Devastado no íntimo como um diamante bruto

Quinta-feira, 05 de janeiro de 2012







Nota mental


Na cabana do xamã, dizem, há um portal para a quinta, e da quinta direto para a oitava dimensão. Mas nada se vê nada daquela pequena janela. Daquela pequena janela nada se vê. Nem o presente, quiçá o futuro, senão a lua, senão o movimento sutil das nuvens. Eu me perdi nessa viagem um tanto vertical, e uma índia Krenac, vinda daqueles tempos idos, me encontrou ressequido, as mãos ressequidas no desespero inconsciente de transgredir e a mente alquebrada e a doce ilusão de transmutar-me em palavras, quando já não me compreendiam mesmo minhas próprias palavras e balbuciava metonimicamente e procurava na palma da mão e na ponta dos dedos com as pupilas dilatadas e já balbuciava alguma coisa inexprimível e também perdida. Ela salvou-me  do sorriso eriçado da onça e do deletério contato com os próprios peremptórios de si mesmo, e de outros seres imaginários. Encontrei a cor que falseava as palavras mimetizadas na folha, que também era inexprimível. As cores da cumplicidade, a multiplicidade e o silêncio. A significação de pequenos atos, e restos. Dentro da cabana há uma bacia d’água que eu, despercebidamente, troquei com a preta velha lá do morro. Olho o reflexo do espelho onde começo a excursionar o passado, no contexto ancestral, os ventos chacoalham as folhas das arvores e o trovão, após o clarão do raio, ruge. A fera, reclusa, lambe a inesperada ferida que a deixa mole e cansada. Diante desse reflexo onde a vaidade que um dia matou o leigo através do espelho. Perdeu o equilíbrio, e os brios devastado. Devastado no íntimo como um diamante bruto, como um dia certamente devastei também...

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