quinta-feira, outubro 31, 2013

memória afetiva

Meu caro Joaquim, 
Hoje eu acordei sem o som dos pássaros que tanto me enchem o saco pela manhã. Que sonhava minha alma, vez passada. Ao sul de mim mesmo, fluxo migratório de toda merda. Pesseguinho uma vez me disse que eles acordam porque os filhotes acordam com fome. Então voam pra buscar algum petisco pros pequenos desorientados, que piam sem parar num frenesi manicomial. Depois que a mamãe ou o papai passarinho volta, eles (e eu) voltam a dormir. Sem intenções de despertar para a vida... Sem a emoção dos grandes voos e pretensões escondidas na casaca, ou debaixo da asa. Luz desértica. Tento pintar uma cena da desolação com que escrevo. No Egito antigo acreditavam ser o coração o órgão que “pensava” e não essa especiaria chamada cérebro. Doce zero. Eu precisava de uma flor de mandacaru, mas feel so lonely é tradição - não adianta sofrer por isso. A dura realidade. A vida acontece sem ensaio, sem estreia, sem coquetel de boas vindas sem bodas de neném nem santo roendo a madeira do altar. Os fatos foram me atropelando e deixaram as pernas mais dormentes mais adiante... meu destino espera, me aguarda, tenho fé. O dogma é superar o perigo constante de todas as coisas que eu não concordo. Cada um com a sua moral e falta-me algo imaterial. Anuir ao fato de que pertenço ao mundo é o maior dos dogmas. O que me cerca. Na ponta da sombra morra a luz da minha esperança. Gota de orvalho que caiu noite passada. Sopro da umidade dos mares sobre a euforbiácea. Adaptada às condições severas na origem, singularidades e flores maravilhosas. Eu precisava flor de maracatu. Parece tudo distante. Aos olhos, verso agudo, verso esdrúxulo, verso obtuso. Parece estar ali, lá longe. E essa longuidão não existe. Eu tenho as palavras afiadas num dia de domingo, a prece. 

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