quarta-feira, março 02, 2016

Almas



Alma, espelho meu, reflete pelos olhos


Mas não sabia ser blasé. Nunca fui. Sempre fui um ser apaixonado ou triste, bobalegre ou coração-dilacerado. Sempre muito passional, pelo contrário, tudo menos blasé. Andava pelas ruas de madrugada. Mesmo com medo dos olhares daquela gente com cara de quem chutou macumba-na-encruzilhada. A epiderme dorme em brasa e com a lucidez do fogo, Dimitri jogou-se na calçada como quem pede socorro. São meus amigos, todos muito cênicos. Com a garganta engasgada de ódiódiódio e uma espécie de gosma branca babada de poesiasiasias verificar ortografia e já faz tempo que em pó se desfez, o menino andava sustenido pela casa. A cena é - duas casas brancas e negras, duas negras e brancas e  duas brancas e brancas. Dimitri deitou na calçada como se fosse sua. Sua cama, sua calçada, sua caminha, seu berço, sua rua. Fez de um "gelo baiano" travesseiro, pra descansar o sangue que jorrou de seu cabelo. Dimitri queria forças, queria força para ter todas as moças, mas que alguém especial, alguém especial estivesse no caminho. Dimitri queria casar-se, admite. Ele estava sozinho. Era um pé de milho no milharal, uma espiga, um grãozinho. Nem um milhão de caracteres, nem um milhão de mulheres, nem um milhão de amigos, nem de palavras faria Dimitri desvencilhar-se do próprio umbigo. Na época, achava que todo vazio que sentia era tudo que tinha. Que nenhuma tinta nem grito, nem as raízes do nervo poderiam registrar seu fim. Nenhuma invenção, nenhum alvitre. Dimitri morreu sem final. Suas últimas palavras foram "espelho, espelho meu, quem estará nesse mundo mais viúvo do que eu?" e todos em volta que viram aquela cena se calaram, feito cúmplices...

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