sexta-feira, dezembro 11, 2015

é de 1986



A


Ele começou a desfraldar-lhe (assim, bem lentamente: d-e-s-f-r-a-u-d-a-r-etc... (um leve tom irônico) as coisas, as coisas entre os sabões. Depois comeu todos os bombons, os finos e os grossos, lambuzando o balcão em que se esfregaram suas caras bebericando caldos destilados e cristalinos como ficaram suas línguas em beijos cada vez mais fundos. Ela acabou mostrando livros de murais romanos, cenas vermelhas, cenas ocres, conas entreabrindo-se, entrefechando sobre grossos dinamismos, esferas glandes... PLOFT! O livro caiu entre as pernas. Coisas entreabertas se entrefecham. Uma ninfa descalça olhando a lua velou-os por toda uma noite num pôster. Se ela fizer vocalize assim todo dia, eu juro que não me caso com ela. Um mantra de gatos ou lobos loucos, coca pra dentro do ouvido, gente saindo pra fora, elevadores descendo no fosso, e mais uma vez, sim, mais uma vez, vociferante e bela ela surgiu do alto da escada com um piano. Ouuuuuuuns. Ieeeeeeeeens, splechts de boca salivando sobre a louça da casa e a cristaleira, Kodaks seminuas, máquina fazendo PLIM! e voltando pra trás. Amanhã acho que ela, a outra, vem para tomar sol. Tomara que tome outras coisas e em outros lugares e fique pra jantar e mostre as cartas meladas pra nós sobre a mesa, dele, o outro, que foi pros states e está trabalhando lá com alguma coisa legal. Ou seria ilegal? Ah! Ela desligou o troço. Abriu uma revista de modas e começou a entreter a vagina com a mão, como a uma cadelinha que precisa de cuidados. Vestidos de seda, pele, pé descalço chuta a areia, cristal de olho quebrado. BLIMBLÃO. A campaínha. Ela correu lá dentro. Içou rapidamente a saia e olhou lá. Depois, mais rapidamente ainda, tirou o espelho e preparou algumas car rei ri nhas. Delicadamente. Como só seu rosto sabia ficar. Ele lavou as mãos enquanto isso. Chamou a eterna Maria que, submissamente, trouxe-lhe a toalha e deslocou-lhe um olho sem querer, quando riu por perto. Enquanto isso, a outra, isso é, ela mesma, deslumbrante e bela, já descia a escadaria devidamente preparada e acondicionada em pele marfim.

B

São Paulo acordou como iguanas em Galápagos. O sol vermelho em ramagens, o pó evola sobre, um naco de dente, um pedaço de dente, ele adorou. Esfregou na pia seus dilemas, pensando no mar e como ali chegara, foi ficando, olhando-se olhar. _Ele arrotou no meu nariz gostoso assim, dentro de mim encostado. Eu na janela, encostado ele, em mim forçando a barra um pouco, e numa outra vez, nem foi tão bom, nervosos, um vermelho ficando na mão dele, de lado foi melhor. Tudo ganindo, o dia foi se enxadrezando, fechando-se em tramas, tecido. O orifício era uma flor de dor, absinto, grito engolindo o sol. Marcas de risos nas costas. Pele sangrando. Pelos. Esbarro às vezes em seus olhos e gosto quando se desencosta dos meus, assustados.

C

Ele passava horas e minutos perdido em finas reflexões, de intestinos grossos e bombons (que nem eram tão bons), e gostava de revistas indecentes, principalmente cabeças chupadas, coisas assim, nisso ele era bom. Mesmo assim, quando ele escutava os chiados da torneira, uma espécie de rangido, que soava a apelo, meio choro e ranger de dentes, ele se arrepiava todo arrependido e voltava aos bombons. Ou suas reflexões a respeito.


por Cláudio Rodrigues