domingo, agosto 16, 2015

Deus (ou a Natureza)






























A dois meses sigo procurando abrigos e espaços onde dormir e caminhar. Minha qualidade de vida nunca dependeu tanto da boa vontade dos das pessoas que se doam, até quando podem e querem doar. Relações e políticas pessoais, intimidades e estranhamento. Vi florestas ao serem semeadas, e eu mesma lancei aos céus algumas sementes. Passo a passo no espaço e tempo, o contato vai conduzindo afetos meio ao mato denso. Bem me quer, mau me quer. Diversidade de gente. Neste longo caminho da consciência de encontro a natureza mais essencial e divina, percebo muitas pessoas se dando conta de que além do corpo e da mente, há um espírito adoentado, carente de se cuidar. Eu como todos, todos como eu, toma lá dá cá de tentativas ora bem, ora  mal sucedidas, com sorte sempre honestas, de sermos menos egoístas. Hoje, enquanto meus anfitriões tocam sanfona ao mesmo tempo em que aprendem, retorno ao relato desta viagem.  Tem sido difícil escrever enquanto aprendo tantas coisas além de escrever. Ter disciplina é tão difícil quanto ser em liberdade, e há quem diga que são elas duas faces da mesma coisa. De modo que sei que não sou livre. E quero crer: não estou livre. Conheci pessoas bem integradas, espécimes raros do cerrado. Que não tanto plantam quanto colhem, assim como os lírios do campo que não tecem nem fiam, mas sempre recebem de deus o que vestir. São elas suas próprias sementes ao se lançarem no mundo, de coração aberto, na gana de dar sem esperar em troca qualquer coisa além do que a boa sorte lhes provem. Não acredito na bíblia tanto quanto creio em deus. E ate em Jesus, este bom rapaz como tantos outros, heróis santificados que bastam aos intelectos necessitados de fé, que buscam nas bibliotecas, igrejas e supermercados suas razões para prosseguir. Quando miro a paisagem é difícil dar isenta atenção a toda diversidade. Pisco e ao piscar me perco, na sensação de um segundo, da imagem fiel da realidade. Apesar de ser curiosa, muito me escapou e me sinto tendo passado pelo tempo desacordada. Enganada em meio as palavras que tudo querem explicar, fundei castelos ilusórios e os vi todos, desmoronarem pelo caminho. Desiludir é uma graça, e me basta uma próxima desilusão antes de refazer as malas e ir embora novamente. Passo a passo revogo a minha importância nesta trama de relacionamentos. Humildade e a virtude de não se saber virtude. Subestimo o poder das minhas palavras, embora sempre as lance na direção das pessoas que amo. Amo as pessoas e seus universos. Amo o que elas podem ter além da superfície. Mesmo quando as vejo caminhando sem propósito rumo às urnas eleitorais. Ou quando as vejo trocar a vida pelo dinheiro, ao mesmo tempo em que afirmam que dinheiro não traz felicidade. Mesmo quando tanta gente faz o que quer fazer, fingindo não saber o que precisa ser feito. As pessoas não se cansam de me surpreender. Tanto até que me cansam. Daí saio à francesa, sem me despedir, à busca de não sei quê que nunca está ali. Com gratidão, ponho-me a caminhar levando dentro uma vontade quase sonho, de um dia voltar e reconhecer as árvores que plantei.  

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