segunda-feira, março 21, 2016

Banzo de arengueiro


Segunda-feira, 22 de setembro de 2008






Estou bêbado feito um ganso. Feito um marreco voador. Pensa que voa, aliás. Vejo os tons de tudo que vejo com meu olhar brejeiro. Daí meu banzo de arengueiro. Sinto e me aproximo desse mistério. Como se não fossem mistérios as frutas, frutos e cores cor-de-terra na pele das mulheres, e quanta luz batia em meu coração. O arrependimento é um afeto demasiado humano nessa janela imensa minimalista. Sinto que o verão está chegando. Vazio e meditação. Depois, acendo um cigarro. Vejo a linha do sol claramente se expor sobre o muro à minha frente. Árvores solitárias salvam a paisagem, cada qual com sua nostalgia outonal, desabrocham em harmonia. Sua cabocla virá, virá... Com a pele vermelha como terra, com sua alma vazia que me caiba. Virá ler para mim com suas cores e alegorias. A francesinha foi detida na estação de trem. Espero-te com a cabeça inchada, com a palavra de um cigano. Com meu mal humor verborrágico, meu banzo de arengueiro. Quem, um dia, vai me livrar desse engano?, dessa brincadeira de simples ser?

quarta-feira, março 16, 2016

Marlene Dietrich




Sonhei, noite passada, com notas de piano. Infinitudes eram tantas. Andava com pressa pelas covas das baixadas. A melancolia gosta de mim - a sonoridade do desencanto. O lirismo infindável da ausência, do fim, na finitude dos seus braços arqueados. Furto-me da coisa desconexa, apesar do delírio. Caminho pelas pedras. Noite de flor perfumada, e os espinhos são menos dolorosos. Tento te seguir, encontrar seu rastro. Tento concatenar meu dia. Afligir-me com coisas tolas. Ouvir buzinas no trânsito. Ver pessoas. Ouvir, ver, falar. Essa interação é utopia... dia nublado. Quando eu... a vida. Preciso me fartar de mim mesmo. Esse orgasmo que não se sente a vibração mental. O quê sonhei, não sei. Toca o telefone.


__ Alô, quem fala?
__ Foi engano.

Old

m la recherche de signes de vie

Uma antiga lembrança que ficou no tempo, mas se perdeu de mim...






Sempre esse mesmo tango negro, essa tara, essa sacanagem sem vazão. Esse todo-eu sem raciocínio, cansado de querer ser não querer, e sabe, foi minha loucura, nunca perdoei sua indiferença. A mesma folha seca. Ando cansado de esquecer inumeráveis noites em claro com as estrelas, lua, pensamentos obnubilados... Se acaso você chegasse. Essas minhas mãos são mãos que me fazem tremer. É constrangedor, irônico, tolo, culpar a si mesmo por todo embrolho. Deixe-me viver, a minha busca pelos signos de vida.


domingo, março 13, 2016

Últimas cartas




Agora restam apenas vidas a serem vividas. Infinitas possibilidades. Assim são nossos caminhos. Horas depois, um dia nublado. São cinco da tarde e o céu está escuro. Choveu o dia todo. Não sei como surgiram ou de onde vieram as manchas do caderno, mas respeito. Hoje é sábado com todas as mazelas de sábado. Os macacos gritam num filme de Indiana Jones. Isso lembra-me Sessão da Tarde, hora do lanche, sexo seguro. Pelo contrário, ao invés de odiá-las, admiro as manchas no caderno. 

Deus é a substância. 
Não existe o Vazio.

quarta-feira, março 02, 2016

Almas



Alma, espelho meu, reflete pelos olhos


Mas não sabia ser blasé. Nunca fui. Sempre fui um ser apaixonado ou triste, bobalegre ou coração-dilacerado. Sempre muito passional, pelo contrário, tudo menos blasé. Andava pelas ruas de madrugada. Mesmo com medo dos olhares daquela gente com cara de quem chutou macumba-na-encruzilhada. A epiderme dorme em brasa e com a lucidez do fogo, Dimitri jogou-se na calçada como quem pede socorro. São meus amigos, todos muito cênicos. Com a garganta engasgada de ódiódiódio e uma espécie de gosma branca babada de poesiasiasias verificar ortografia e já faz tempo que em pó se desfez, o menino andava sustenido pela casa. A cena é - duas casas brancas e negras, duas negras e brancas e  duas brancas e brancas. Dimitri deitou na calçada como se fosse sua. Sua cama, sua calçada, sua caminha, seu berço, sua rua. Fez de um "gelo baiano" travesseiro, pra descansar o sangue que jorrou de seu cabelo. Dimitri queria forças, queria força para ter todas as moças, mas que alguém especial, alguém especial estivesse no caminho. Dimitri queria casar-se, admite. Ele estava sozinho. Era um pé de milho no milharal, uma espiga, um grãozinho. Nem um milhão de caracteres, nem um milhão de mulheres, nem um milhão de amigos, nem de palavras faria Dimitri desvencilhar-se do próprio umbigo. Na época, achava que todo vazio que sentia era tudo que tinha. Que nenhuma tinta nem grito, nem as raízes do nervo poderiam registrar seu fim. Nenhuma invenção, nenhum alvitre. Dimitri morreu sem final. Suas últimas palavras foram "espelho, espelho meu, quem estará nesse mundo mais viúvo do que eu?" e todos em volta que viram aquela cena se calaram, feito cúmplices...

terça-feira, março 01, 2016

Old






Fuck Lolita, linda na linha. Aquele telefone e a sua voz molhadinha. Aquele chega pra lá, o primeiro e menos sutil. O mais odioso talvez. Pensar que uma voz no telefone... Fuck Lolita, já não estou menos aqui quem falou. Fuck Lolita, eu vou fazer um out-dress espiritual. Luzes, cores, harmonia. Fuck, Lolita, é tão difícil entender? Fuck Lolita é tão difícil crescer. Fuck Lolita é tão difícil Fuck Lolita, levar você ao orgasmo. Deixa eu lamber sua alma e fazer as pazes com a Vida. Vai, no ritmo de jazz, derrama sua poesia em mim, em nós. Fuck Lolita, penso em você toda hora. Fuck!, Lolita, nós fomos embora um do outro? Acho que retrocedi no tempo, e agora? Agora as folhas de outono, agora perdido no sonho, agora me convida e vai embora. Lembro que tens muito a viver jovencitaFuck, Lolita...

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A madrugada é toda minha. Tomarei um banho na “hora morta”. Quem estará comigo? Sinto-me um bosta. Serei uma boa companhia pra mim mesmo. Eu achava que era, mas fui  devastado por dentro pela consciência do próprio peso. Algumas pessoas me ajudaram, mas isso é problema delas, também, talvez. Estou aprendendo a me perdoar, como as fadas do divã. Amanhã serei “melhor”...  Ainda sinto um pouco de remorso, raiva, rancor, essas coisas que o ser humano sente. Parte-me ao meio e me ergo. Sentimental e sentimentalista até doerem as hemorroidas. Ultrarromântico fora de moda. Lágrimas doces para você? Sinto vontade de rir e ir embora. Afirmo e pergunto. Minhas palavras não servem mais pra nada. Mergulhei fundo na demais sua realidade, então ficou difícil voltar. Ficou difícil dormir, difícil até de fumar um cigarro. Mas força! No meio de um bando de pessoas ninguém quer ser o otário. Ninguém quer ser vítima de sua própria história desastrosa.Todos aplaudem, mas alguém tem que morrer de fome. Eu quero comer a sobremesa. Vem petit, meu anjo perverso.