quinta-feira, março 20, 2014

dormi silêncio, acordei palavra



“Ninguém jamais escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu, inventou que não fosse para sair do inferno”
                                              Antonin Artaud, Van Gogh - suicidado pela sociedade.


No momento em que a cidade está voltada para o centro de si mesma, e seus residentes buscam a cura no prazer onde não existe doença, venho aqui para anunciar um novo selo editorial que está prestes a se abrir. Chama-se O anjo e a pipoquet.
Creio que enquanto São João, sentado ao lado de Deus, aguardava que os habitantes da terra pedissem perdão pela orgia apocalíptica em busca da redenção na hora do juízo final, o anjo nem se lixava, para o que ia acontecer. Bem penso eu que, ser anjo deve pode não ser tão ruim assim, mas, sem pecados, talvez um pouco entediante.
Não somos anjos, se é que um dia desejamos ser, ou pensavam que fossemos. A questão é que O anjo e a pipoquet abre a garganta e deixa rolar a palavra de quem tem algo a dizer. Essa agonia existencial que não nos livra do convívio, quase enigmático e secreto, com o outro ser. A decepção e bônus.
Os totens primordiais que nos trouxeram ao mundo, pai e mãe, são também vitimas e algozes desses signos de vida, muitas vezes.
Para mim, 2013 foi um ano ruim. Reuni meus escritos com a intenção de publicar um livro. Durante esse período de reclusão ingeri putrefações nefastas, pólipo de recônditas reentrâncias, na ânsia de não ser amado. O amor é o peso do mundo, e eu Átila, mesmo cansado, tive de carregá-lo, sem saber se ódio é a palavra certa para tal dicotomia.
Passei uma temporada no inferno, assim como Adônis no submundo bastante agitado, o reino de Hades, aos cuidados de Perséfone.
A solidão é fim de quem não ama a si próprio, está bem dito, porém, durante esse tempo ficou a dúvida de ser medo ou amor a força motriz do planeta. “o amor move o mundo” escreveu Carlos Catañeda, mas creio agora que o amor é quem o movimenta. O medo é sustentáculo da pátria que vivemos e nela, nossa geografia, dentre e fora, também nossa geografia interna. Aparências.
O que há dentro de mim? Ninguém sabe o que nem mesmo eu, na busca de uma porta, talvez inexistente, sei ou hei de saber.
Alimentei o meu almoço nu. Lágrimas secas com pinceladas rápidas. Comida fria e manhãs vazias. Quando ventos suspiravam brisas e o brilho anunciava o dia. Duas voltas e meia em torno se conseguem mesmo não dizer nada onde na periferia dos olhos e a cabeça acaba. Minhas notas. Não vejo a hora de queimá-las em seus olhos, mas espero que não virem fumaça. Que quem leia veja um somatório de impressões etéreas que morreram comigo.
Pois, nem lei nem guerra definem o perfil do ser, nesse fulgor Baco de terra que é a cidade ao amanhecer. Sem luz e sem arder que fátuo fogo encerra. Afinal, ninguém sabe que coisa quer e ninguém conhece a alma que tem nem o que é mal nem que é bem. Palavras de uma pessoa chamada Fernando, que por sinal eram vários.
Esses relatos narram a tentativa, talvez inglória, de momentos catárticos, numa profunda e desesperada disseminação do pavor, desilusão, e dialogismo divinal, com Deus. Essa tal figuração transcendental a qual nunca me respondeu.
Cheguei, se é que há o advento da linha de chegada, nalgum lugar além do nada. Nada mais tenho a dizer. Aprendi várias coisas, a hora de vir e de ir embora, tal como a humanidade não quer ser salva. Também a compulsão que o homem sente por si mesmo a todo instante, sem saber, de fato o que lhe falta.
Nascemos faltantes, e assim seremos, ditou o grande Buda a primeira nobre verdade. Lembrar-se disse constantemente, a segunda, evita a dor de esquecer que somos errantes, e que empreender jornadas em busca de objetos ou, seres pensantes e abstrativos, é ainda pior.
Nada se perde. Tudo se renova. Somos eternos.
Expor nossos desertos em palavras é um desafio que traz libertação. Além do bem e mal que vivem os poetas e as senhoras cegas cantadeiras do vale do Jequitinhonha, a liberdade e lei própria latu sensu sempre recompensa com prazer. Pureza branca, manchada de vida, ainda que tingida árduas palavras em prosa. Eis, pois a poética da vida agora futuro fruto que vier.
Na próxima chamada contarei o enredo do primeiro livro a ser editado pela pipoquet, cujo anjo manipula. Uma história de cárcere judicial. Entrega incondicional, esperanças emotivas numa bible de versículos incompletos, revistas íntimas, seios de santa, e lânguidas largas breves e despidas longas despedidas.
Aguardem.

Um comentário:

Gustavo Alvarez disse...

citação frase de Antonin Artaud em Van Gogh - suicidado pela sociedade.