segunda-feira, abril 15, 2013

Paixão da minha existência atribulada



       
Sabe? Não? Então vai saber? Tendo a que te comprometas com a leitura. Vou falar, melhor dizendo, escrever. Dentro doseus olhos, (d)entro sua cabeça, gravado e pintado as paredes do crânio a prece intratutanar. Desfaço de mim nanico ácido lático. Verbo-memória que fica acumulado. Seja pelo esforço da física progressão diária, seja por tudo que ficou gravado em minhas retinas sem que eu pudesse querer ou não querer. Lá pros lados onde ando e busco e permaneço, donde do interpretante energético muito se perde, mas o que ficou registrado fotograma, fenômeno acústico, fragrância não se consegue esquecer. Não obstante a lenga-lenga consiga aclarar, apenas esboçar composição leviana de signos.
Aprendo tempo verbal que improvisa nenhuma acepção. Apreendo sim, e cometo vasto deslize. Minto? talvez, mesmo que menos seja mais em notas rasgadas. Então entra, toma-te fôlego e sopra fundo!
Pra que dizer o que me doe so far? Primo, eu me divido por nós. Divido-me por mim mesmo. Pra que dizer que no mundo há pessoas, há sim. Que saíram do inferno e continuaram andarilhos. Que seguem como vulto a sombra da noite. Aqui, ali e sabe-se lá onde.
Alma de estrela.
Certa conta roubaram minha droga. (Yes, I did do drugs). Umatal Isamara-da-vida foi quem me roubou. (Exúmara). Foi mais ou menos assim. Tava meio estranho atividade na quebrada, ninguém na Vila e nada na Brasília, na Antena só problema, na H, só pro nariz. Acabei indo parar na Capelinha. Não que estivesse lombrado, mas o movimento no beco acontecia no estilo correria. Por lá ganhei o passo. Troquei ideia pouca com outro consumista, que deu parte do esquema. “Tá constando?” perguntei, e ele “a mulher aí que tá fazendo o corre-corre”. Isa Mara entrava e saía do barraco do jou-trafíca, e toda família vigiava a reja. A “mãe” controlava o portão (suspeito eu q o resto da ‘família’ mimetizado na cena, também velava a ação). Dei vinte paus então, pra Exalara fazer meu. depois “um pequeno” eu daria, de comissão. A Urtiga-do-mar me volta, é foda, só com dez contos de farelo, em mercadoria. Mixanga pouca é bobagem, só na ladroagem. Foi tudo tão rápido que Tom, miguinho meu, jovem-velho-conhecido, registrou o fato com olho de gato. “Conheço, é meu considerado” disse “mora perdalí, quase aqui, tá sempre aí, sangue-bão, blá e bláblá”. Completa “O mano saiu prejudicado, Zarama-pófazêissunão” disse num só fôlego de supetão, à dona da portaria. Dalí a pouco ela volta, com a palavra do mano-trafíca “foi ela que te roubou. Vai atrás e se retifica”. Nesse mundim de pilantra, subi com Tom a pequena escadaria. Amigo meu na rua, contou papo reto a quem devia “is a Mara” “cadê ela?” disseram “tá alimbaxo”respondeu “Vamô atrás dela, boy?(boy costuma ser vulgo) “Demorô, osmino!” então éramos cinco. O camisa-vermelha-de-time querendo horripilar. “Bora então”.
Mano-leitor, agora vou contar. Descemos a escadinha na base da fita loca pra cima Chora-vinagre. Lembaixo Exumara sentada, pagando de doida, foi cercada. Foi quando a vi tomá na cara. Eita cavaqueira certa “num pode roubar usufrutuário, macaca besta cavala!”. No desespero levanta e leva uma pemba na mama. Senta anta e conserva o acaso, confusa, quase leva outro na fuça. Eis q a voz de Isa Mara balbucia de pronto soluço certo conceito “vou devolver”. Pego na mão da vadia, tirou um caroço do peio, fração de segundo, inda assustada, mundo onde o-mundo-vê-tudo. Cara, vi terror na cara Exumara que quase se afogou de susto, numa maré de bordoada. Eu, macaco velho, cego saí subindo as escada, ouço com o rabo daoreia “menino, pára de bater nos otro” “bati ninguém não, vó” diz a voz amofinada. “Só pus norma no esquema”. Pensei, na “ética da máfia”. Onde ladra de cabelo piaçava faz alegria da moçada... Is a Mara is a Mara is a marinha.

A Rua da Capelinha é minha antiga conhecida, embora não haja igreja ou coisa parecida. Mas se tem, nunca atinei, nunca entendi.  o morro é mesmo, cheio de enigmas. Sua constituição randômica é cheia de segredos que desafiam o próprio Tempo. Daqui ali chegasse num minuto entrecortando escadas e becos que ligam ruelas e ruas feito mágica. Dada sua composição orgânica acercar-se um barraco o outro. Há excelentes moradias ao ponto em que, de imaginação e de improviso são feitas, modo geral, a próprio punho. Creches, bares, bocas e botecos. Núcleos comunitários. Igrejinha protestante onde evangélicos se divertem à beça, comendo, jogando bola, bebendo Tang e louvando, quase sem pecado, hora após hora até altas horas, e quase não se cansam.
Há muita droga escondida. Nem tão bem que não se possa comprar, mas o suficiente que não se possa “apreender” pelas vias que a Lei condena. Apreender então se torna uma palavra múltipla, de múltiplo significado. Entre as formas de se adquirir conhecimento, apreensão, abdução e experimentação, todas circulam concomitantemente no pequeno espaço fechado que afinal chamamos cérebro. Capaz de arquivar sem compreender. Abarcar sem incluir, o espaço de modo acertado, pois o erro foi abolido e o certo certamente assume vida própria. Veste oportunamente a camisa da situação. Os fracos também amam, morrem, nascem de novo, engravidam, nascem e findam, in memoriam. Sim que não, desse pretenso verbo vindo seja capaz alcançar uma pulga de entendimento.
Foi na Rua da Capelinha que o diabo disse meu nome. Como se o fosse velho conhecido, quando pensava ser apenas mais um Sebastião ou Benedito. Não, apenas uma vez, olhos claros, lábios no sorriso, pronunciou meu nome, le-tra-por-le-tra, inda me lembro. Como se agora inda soasse e ressoasse pra em meus olhos, boca, pele, nariz e ouvidos.
“Amo. Choro tanta desilusão. Choro o pranto sentido de um coração esquecido num lamento cansado de amor que não foi amado, ah como é triste ver o fim. E quem amou sonhou e fez tudo pra não ser assim. Ah como é triste ver o fim. E quem amou sonhou e fez tudo pra não ser assim”.
Há uns dias atrás ouvi uma narrativa pirada, que me pareceu um tanto real, todavia excêntrica. O início de tudo, da pedra (quisera fosse filosofal) feita por índio, mestres do mistifório de raízes e plantas e, no caso, a química alcaloide potencializada, observada por um negro jamaicano, que a narrou. O dia já amanhecia e ventava enquanto ouvia esmiuçada descrição.
O tal índio, carregava sabedoria única e paramentava um bambu com caldo borbulhante que jamais se havia visto igual. (Creio o fato ocorreu nos entremeios de cadeia. Posto que o jamaicano passou vinte e nove anos “em cana”, entre fugas e reentradas, saídas e voltas...) Segundo o que me foi dito, encheu o índio uma cuia integral desse tal bambu, de um líquido borbulhante e verde totalmente estranho ao ex-bandido que comigo dividia aquele amanhecer com tal história. Aquilo parecia um enigma misturado a uma atitude, um jeito de agir que, naquele momento e agora, sem que soubéssemos, mudaria o mundo.
Sim, o Jamaica perguntava e o sábio índio cautelar não dizia nada. Nada revelava sobre a misteriosa combinação a que tanto se dedicava. O que causava mais curiosidade no negro que acompanhava a minúcia de cada fase do processo. Finda toda minudência originou uma barra de massa desconhecida.  Prendia-me àquela descrição, como se eu próprio estivesse lá.  Qual gabolice seria o resultado de alto grau de magia? Haverá de ser uma bazófia indígena em toda sua jactância? Agarrava-me à riqueza da narração como se fosse experimentar o exímio veneno. O resultado de tal ganga alucinada não era pequeno. Eis então que o índio retira um pedaço, uma lasca, um toco como quem saca o filete de um osso. Jamaica pensava conhecer todo tipo de alucinógeno a que se tinha notícia quando Bum! J. vulgo “Hare-hare” sentiu sua primeiríssima onda de “pedra” numa viagem que delinear acidentes é desnecessário. Conforme me contava, soube que a força daquele preparado foi sem igual ativo e eficaz. A pujança com que foi arrebatado tinha força desconhecida. “Toma. Vende.” – disse o índio assaz cabuloso ao lado de seu místico preparado. Em seguida J. dominava todas as bocas da quebrada assim como recebia críticas invejosas de seus adversários que até então não conheciam o modus operandi  para tal resultado. A base do cozimento, a mistura, ponto de saturação. Sei foi que ficaram bem putos! disse J.
O vento sopra novamente na fria manhã onde finda a história. Um grande combate a tudo que estava por vir, desenhando um cenário, passados quase trinta anos. Famílias dilaceradas, doenças mentais, violência, crianças mortas, almas perdidas, pranto, agonia, solidão, clínicas de recuperação, suicídio, dopamina, depressão...




Primeiro groove que eu fiz na rua. Eita som eita loucura e tudo mais beleza pura. Como pino, ninguém previa, nadie supo que hiva un sonido. Lecuona baila comigo um pa de deux fugaz em meus ouvidos. Bailo mais leve, pois todo toque do que você faz e diz, só faz fazer de Nova York algo assim como Paris. Foi triste, Errante, inaugural, foi nesse dia que tentei a morte, não quero mais. Daí em diante, passado. Daí em diante dias e noites, passado o domingo, “contados” por mim-encarcerado foram oito. Mas isso não conta broto porque você se pôs no meu lugar e disse que sentiu que estava sendo positivo, quando eu pedia pra estar morto, mesmo tendo sobrevivido, mesmo agradecendo por ter sobrevivido, mesmo não estar agradecido por isso. Agora passo-a-passo, escolho melhor o repertório verifico uma grande dor de amor, deixo o disco tocar, verifico se há café na xícara antes de correr o risco de estrear sem querer pros meus pais na cozinha uma pré-estreia que poderia destruir meus planos tão oblíquos. Agora vou cobrar meu pagamento em lados B e libertação liberdade, bonequinha. Faixas contínuas, duplos, equilíbrio, sobriedade ébria de miador. Limpo aquilo que esteve escondido preso em mim, o suor de minha cola, aramado em meu pulso. Em solitários erres analisados em flash, na sombra do meu ator de escrever, carcará. Vá fazer sua caçada. É um tempo de guerra. Eu trabalho é carregando peça importante que não pode estar em débito. Medusa não precisa. Prolixo. O que preciso é de uma tomada a mais na rua. Se na rua de rua há mais do que dentro aqui do meu quarto.

Ah caro. Mijei na rua verei catarro, mas voltei com meus dez. Lucro mínimo. Folha mínima a ser absorvida, no caso.
Volto são e salvo. Acrescido da pedra do meu fardo. Volto até com o cérebro mais musculoso, tendo trabalhado, girado, conversado, sido privilegiado, acatado, considerado pelos irmãos de peso, carregado peso, e desdenhado, gozado, curtido e desfrutado e padecido pela visão-sonoridadeaparelhada-presença mambembe que ofereço.
Volto pra casa e escrevo. Isso sim objeto é aquilo que um dia se tornará mais seu do que meu. Padeço de rima e plectro, não sofro mais. Trabalho (?). Trabalho é como colher uvas? Sinto-me satisfeito. Satisfeito de ter saído da concavidade quadrilateral a que tantas vezes estamos subjulgados. Não, certamente que não fui em busca ao só do dinheiro, mas sim de um agenciamento de “coisas”, fatos, “pessoas”, imagens, ações, diálogos, ambivalência, valor, estima, apego, que aconteceram a priori só na minha cabeça. Durante o sonho diurno no qual preparava as tintas musicais. E me deparo com acervo de infinitesimal de vogais, que consoantes transfalam o que quero. Apoucamente transferem, transcodificam dizendo(?) alguma noção de sensação de sentimento-acontecimento. Choro. Amo. Tanta desilusão. Choro o pranto sentido de um coração esquecido num lamento cansado de amor que não foi amado, ah como é tão somente. E quem se sobrecarrega desmantelados agenciamentos? Cobre sim sua cola, cola, rola, orla. Porque a vida é feita de “momentos”...

Preciso de rua, do povo, das pessoas, da faculdade livre da vida para arrumar um lugar onde viver, senão a própria indigesta rua. O solilóquio plurivalente no qual se encera mais ou melhor m(eu) verbo a que em um quadrilátero. Estou atento. Estou centrado. A quem dizer o que sinto? Melhor ornamentar meus escritos, com pétalas arrancadas, (es)colhidas em algum lugar do tempo, e conchas-do-mar (fractais singulares) e palavras manchadas em papel que nunca mais serão ditas. Que se perderam, lacradas, e se objetificaram para, talvez, um fim qualquer, ou, uma pessoal-subjetiva apreciação do belo. Escrevo alfa-beta-gama-ômega-mente, ainda que advinda da escrita, a primeira tecnologia, a invenção do alfabeto grego, a egrégia noção de sensação de percepção da palavra, de fato, em si, seja sua. Não me convém inquiri-lo juízo de valor absoluto. Essa última palavra contém morte. E nem a própria morte, morfológica, é  o fim de tudo. Quando? Como? Enfim. Se parte de tudo se ilumina, o Todo se ilumina em si. Nasce uma criança latino-americana enquanto no Japão enterra-se mais um defunto.
Ignora-se a gramática portanto...  
quero “ir pro mato”. Rever minhas tocas, meu sol, meu céu, minhas estrelas, ver Deus, onde a multidimensional crista dos olhos enxerga tudo e a humildade me dão salvo-conduto. Deus, mais um azul de céu claro se ilumina nos olhos, e estou cercado de homens! Homens e sua maquinária além do fogo! Quero as mãos sujas de carvão! Não quero as letras nem a desilusão do povo. E não querer é também sim-querer e só o que desejo é a terça parte desse dualismo escroto! Ou tens a mínima noção que seja tutelar o verme até a igreja?
Alguma esperança de nascer de novo?
22h22min
22h33min
Relato dos dias que passei na quebrada e da pesquisa de opinião que faço com os usuários com os quem compartilhei as horas e a droga.

“Morro”, nome afetuoso dado às elevações que contrastam com chamado “asfalto”, também conhecido como favela, antonomásia exclusiva do português brasileiro.       
 

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