quarta-feira, fevereiro 09, 2011

dentros mais de ventre que de abraço

Oitavo dia. Reflito sobre a noite em que ouvi as sirenes da mineradora buzinando incessantemente. Trabalhando para remover o espaço-físico e transformá-lo em coisas cotidianas. O contágio das horas em função do espaço, desde a pasta de dente ao cimento a natureza geme. Mundo invisível. Na cumeeira o mato está alto. O capim cobriu as trilhas. O bambuzinho virou arbusto e o arbusto está florescendo. Um mar de ciganinhas, melastonas tasias, laelia caulensis, tepalansas, os pés de arnica e suas flores roxas, canelas-de-ema, carqueja, sempre-vivas e drosófilas carnívoras, macela branca e uma florzinha chamada xoxota de freira, nos campos rupestres a perder de vista. Em meio a todo esse bioma uso as reservas de minhas forças. Uma batalha constante para manter meu moral em alta. Rasgo a picada pela crista até atingir a montanha em seus campos. Passo direto pela canela-de-ema centenária em que Dom Pedro II pendurou a cueca pra secar. Uso as minhas reservas essenciais para atingir aquela cachoeira em que acampávamos, Pesseguinho, chegando lá realmente esgotado. Senti a ígnea chama, a centelha divina em mim. Intensifiquei a minha crença e juntei as últimas forças para seguir até o cume. Meu batimento cardíaco acelerado e o corpo superaquecido pelo sol escaldante. Entrei na água e ao primeiro vento tive que me agasalhar pra não sofrer um choque térmico. Consegui descansar por meia hora onde não existia sombra, após sete horas (faço o cálculo mental) de caminhada quase ininterrupta. Minha intenção é atingir o alto para não dormir exposto ao tempo e cada passo torna-se um sacrifício. Meu corpo responde a um reflexo mental de sobrevivência. Chego ao cume, onde há aquela pedra que parece muito um cavalinho de carrossel. Lembro perfeitamente a trilha, mas a vegetação está tão alta para andar dez metros no mato, lutando pra andar um passo a cada três. Tudo é mistério, mas lembro-me de JJ caminhando sobre as rochas. Identifico o vale, mas preciso ir pra esquerda. Ando a beira da fenda, evito olhar para baixo e nunca encaro o abismo. Pulo nietzschianamente sobre o penhasco, de uma para outra rocha. Dez segundos entre pensamento e ação, puro instinto. Consigo chegar até a plataforma que me levará até a toca. Não quero ver a vista, não quero ver o sol se esconder. Quero eu me esconder dentro do saco de dormir, no útero das terras altas, e que a luz do sol se apague. A noite cai em minutos enquanto eu tenho meu derradeiro colapso. Mais ou menos uma hora depois, minha cabeça pára de doer e o meu corpo se desaquece naturalmente. Acendo uma vela. Consigo comer um pedaço de pão com queijo e um pedaço de chocolate. A escuridão é absoluta não fosse a luz das estrelas que incide por entre a fenda.
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Um comentário:

Liberté disse...

Pelo relato parece que a muito ninguém passara por lá. Sensação de percorrer uma nova estrata. Parece ter sido difícil. Mas ao mesmo tempo uma superação em objetivo e persistência. tenho novamente que parabenizá-lo, amigo!