de pupilas dilata e sem horizonte. Querer saciar essa existência que não cala. Quero engolir-me.

Novo vídeo (cena 1, primeira fala)



meus medos,
meus olhos
meus sonhos, meus monstros

minhas constelações de fogo

Novo vídeo (tomada 2)

e alguém abandona a cena...




não há representatividade
na era da reprodutibilidade técnica


não sei fazer conta de matemática
procuro palavra que me caiba

Novo vídeo (em off)




Verdade que a sombra da morte sinaliza vida?

Acompanhar as campanhas do mundo,
como?
Morte, filosofia, renascimento?
Se chegarmos à compreensão
e será o relâmpago de Deus?


Vou comprar refrigerante...
Telefono em uma hora.

Novo vídeo


Dá-me um segundo. Diga-me, quando chegará o momento oportuno? Aquele momento exato, em que nos meus olhos vão redescobrir o mundo e talvez mude minha apatia diante de tudo. O campeonato em África, meus dedos, minha barba, meus pensamentos. Quando me olho no espelho, não sou mais o mesmo. O mesmo homem diante da vida, o mesmo menino nos seus braços. E não mais me reconheço no espelho. E recomeço através desse outro “eu” que não viu nascer. Apenas surgiu “do nada”, como o passar do tempo, assim como se esquece uma pessoa e repentinamente, não existe mais nada. E realmente não me vejo. E atravesso o espelho.

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Fui ao Inferno comprar algodão doce e o Diabo falou meu nome. (Pronunciou lentamente “aqui Gus-ta-vo”) com voz de quem serve o cliente. Não vou me preocupar em ver, pois, no fim das contas, não comprei nada, minhas criancinhas. Ficaram sem algodão doce. Uma pena que a fome de grana não fosse maior que esse fio melado colorido enroscado num palito com que se compram as coisas? Tentou comprar minha consciência, mas levou apenas um sopro de vela que se apaga. Essa luz era você. Reflexo do meu próprio ego. Atribulação de ser você no meu subconsciente e eu ser você, no seu. Um Nada subjetivo. Um Todo objetivo desconstruído e reconstruído a partir de determinados afectos.

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Ou melhor, never more... never more. E se não houvesse os carteiros o que seria dos emails? Eu não tive e não tenho condições de te dar uma “vida melhor”, vaca das divinas tetas. Você engrossa a massa, ou a transforma? Você acompanha a lenta e arrastada evolução da produção acadêmica, ou ajuda a acelerar a sistematização, problematização de execuções de técnicas sistêmicas de produção acadêmica? Na realidade, salvo o sentido relativo de realidade, se você arrasta, protela, procrastina, delonga o pensamento, a capacidade de raciocínio humano, seja ela de qualquer maneira loquaz e absurda, cinematográfica ou tecnológica, somente em benefício da inserção acadêmica, você já está de lado nenhum em um lugar comum. É como bater carimbo, selar cartas. A marcha estradeira por um oficio medíocre e tolo e no fim das contas, acho que vão me apedrejar por isso. Apontam o dedo e apedrejam mesmo, mas meu dedo tudo que toca sai faísca. Não acredito em você, nas coisas que diz, no seu tom de voz. Acredito sim, na sua mentira.

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Peso cada pelo da minha barba, cada pelo do meu braço, cada pelo do meu saco, cada pelo da minha perna meus dedos e meu corpo inteiro, eu peso cada pelo do meu cu! Salve-se apenas o triste que abastece a fornalha do esquecimento das horas do Tempo das cores que um dia levou, das frases que não morrem, do momento da dor e do prazer, do vento da chuva que a vida disfarça, depois da trovoada.
Vencido pelo previsível inevitável cansaço. Vai lá. Curte o seu "momento"...

ascenseur pour l'echafaud





Não existe “tempo perdido” nessa fração de eternidade. Olha o meu “otimismo” niilista e falso, mentiroso, descompacto. Adianta, funciona – como diriam os matemáticos, servir o caminho reto e se conservar num pote de azeite. Não se pode refazer o começo, mas se pode construir um novo fim, Francisco Cândido. Porque tudo chega ao fim. Ilusões, parcelas de culpa, bondade humana servidão. Um quê sem “porém” redime minha “pena”, porque não existe culpa. A culpa é de quem? E vivo enquanto os outros morrem. Vivo lento, calmantes, barbitúricos. Quando me afasto, no telefone meu progenitor diz – essa vida é uma merda! - Adelante conpañero! Viva la revolución! E me ramifico na beira do abismo com ostras de sentimentos indolentes. Sempre, admito que em meu total, eterno e absoluto desconhecimento dos mistérios da mulher, meu desatino mais hostil nunca fui mau, em meus olhos, minha alma, nunca foram humanamente maus. Vamos seguir esse caminho, feito um náufrago, feito um barquinho vai à deriva de qualquer preceito, qualquer nota, qualquer tema isolado num tango rasgado, um tango mudo de bandoleón, um tango mímico, prestidigitador. High Low. Porque essa vaidade mortificar o outro se “Eu é o outro”, escreveu Rimbaud. Se essa vida fosse propriamente uma merda, juro que o meu mor-próprio não deixaria estar aqui escrevendo. Mesmo que eu queira ouvir uma “de fossa” do Roberto, o Rei. Ser tomado pela merda é como o lírio ser infestado pelo mangue, como se morto, ainda assim eu me matasse por dentro e por fora. Ah, sonhos, ah destrezas mal vividas. Vai pela vida, pássaro contente.

domingo, agosto 23, 2015

Deus - uma analogia com a pintura...




Uma analogia com a pintura porque é verdade que a pintura está repleta de imagens de Deus. Minha questão é: basta dizer que se trata de um constrangimento inevitável nessa época? Há duas respostas possíveis. A primeira é sim, trata-se de um constrangimento inevitável dessa época que remete às condições da arte nessa época. Ou então dizer, um pouco mais positivamente, que é porque existe um sentimento religioso ao qual o pintor, e sobretudo a pintura, não escapam. Tampouco escapam dele a filosofia e o filósofo. Isso basta? Não seria possível uma outra hipótese, a saber, que nessa época a pintura tem tanta necessidade de Deus justamente porque o divino, longe de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar de sua emancipação máxima? Em outras palavras, com Deus ele pode fazer seja lá o que for, ele pode fazer o que não poderia fazer com os humanos, com as criaturas. Assim, Deus é investido diretamente pela pintura, por uma espécie de fluxo de pintura, e, nesse nível, a pintura vai encontrar por sua conta uma espécie de liberdade que ela não teria encontrado de outra maneira. No limite, não existe oposição entre o pintor mais piedoso e esse mesmo pintor enquanto faz pintura e que é, de certa maneira, o mais ímpio, pois a maneira pela qual a pintura investe o divino é puramente pictural, onde a pintura encontra, precisamente, as condições de sua emancipação radical. Dou três exemplos: El Greco... Essa criação, ele só poderia obtê-la a partir das figuras do cristianismo. Então é verdade que, num certo nível, havia constrangimentos se exercendo sobre eles, e num outro nível, o artista é aquele que - Bergson dizia isso do vivo, ele dizia que o vivo converte os obstáculos em meios, essa seria uma boa definição do artista. É verdade que há constrangimentos da Igreja que se exercem sobre o pintor, mas há transformação dos constrangimentos em meios de criação. Eles se servem de Deus para obter uma liberação das formas, para levar as formas até um ponto em que as formas já não têm nada a ver com uma ilustração. As formas se desencadeiam. Elas se lançam numa espécie de Sabá, uma dança muito pura, as linhas e as cores perdem toda necessidade de serem verossímeis, de serem exatas, de se assemelharem a qualquer coisa. É a grande liberação das linhas e das cores que se faz em favor dessa aparência: a subordinação da pintura às exigências do cristianismo. Outro exemplo: uma criação do mundo... O Antigo Testamento lhes serve para uma espécie de liberação dos movimentos, das formas, das linhas e das cores. De tal maneira que, em certo sentido, o ateísmo jamais foi exterior à religião: o ateísmo é a potência-artista que trabalha a religião. Com Deus, tudo é permitido. Eu tenho o vivo sentimento de que com a filosofia foi exatamente a mesma coisa, e que se os filósofos nos falaram tanto sobre Deus - e eles podiam muito bem ser cristãos ou crentes -, não foi sem um intenso gracejo. Não era um gracejo de incredulidade, mas uma alegria do trabalho que eles estavam prestes a fazer. Assim como, eu dizia, Deus e Cristo foram para a pintura uma extraordinária ocasião para liberar as linhas, as cores e os movimentos dos constrangimentos da semelhança, também para a filosofia Deus e o tema de Deus foram uma ocasião insubstituível para liberar aquilo que é o objeto de criação em filosofia - ou seja, os conceitos - dos constrangimentos que a simples representação das coisas lhes teria imposto... É no nível de Deus que o conceito é liberado, porque ele já não tem a tarefa de representar alguma coisa; ele torna-se a partir desse momento o signo de uma presença. Falando por analogia, ele assume linhas, cores e movimentos que ele não teria jamais sem esse desvio por Deus. É verdade que os filósofos sofrem os constrangimentos da teologia, mas em tais condições que, a partir desse constrangimento, eles irão produzir um fantástico meio de criação, a saber, eles vão arrancar dele uma liberação do conceito da qual ninguém poderá duvidar. Salvo no caso em que um filósofo vá longe demais ou com demasiada força. Será esse, talvez, o caso de Spinoza? Desde o início, Spinoza se colocou em condições segundo as quais o que ele nos dizia já não tinha mais nada a representar. Eis que aquilo que Spinoza irá chamar de Deus, no primeiro livro da Ética, será a coisa mais estranha do mundo: será o conceito capaz de reunir o conjunto de todas as possibilidades... Por meio do conceito filosófico de Deus realiza-se - e não podia realizar-se senão nesse nível - a mais estranha criação da filosofia como sistema de conceitos. O que os pintores e os filósofos fizeram Deus padecer representa, seja a pintura como paixão, seja a filosofia como paixão. Os pintores fizeram o corpo de Cristo padecer uma nova paixão: eles o condensam, o contraem... A perspectiva é liberada de todo constrangimento de representar seja lá o que for, e para os filósofos é a mesma coisa. Eu tomo Leibniz como exemplo. Leibniz recomeça a criação do mundo. Ele retoma o problema clássico: saber qual é o papel do entendimento de Deus e da vontade de Deus na criação do mundo. Suponhamos que Leibniz nos conte isto: Deus possui um entendimento, certamente um entendimento infinito. Ele não se assemelha ao nosso. A própria palavra "entendimento" seria equívoca. Ela não teria um único sentido, uma vez que o entendimento infinito não é em absoluto idêntico ao nosso próprio entendimento, que é um entendimento finito. No entendimento infinito, o que é que se passa? Antes que Deus crie o mundo, há por certo um entendimento, porém não há nada, não há mundo. Não, diz Leibniz, mas há os possíveis. Há possíveis no entendimento de Deus, e todos esses possíveis tendem à existência. Eis que a essência é, para Leibniz, uma tendência à existência, uma possibilidade que tende à existência. Todos esses possíveis pesam de acordo com sua quantidade de perfeição. O entendimento de Deus torna-se como que uma espécie de invólucro onde todos os possíveis descem e se chocam. Todos querem passar à existência. Mas Leibniz nos diz que isso não é possível, todos eles não podem passar à existência. Por quê? Porque cada um por sua conta poderia passar à existência, mas eles em sua totalidade não formam combinações compatíveis. Há incompatibilidades do ponto de vista da existência. Determinado possível não pode ser compossível com outro possível. Eis a segunda etapa: ele está prestes a criar uma relação lógica de um tipo completamente novo: não há somente as possibilidades, há também os problemas de compossibilidade. Um possível é compossível com tal outro possível? Então qual é o conjunto de possíveis que passará à existência? Só passará à existência o conjunto de possíveis que, por sua conta, possuir a maior quantidade de perfeição. Os outros serão recalcados. É a vontade de Deus que escolhe o melhor dos mundos possíveis. É um extraordinário descenso para a criação do mundo, e, em favor desse descenso, Leibniz cria todos os tipos de conceitos. Nem mesmo se pode dizer que esses conceitos sejam representativos, pois eles precedem as coisas a representar. E Leibniz lança sua célebre metáfora: Deus cria o mundo como quem joga xadrez, trata-se de escolher a melhor combinação. E o cálculo do xadrez irá dominar a visão leibniziana do entendimento divino. É uma criação de conceitos extraordinária, que encontra no tema de Deus a condição mesma de sua liberdade e de sua liberação. Ainda uma vez, do mesmo modo que o pintor servia-se de Deus para que as linhas, as cores e o movimento não fossem constrangidos a representar algo prévio, a reproduzir algo pronto. Não se trata de perguntar o que um conceito representa. É preciso perguntar qual é o seu lugar num conjunto de outros conceitos. Na maior parte dos grandes filósofos, os conceitos que eles criam são inseparáveis, e são tomados em verdadeiras sequências. Se não compreendemos a sequência da qual faz parte um conceito, não poderemos compreender o conceito. Eu emprego o termo sequência porque faço uma espécie de aproximação com a pintura. Se de fato a unidade constituinte do cinema é a sequência, acredito que, guardadas as proporções, poderia se dizer o mesmo do conceito e da filosofia. No nível do problema do Ser e do Um, é verdade que os filósofos vão restabelecer uma sequência em sua tentativa de criação conceitual sobre as relações entre o Ser e o Um. A meu ver, quem faz as primeiras grandes sequências na filosofia, no nível dos conceitos, é Platão, na segunda parte do Parmênides. Há, com efeito, duas sequências. A segunda parte do Parmênides é feita de sete hipóteses. Essas sete hipóteses se dividem em dois grupos: primeiramente três hipóteses, depois outras quatro. São duas seqüências. Primeiro tempo: suponhamos que o Um é superior ao Ser, que o Um está acima do Ser. Segundo tempo: o Um é igual ao Ser. Terceiro tempo: o Um é inferior ao Ser, e deriva do Ser. Jamais digam que um filósofo se contradiz; ao invés disso, perguntem: "Tal página, em que sequência colocá-la, em que nível da sequência?" E é evidente que o Um do qual Platão nos fala, segundo esteja situado no nível da primeira, da segunda ou da terceira hipótese, não é o mesmo. Plotino, um discípulo de Platão, fala-nos num certo nível do Um como origem radical do Ser. Nesse caso, o Ser sai do Um. O Um faz Ser, portanto ele não é, ele é superior ao Ser. Essa será a linguagem da pura emanação: do Um emana o Ser. Ou seja, o Um não sai de si para produzir o Ser, pois se ele saísse de si ele se tornaria Dois; mas o Ser sai do Um. Essa é a fórmula mesma da causa emanante. Porém quando nos instalamos no nível do Ser, o mesmo Plotino irá nos falar em termos esplêndidos e em termos líricos do Ser que contém todos os seres, o Ser que compreende todos os seres. E ele emite toda uma série de fórmulas que terão uma grande importância para toda a filosofia do Renascimento. Ele dirá que o Ser complica todos os seres. É uma fórmula admirável. Porque é que o Ser complica todos os seres? Porque cada ser explica o Ser. Existe aí um dobrete: complicar, explicar. Cada coisa explica o Ser, mas o Ser complica todas as coisas, ou seja, compreende-as em si. Então essas páginas de Plotino já não se referem à emanação. Vocês se dirão que a sequência evoluiu: ele está prestes a nos falar de uma causa imanente. E, com efeito, o Ser se comporta como uma causa imanente em relação aos seres, mas ao mesmo tempo o Um se comporta em relação ao Ser como uma causa emanante. E se descermos um pouco mais, veremos que há em Plotino, que entretanto não é cristão, alguma coisa que assemelha-se muito a uma causa criativa. De certa maneira, se vocês não levarem em conta as sequências, não saberão mais ao certo de que ele está falando. A menos que existam filósofos que destroem as sequências porque querem fazer outra coisa. Uma sequência conceitual seria o equivalente das nuanças em pintura. Um conceito muda de tom, ou no limite muda de timbre. Haveria aí como que timbres, tonalidades. Até Spinoza, a filosofia caminhou essencialmente por sequências. E, nessa via, as nuanças que concernem à causalidade eram muito importantes. A causalidade original, a causa primeira, ela é emanante, imanente, criativa ou ainda alguma outra coisa? Assim, a causa imanente estava presente na filosofiao tempo todo, mas sempre como um tema que não ia até as últimas consequências. Por quê? Porque era sem dúvida o tema mais perigoso. Deus pode muito bem ser tratado como causa emanante, isso não traz nenhum problema, porque haverá ainda uma distinção entre a causa e o efeito. Mas tudo se torna muito mais difícil se Ele for tratado como causa imanente, de tal modo que não se saiba muito bem como distinguir a causa e o efeito, ou seja, Deus e a criatura. A imanência era antes de mais nada o perigo. Assim, a idéia de uma causa imanente aparece constantemente na história da filosofia, porém refreada, mantida num determinado nível da sequência, carecendo de valor e devendo ser corrigida nos outros momentos da sequência, pois a acusação de imanentismo foi, em toda a história das heresias, a acusação fundamental: "Você confunde Deus e a criatura". Essa é a acusação para a qual não há perdão. Portanto a causa imanente estava constantemente em jogo, mas não chegava a receber um estatuto. Ela só tinha um pequeno lugar na sequência dos conceitos. Chega Spinoza. Ele havia sido precedido sem dúvida por todos aqueles que tiveram mais ou menos audácia no que concerne à causa imanente, isto é, essa causa bizarra que não apenas permanece em si para produzir, mas cujos produtos permanecem nela. Deus está no mundo, o mundo está em Deus. Na Ética, creio que a Ética está construída sobre uma primeira grande proposição que se poderia chamar a proposição especulativa ou teórica. A proposição especulativa de Spinoza é: só existe uma única substância absolutamente infinita, ou seja, que possui todos os atributos, e aquilo que se chama de criaturas não são criaturas, mas os modos ou maneiras de ser dessa substância. Portanto, uma única substância possuindo todos os atributos e cujos produtos são os modos, as maneiras de ser. Desde então, se eles são as maneiras de ser da substância que possui todos os atributos, esses modos existem nos atributos da substância. Eles estão compreendidos nos atributos. Todas as consequências aparecem imediatamente. Não há nenhuma hierarquia nos atributos de Deus, da substância. Por quê? Se a substância possui igualmente todos os atributos, não existe hierarquia entre os atributos, um não vale mais do que o outro. Em outros termos, se o pensamento é um atributo de Deus e se a extensão é um atributo de Deus ou da substância, não haverá nenhuma hierarquia entre o pensamento e a extensão. Todos os atributos terão o mesmo valor a partir do momento em que eles são atributos da substância. Ainda permanecemos no abstrato. É a figura especulativa da imanência. Tiro daí algumas conclusões. É isso que Spinoza irá chamar de Deus. Ele chama isso de Deus porque se trata do absolutamente infinito. O que isso representa? É muito curioso. Pode-se viver dessa maneira? Tiro daí duas consequências. Primeira consequência: ele é quem ousa fazer o que muitos tiveram o desejo de fazer, a saber, liberar completamente a causa imanente de qualquer subordinação a outros processos de causalidade. Só existe uma causa, a causa imanente. E isso tem uma influência sobre a prática. Spinoza não intitula seu livro "Ontologia", ele é demasiadamente sagaz para isso, ele o intitula "Ética". E essa é uma maneira de dizer que, qualquer que seja a importância de minhas proposições especulativas, vocês só poderão julgá-las no nível da ética que elas envolvem ou implicam. Ele libera completamente a causa imanente com a qual, até aí, haviam lidado os judeus, os cristãos, os heréticos, porém no interior de sequências muito precisas de conceitos. Spinoza arranca-a de todas as sequências e faz uma violenta apropriação no nível dos conceitos. Já não há mais sequência. Posto que ele extraiu a causalidade imanente da sequência das grandes causas, das causas primeiras, posto que ele aplanou tudo sobre uma substância absolutamente infinita que possui todos os atributos e compreende todas as coisas como seus modos, ele substituiu a sequência por um verdadeiro plano de imanência. É uma revolução conceitual extraordinária: em Spinoza tudo se passa como que sobre um plano fixo. Um extraordinário plano fixo que não será de modo algum um plano de imobilidade, pois todas as coisas irão se mover - e para Spinoza só o movimento das coisas conta - sobre esse plano fixo. Ele inventa um plano fixo. A proposição especulativa de Spinoza é essa: arrancar o conceito do estado de variações de sequências e projetar tudo sobre um plano fixo que é o da imanência. Isso implica uma técnica extraordinária. Viver num plano fixo é também um certo modo de vida. Eu não vivo mais segundo sequências variáveis. Então, viver sobre um plano fixo, o que seria isso? É Spinoza polindo suas lentes, ele que tudo abandonou, sua herança, sua religião, todo êxito social. Ele não faz nada e antes mesmo que tenha escrito seja lá o que for, é injuriado, denunciado. Spinoza é o ateu, o abominável. Ele praticamente não pode publicar. Ele escreve cartas. Ele não queria ser professor. No "Tratado Político" ele concebe o magistério como uma atividade não remunerada, e mais ainda, diz que seria preciso pagar para ensinar. Os professores ensinariam arriscando sua fortuna e sua reputação. Um verdadeiro professor público seria isso. Spinoza relaciona-se com um grande grupo de estudantes, ele envia-lhes a Ética à medida que a escreve, e eles explicam os textos de Spinoza uns para os outros, e escrevem a Spinoza, que responde. São pessoas muito inteligentes. Essa correspondência é essencial. Ele tem sua pequena rede. Denunciado em toda parte, ele se preserva graças à proteção dos irmãos De Witt. É como se ele inventasse o plano fixo no nível dos conceitos. A meu ver, é a mais fundamental tentativa de dar um estatuto à univocidade do Ser, um Ser absolutamente unívoco. O Ser unívoco é precisamente o que Spinoza define como sendo a substância tendo todos os atributos iguais, tendo todas as coisas como modos. A substância absolutamente infinita é o Ser enquanto Ser, os atributos todos iguais uns aos outros são a essência do Ser - e aqui temos essa espécie de plano sobre o qual tudo é aplanado e onde tudo se inscreve. Nenhum filósofo foi tratado por seus leitores como Spinoza o foi, graças a Deus. Spinoza foi um desses autores essenciais, por exemplo, para o romantismo alemão. Ora, mesmo esses autores tão cultos nos dizem algo muito curioso. Eles dizem que a Ética é a obra que nos apresenta a totalidade mais sistemática, é o sistema levado ao absoluto, é o Ser unívoco, o Ser que não se diz a não ser em um único sentido. É a ponta extrema do sistema. É a totalidade mais absoluta. E também dizem, ao mesmo tempo, que quando lemos a Ética temos sempre o sentimento de que não chegamos a compreender o conjunto. O conjunto nos escapa. Não somos suficientemente rápidos para reter tudo conjuntamente. Há uma página muito bela de Goethe em que ele diz que releu dez vezes a mesma coisa e que ele nunca compreende o conjunto. Cada vez que eu o leio eu compreendo uma outra parte. Spinoza é o filósofo cujo aparelho conceitual está entre os mais sistemáticos de toda a filosofia. E, no entanto, nós leitores temos sempre a impressão de que o conjunto nos escapa e que estamos reduzidos a sermos tomados por esta ou aquela parte. Somos verdadeiramente tomados por esta ou aquela parte. Num outro nível, ele é o filósofo que leva mais longe o sistema de conceitos, e portanto exige uma cultura filosófica muito grande. O início da Ética começa com definições: da substância, da essência, etc. Isso remete a toda a escolástica e ao mesmo tempo não há filósofo que possa, como ele, ser lido sem que se saiba absolutamente nada. E é preciso manter ambos. Vamos, pois, compreender esse mistério Delbos diz que Spinoza é um grande vento que nos arrasta. Isso combina bem com a minha história do plano fixo. Poucos filósofos tiveram esse mérito de aceder ao estatuto de um grande vento calmo. E os miseráveis, os pobres tipos que leem Spinoza, o comparam a rajadas que nos assaltam. Como conciliar a existência de uma leitura analfabeta e de uma compreensão analfabeta de Spinoza com esse outro fato, o de que Spinoza seja, repito, um dos filósofos que constituíram o aparelho conceitual mais minucioso do mundo? Existe aqui um êxito no nível da linguagem. A Ética é um livro que Spinoza considera como terminado. Ele não publicou o seu livro porque sabia que, se o publicasse, seria preso. Todo mundo lhe cai em cima, ele já não tem um protetor. As coisas vão muito mal para ele. Ele renunciou à publicação, mas em certo sentido isso não tinha importância, pois seus alunos já possuíam o texto. Leibniz conhecia o texto. De que é feito esse texto? Ele começa pela Ética demonstrada à maneira geométrica. É o emprego do método geométrico. Muitos autores já empregaram esse método, mas geralmente em uma senciência na qual uma proposição filosófica é demonstrada à maneira de uma proposição geométrica, de um teorema. Spinoza arranca-o do estado de um momento numa sequência e fará dele o método completo de exposição da Ética. De modo que a Ética se divide em cinco livros. Ela começa com definições, axiomas, proposições ou teoremas, demonstrações do teorema, corolário do teorema, etc. É isso o grande vento, formando uma espécie de camada contínua. A exposição geométrica já não é em absoluto a expressão de um momento numa sequência, ele pode livrar-se dela completamente porque o método geométrico será o processo que consiste em preencher o plano fixo da substância absolutamente infinita. Portanto, um grande vento calmo. E em tudo isso há um encadeamento contínuo de conceitos, cada teorema remete a outros teoremas, cada demonstração remete a outras demonstrações. Uma analogia com a pintura porque é verdade que a pintura está repleta de imagens de Deus. Minha questão é: basta dizer que se trata de um constrangimento inevitável nessa época? Há duas respostas possíveis. A primeira é sim, trata-se de um constrangimento inevitável dessa época que remete às condições da arte nessa época. Ou então dizer, um pouco maispositivamente, que é porque existe um sentimento religioso ao qual o pintor, e sobretudo a pintura, não escapam. Tampouco escapam dele a filosofia e o filósofo. Isso basta? Não seria possível uma outra hipótese, a saber, que nessa época a pintura tem tanta necessidade de Deus justamente porque o divino, longe de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar de sua emancipação máxima? Em outras palavras, com Deus ele pode fazer seja lá o que for, ele pode fazer o que não poderia fazer com os humanos, com as criaturas. Assim, Deus é investido diretamente pela pintura, por uma espécie de fluxo de pintura, e, nesse nível, a pintura vai encontrar por sua conta uma espécie de liberdade que ela não teria encontrado de outra maneira. No limite, não existe oposição entre o pintor mais piedoso e esse mesmo pintor enquanto faz pintura e que é, de certa maneira, o mais ímpio, pois a maneira pela qual a pintura investe o divino é puramente pictural, onde a pintura encontra, precisamente, as condições de sua emancipação radical. Dou três exemplos: El Greco... Essa criação, ele só poderia obtê-la a partir das figuras do cristianismo. Então é verdade que, num certo nível, havia constrangimentos se exercendo sobreeles, e num outro nível, o artista é aquele que - Bergson dizia isso do vivo, ele dizia que o vivo converte os obstáculos em meios, essa seria uma boa definição do artista. É verdade que há constrangimentos da Igreja que se exercem sobre o pintor, mas há transformação dos constrangimentos em meios de criação. Eles se servem de Deus para obter uma liberação das formas, para levar as formas até um ponto em que as formas já não têm nada a ver com uma ilustração. As formas se desencadeiam. Elas se lançam numa espécie de Sabá, uma dança muito pura, as linhas e as cores perdem toda necessidade de serem verossímeis, de serem exatas, de se assemelharem a qualquer coisa. É a grande liberação das linhas e das cores que se faz em favor dessa aparência: a subordinação da pintura às exigências do cristianismo. Outro exemplo: uma criação do mundo... O Antigo Testamento lhes serve para uma espécie de liberação dos movimentos, das formas, das linhas e das cores. De tal maneira que, em certo sentido, o ateísmo jamais foi exterior à religião: o ateísmo é a potência-artista que trabalha a religião. Com Deus, tudo é permitido. Eu tenho o vivo sentimento de que com a filosofia foi exatamente a mesma coisa, e que se os filósofos nos falaram tanto sobre Deus - e eles podiam muito bem ser cristãos ou crentes -, não foi sem um intenso gracejo. Não era um gracejo de incredulidade, mas uma alegria do trabalho que eles estavam prestes a fazer. Assim como, eu dizia, Deus e Cristo foram para a pintura uma extraordinária ocasião para liberar as linhas, as cores e os movimentos dos constrangimentos da semelhança, também para a filosofia Deus e o tema de Deus foram uma ocasião insubstituível para liberar aquilo que é o objeto de criação em filosofia - ou seja, os conceitos - dos constrangimentos que a simples representação das coisas lhes teria imposto... É no nível de Deus que o conceito é liberado, porque ele já não tem a tarefa de representar alguma coisa; ele torna-se a partir desse momento o signo de uma presença. Falando por analogia, ele assume linhas, cores e movimentos que ele não teria jamais sem esse desvio por Deus. É verdade que os filósofos sofrem os constrangimentos da teologia, mas em tais condições que, a partir desse constrangimento, eles irão produzir um fantástico meio de criação, a saber, eles vão arrancar dele uma liberação do conceito da qual ninguém poderá duvidar. Salvo no caso em que um filósofo vá longe demais ou com demasiada força. Será esse, talvez, o caso de Spinoza? Desde o início, Spinoza se colocou em condições segundo as quais o que ele nos dizia já não tinha mais nada a representar. Eis que aquilo que Spinoza irá chamar de Deus, no primeiro livro da Ética, será a coisa mais estranha do mundo: será o conceito capaz de reunir o conjunto de todas as possibilidades... Por meio do conceito filosófico de Deus realiza-se - e não podia realizar-se senão nesse nível - a mais estranha criação da filosofia como sistema de conceitos.
O que os pintores e os filósofos fizeram Deus padecer representa, seja a pintura como paixão, seja a filosofia como paixão. Os pintores fizeram o corpo de Cristo padecer uma nova paixão: eles o condensam, o contraem... A perspectiva é liberada de todo constrangimento de representar seja lá o que for, e para os filósofos é a mesma coisa. Eu tomo Leibniz como exemplo. Leibniz recomeça a criação do mundo. Ele retoma o problema clássico: saber qual é o papel do entendimento de Deus e da vontade de Deus na criação do mundo. Suponhamos que Leibniz nos conte isto: Deus possui um entendimento, certamente um entendimento infinito. Ele não se assemelha ao nosso. A própria palavra "entendimento" seria equívoca. Ela não teria um único sentido, uma vez que o entendimento infinito não é em absoluto idêntico ao nosso próprio entendimento, que é um entendimento finito. No entendimento infinito, o que é que se passa? Antes que Deus crie o mundo, há por certo um entendimento, porém não há nada, não há mundo. Não, diz Leibniz, mas há os possíveis. Há possíveis no entendimento de Deus, e todos esses possíveis tendem à existência. Eis que a essência é, para Leibniz, uma tendência à existência, uma possibilidade que tende à existência. Todos esses possíveis pesam de acordo com sua quantidade de perfeição. O entendimento de Deus torna-se como que uma espécie de invólucro onde todos os possíveis descem e se chocam. Todos querem passar à existência. Mas Leibniz nos diz que isso não é possível, todos eles não podem passar à existência. Por quê? Porque cada um por sua conta poderia passar à existência, mas eles em sua totalidade não formam combinações compatíveis. Há incompatibilidades do ponto de vista da existência. Determinado possível não pode ser compossível com outro possível. Eis a segunda etapa: ele está prestes a criar uma relação lógica de um tipo completamente novo: não há somente as possibilidades, há também os problemas de compossibilidade. Um possível é compossível com tal outro possível? Então qual é o conjunto de possíveis que passará à existência? Só passará à existência o conjunto de possíveis que, por sua conta, possuir a maior quantidade de perfeição. Os outros serão recalcados. É a vontade de Deus que escolhe o melhor dos mundos possíveis. É um extraordinário descenso para a criação do mundo, e, em favor desse descenso, Leibniz cria todos os tipos de conceitos. Nem mesmo se pode dizer que esses conceitos sejam representativos, pois eles precedem as coisas a representar. E Leibniz lança sua célebre metáfora: Deus cria o mundo como quem joga xadrez, trata-se de escolher a melhor combinação. E o cálculo do xadrez irá dominar a visão leibniziana do entendimento divino. É uma criação de conceitos extraordinária, que encontra no tema de Deus a condição mesma de sua liberdade e de sua liberação. Ainda uma vez, do mesmo modo que o pintor servia-se de Deus para que as linhas, as cores e o movimento não fossem constrangidos a representar algo prévio, a reproduzir algo pronto. Não se trata de perguntar o que um conceito representa. É preciso perguntar qual é o seu lugar num conjunto de outros conceitos. Na maior parte dos grandes filósofos, os conceitos que eles criam são inseparáveis, e são tomados em verdadeiras sequências. Se não compreendemos a sequência da qual faz parte um conceito, não poderemos compreender o conceito. Eu emprego o termo seqüência porque faço uma espécie de aproximação com a pintura. Se de fato a unidade constituinte do cinema é a sequência, acredito que, guardadas as proporções, poderia se dizer o mesmo do conceito e da filosofia. No nível do problema do Ser e do Um, é verdade que os filósofos vão restabelecer uma sequência em sua tentativa de criação conceitual sobre as relações entre o Ser e o Um. A meu ver, quem faz as primeiras grandes sequências na filosofia, no nível dos conceitos, é Platão, na segunda parte do Parmênides. Há, com efeito, duas sequências. A segunda parte do Parmênides é feita de sete hipóteses. Essas sete hipóteses se dividem em dois grupos: primeiramente três hipóteses, depois outras quatro. São duas seqüências. Primeiro tempo: suponhamos que o Um é superior ao Ser, que o Um está acima do Ser. Segundo tempo: o Um é igual ao Ser. Terceiro tempo: o Um é inferior ao Ser, e deriva do Ser. Jamais digam que um filósofo se contradiz; ao invés disso, perguntem: "Tal página, em que sequência colocá-la, em que nível da sequência?" E é evidente que o Um do qual Platão nos fala, segundo esteja situado no nível da primeira, da segunda ou da terceira hipótese, não é o mesmo. Plotino, um discípulo de Platão, fala-nos num certo nível do Um como origem radical do Ser. Nesse caso, o Ser sai do Um. O Um faz Ser, portanto ele não é, ele é superior ao Ser. Essa será a linguagem da pura emanação: do Um emana o Ser. Ou seja, o Um não sai de si para produzir o Ser, pois se ele saísse de si ele se tornaria Dois; mas o Ser sai do Um. Essa é a fórmula mesma da causa emanante. Porém quando nos instalamos no nível do Ser, o mesmo Plotino irá nos falar em termos esplêndidos e em termos líricos do Ser que contém todos os seres, o Ser que compreende todos os seres. E ele emite toda uma série de fórmulas que terão uma grande importância para toda a filosofia do Renascimento. Ele dirá que o Ser complica todos os seres. É uma fórmula admirável. Porque é que o Ser complica todos os seres? Porque cada ser explica o Ser. Existe aí um dobrete: complicar, explicar. Cada coisa explica o Ser, mas o Ser complica todas as coisas, ou seja, compreende-as em si. Então essas páginas de Plotino já não se referem à emanação. Vocês se dirão que a sequência evoluiu: ele está prestes a nos falar de uma causa imanente. E, com efeito, o Ser se comporta como uma causa imanente em relação aos seres, mas ao mesmo tempo o Um se comporta em relação ao Ser como uma causa emanante. E se descermos um pouco mais, veremos que há em Plotino, que entretanto não é cristão, alguma coisa que assemelha-se muito a uma causa criativa. De certa maneira, se vocês não levarem em conta as sequências, não saberão mais ao certo de que ele está falando. A menos que existam filósofos que destroem as sequências porque querem fazer outra coisa. Uma sequência conceitual seria o equivalente das nuanças em pintura. Um conceito muda de tom, ou no limite muda de timbre. Haveria aí como que timbres, tonalidades. Até Spinoza, a filosofia caminhou essencialmente por sequências. E, nessa via, as nuanças que concernem à causalidade eram muito importantes. A causalidade original, a causa primeira, ela é emanante, imanente, criativa ou ainda alguma outra coisa? Assim, a causa imanente estava presente na filosofia o tempo todo, mas sempre como um tema que não ia até as últimas consequências. Por quê? Porque era sem dúvida o tema mais perigoso. Deus pode muito bem ser tratado como causa emanante, isso não traz nenhum problema, porque haverá ainda uma distinção entre a causa e o efeito. Mas tudo se torna muito mais difícil se Ele for tratado como causa imanente, de tal modo que não se saiba muito bem como distinguir a causa e o efeito, ou seja, Deus e a criatura. A imanência era antes de mais nada o perigo. Assim, a idéia de uma causa imanente aparece constantemente na história da filosofia, porém refreada, mantida num determinado nível da seqüência, carecendo de valor e devendo ser corrigida nos outros momentos da seqüência, pois a acusação de imanentismo foi, em toda a história das heresias, a acusação fundamental: "Você confunde Deus e a criatura". Essa é a acusação para a qual não há perdão. Portanto a causa imanente estava constantemente em jogo, mas não chegava a receber um estatuto. Ela só tinha um pequeno lugar na sequência dos conceitos. Chega Spinoza. Ele havia sido precedido sem dúvida por todos aqueles que tiveram mais ou menos audácia no que concerne à causa imanente, isto é, essa causa bizarra que não apenas permanece em si para produzir, mas cujos produtos permanecem nela. Deus está no mundo, o mundo está em Deus. Na Ética, creio que a Ética está construída sobre uma primeira grande proposição que se poderia chamar a proposição especulativa ou teórica. A proposição especulativa de Spinoza é: só existe uma única substância absolutamente infinita, ou seja, que possui todos os atributos, e aquilo que se chama de criaturas não são criaturas, mas os modos ou maneiras de ser dessa substância. Portanto, uma única substância possuindo todos os atributos e cujos produtos são os modos, as maneiras de ser. Desde então, se eles são as maneiras de ser da substância que possui todos os atributos, esses modos existem nos atributos da substância. Eles estão compreendidos nos atributos. Todas as consequências aparecem imediatamente. Não há nenhuma hierarquia nos atributos de Deus, da substância. Por quê? Se a substância possui igualmente todos os atributos, não existe hierarquia entre os atributos, um não vale mais do que o outro. Em outros termos, se o pensamento é um atributo de Deus e se a extensão é um atributo de Deus ou da substância, não haverá nenhuma hierarquia entre o pensamento e a extensão. Todos os atributos terão o mesmo valor a partir do momento em que eles são atributos da substância. Ainda permanecemos no abstrato. É a figura especulativa da imanência. Tiro daí algumas conclusões. É isso que Spinoza irá chamar de Deus. Ele chama isso de Deus porque se trata do absolutamente infinito. O que isso representa? É muito curioso. Pode-se viver dessa maneira? Tiro daí duas consequências. Primeira consequência: ele é quem ousa fazer o que muitos tiveram o desejo de fazer, a saber, liberar completamente a causa imanente de qualquer subordinação a outros processos de causalidade. Só existe uma causa, a causa imanente. E isso tem uma influência sobre a prática. Spinoza não intitula seu livro "Ontologia", ele é demasiadamente sagaz para isso, ele o intitula "Ética". E essa é uma maneira de dizer que, qualquer que seja a importância de minhas proposições especulativas, vocês só poderão julgá-las no nível da ética que elas envolvem ou implicam. Ele libera completamente a causa imanente com a qual, até aí, haviam lidado os judeus, os cristãos, os heréticos, porém no interior de sequências muito precisas de conceitos. Spinoza arranca-a de todas as sequências e faz uma violenta apropriação no nível dos conceitos. Já não há mais sequência. Posto que ele extraiu a causalidade imanente da sequência das grandes causas, das causas primeiras, posto que ele aplanou tudo sobre uma substância absolutamente infinita que possui todos os atributos e compreende todas as coisas como seus modos, ele substituiu a sequência por um verdadeiro plano de imanência. É uma revolução conceitual extraordinária: em Spinoza tudo se passa como que sobre um plano fixo. Um extraordinário plano fixo que não será de modo algum um plano de imobilidade, pois todas as coisas irão se mover - e para Spinoza só o movimento das coisas conta - sobre esse plano fixo. Ele inventa um plano fixo. A proposição especulativa de Spinoza é essa: arrancar o conceito do estado de variações de sequências e projetar tudo sobre um plano fixo que é o da imanência. Isso implica uma técnica extraordinária. Viver num plano fixo é também um certo modo de vida. Eu não vivo mais segundo seqüências variáveis. Então, viver sobre um plano fixo, o que seria isso? É Spinoza polindo suas lentes, ele que tudo abandonou, sua herança, sua religião, todo êxito social. Ele não faz nada e antes mesmo que tenha escrito seja lá o que for, é injuriado, denunciado. Spinoza é o ateu, o abominável. Ele praticamente não pode publicar. Ele escreve cartas. Ele não queria ser professor. No "Tratado Político" ele concebe o magistério como uma atividade não remunerada, e mais ainda, diz que seria preciso pagar para ensinar. Os professores ensinariam arriscando sua fortuna e sua reputação. Um verdadeiro professor público seria isso. Spinoza relaciona-se com um grande grupo de estudantes, ele envia-lhes a Ética à medida que a escreve, e eles explicam os textos de Spinoza uns para os outros, e escrevem a Spinoza, que responde. São pessoas muito inteligentes. Essa correspondência é essencial. Ele tem sua pequena rede. Denunciado em toda parte, ele se preserva graças à proteção dos irmãos De Witt. É como se ele inventasse o plano fixo no nível dos conceitos. A meu ver, é a mais fundamental tentativa de dar um estatuto à univocidade do Ser, um Ser absolutamente unívoco. O Ser unívoco é precisamente o que Spinoza define como sendo a substância tendo todos os atributos iguais, tendo todas as coisas como modos. A substância absolutamente infinita é o Ser enquanto Ser, os atributos todos iguais uns aos outros são a essência do Ser - e aqui temos essa espécie de plano sobre o qual tudo é aplanado e onde tudo se inscreve. Nenhum filósofo foi tratado por seus leitores como Spinoza o foi, graças a Deus. Spinoza foi um desses autores essenciais, por exemplo, para o romantismo alemão. Ora, mesmo esses autores tão cultos nos dizem algo muito curioso. Eles dizem que a Ética é a obra que nos apresenta a totalidade mais sistemática, é o sistema levado ao absoluto, é o Ser unívoco, o Ser que não se diz a não ser em um único sentido. É a ponta extrema do sistema. É a totalidade mais absoluta. E também dizem, ao mesmo tempo, que quando lemos a Ética temos sempre o sentimento de que não chegamos a compreender o conjunto. O conjunto nos escapa. Não somos suficientemente rápidos para reter tudo conjuntamente. Há uma página muito bela de Goethe em que ele diz que releu dez vezes a mesma coisa e que ele nunca compreende o conjunto; cada vez que eu o leio eu compreendo uma outra parte. Spinoza é o filósofo cujo aparelho conceitual está entre os mais sistemáticos de toda a filosofia. E, no entanto, nós leitores temos sempre a impressão de que o conjunto nos escapa e que estamos reduzidos a sermos tomados por esta ou aquela parte. Somos verdadeiramente tomados por esta ou aquela parte. Num outro nível, ele é o filósofo que leva mais longe o sistema de conceitos, e portanto exige uma cultura filosófica muito grande. O início da Ética começa com definições: da substância, da essência, etc. Isso remete a toda a escolástica e ao mesmo tempo não há filósofo que possa, como ele, ser lido sem que se saiba absolutamente nada. E é preciso manter ambos. Vamos, pois, compreender esse mistério. Delbos diz que Spinoza é um grande vento que nos arrasta. Isso combina bem com a minha história do plano fixo. Poucos filósofos tiveram esse mérito de aceder ao estatuto de um grande vento calmo. E os miseráveis, os pobres tipos que lêem Spinoza, o comparam a rajadas que nos assaltam. Como conciliar a existência de uma leitura analfabeta e de uma compreensão analfabeta de Spinoza com esse outro fato, o de que Spinoza seja, repito, um dos filósofos que constituíram o aparelho conceitual mais minucioso do mundo? Existe aqui um êxito no nível da linguagem. A Ética é um livro que Spinoza considera como terminado. Ele não publicou o seu livro porque sabia que, se o publicasse, seria preso. Todo mundo lhe cai em cima, ele já não tem um protetor. As coisas vão muito mal para ele. Ele renunciou à publicação, mas em certo sentido isso não tinha importância, pois seus alunos já possuíam o texto. Leibniz conhecia o texto. De que é feito esse texto? Ele começa pela Ética demonstrada à maneira geométrica. É o emprego do método geométrico. Muitos autores já empregaram esse método, mas geralmente em uma seqüência na qual uma proposição filosófica é demonstrada à maneira de uma proposição geométrica, de um teorema. Spinoza arranca-o do estado de um momento numa seqüência e fará dele o método completo de exposição da Ética. De modo que a Ética se divide em cinco livros. Ela começa com definições, axiomas, proposições ou teoremas, demonstrações do teorema, corolário do teorema, etc. É isso o grande vento, formando uma espécie de camada contínua. A exposição geométrica já não é em absoluto a expressão de um momento numa sequência, ele pode livrar-se dela completamente porque o método geométrico será o processo que consiste em preencher o plano fixo da substância absolutamente infinita. Portanto, um grande vento calmo. E em tudo isso há um encadeamento contínuo de conceitos, cada teorema remete a outros teoremas, cada demonstração remete a outras demonstrações. Uma analogia com a pintura porque é verdade que a pintura está repleta de imagens de Deus. Minha questão é: basta dizer que se trata de um constrangimento inevitável nessa época? Há duas respostas possíveis. A primeira é sim, trata-se de um constrangimento inevitável dessa época que remete às condições da arte nessa época. Ou então dizer, um pouco mais positivamente, que é porque existe um sentimento religioso ao qual o pintor, e sobretudo a pintura, não escapam. Tampouco escapam dele a filosofia e o filósofo. Isso basta? Não seria possível uma outra hipótese, a saber, que nessa época a pintura tem tanta necessidade de Deus justamente porque o divino, longe de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar de sua emancipação máxima? Em outras palavras, com Deus ele pode fazer seja lá o que for, ele pode fazer o que não poderia fazer com os humanos, com as criaturas. Assim, Deus é investido diretamente pela pintura, por uma espécie de fluxo de pintura, e, nesse nível, a pintura vai encontrar por sua conta uma espécie de liberdade que ela não teria encontrado de outra maneira. No limite, não existe oposição entre o pintor mais piedoso e esse mesmo pintor enquanto faz pintura e que é, de certa maneira, o mais ímpio, pois a maneira pela qual a pintura investe o divino é puramente pictural, onde a pintura encontra, precisamente, as condições de sua emancipação radical. Dou três exemplos: El Greco... Essa criação, ele só poderia obtê-la a partir das figuras do cristianismo. Então é verdade que, num certo nível, havia constrangimentos se exercendo sobre eles, e num outro nível, o artista é aquele que - Bergson dizia isso do vivo, ele dizia que o vivo converte os obstáculos em meios, essa seria uma boa definição do artista. É verdade que há constrangimentos da Igreja que se exercem sobre o pintor, mas há transformação dos constrangimentos em meios de criação. Eles se servem de Deus para obter uma liberação das formas, para levar as formas até um ponto em que as formas já não têm nada a ver com uma ilustração. As formas se desencadeiam. Elas se lançam numa espécie de Sabá, uma dança muito pura, as linhas e as cores perdem toda necessidade de serem verossímeis, de serem exatas, de se assemelharem a qualquer coisa. É a grande liberação das linhas e das cores que se faz em favor dessa aparência: a subordinação da pintura às exigências do cristianismo. Outro exemplo: uma criação do mundo... O Antigo Testamento lhes serve para uma espécie de liberação dos movimentos, das formas, das linhas e das cores. De tal maneira que, em certo sentido, o ateísmo jamais foi exterior à religião: o ateísmo é a potência-artista que trabalha a religião. Com Deus, tudo é permitido. Eu tenho o vivo sentimento de que com a filosofia foi exatamente a mesma coisa, e que se os filósofos nos falaram tanto sobre Deus - e eles podiam muito bem ser cristãos ou crentes -, não foi sem um intenso gracejo. Não era um gracejo de incredulidade, mas uma alegria do trabalho que eles estavam prestes a fazer. Assim como, eu dizia, Deus e Cristo foram para a pintura uma extraordinária ocasião para liberar as linhas, as cores e os movimentos dos constrangimentos da semelhança, também para a filosofia Deus e o tema de Deus foram uma ocasião insubstituível para liberar aquilo que é o objeto de criação em filosofia - ou seja, os conceitos - dos constrangimentos que a simples representação das coisas lhes teria imposto... É no nível de Deus que o conceito é liberado, porque ele já não tem a tarefa de representar alguma coisa; ele torna-se a partir desse momento o signo de uma presença. Falando por analogia, ele assume linhas, cores e movimentos que ele não teria jamais sem esse desvio por Deus. É verdade que os filósofos sofrem os constrangimentos da teologia, mas em tais condições que, a partir desse constrangimento, eles irão produzir um fantástico meio de criação, a saber, eles vão arrancar dele uma liberação do conceito da qual ninguém poderá duvidar. Salvo no caso em que um filósofo vá longe demais ou com demasiada força. Será esse, talvez, o caso de Spinoza? Desde o início, Spinoza se colocou em condições segundo as quais o que ele nos dizia já não tinha mais nada a representar. Eis que aquilo que Spinoza irá chamar de Deus, no primeiro livro da Ética, será a coisa mais estranha do mundo: será o conceito capaz de reunir o conjunto de todas as possibilidades... Por meio do conceito filosófico de Deus realiza-se - e não podia realizar-se senão nesse nível - a mais estranha criação da filosofia como sistema de conceitos. O que os pintores e os filósofos fizeram Deus padecer representa, seja a pintura como paixão, seja a filosofia como paixão. Os pintores fizeram o corpo de Cristo padecer uma nova paixão: eles o condensam, o contraem... A perspectiva é liberada de todo constrangimento de representar seja lá o que for, e para os filósofos é a mesma coisa. Eu tomo Leibniz como exemplo. Leibniz recomeça a criação do mundo. Ele retoma o problema clássico: saber qual é o papel do entendimento de Deus e da vontade de Deus na criação do mundo. Suponhamos que Leibniz nos conte isto: Deus possui um entendimento, certamente um entendimento infinito. Ele não se assemelha ao nosso. A própria palavra "entendimento" seria equívoca. Ela não teria um único sentido, uma vez que o entendimento infinito não é em absoluto idêntico ao nosso próprio entendimento, que é um entendimento finito. No entendimento infinito, o que é que se passa? Antes que Deus crie o mundo, há por certo um entendimento, porém não há nada, não há mundo. Não, diz Leibniz, mas há os possíveis. Há possíveis no entendimento de Deus, e todos esses possíveis tendem à existência. Eis que a essência é, para Leibniz, uma tendência à existência, uma possibilidade que tende à existência. Todos esses possíveis pesam de acordo com sua quantidade de perfeição. O entendimento de Deus torna-se como que uma espécie de invólucro onde todos os possíveis descem e se chocam. Todos querem passar à existência. Mas Leibniz nos diz que isso não é possível, todos eles não podem passar à existência. Por quê? Porque cada um por sua conta poderia passar à existência, mas eles em sua totalidade não formam combinações compatíveis. Há incompatibilidades do ponto de vista da existência. Determinado possível não pode ser compossível com outro possível. Eis a segunda etapa: ele está prestes a criar uma relação lógica de um tipo completamente novo: não há somente as possibilidades, há também os problemas de compossibilidade. Um possível é compossível com tal outro possível? Então qual é o conjunto de possíveis que passará à existência? Só passará à existência o conjunto de possíveis que, por sua conta, possuir a maior quantidade de perfeição. Os outros serão recalcados. É a vontade de Deus que escolhe o melhor dos mundos possíveis. É um extraordinário descenso para a criação do mundo, e, em favor desse descenso, Leibniz cria todos os tipos de conceitos. Nem mesmo se pode dizer que esses conceitos sejam representativos, pois eles precedem as coisas a representar. E Leibniz lança sua célebre metáfora: Deus cria o mundo como quem joga xadrez, trata-se de escolher a melhor combinação. E o cálculo do xadrez irá dominar a visão leibniziana do entendimento divino. É uma criação de conceitos extraordinária, que encontra no tema de Deus a condição mesma de sua liberdade e de sua liberação. Ainda uma vez, do mesmo modo que o pintor servia-se de Deus para que as linhas, as cores e o movimento não fossem constrangidos a representar algo prévio, a reproduzir algo pronto. Não se trata de perguntar o que um conceito representa. É preciso perguntar qual é o seu lugar num conjunto de outros conceitos. Na maior parte dos grandes filósofos, os conceitos que eles criam são inseparáveis, e são tomados em verdadeiras sequências. Se não compreendemos a sequência da qual faz parte um conceito, não poderemos compreender o conceito. Eu emprego o termo sequência porque faço uma espécie de aproximação com a pintura. Se de fato a unidade constituinte do cinema é a sequência, acredito que, guardadas as proporções, poderia se dizer o mesmo do conceito e da filosofia. No nível do problema do Ser e do Um, é verdade que os filósofos vão restabelecer uma sequência em sua tentativa de criação conceitual sobre as relações entre o Ser e o Um. A meu ver, quem faz as primeiras grandes sequências na filosofia, no nível dos conceitos, é Platão, na segunda parte do Parmênides. Há, com efeito, duas sequências. A segunda parte do Parmênides é feita de sete hipóteses. Essas sete hipóteses se dividem em dois grupos: primeiramente três hipóteses, depois outras quatro. São duas sequências. Primeiro tempo: suponhamos que o Um é superior ao Ser, que o Um está acima do Ser. Segundo tempo: o Um é igual ao Ser. Terceiro tempo: o Um é inferior ao Ser, e deriva do Ser. Jamais digam que um filósofo se contradiz; ao invés disso, perguntem: "Tal página, em que sequência colocá-la, em que nível da sequência?" E é evidente que o Um do qual Platão nos fala, segundo esteja situado no nível da primeira, da segunda ou da terceira hipótese, não é o mesmo. Plotino, um discípulo de Platão, fala-nos num certo nível do Um como origem radical do Ser. Nesse caso, o Ser sai do Um. O Um faz Ser, portanto ele não é, ele é superior ao Ser. Essa será a linguagem da pura emanação: do Um emana o Ser. Ou seja, o Um não sai de si para produzir o Ser, pois se ele saísse de si ele se tornaria Dois; mas o Ser sai do Um. Essa é a fórmula mesma da causa emanante. Porém quando nos instalamos no nível do Ser, o mesmo Plotino irá nos falar em termos esplêndidos e em termos líricos do Ser que contém todos os seres, o Ser que compreende todos os seres. E ele emite toda uma série de fórmulas que terão uma grande importância para toda a filosofia do Renascimento. Ele dirá que o Ser complica todos os seres. É uma fórmula admirável. Porque é que o Ser complica todos os seres? Porque cada ser explica o Ser. Existe aí um dobrete: complicar, explicar. Cada coisa explica o Ser, mas o Ser complica todas as coisas, ou seja, compreende-as em si. Então essas páginas de Plotino já não se referem à emanação. Vocês se dirão que a seqüência evoluiu: ele está prestes a nos falar de uma causa imanente. E, com efeito, o Ser se comporta como uma causa imanente em relação aos seres, mas ao mesmo tempo o Um se comporta em relação ao Ser como uma causa emanante. E se descermos um pouco mais, veremos que há em Plotino, que entretanto não é cristão, alguma coisa que assemelha-se muito a uma causa criativa. De certa maneira, se vocês não levarem em conta as sequências, não saberão mais ao certo de que ele está falando. A menos que existam filósofos que destroem as seqüências porque querem fazer outra coisa. Uma seqüência conceitual seria o equivalente das nuanças em pintura. Um conceito muda de tom, ou no limite muda de timbre. Haveria aí como que timbres, tonalidades. Até Spinoza, a filosofia caminhou essencialmente por sequências. E, nessa via, as nuanças que concernem à causalidade eram muito importantes. A causalidade original, a causa primeira, ela é emanante, imanente, criativa ou ainda alguma outra coisa? Assim, a causa imanente estava presente na filosofia o tempo todo, mas sempre como um tema que não ia até as últimas consequências. Por quê? Porque era sem dúvida o tema mais perigoso. Deus pode muito bem ser tratado como causa emanante, isso não traz nenhum problema, porque haverá ainda uma distinção entre a causa e o efeito. Mas tudo se torna muito mais difícil se Ele for tratado como causa imanente, de tal modo que não se saiba muito bem como distinguir a causa e o efeito, ou seja, Deus e a criatura. A imanência era antes de mais nada o perigo. Assim, a ideia de uma causa imanente aparece constantemente na história da filosofia, porém refreada, mantida num determinado nível da sequência, carecendo de valor e devendo ser corrigida nos outros momentos da sequência, pois a acusação de imanentismo foi, em toda a história das heresias, a acusação fundamental: "Você confunde Deus e a criatura". Essa é a acusação para a qual não há perdão. Portanto a causa imanente estava constantemente em jogo, mas não chegava a receber um estatuto. Ela só tinha um pequeno lugar na seqüência dos conceitos. Chega Spinoza. Ele havia sido precedido sem dúvida por todos aqueles que tiveram mais ou menos audácia no que concerne à causa imanente, isto é, essa causa bizarra que não apenas permanece em si para produzir, mas cujos produtos permanecem nela. Deus está no mundo, o mundo está em Deus. Na Ética, creio que a Ética está construída sobre uma primeira grande proposição que se poderia chamar a proposição especulativa ou teórica. A proposição especulativa de Spinoza é: só existe uma única substância absolutamente infinita, ou seja, que possui todos os atributos, e aquilo que se chama de criaturas não são criaturas, mas os modos ou maneiras de ser dessa substância. Portanto, uma única substância possuindo todos os atributos e cujos produtos são os modos, as maneiras de ser. Desde então, se eles são as maneiras de ser da substância que possui todos os atributos, esses modos existem nos atributos da substância. Eles estão compreendidos nos atributos. Todas as consequências aparecem imediatamente. Não há nenhuma hierarquia nos atributos de Deus, da substância. Por quê? Se a substância possui igualmente todos os atributos, não existe hierarquia entre os atributos, um não vale mais do que o outro. Em outros termos, se o pensamento é um atributo de Deus e se a extensão é um atributo de Deus ou da substância, não haverá nenhuma hierarquia entre o pensamento e a extensão. Todos os atributos terão o mesmo valor a partir do momento em que eles são atributos da substância. Ainda permanecemos no abstrato. É a figura especulativa da imanência. Tiro daí algumas conclusões. É isso que Spinoza irá chamar de Deus. Ele chama isso de Deus porque se trata do absolutamente infinito. O que isso representa? É muito curioso. Pode-se viver dessa maneira? Tiro daí duas consequências. Primeira consequência: ele é quem ousa fazer o que muitos tiveram o desejo de fazer, a saber, liberar completamente a causa imanente de qualquer subordinação a outros processos de causalidade. Só existe uma causa, a causa imanente. E isso tem uma influência sobre a prática. Spinoza não intitula seu livro "Ontologia", ele é demasiadamente sagaz para isso, ele o intitula "Ética". E essa é uma maneira de dizer que, qualquer que seja a importância de minhas proposições especulativas, vocês só poderão julgá-las no nível da ética que elas envolvem ou implicam. Ele libera completamente a causa imanente com a qual, até aí, haviam lidado os judeus, os cristãos, os heréticos, porém no interior de seqüências muito precisas de conceitos. Spinoza arranca-a de todas as seqüências e faz uma violenta apropriação no nível dos conceitos. Já não há mais seqüência. Posto que ele extraiu a causalidade imanente da seqüência das grandes causas, das causas primeiras, posto que ele aplanou tudo sobre uma substância absolutamente infinita que possui todos os atributos e compreende todas as coisas como seus modos, ele substituiu a sequência por um verdadeiro plano de imanência. É uma revolução conceitual extraordinária: em Spinoza tudo se passa como que sobre um plano fixo. Um extraordinário plano fixo que não será de modo algum um plano de imobilidade, pois todas as coisas irão se mover - e para Spinoza só o movimento das coisas conta - sobre esse plano fixo. Ele inventa um plano fixo. A proposição especulativa de Spinoza é essa: arrancar o conceito do estado de variações de sequências e projetar tudo sobre um plano fixo que é o da imanência. Isso implica uma técnica extraordinária. Viver num plano fixo é também um certo modo de vida. Eu não vivo mais segundo sequências variáveis. Então, viver sobre um plano fixo, o que seria isso? É Spinoza polindo suas lentes, ele que tudo abandonou, sua herança, sua religião, todo êxito social. Ele não faz nada e antes mesmo que tenha escrito seja lá o que for, é injuriado, denunciado. Spinoza é o ateu, o abominável. Ele praticamente não pode publicar. Ele escreve cartas. Ele não queria ser professor. No "Tratado Político" ele concebe o magistério como uma atividade não remunerada, e mais ainda, diz que seria preciso pagar para ensinar. Os professores ensinariam arriscando sua fortuna e sua reputação. Um verdadeiro professor público seria isso. Spinoza relaciona-se com um grande grupo de estudantes, ele envia-lhes a Ética à medida que a escreve, e eles explicam os textos de Spinoza uns para os outros, e escrevem a Spinoza, que responde. São pessoas muito inteligentes. Essa correspondência é essencial. Ele tem sua pequena rede. Denunciado em toda parte, ele se preserva graças à proteção dos irmãos De Witt. É como se ele inventasse o plano fixo no nível dos conceitos. A meu ver, é a mais fundamental tentativa de dar um estatuto à univocidade do Ser, um Ser absolutamente unívoco. O Ser unívoco é precisamente o que Spinoza define como sendo a substância tendo todos os atributos iguais, tendo todas as coisas como modos. A substância absolutamente infinita é o Ser enquanto Ser, os atributos todos iguais uns aos outros são a essência do Ser - e aqui temos essa espécie de plano sobre o qual tudo é aplanado e onde tudo se inscreve. Nenhum filósofo foi tratado por seus leitores como Spinoza o foi, graças a Deus. Spinoza foi um desses autores essenciais, por exemplo, para o romantismo alemão. Ora, mesmo esses autores tão cultos nos dizem algo muito curioso. Eles dizem que a Ética é a obra que nos apresenta a totalidade mais sistemática, é o sistema levado ao absoluto, é o Ser unívoco, o Ser que não se diz a não ser em um único sentido. É a ponta extrema do sistema. É a totalidade mais absoluta. E também dizem, ao mesmo tempo, que quando lemos a Ética temos sempre o sentimento de que não chegamos a compreender o conjunto. O conjunto nos escapa. Não somos suficientemente rápidos para reter tudo conjuntamente. Há uma página muito bela de Goethe em que ele diz que releu dez vezes a mesma coisa e que ele nunca compreende o conjunto; cada vez que eu o leio eu compreendo uma outra parte. Spinoza é o filósofo cujo aparelho conceitual está entre os mais sistemáticos de toda a filosofia. E, no entanto, nós leitores temos sempre a impressão de que o conjunto nos escapa e que estamos reduzidos a sermos tomados por esta ou aquela parte. Somos verdadeiramente tomados por esta ou aquela parte. Num outro nível, ele é o filósofo que leva mais longe o sistema de conceitos, e portanto exige uma cultura filosófica muito grande. O início da Ética começa com definições: da substância, da essência, etc. Isso remete a toda a escolástica e ao mesmo tempo não há filósofo que possa, como ele, ser lido sem que se saiba absolutamente nada. E é preciso manter ambos. Vamos, pois, compreender esse mistério. Delbos diz que Spinoza é um grande vento que nos arrasta. Isso combina bem com a minha história do plano fixo. Poucos filósofos tiveram esse mérito de aceder ao estatuto de um grande vento calmo. E os miseráveis, os pobres tipos que leem Spinoza, o comparam a rajadas que nos assaltam. Como conciliar a existência de uma leitura analfabeta e de uma compreensão analfabeta de Spinoza com esse outro fato, o de que Spinoza seja, repito, um dos filósofos que constituíram o aparelho conceitual mais minucioso do mundo? Existe aqui um êxito no nível da linguagem. A Ética é um livro que Spinoza considera como terminado. Ele não publicou o seu livro porque sabia que, se o publicasse, seria preso. Todo mundo lhe cai em cima, ele já não tem um protetor. As coisas vão muito mal para ele. Ele renunciou à publicação, mas em certo sentido isso não tinha importância, pois seus alunos já possuíam o texto. Leibniz conhecia o texto. De que é feito esse texto? Ele começa pela Ética demonstrada à maneira geométrica. É o emprego do método geométrico. Muitos autores já empregaram esse método, mas geralmente em uma sequência na qual uma proposição filosófica é demonstrada à maneira de uma proposição geométrica, de um teorema. Spinoza arranca-o do estado de um momento numa sequência e fará dele o método completo de exposição da Ética. De modo que a Ética se divide em cinco livros. Ela começa com definições, axiomas, proposições ou teoremas, demonstrações do teorema, corolário do teorema, etc. É isso o grande vento, formando uma espécie de camada contínua. A exposição geométrica já não é em absoluto a expressão de um momento numa sequência, ele pode livrar-se dela completamente porque o método geométrico será o processo que consiste em preencher o plano fixo da substância absolutamente infinita. Portanto, um grande vento calmo. E em tudo isso há um encadeamento contínuo de conceitos, cada teorema remete a outros teoremas, cada demonstração remete a outras demonstrações.