terça-feira, maio 27, 2014

nota

Trapaças na casa do Bruxo do Cosme Velho

No horário combinado eu ajeitava documentos na bolsa, verificando pela centésima vez o gravador e a câmera fotográfica, pronta para captar espectros. E talvez respostas esclarecedoras.
Fingi naturalidade quando disse meu nome e quem me aguardava à recepcionista com o sorriso bem treinado.
Mais uma portaria, novo atendimento e nova verificação dos documentos.
O porteiro viu alguma importância no meu tom sério e se desculpou pela demora no atendimento. Indicou-me a entrada, anunciou meu nome. No elevador do prédio novo eu conferia a modernidade e pensava que este não era um local adequado para os fantasmas dos Imortais.
Engano meu.
O cenário do novo esconde mais mistérios do que se pode supor.
Conheço salões decorados com objetos antiquíssimos. Retratos de Cecília e seus doces olhos, quadros em solenes molduras de mais imortais.
Sou recebida no Salão Josué Montello, onde me acomodo admirando Caju, tapeçaria de Concessa Colaço. Mas quero saber do Dono da casa, Machado de Assis. Estaria, mesmo, inquieto seu espírito, como dizem os folhetins e esta nova e mágica geringonça, a internet?
Não imaginei diferentes as horas de espera. Oferecem-me café, mais uma hora e os sofás me acolhem, cansados. Imagino ali, sentada à frente, a escritora que tem assombrado a Cultura com sua versão simplificada, digamos assim, de "O Alienista". Digo assombrado à Cultura brasileira, mas não ao Ministro, que incentivou o "projeto" com um milhão de reais dos cofres públicos.
Ah, sim, em tempo: serão 600.000 exemplares distribuídos nas ...escolas públicas, para os "jovens leitores”. Jovens, mas não culpados disto, para receberem a sentença de deglutir obrigatoriamente uma sopa de letras mal cozidas, com temperos artificiais e corantes adulterando o paladar único, elegante em sua miscigenada e única forma.
O que diria Machado?
Não teme represálias dos fantasmas, esta senhôra?
Na terceira hora de espera recebo as desculpas do Imortal que me receberia:
Há um alvoroço na Casa, que eu o desculpe, há emergências!
Sorrio e cumprimento as vagas presenças. Tão previsível, o desacerto...
Coisas do Bruxo do Cosme Velho. 


                                                                por Cida Valle

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