segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Oscar



Até as coisas novas me parecem velhas. Inclusive esse ator que ganhou o Oscar. Bem sei que a Indústria é a repetição mascarada, muito sutil ou escancarada de velhas fórmulas, antigas estruturas de narração bem sucedidas. Também por isso não tenho medo de ser a repetição de mim mesmo. Talvez por isso, também... Confesso que não assisti ao final do da apresentação da premiação do Oscar. Eu estava ligado no Canal Brasil, vendo um filme argentino Road July, direção Gaspar Gomez. Bom filme. Nada de Oscar. Uma estrada da vida apenas, sem muitos porquês, e naquele momento as questões eram muitas. Um homem leva sua filha (que não viu, não criou, não teve notícias, a mãe morreu, a tia criou, etc.) para morar com uma das avós. Eles rodam a Argentina num Citroën muito antigo. Eles se lançam pelas estradas quase desérticas do país. Apesar de saberem que a viagem vai durar pouco tempo, o que me prendeu foi mais olhar de uma criança feia e desse um moço, ruivo meio gordo, que está se descobrindo depois de dez anos, ou se redescobrindo, através da criança. Eles notam que o necessário não é apenas chegar. Contudo, essa aventura vai mudar o destino deles.

sábado, fevereiro 27, 2016

Ano passado...



Quando cheguei fiquei quinze dias na cama. Admito que o primeiro movimento para romper essa inércia, após duas semanas, foi buscar um rastro do passado. Aquilo que eu havia vivido, antes de passar seis meses enclausurado. Voltei à favela onde comprava a droga. Passei em frente a minha antigo lar na cidade e não me senti nada à vontade. Mas o apê ainda não estava alugado. Depois, da segunda ou quinta vez, ou nona, sei lá, já haviam alugado o apartamento e passar por ali me rasgava o peito. Nada é perfeito. Doeu muito a consciência do tempo que tive e desperdicei ali, mesmo depois do fim da melhor relação. Mas cansei de chorar o  leite do passado. Esse negro leite derramado. Eu me sentia um turista aqui. Ainda sinto-me. Aqui o inverno é mais rigoroso do que na cidade. Eis que cá estamos à beira da estrada. O caderno sem linhas em que agora escrevo prova a intimidade gravada à mão de cada minha palavra desenhada para Deus. Agora suavemente flutua o conceito de liberdade, ando pensando. Aquilo que não necessito, aquilo que posso escolher (se quero ou não quero)... Mas então, dentro desse círculo, entra uma lei moral. O poder de escolha junto à potência de querer. Enfim veio a chuva e me ajudou a esquecer. Claro que nunca nada é por completo. Mas, definitivamente, ainda que eu ainda mastigue essa óstia agora, esse grande mal não é me incomoda tanto. É apenas uma pincelada sobre o desgaste de se fazer humano, quando o amor.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Estrada sem fim




A fase agora é de decidir entre a bailarina e o anjo. Cada momento em particular, em que eu mesmo não entendo, um ou outro prevalece, anjo ou demônio. Agora, digo, em dezembro desse ano fazem dez anos que comecei a registrar meus textos. Esses fragmentos - testemunha do meu olhar em guardanapos de buteco. Esse movimento de organizar o passado e seguir escrevendo é um exercício árduo. Chego a ficar paralisado e não fazer nenhum dos dois. Estava acostumado a escrever à mão, no sexto caderno que tenho (de  manuscritos, claro) e que não transcrevi sequer uma página. Fora esses cadernos, que também pretendo publicar, tenho mais ou menos dez anos de produção quase diária de impressões de mundo gravadas sobre todos os assuntos. Mas essencialmente sobre a busca de toda alma humana que geme e que fala - o amor, o Grande Outro, o objeto faltante... Tantas quantas são as emoções e as impressões que, no fim desse que concluí seria meu terceiro ciclo, minha epifania, minha revelação sobrenatural e ao mesmo tempo tão óbvia foi - quão? quão distante? quão perto? eu estive? estivemos? ou foi só ilusão? para mim, não para ela. Quão? Quantos segundos eu levei pra tomar uma decisão? Aquela fatídica mórbida decisão. Eu não tinha nada. A não ser a vontade de arriscar a própria vida. Uma eterna subida de Sísifo. Tranquilo e favorável é situação em que a polícia não está vigiando o tráfico e eles podem livremente espalhar a doença. Então o país inteiro vota pela alienação. Anestesia, dói menos. É tranquilo, mas nada favorável a médio e longo prazo. Capturo e deposito cenas da minha imaginação em um baú voador e flutuante.com nome de pássaro... Vou fazer uma grande colcha de retalhos contando toda a história. O limiar do herói, o pícaro, a travessia... e entre atos, entre altos e baixos, o caminho em si é uma estrada sem fim.  

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Enfim





Enfim, o que "dizer" aqui?
Enquanto as pessoas esquecem que tiveram um passado, eu estava olhando meu caderno, procurando uma passagem em que digo que "um dia meus irmãos vão ler e vão rir e vão chorar.", algo assim. De um jeito ou de outro, talvez eles chorem mesmo. É bem possível. Impossível é encontrar as palavras escritas à mão no meio da confusão dos signos. Eles aparecem radiantes mostrando coisas que eu não havia visto, pois quando viro a página é "página virada". Eu nunca leio o que escrevo e é "também" por isso que escrevo. O que faço é pintar um pálido registro do que vejo e do que sinto. Falar da minha família é notícia antiga. Como aquelas novelas que se repetem e se perpetuam até ficarem velhas, e  continuam determinando a moderna tradição cultural. Bem, é difícil trair a facção, 'cês sabem (Por isso eu nunca pedi o resgate. Mas esse é outro assunto...). E as palavras continuam se reproduzindo igual coelhos. E minhas ex-namoradas diziam "Mas eu nunca vejo você lendo ou escrevendo." - e eu respondia sem pensar, no tempo que teria para pensar...
__ Talvez porque eu esteja ocupado demais com você!
Bem, estou aqui. Agora o que eu mais faço é ler e escrever. 
A Kiki foi embora. Voltou pra "família" dela. 
Toma mais um limão... Kikikiki ki você fica bão

terça-feira, fevereiro 16, 2016

uma vez aqui...





É... infelizmente foi embora. Nada não... É que eu tava aqui pensando, aliás, não, deixa pra lá. Depois, outra hora eu te conto. Vixe... eu não ligo mais pra tanta coisa. Ligo pra mim mesmo e, graças ao que se passa ao redor, tenho tido paz. Sim. Acho que há alguns meses atrás eu estava errado. Aqui encontrei um pouco de paz. Paz de espírito, paz na crise. A paz que eu chamava de "tédio". Afastei-me do convívio social, mas não por motivos torpes, não por usar entorpecentes...
 talvez por estar entorpecido. A voz não rompe o silêncio porquanto quem ouve "a voz" não lhe atribui sentido. Claro, não há sentido no que não existe, ou existe apenas de modo subjetivo. O caso é que nada do que eu previ deu certo. Digamos que eu acertei a média e o Grande Criador Universal ainda não me saudou com seu sorriso intergalático. Eu sou o dono do universo. Isso é de Fausto, não é? A coisa de enganar o diabo...