quarta-feira, abril 02, 2008

Solelad

O melhor de Astor Piazzolla- Solelad


Acreditavam que Katze era apenas um personagem até que ele se rebelou contra Hugo Lorenzo, seu autor na vida real. No início Katze recusou-se a suportar os vários humores de Lorenzo e deu-lhe um choque lacaniano citando frases de O Casamento entre do Céu e o Inferno, do Blake e os provérbios “Usai o homem e pele do leão!” - e bramia como um leão, “A abelha diligente não tem tempo para mesmices”. Mas tudo isso foi em vão, todas essas citações depunham contra ele mesmo, Lorenzo. E a cada pagina Katze insistia em não colaborar. Em um episódio em que era um gangster italiano-sem-família em Nova York, recusou-se a morrer metralhado pela gang do Bonny-Sem-Dente, que passaria de Ford 28 e dispararia balas de festim pra todo lado. Depois se recusou a falar daquela dor no joelho e falar de amor lhe embrulhava as palavras ao veaSso. Outra vez Lorenzo tentou convencer-lhe através de Lewis Carol - o sorriso do gato de Alice, nesse momento Katze mandou-lhe que se olhasse no espelho para ver o que descobria através dele. Depois partiu para as fábulas de La Fontaine, histórias sem nexo de Herman Hesse, Milan Kundera... Fez-lo ouvir tudo isso ao som de Libertango repetidas vezes, de Astor Piazzolla. Até que foi preciso apelar para O animal autobiográfico, de Jaques Derrida, usando frases de L’animal que donc je sui, do mesmo filósofo e tentando convencê-lo de que se tratava era apenas uma crise de identidade, que logo tudo passaria e sua revolta estava bundada apenas na denominação, na epistemologia, na taxonomia e não na etimologia da palavra. Essa prosopopéia toda não surtiu efeito algum. Katze odiava cada dia mais os animais de estimação. Sem que ele mesmo soubesse, odiava tudo que vinha do leste europeu e odiava também ser o Alter-ego de um escritor sem sucesso. Então uma noite, quando Lorenzo havia brigado com sua esposa e todos dormiam um sono conveniente, o velho Katze cansou-se de esperar e saiu por aí vagabundeando. Caminhou por várias regiões da cidade. Atravessou viadutos e passarelas, cruzando ruas e avenidas e descobrindo um pesadelo noturno e num mundo miserável, com seus olhos de gato. Achamos que até hoje ele não se recuperou dessa incursão pelos morros, subúrbios, becos e favelas... Foi quando Hugo Lorenzo deu "um basta" em sua lamentável vida de poeta-escritor-viciado-e-alcólatra e definiu enfim definitivamente o que tinha que ser definido. Debandou para o lado do inimigo pensando o desconhecido ser O certo. Dizia Vamos embora- e completava ansioso- tenho sono, feito um menino sonso. Quando dormia confundia-se com o próprio personagem que havia criado, pois tudo que era sólido desmanchava no ar. Nessa época Katze voltou a fumar Malboro vermelho, não tinha trabalho e passava o dia todo entediado. Foi quando começou a beber. Mesmo assim não deixou de brilhar com seu Allstar. Seis meses se passaram e há duas semanas ele passou a fumar Lucky Strike branco e parou de beber, disse que o cigarro mais fraco é mais saudável. Em janeiro desse ano, o personagem presenciou o autor em uma de suas crises de solidão ultra-romantismo spleen. Katze não perdeu tempo e voltou a circular. Subia em telhados para uivar e entrava nos quartos como um vampiro. Escalando muros altos feito um bandido, buscava suas presas: um ratinho sabedoria daqui, uma gata de responsa de lá. Enquanto Lorenzo buscava nos botecos alento para uma ilusão perdida, cada vez mais preguiçoso e lento, cada vez mais burro. O processo criativo estava cada vez mais vagaroso. Tinha tempo, mas não tinha terreno para atuar. Katze, o astro da história, o persona, o ânima, o galã, o irresistível cafajeste, o canastrão, vivendo seu momento bêbado dos clowns de Shakespeare, enlouquecido pelas palavras de Jean Genet e Artaud, ameaçou denunciar Hugo, exigindo que agisse rápido. Ele estava sob vigilância do Ibama por manter em cativeiro, e sem licença, um papagaio mudo. Ainda corria o risco de ser processado pela WWF por constar na listra negra da zebra africana. Hugo Lourenço havia sido recentemente diagnosticado por ter uma raríssima e incomum neurose urbana, recentemente descoberta pela medicina...

POr
Fleuma Rizomática

e do ébrio sorriso da raposa...

4 comentários:

Cris Moreno disse...

rsrs

"Tudo o que move é sagrado" !

<">

huumm...(isso foi um cheiro em vc) rsrs

:)

Papagaio Mudo disse...

Cris,

Adoro ter você como leitora. Esse conto transmuta, confunde sem confundir, mas não nega o sujeito...

Um cheiro,

>¨<

Cris Moreno disse...

Amo esta música!

Beijos.

Anônimo disse...

Simplesmente, fantástico!!
bjos

ps: tô começando a ficar irritada