sábado, maio 23, 2009

o suspiro inicial onde nada aconteceu

Deixa-me falar da maneira que eu sei. Da forma com que expresso minha verdade mais verdadeira. Deixa-me desmascarar essa alegria velada, cortejada pela infelicidade. Esse sorriso que trago nos olhos. Deixa que eu fale com toda paixão que me cabe, incluindo toda dramaticidade. Não sei ser de outra forma. Minha vida é feita de sangue e de lágrimas. Aos quatorze agarrei-me forte a esse passado remoto, tão confuso, tão conturbado. Meu corpo ainda hoje permanece tingido de cicatrizes, mas minha alma não tem cicatrizes. Quis ser livre. Tentei ser livre como em outras épocas. Livre de tudo e de todos. Ainda hoje me agrada conviver somente com a Natureza, mas os bichos não falam, portanto não discutem e sendo assim, vive-se só. Já fiz meu próprio pão numa época em que eu mesmo plantava e cultivava o trigo. Moendo o trigo, fazia a farinha com que faria o pão. Já fiz minhas próprias refeições. Já fiz meu próprio vinho. Já me isolei por detestar o convívio com as pessoas. Já atravessei rios e vales, montanhas e cumes e mais montanhas. Quantas coisas tristes ainda hei de carregar desse passado enfermo? Quis ser livre, mas ainda era implume e minhas asas não tinham forças para voar. Por isso, acredito que essa seja a causa pala qual vim parar diretamente nesse quarto – que considero o útero materno, por analogia. Eu te entendo. Entendo seus sonhos e sua vontade obstinada de ser uma pessoa dotada de armas e poderes para vencer a sociedade, sem destruí-la. Spleen – banzo de poeta. Aquele que destrói a sociedade e destrói a si mesmo. É ridículo ver que me detonam para se igualarem a mim. É patético, mas eu não ligo. Na minha juventude não tive maturidade para me policiar e seguir um caminho menos pedregoso. Mas agora, passados todos esses anos, nem as roupas de monge cabem mais em mim. Voltarei a fazer pão. Estou no meio de fogo cruzado e fui pego pela brisa de aço. Sob o domínio dos astros peço que minhas mãos fluídas pelas energias cósmicas, a energia curadora das florestas amazônicas. Quem come desse pão rejuvenesce dez anos.

9 comentários:

Camila Vardarac disse...

hey mr. gus,

"Por isso, acredito que essa seja a causa pala qual vim parar diretamente nesse quarto – que considero o útero materno, por analogia."

isso é uma granada

Papagaio Mudo disse...

hi Ca:mila!!!

quanto tempo! ajuda-me a detonar alguns valores. Essa é uma granada de mão, o texto é uma mina terrestre. Pum! ficou sem perna. quero impedir as pessoas de andarem de viverem de fumarem, sem mim. Saudades de você, moleca!
Beijos,

Gustavo

Papagaio Mudo disse...

juntei-me com pombas
que não migram

aqui faz frio
e elas voam pra longe do rio
fiz amigos

Gicelle Archanjo disse...

Sem palavras, lindo!

jw disse...

"quero impedir as pessoas de andarem de viverem de fumarem, sem mim. " nossa, que sinceridade! e que coragem!

Danitza disse...

Gus e suas intensidades!
Gosto do seu tapa na cara para todas as coisas.
Bjo

Alice Salles disse...

realmente.
de si o homem não cria cicatrizes, mas sim do sol, você chegou muito perto dele.

cirandeira disse...

Que coisa, Gustavo! Lembrei-me de Baudelaire...!
Bj

Raquel disse...

Demorou vc divulgar a receita desse pão Gustavo!
Ou então lança-la num evento pós-moderno. Culinária tbm é arte.