terça-feira, junho 10, 2014

Quinta estreia


A coluna de Cláudio Rodrigues da Silva

Os novíssimos!


Ricardo Lísias, um dos nomes na nova ficção brasileira
O objetivo principal desta coluna é chamar a atenção para o momento literário em que estamos vivendo e tentar diminuir o fosso entre suas obras e seus presumíveis leitores, uma vez que causa espanto o desconhecimento de parte do público leitor a respeito do movimento que estamos vivendo. Um dos papeis do crítico, pelo menos o que no momento me imponho e é minha pretensão, é o de aproximar as obras dos presumíveis leitores.
Somos contemporâneos, nas últimas três décadas, de um fenômeno literário sem par na literatura brasileira. Estamos vivendo um dos momentos mais importantes e fecundos de nossa literatura. Mas um fenômeno igualmente chama a atenção e causa espanto, esta mesma geração de escritores passa desapercebida de grande maioria dos leitores.
Mas sempre foi assim? Em todos os momentos e movimentos de nossa literatura sempre houve esta defasagem entre o que se produzia e o público? Suponho que não. Grandes autores nunca tiveram imediata repercussão popular no Brasil. A figura pública de alguns autores como Drummond, atingiu um público maior em uma época em que o país tinha uma população bem menor e uma mídia mais restrita que abrangia de uma vez toda a população. Para se avaliar melhor este fenômeno, seria preciso um estudo mais apurado que fugiria, pelo menos no momento, às pretensões desta coluna.
Há no Brasil a questão do pouco número de leitores. Um país com uma quantidade ainda grande de analfabetos. E os que sabem ler poucos têm, por falta de costume ou oportunidade, acesso à literatura. Mas não se trata desta questão no momento. O que causa espanto é que mesmo entre o público leitor de romances e contos, poucos conhecem os autores da nova geração.
Possivelmente a largueza dos horizontes midiáticos de hoje, que torna o acesso à informação mais fácil, por outro fecha as informações em guetos cada vez mais estreitos.
Em uma coluna de Millôr Fernandes publicada no jornal O Pasquim, no final dos anos sessenta, o autor se lamentava, não sem uma dose de ironia, pelo fato sentir estar vivendo sempre antes ou depois do boom de algum momento, de alguma coisa nas artes, na literatura. Mas o fato é que quando seu texto saiu publicado, vivíamos um momento de enorme efervescência cultural no país, abrangendo todas as áreas, na música popular e erudita, nas artes plásticas, no cinema, no teatro e, entre outras áreas, no humor, que ele mesmo foi importante protagonista.
É difícil perceber-se uma curva quando se está em algum ponto desta mesma curva. E se é difícil percebê-la, ainda mais em que ponto da curva se está, da perspectiva de um ponto em uma curva, a percepção é de que se está em uma reta.
A afirmação de que estamos vivendo um momento notável na trajetória de nossa literatura é no mínimo problemática. A questão sobre a arbitrariedade em se falar de uma nova ou novíssima literatura brasileira, surge com a publicação dos livros Década de 90: Manuscritos de Computador, em 2001, e Geração Noventa: Os transgressores, em 2003, ambos pela Boitempo Editorial, organizados pelo contista Nelson de Oliveira, reunindo trabalhos de contistas que começaram a publicar seus trabalhos entre as décadas de oitenta e noventa. O organizador, no prefácio do primeiro livro, ao comparar a sua geração à responsável pelo boom de contistas que apareceram na década de setenta, afirma que ela manteve a aprimorou as conquistas da geração que a precedeu.
Em um trecho de entrevista, publicada no ano passado no jornal Estado de Minas, dentro de uma grande matéria a respeito do atual cenário da literatura brasileira, o escritor mineiro Sérgio Fantini declarou que a geração enfeixada nas duas antologias, não fazem parte de um grupo e não estão sob nenhum projeto comum, nada tendo em seus textos que possa indicar alguma filiação, tendo inclusive, em vários aspectos, posturas antagônicas entre si.

Não havendo na verdade um ponto de ruptura entre as gerações fica difícil definir o que há de diferente entre elas. O que acontece atualmente e mais do que dizer que uma ou mais gerações estão produzindo uma literatura específica. Não é o caso de uma geração, mas de um momento literário em que textos de autores de idades diferentes são contemporâneos. Diferencia o atual momento literário, a quantidade de autores novos, a qualidade das obras, a diversidade de assuntos, e de experiências estilísticas, a liberdade em relação aos temas, a descoberta de outros países, outras histórias e culturas. Chama atenção também a participação muito grande de autores dos estados do Sul do país.

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