quinta-feira, maio 26, 2016

Diálogos





Ouvindo Coltrane e fumando um baseado


__estou meio triste hoje. Acho que nessa hora me dá o comichão de escrever - digo.
__Comichão... ela deixa no ar.
__não conhece essa palavra? - respondo arguindo.
__Palavra muito usada na minha terra - diz ela.
__pois é - prossigo.
__deu saudade da minha vida lá.
__eu sou um meninu. O meninu da família. Peguei um livro de colorir da minha mãe, um livro zen-budista. Com mandalas... flores, paisagens. Hoje no sol, eu pensando na escrita.
Mandam eu pintar e eu pinto.
__ pinte o dragão!
Eu pinto, mas com as minhas cores de criança. Se não fossem as coisas ruins, tudo seria bom.
__Oh... e não é que é... Bem, vou pra casa do meu filho almoçar e passar o feriado.
__Bom feriado, querida. (Cardápio, imagino, o corpo e o sangue de Cristo)...


João, seja bem-vindo


Para a mamãe Brisa Marques
Há dois dias a imagem singela de um recém-nascido meu sono. Será que o Tempo passou assim tanto tempo? Quanto tempo eu dormi desde que adormeci? No dia seguinte a memória ingênua e pura era apenas uma imagem que eu nem mesmo vislumbrei. Apenas em pensamento. Uma imagem que veio através da brisa e dobrará seu sorriso nas curvas do grande aconchego, do Grande Abraço Divino. João, seja bem-vindo!

quinta-feira, maio 19, 2016

eterna

Não adianta adiar esse contato com as letras. As palavras se coçam pra sair. Elas são cacos, fragmentos, destroços de mim. Então elas começam a se formar. Cores e imagens vão delineando o pouco que me lembro. Tantas são as coisas que vemos e pensamos de relance. A presença na memória do objeto energético, ligado às sensações, à emoção. Esses reflexos do dia são a impressão do interpretante imediato. As cenas são gravadas subconscientemente, ou seja, não temos acesso consciente à elas. Mas o dia vai passando e, à essa hora, quando a madrugada começa a querer sobrepor-se à noite, todas as nuances vêm à mente. As tais cores do dia. Sempre, sem esquecer os amores que sempre vão permanecer. Eu me emociono diante da beleza. Lembro das tardes eternas, o sol se pondo para sempre, bem como nos contos de fada. Mas que fada nada. É foda. O melhor sexo, feito com paixão com a pessoa apaixonada, ainda assim, não vale o que somos na vertical. Quando estamos de pé temos que valer quem nós somos. Eu estou de pé. Pensar as mais lindas sacanagens que ainda fazem de mim um velho jovem poeta marginal e eterno.

Jack...


Sendo a assim a vida como ela é, não me faltam vírgulas para prosseguir. Ocorre que não se alcança o caminho andando na direção contrária. Ainda que doa cada passo. Deus sabe o que faz. Quando frio, o calor. A aventura, a glória. A queda, o desfecho do ato, e o fim dessa jornada - a morte. Parece tão longe. Acho que ainda viverei uns bons anos. Não sei se bons, mas vários. Para muitas pessoas, o problema do amor está mais em ser amado do que amar. Nunca saberemos amar enquanto não amarmos a nós mesmos. Bem cliclê, bem verdade. Então é isso que estou descobrindo. Descobrindo que não fiz, errei... mas fiz muito bem também. Deus sabe o que faz, ainda que isso não seja da nossa vontade. A Natureza (ou Deus) é sábia. E não é apenas mais uma questão de semântica. Essa é a nervura do real; portanto Natureza com a letra inicial maiúscula. Mesmo eu tenha raiva, às vezes.

quinta-feira, maio 12, 2016

Com prozac, com afeto



__ As coisas que ela escrevia na parede e tal. Ela gosta de você.
__ Então quer dizer que ela gostava de mim ao menos um pouquinho?
__ Claro que sim.
__ Mesmo com todos os meus defeitos?
__ Não. Com todos seus defeitos, não.
__ Pois é... grande merda é essa.
...
Vamos ver. 2010 foi um ano ruim. Ruim no sentido de sofrimento, sofrimento coletivo. Angústias a serem curadas em estágio terminal. A dor, o sofrimento novo que se tornou velho, e o sofrimento desconhecido a priori. Deixemos de lado o dualismo hermético entre Bom & Ruim. Aliás, foi também um ano de dualismo. Um ano que dividiu minhas metas e minhas metades e juntou tudo no que eu era antes. Então voltei a ser o outro quem eu era. Como parte do corpo que se regenera. Abandonei o detalhismo de certos ambientes. Comecei a sonhar repentinamente. Sonhar muito. Sonhar que voava sonhar com meninas que eu nunca vi. Seus olhos brilhavam como se eu devesse responder, como se me conhecesse há séculos. “Mas poxa, Gu, você sabe que aldeia é tudo” reclamando nossa fogueira particular. Sonhar com o elástico no teto do quarto, rodopiando, girando, subindo e descendo. Sonhar com the Fat Old Sun. Verde é a cor em decomposição então hoje é mais um ano. Quando parte do todo se ilumina, o Todo se mostra em sua plenitude. Eu faço parte desse ciclo que se reinventa. Que juntou as metades rasgadas em não-sei-quantos pedaços. Ensanguentada rasgada punhalada camisa molhada. Deixo que as borboletas pousem em mim, em busca do sal do meu suor. Isso não é uma alucinação. Uma delicia sonhar. Ponderei, resumidamente, profundamente, o EU SOU em comunicação com o Todo. Ou seja, viajei pra outro planeta e volto banhado de cores, luzes, energia, harmonia psicodélica dos anjos das esferas astrais superiores e “aquele que se eleva”, mas veja Zaratustra, nunca serei um super homem, embora a águia e a serpente sejam igualmente minhas amigas. Esse telescópio-pra-dentro-de-si vendo mais do que um céu estrelado. Essa lente de aumento foi minha ferramenta do alimento autofágico meu alimento autofágico, autofagia. E se você ver não faça barulho.

quarta-feira, maio 11, 2016

Old

Quarta-feira, 09 de fevereiro de 2011
A hora do anjo


Os guerreiros se preparam para adquirirem destreza, mas
quando conseguem já não estão mais preocupados com ela.
Carlos Castañeda

As chuvas de verão, especialmente as chuvas de janeiro desse ano, pintaram a paisagem como eu nunca tinha visto. Pelos meus cálculos, se alguém esteve nos picos em julho do ano passado, já faz seis meses que não passa ninguém por onde eu passei. Nunca vi o mato crescendo nas trilhas. Parece que foram abandonadas. Sei que poucas pessoas não causam impacto visível na vegetação, mas teriam deixado alguns pequenos rastros humanos. Rastros que me meus olhos, há nove dias dialogando com a natureza, seriam capazes de ver. Perceber a nuance de mudanças na atmosfera relativas ao tempo. Desci o pico rezando pra não me perder. Pedindo que eu ainda tivesse forças para enxergar o caminho de volta. Pois quando parte do Todo se ilumina, o Todo aparece em sua plenitude.

terça-feira, maio 10, 2016

nunca mais perder-me de mim





É... Por que a cada dia eu quero deixar minhas impressões? Tenho contato com poucas pessoas. Guardei você dentro de mim. Fico pensando o que você está fazendo, e onde. Quais coisas eu falaria para você agora?, depois de tantos anos. O que eu perguntaria? Tenho essa curiosidade diária de saber onde você está. Saber quem são seus colegas, seus novos amiguinhos. Eu não consigo esquecer aquela noite em que fui te ver na Federal. Lembro de você vibrando ao me ver. Mas naquela hora eu já estava fraco, magoado, ressentido. Eu já estava isolado dentro de um quarto, dentro de mim mesmo. Engolindo vírgulas. Desacreditado pela militância da adicção ativa. Outros tantos adjetivos, outros tantos sentimentos, que tive uma revelação quanto à mesurar tudo isso - quão? Fiz uma travessia árdua, difícil de contabilizar perdas e danos. Como contabilizar e determinar "o quê" e "como" as pessoas são? Eu te digo. O ser humano é imprevisível. Principalmente os psicopatas, claro. Eles não saem na TV, mas são personagens de novela, da novela da vida real... Um fragmento, um recorte do destino.

sábado, maio 07, 2016

Old


Quinta-feira, 25 de março de 2010

A letra é o prelúdio do fonema

Acabo de digerir mais um dia, apenas por volta da meia noite, acreditem. Atravessou-me o tempo em que a cada dia as noites eram mais longas. Agora os dias é que são longos... Chegou o ponto de ruptura. Nada a se fazer diante do universo, senão ceder aos trabalhos do Tempo. Ceder à ideia que tanto me incomoda. O trabalho... Ah, como conciliar tudo que devo fazer? Não gosto de agendas, mas acho que vou precisar de uma. Anoiteço mais um dia. Foram tantos de espera para que a mesmice se fosse definitivamente. Mas, como inevitavelmente, um instante, diante do espelho, se constata, estar-se preso a si mesmo. Devo falar pausadamente, ter paciência, nunca perder o equilíbrio, evitar o azedume e a descortesia, comentários infelizes, perguntas desnecessárias, respostas deprimentes. Sabem por que? Pois eu vi chegar a hora da tomada de decisões, de estar totalmente concentrado, de reorganizar a bagunça. Informação e redundância de tantas idas e vindas, de tanta vida e tanto um-pouco-de-tudo de tamanha intensidade, mas sem você. É pecado e meio mentir pra si mesmo sobre sentimentos, mas vamos adestrar meu coração com uma canção de ninar. Fecho os olhos, os olhos da alma, e cada vez que “vejo” devo adestrar meu coração. Devo ser cruel, sem que percebam e sem perceber. Encerra essa dor tamanha à que dedico meu tempo. Sofrer coloca as pessoas na zona de conforto. Cada um reage à dor de forma diferente. A letra é o prelúdio do fonema. A forma da intenção se dissolve. Calada a noite, madrugada sem sonhos.

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sexta-feira, maio 06, 2016

uns dias atrás


O dia do desapego

O sentimento preso no peito. Eu sem saber como transformá-lo em palavras. Um momento breve de sair da catarse e ver, apenas ver, o que anda acontecendo. É impressionante a velocidade com que o tempo passa. Agora tenho trinta e oito. Trinta e oito não é idade é calibre. Longe de mim economizar balas. Eu dizia coisas enquanto as concatenava. Eu pensava em "voz alta" e ela não estava entendendo nada.
__ Eu não te vejo - ela diz.
__ Melhor assim...
__ Tá escuro, não te vejo - ela prossegue, do outro lado da tela.
Continuo invisível, nesse caso. Invisível e mudo. Não disse nada, mas acho que ela entendeu tudo. Ela conhece minhas fraquezas, minha febre de poeta, minhas nazelas. Ela sabe que eu amo demais e tanto faz. Assustado como um peixinho. Desesperado como no romantismo russo. Estive mergulhado em mim mesmo durante longos meses, anos. Passei por vários abismos. Cruzei vários desertos. A vontade de sair do buraco, no dia do desapego, prevaleceu pela dor. A pessoa à quem eu me apeguei não existe mais em minha vida. Eu também não existo para... é dificil escrever isso. Cada passo em direção ao recomeço é como esquecer o passado e sinto-me culpado por isso. Cada passo rumo ao meu próximo destino é como andar na direção contrária de um sonho. Um sonho desbotado, sem rosto. Agora é mais do que tarde para apagar lembrança. Ainda cedo pra recomeçar?

Temor

Sexta-feira, 17 de maio de 2013

Temor

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É chegada a hora morta. Hora do silêncio e da escuridão. Agora estamos só nós dois. Sei que você conhece minha vida toda. Sei que desconfia de tudo e de todos. Sei que não tínhamos os mesmos sonhos. Veio desse momento a brisa mórbida de um calafrio. Tenho comigo um arsenal de tabus que levaria décadas para desmistificar. Creio que, mesmo após dias e noites  tentando incansavelmente elucidar os fatos, ainda não cheguei perto de entender. Não sei o que fazer ou como lidar com isso. Vergonha na cara ainda não basta, pois a fraqueza do homem nos leva a lançar mão de muletas como essa. Como a religião, o amor, a comida, a novela, como outras tantas coisas que não causam o mau devastador que a droga causa, mas que ainda sim são muletas. Supõe-se que Alexandre, o Grande, tenha morrido de cirrose, visto que beber era uma demonstração de virilidade... E se morria também como um cordeirinho. Quero pedir uma chance de viver. Uma chance de não acabar como um pedaço de gente. Queria sua saudade e não sua indiferença. Não sou indiferente aos males do mundo. Quero contribuir como posso. Quero dizer também que tenho medo que essa droga seja de tal forma agressiva que tenha que ser extirpada como uma mancha de tinta no tecido assim como um tumor no corpo, causando uma deficiência irreversível que seja dela a fatal irremediável consequência. Por hora agradeço a atenção. Fique consigo. Te mando um abraço do tamanho da Lua...

segunda-feira, maio 02, 2016

Madrugada



A madrugada é perfeita, não é? Faz silêncio e todos dormem. As vibrações e projeções mentais, energias incongruentes, pensamentos conflitantes descansam à essa hora. É hora de preservar o descanso físico. Algo insiste em causar-me inquietude, depois de anos em busca de conforto mental. Dedicando-me a não ser mais um Sísifo preso à uma tarefa inglória. Nunca tive a intenção de mudar o mundo, mas de vasculhar cada gaveta da alma, minha alma, alma humana. Procurando além do pessoal subjetivo ao que é universal e paradigmático. Encontrei paradoxos pelo caminho. Presenciei conflitos íntimos, dicotomia. Fui avaliado e julgado por dualismos e enfim, uma luta maniqueísta entre o Bem e o Mal. Hoje desconsidero muitas coisas que não me ditas diretamente, mas foram ditas a meu respeito. Não tenho nada à provar e reprovo qualquer maledicência dita em anonimato. Vivemos em uma democracia falha de uma ética básica que deve surgir do próprio povo. Emanar como energia algum vínculo - um sentimento de união. Mas o que vivemos é uma infinitude de pequenas realidades individuais Vivemos dentro de nossos pequenos circuitos, com hábitos e trajetos repetidos, e chamamos isso de mundo. O mundo é muito maior do que nosso cotidiano e eu quero ir além. Já vi e vivi coisas que gostaria de esquecer, mas não dá. Já estive em situações e lugares que ninguém gostaria de estar, e talvez ninguém nunca esteve, e eu presenciei e tive impressões singulares. Terríveis e únicas. Ainda sim, quero ir além.

domingo, maio 01, 2016

Vida gelada



Eu não sei onde eu errei. Quando me olho no espelho e chego a gostar do que vejo penso que não sei onde errei, não sei quando fui fraco, não sei em que momento troquei o certo pelo errado, ou pelo incerto... mas não duvido.  Aliás, eu sei cada erro, cada grito, cada berro. Eu só não sei em que momento eu não fui sincero. Isso não muda as coisas, mas mudou tudo. Afastou a mulher que eu amava, fiquei caído no caminho. Agora tento fazer tudo certo. Faço tudo certo... e estou sozinho.