terça-feira, abril 26, 2016

Nota ao tempo




Sábado, 31 de dezembro de 2011
Nota ao tempo


Não importa que nota se dê ao tempo, nem tempo, em qualquer nota à qualquer momento. O momento que eu menos espera veio à luz. A luz se ergue e se espalha pelo espaço. Não existe vazio. Todas as notas existem pra preencher o universo. Sabe, há dias em que a noite é uma só noite dentro da Noite dos Séculos. Aclara como dia, o sorriso da Lua, passos que se perdem na memória. Minha serpente, minha amiga, minha mulher. E o novo dia começa, e a melodia. Ao meio-dia, o dia se esmera, se esvai, recomeça e dispersa e tudo que ficou pra trás. Uma ronda, volta e meia, volta à festejar. Como quando começa um novo plano, um novo trânsito lunar.


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O Boto

Quarta-feira, 14 de maio de 2008

O Boto


Você não sabe o que significa o quinquagésimo passo em falso e... caio de pé como um gato. A peça primordial da trama tem os olhos arregalados, porém enxerga apenas o que está em segundo plano. A Verdade fica em primeiro. O justo se torna inútil e supérfluo. Um olhar de lado não encara os fatos, quando eu sou eu mesmo. Quando penso, quando rezo. Quando não faço mais nada a não ser estar comigo mesmo. Quando a teoria dos papéis faz vestir a capa de cidadão honesto, puro, eu piso fundo, aumento o passo, muro de rumo, acelero. Essa prosa me desgasta. Passo pelo vale durante essa jornada. Vento de orvalho soprando em mim. Vida, não pare se houver essa possibilidade. Longa é a trilha pela frente, mas lá no alto há uma nascente... Não desanime quando alguém quebrar seus sonhos em vários pedaços. Existem cabeças estreitas demais. Volte escrever, por favor, ainda que com palavras mudas, mas não me deixe aqui. Verte somente as lágrimas necessárias e segue adiante. Digo a mim mesmo, confiante, sobrevoando as palavras que deviam ser ditas. Mesmo que trocem dessa joça. O que era vespertino passou a ser matutino e se recapitulou. Não há frio na ponta dos dedos, não há dor. Boneco de pano no armário. Ostracismo. Rompendo de forma incerta uma estrutura mal concebida e voando. A vítima é algoz de si mesma e o mesmo desejo, deseja, cheia de libido. Ambos, amplos e profundos suspiros aliviam o peito. O tempo adiante nunca como antes. Por seus ideais. Saudades.

quarta-feira, abril 20, 2016

Hoje


Três anos depois

Quanto tempo se passou? Não sei dizer exatamente. Sei que hoje faz um ano que voltei pra casa. Desde aquele dia... dezoito meses de militância na adicão ativa de um substância que nem me agrada dizer o nome, mas que ouço na TV e também as pessoas falarem. Dezoito meses de militância na adicção ativa. Seis meses em recuperação. E agora, um ano em casa. Nunca entendi por que você se desfez de mim. Dezoito com seis, mais doze... Trinta e seis meses, ou três anos. Blá! Blasfemo. Bosta. Falei com minha mãe que hoje faz um ano que estou vivendo aqui. Depois dos seis meses de - fiz um gesto com a mão e ela disse:

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Caraça






Sábado, 12 de junho de 2010
Caraça

É um paradoxo. Sinto-me só na cidade e não me sinto só quando estou sozinho na natureza agreste. Sou um montanhista "das cavernas", digo, rústico. Quando faço o antigo caminho de Mariana, subo a Serra do Batatal - uma vertente da Serra do Espinhaço - e vou até o Caraça pela crista das montanhas. Atravessando campos de altitude e descendo pelos vales... Não me sinto só. Rainer Maria Rilke em suas Cartas a um Jovem Poeta aconselha ao jovem Franz, acometido também pela solidão, que fosse de encontro à natureza. Sentar-se embaixo de uma árvore, observar as águas do rio. Talvez seja um sábio conselho, porque nesses momentos  sentimo-nos frágeis, pequenos e completos. Obriga-me a conviver dinamicamente comigo mesmo. Não é solitária a vida, porque estou em contato comigo mesmo. Em contato absoluto. Esse frio que vem se aproximando faz-me lembrar outros outonos.


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segunda-feira, abril 18, 2016

Devastado no íntimo como um diamante bruto

Quinta-feira, 05 de janeiro de 2012







Nota mental


Na cabana do xamã, dizem, há um portal para a quinta, e da quinta direto para a oitava dimensão. Mas nada se vê nada daquela pequena janela. Daquela pequena janela nada se vê. Nem o presente, quiçá o futuro, senão a lua, senão o movimento sutil das nuvens. Eu me perdi nessa viagem um tanto vertical, e uma índia Krenac, vinda daqueles tempos idos, me encontrou ressequido, as mãos ressequidas no desespero inconsciente de transgredir e a mente alquebrada e a doce ilusão de transmutar-me em palavras, quando já não me compreendiam mesmo minhas próprias palavras e balbuciava metonimicamente e procurava na palma da mão e na ponta dos dedos com as pupilas dilatadas e já balbuciava alguma coisa inexprimível e também perdida. Ela salvou-me  do sorriso eriçado da onça e do deletério contato com os próprios peremptórios de si mesmo, e de outros seres imaginários. Encontrei a cor que falseava as palavras mimetizadas na folha, que também era inexprimível. As cores da cumplicidade, a multiplicidade e o silêncio. A significação de pequenos atos, e restos. Dentro da cabana há uma bacia d’água que eu, despercebidamente, troquei com a preta velha lá do morro. Olho o reflexo do espelho onde começo a excursionar o passado, no contexto ancestral, os ventos chacoalham as folhas das arvores e o trovão, após o clarão do raio, ruge. A fera, reclusa, lambe a inesperada ferida que a deixa mole e cansada. Diante desse reflexo onde a vaidade que um dia matou o leigo através do espelho. Perdeu o equilíbrio, e os brios devastado. Devastado no íntimo como um diamante bruto, como um dia certamente devastei também...

quarta-feira, abril 13, 2016

Você e seus sonhos atrozes de deserto

Quarta-feira, 05 de maio de 2010

nada(s) do nomadismo


Um Nada nº 1.
Toma, pode levar o resto de mim. Pode ser "mais uma personagem efêmera da minha trama" - como você disse. Pode levar as lembranças os sonhos adiante, sempre reservados em algum lugar do passado. E assim passamos pela vida. Palavras foram únicas... esse “estar-se em si” assim, contente a contento. Viver mais e muito. Chamar de único o fio efêmero de qualquer ligamento. Um beijo não resolve minha vida sentimental, tanta loucura e tanto contrassenso. Mas esse fio nunca foi efêmero e por isso, nunca explicou a curvatura certa que me levaria a algum lugar. Você e sonhos atrozes de deserto, no presente e no futuro, assim como se passa a vida de alguém. Um futuro tão deserto que você não pode esconder. Não, depois de todos os tempos sinto que não fui nada feliz. Uma visita indesejada, um apego malquisto. Na prática, eu me senti um lixo e eu estou cansado pra dizer que sofri qualquer coisa. Arquive os momentos de ódio, raiva e mil “desculpas” - por essa palavra que eu nunca quis dizer. Agora você resolve isso.

sexta-feira, abril 08, 2016

re-sempre

Segunda-feira, 22 de setembro de 2008

 
Banzo de arengueiro


Estava bêbado feito um ganso, mesmo assim... Vejo os tons de tudo que vejo com meu olhar brejeiro. Feito um pato voador com meu banzo de arengueiro. Sinto que me aproximo do mistério mais do que. Como se não fossem mistérios... a pele da mulher da cor luz sobre a terra. Muita luz batia em meu coração, embora o arrependimento seja um afeto humano que ainda... ainda... Sinto que o verão está chegando. Aqui não tem rosa vermelha, vazio e meditação e meu banzo de arengueiro. Acendo um cigarro. Vejo a linha do sol expor-se sobre o muro à minha frente. Árvores solitárias salvam a paisagem, cada qual com sua nostalgia outonal, desabrocham em harmonia. Sua cabocla virá, virá... Com a pele vermelha como terra. Virá para mim com suas cores e alegorias, pois francesinha foi barrada na estação. Espero-te com meu banzo de arengueiro. Quem, um dia, vai nos livrar desse engano?, dessa brincadeira de besta ser.



quinta-feira, abril 07, 2016

2008


Segunda-feira, 06 de outubro de 2008

gatopatocafé


Comemorando um ano de saudade?, comemorando um ano que passou. Apresso-me em renascer dessa comemoração. O que virá despertar caminho?, um caminho que procuro por instinto. Eu, esse personagem doméstico, e tantos vários que habitam esse deserto?, e de repente, estou disperso novamente. O pensamento precisa de concentração. Então passou-se um ano desde a separação?, não tenho bem certeza. É como lembrar um passado etílico em que vivi. Afastei-me das pessoas, de mim mesmo em passo contínuo. Continuo a sentir saudades, continuo a deixar que pensem que minha vida é uma ópera bufa. Continuo a navegar por terras distantes indo e vindo num vai e vem sem fim. Docemente bárbaro e rude. Tingindo nosso aniversário de rum branco. Sim, comemorando um ano de saudade.

quarta-feira, abril 06, 2016

Leite negro



Terça-feira, 30 de março de 2010

Quanta coisa me desanima... e, além disso, o ritmo caiu novamente. Agora tudo parece ainda mais lento. Então faço uso das minhas horas vagas. Durmo e acordo cedo. O ritmo já era lento e lírico. O dia pontuado por notas prolongadas. Várias horas de trabalho. Agora tem aspecto de renascimento. Jamais beberei novamente do seu leite negro, seu veneno. Jamais dormirei na sua cama, onde agora jaz um feiticeiro eloquente e redundante. Giro eternamente em torno do mesmo tema. Sento diante dessa tela para libertar algumas palavras. Vocalizar seria como falar sozinho. Talvez seja um tanto supérfluo, inútil, desnecessário. Talvez seja assim mesmo. Indo de um platô para outro, descendo e subindo... Durante o dia, minha cabeça permanece vazia. De fato está, de fato fica. Minha mente age mecanicamente para dar um passo além do instante. Não consigo me concentrar nem pensar adiante. A dinamite, a pausa - num segundo explode. Depois de alguns dias, meses, anos... tudo se acalma. Ficam as marcas do desastre, fica a cicatriz, ficam as memórias, as lembranças tolas, coisa sacana. Fica o gosto, o sexo, a cama.

Tudo ex.



E fui parar na Praça Sete, no centro nervoso da cidade, em um hotel que procurei na lista telefônica. Logo na porta descobri que foi um hotel sofisticado da cidade na década de 1960. Precisava de algo mais adequado ao meu bolso, mas na entrada eu me senti um velho milionário decadente. Da janela do quarto via-se o prédio em frente - uma imensidão de tons de cinza. Aquele foi um dia ruim para mim. Mesmo dando-me o luxo de ouvir chorinho na praça. Um entardecer incrível, embora triste e vice-versa. A minha intuição estava certa e ela estava decidida. No dia seguinte, saio do hotel e começo a procurar um lugar mais barato. Já é segunda-feira antes do ano novo. Encontro um na Avenida Paraná. Ah... Avenida Paraná!, foste o palco das minhas desilusões. Estive exilado em minha própria cidade, como um forasteiro. Tenho que correr de manhã, correr à tarde e à noite. Fiz do Ano Novo um carnaval. Foi traumático pra mim, pra todo mundo. Rejeitado pela restrição da família contra tudo. Depois, no telefone público, fui  convencido a ir pra casa da sogra por não ter mais onde ir, e fui. Ela ergueu a espada de São Jorge guerreiro e fincou a lança no dragão, expurgando mau que estava me matando. E foi esse o Ano Novo que passei, sozinho. Tudo ex.

segunda-feira, abril 04, 2016

Old

Heroína chic em Changai

A gente passa a utilizar as pessoas e até gosta, e foda-se. Atribuindo culpa à sociedade, apontando dolo à espécie humana. Sem qualquer consentimento fazemos julgamentos a todo instante. E o juízo final é instantâneo - o mais adequado, oportuno, cômodo e aprazível possível. Nesse momento é que um desses fragmentos de instantes de sonho é tão real quanto a matéria da qual somos feitos. Somos feitos dos instantes relâmpagos a cada decisão foi tomada. A partir dessas primeiras opções, decisões e infinitas probabilidades. As possibilidades ações que emitem incontáveis interpretações. Confesso que nunca me senti parte de um ou qualquer grupo. Devo ter sido um ermitão em outras épocas... Ainda hoje não gosto de gente. Gosto de gente cuja afinidade é espontânea e inexplicável. Provavelmente alguma coisa me beneficia. O amor familiar, doméstico. Estreitamente ligado à sensação de propriedade. Estamos sozinhos... A solidão que dói sem saber. Mas volto a pensar na minha não-ligação com grupos. Raciocínio sobre o lugar em que nos colocamos, ou nos colocam, dentro de um círculo. As relações mudam, eu me transformo. Isolamento... isolar-se é não ter ambição? Doer sofregamente em sua zona de conforto. Como o animal, não cultivei grandes vínculos. Escondo-me atrás das palavras. Uma espécie de tautologia, mesmice, repetição. Por que comparar tudo à música? Porque, talvez, a música utiliza todos os verbos matemáticos, e as frases coloquiais por meio dos instrumentos. A nossa história de vida, concluo por mim mesmo, que deve ser dotada de ambições, vontades, vontade avassaladora, a vontade de poder trata-se do "sonho", o desejo final. Basta dizer que quando alguém dificulta o seu caminho, caminho reto, propósito, você rapidamente se desfaz dela. O ser humano descartável da pós-modernidade. Afasta-a do convívio, se possível. Viver, então, requer uma alta dose de tolerância. Eu diria até resistência, física e emocional. Entra na história de cada indivíduo, e como ele reage à vida - em qualquer sentido. A servidão humana ou da força das paixões. Nesse momento ouço e entendo meu pensamento – monitorado, consciente, racional. Deixo-me levar por esses afetos e paixões. Depois, deixo-me fluir como um rio, margeado pelas pedras, quedas, curvas e tropeços. Um dia chegarei ao mar aberto.

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sábado, abril 02, 2016

novamente novamente



A hora em que Dimitri engasgou-se, pôs tudo pra fora, naquela hora. Eram três e vinte sete da tarde de uma quinta-feira. O ano eu não me lembro, mas foi no inicio do século. Acho que no final da primeira década. Vivíamos numa sociedade que ainda não tinha noção de si, não tinha noção de estar passando por uma época de transição. Normais que não tivessem essa capacidade de distinguir as mudanças (assim como os renascentistas não disseram: Eis, pois a Renascença! Coube aos historiadores nomear) em uma linha do tempo. Sim, até então era uma linha reta. A época, nunca dantes vista e sem dispor de pais e mães filósofos, que fossem capazes de dizer em sua totalidade, o que estávamos vivendo. A partir da morte de Dimitri Marcowich foi que me dei conta de que tudo parecia ser, mas não era. Tornou a vir o pensamento dos morros, fase-da-macumba, do império Austro-Húngaro, das manhãs de domingo. Tornaram a vir as umas lembranças, ou más recordações. As palavras do pastor sobre a nave, a comunhão, a dor de estômago e as inumeráveis cervejas da noite anterior. Os amigos que eu não conhecia. Nunca sabia o que estava se passando. Veio de novo essa memória. A sensação de que estava sendo passado pra trás por mim mesmo novamente. Quis afastar-me, fugir, correr, deitar dentro de mim. Língua gelada, língua gelada. Como eu... A passividade em que vivíamos... Pessoas recusavam-se a serem artistas, mesmo sendo. A administradora de empresas concatenava se era boa ou ruim minha influência de poeta. Melhor seria o meu refluxo. E os acrobatas da dor continuavam morrendo assim como Dimitri, assim como os camponeses de Madelstam. Os mais desavisados morriam no meio da rua, puramente para o deleite dos transeuntes. Logo escorriam pelo esgoto, feito uma gota de porra a ser limpa. Então, eram todos acrobatas da dor forçados a desfalecer nalgum momento sob o comando da urgência. Dimitri e eu éramos amantes. Dimitri tinha a mente vazia e talvez fosse isso que me fascinava. Era a mais inédita expressão do momento que estávamos vivendo. Carregava o Caos em seu bolso esquerdo e a Teoria da Relatividade no outro. Sempre foi gauche desde que o conheci. Tinha olhos de peixe morto e isso dava-lhe a virtude de nunca ser visto. Remontei à época em que Dimitri era vivo e o meu coração ainda pulsava com alguma esperança. Ainda que pairasse sobre nós a praga do milênio.

Boris

sexta-feira, abril 01, 2016

Pensando na vida




Ula ula, glu glu. Saudades daqueles que sonham. Também daqueles que não sonham, pois a própria existência é um sonho, indiferentemente. Pegar no ar algum pensamento ou vibração. Um devir de sonho, como uma onda sonora que transmite as notas suaves de um quarteto. O casamento de outras ramas rizomáticas que se perfilam e se cruzam. Alguma coisa se renova em mil ramas perfiladas que dão continuidade ao sonho. Alguém ama o passado, retira as farpas, recolhe os cacos. A mistura do calor e alta umidade em Luluchaca faz com que as pessoas, partidas ao meio pela linha do Equador, vestem menos o corpo e mostram mais as ideias. Por isso é necessário se expor. Meus sonhos expunham-se juntos à frente de várias paisagens e cenários. Mas eu nunca lembrava-me disso. Ideias, pequenos ruídos, conflitos. Cada sonho continha os números sorteados - era a vida, o próprio esclarecimento. Sonhos que são agora a poeira do passado. Difícil dividir as partículas de bons e maus momentos e fazer com isso o seu próprio dicionário. E é isso... Estou feliz em saber que... Estamos vivos.