quarta-feira, novembro 27, 2013

Entrevista com Gustavo Perez

Amor inventado

 um corte lento e profundo
                       

                                                           por Cristina Siqueira

Crescer antes e depressa, ser precoce e envelhecer sem ser ouvido é nascer com a dor dos que nascem mortos e renascer em si alem da Vida. 
Este fluxo de sentimentos e pensamentos, a fragilidade e a fortaleza que te edificam como se a sombra de um Anjo se colocasse entre nos exigindo silencio para ouvi-lo... Segredos, signos que transpassam os véus das aparências. 
Tuas palavras me sacodem em súbitas revelações, sinto-me tomada por teu ardor abusivo, assustada, temerária, fascinada e tímida ao entrar no teu universo, verso à margem e ser recebida com a largueza de tudo... Livros, nomes, histórias, fidalguia, adrenalina, horrores cruéis,delírios e um constante agrado que me enternece,apaga a nua e candente solidão. 
Não me interessa o corriqueiro da tua vida... Como dormes, onde moras, o que comes...?-quero sim saber de teus cantos, as paisagens por onde teus olhos se desbravaram... Quero a perfeita e solta palavra escrita, limpo, sem vaidades machucadas, sem mesquinharia, sem dedos emperrados. Quero te conhecer no imenso silencio que nos cerca onde se precisam as nuances, onde não estamos prontos... Onde as paixões se transformam em obras. 
Até os deuses traem nossos mais almejados sonhos, o tempo nos devora a carne... o que me leva a busca do que esta acima de nós, a expressão criança do espírito desprevinido- o ser dormindo sem mascaras,feito um anjo.

Quero a ausência, a distância dos corpos para melhor ler a alma. Esta oportunidade calma que me garante ouvi-lo com vontade, o longo contato longamente com o que se escreve eterno ancorado na essência dos fragmentos desta vida sua quase interrompida, seu claro bem, suas golfadas de ira que se estilhaçam em vermelho vivo nas serras verdes de Minas.


C.S.
Como foi sua infância?-como nasceu Gustavo Perez?

G.P.
Minha infância foi meu pecado.
O fato de ter nascido oito anos depois do meu irmão Adriano, foi meu erro, mas não tive opção, não é?
O escritor nasceu lá mesmo. Quando escrevi um poema "Sabrina". Um amigo do meu pai tinha uma filha chamada Sabrina e ficou encantado. Deu-me uma antologia do Drummond.
Isso eu só tinha sete anos. Foi meu pecado, como disse. Ter gostado daquele sentimento, daquela atenção recebida, daquele pequeno glamour. Nunca mais parei. Quis mais...



“Deus não precisa conhecer a mesmo


C.S.
um menino precoce num espaço ocupado por adultos... Era assim?
-e como você se sentia em relação às outras crianças que não participavam deste encanto?

G.P.
sentia que tinha que me manter criança-adulto, mas não sabia o que isso significava. hoje sou um adulto-criança e continuo não sabendo o que isso significa. Sei que deve haver uma adequação e tento equilibrar essa minha perseverança na escrita com meus brinquedos proibidos...







C.S.
Percebo toda e Muita cultura e conhecimento, mas quero saber mais do seu pensamento... Seu vazio, sua dor, seu Espelho,... O que te move Hoje?

G.P.
Minha dor, sim. Eu prefiro dizer meu ar-dor. Como eu mencionei, o homem nasce pleno de objetos faltantes. Eu não sou diferente. Mas descobri na infância um modo de ser visto, de ser ouvido, que é escrevendo. Minha escrita é meu ar, minha dor, minha fala. Infantil, etimologicamente significa – aquele que não tem voz. Por ter crescido no meio de adultos, sendo filho mais novo e atemporal, desde os primórdios desenvolvi minha fala através das letras.

C.S.
-mas te incomoda não ter este significado claro?-ou você vive bem com isso? Brinquedos proibidos?

G.P.
veja, quando eu estava com 34 anos tive uma crise de identidade. Achava-me uma criança dentro de um corpo adulto. sou um menino, sabe? E é isso. Brinquedos proibidos? Aonde ninguém vai e a gente só entra quando é convidado. tipo o submundo das drogas, o sexo adulto... Esses.

C.S.
Fala do terceiro ato, conjunto de notas que você está organizando para editar? Por que terceiro ato?... É isso não é?

G.P.Terceiro ciclo. Sim, estou tentando juntar pedaços que significam algo. Escrever é a ladainha da lavadeira que perdeu o sabão na beira do rio. É um ato de aprendizado, ao tempo que é autoconhecimento. É tentar igualar-se a Deus deixando signos na grande malha do eterno. 
O escritor é como o animal que bebe água na beira de um riacho. Ele está atento a tudo a sua volta pra não ser surpreendido e só tem referência no que já viveu. Ele sacia a sede, mas está sempre atento... Assim é o escritor... as orelhas se movem e a língua trabalha...
A palavra então surge como signo que tenta agrupar a de noção de sensação de percepção.
Ao tempo em que ele só tem referência naquilo que já vivenciou, fenomenologicamente, ele agrega parte do coletivo. Mas o caminho é ermo, sem onisciência e também, Deus não precisa conhecer a mesmo...


C.S.
Você se referiu ao amor com uma nova categoria "amor inventado”, o que lhe ocorre quando você diz isso?

G.P.
Lembro da música do Cazuza, mas não é isso apenas.
Certa vez, conversando com o Eduardo Cunha na varanda do edifício Maletta, falávamos sobre música quando ele me disse uma coisa que sempre me lembro e que acho de enorme assertividade.
Ele falou que o cancioneiro popular brasileiro representa nossa filosofia, nosso pensar filosófico de caráter universal, ou seja, serve para todos. Sendo que o Brasil não tem filosofo, eu concordei com ele.
Ele é artista plástico e trabalha no Inhotim – nosso Museu de arte contemporânea.
O cancioneiro popular brasileiro é como o blues man norte americano. Traduz um sentimento particular, geral, universal.
Quanto ao amor inventado, creio que seja mais um conceito criado nessa linha de pensamento, pois, a filosofia é a arte de criar ou fabricar conceitos.


C.S.
-quais Escritores e Poetas que te inspiram?

G.P.
Eu tenho um gosto particular pelos marginais. Lembrando que marginal não é estar à margem, mas agregam vários outros conceitos.
Eu comecei gostando dos escritores da geração perdida (lost generation) que foram para Europa quando os Estados Unidos vivia uma época de prosperidade nos anos 1920.
Eu destaco Ernest Hemingway, que descreveu um estado de espírito da lost generation em The Sun also rises.Os poemas de T.S. Eliot que chegou a negar a cidadania americana pra se naturalizar inglês num ato de rebeldia aristocrática.
Henry Miller, que também viveu nesse período pós Primeira Grande Guerra.
Eu dou destaque a suas obras Trópico de Câncer, escrita em 1934, Primavera negra, escrito em 1936, no intervalo entre Trópico de Capricórnio que é de 1939. Dou destaque também à sua trilogia Sexus, Nexus, Plexus iniciada em 1949 e finalizada em 1960, quando o escritor já havia se tornado um ícone pop da sua geração. E a sua derradeira obra A Hora dos Assassinos (Um Estudo sobre Rimbaud).
Ele, digamos assim, libertou a imaginação da jovem francesa Anaïs Nin, cujo estilo supera a taxies de Miller ao se revelar de forma tão suave, quase como desvelar um segredo feminil o qual ninguém jamais nunca viu ou teve acesso. Uma mulher fora de seu tempo, faleceu em 1977. Em Delta de Vênus, sua obra prima, ela cria uma tessitura imagética de ideias que vai além da simples pornografia.
Ainda nesse período realço a obra prima de Francis Scott Fitzgerald, The Great Gatsby, que, além de retratar a realidade do seu tempo de abundante prosperidade (até a queda da bolsa de Nova York em 1929) demonstra com detalhes as nuanças do “sonho americano”. Foi o período da chamada lei seca, mas os magnatas que promoviam festas grandiosas regadas a álcool contribuíram com o aumento do crime organizado.
Essa foi minha primeira influência literária. Um tanto americanizada, eu confesso, mas isso se deve ao fato de eu ter concluído o highschool numa escola americana, aqui em Belo Horizonte. Devo isso à minha professora de literatura, Miss Staford.
A segunda fase do meu contato com a literatura foi quando mergulhei na leitura dos autores franceses.
Jean Genet, em Diário de um ladrão me surpreendeu com frases e parágrafos que são pinturas vivas, sinestesia que jamais notei em outro escritor. Apesar de ser, como disse um amigo jornalista Altino Lima Filho, “um passeio pelo código penal”, ao encontrar-se preso na década de 1960, foi retirado da cadeia por um apelo de Jean Coqteau as autoridades, alegando que Jean Genet é um patrimônio nacional
Arthur Rimbaud, que, junto ao litero-filósofo, Friedrich Nietzsche, inaugura uma revolução na língua, não apenas de forma, mas de estilo e ousadia a quem hoje devemos infindável reconhecimento e gratidão, é meu poeta predileto. De Uma temporada no Inferno, se me permite, quero citar:


Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os
corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras. ó miséria, ó ódio, a vós é que foi confiado o meu tesouro!

...

Ninguém parte. – Percorramos novamente os caminhos daqui,
carregado de meu vício que aprofundou sua raízes de sofrimento a
meu lado, desde a idade da razão, - que sobe ao céu, me golpeia,
derruba, arrasta.
A derradeira inocência e a derradeira timidez. Está dito. Não
entregar ao mundo meus desgostos e minhas traições.
Vamos! A marcha, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem me alugar? Que besta é preciso adorar? Que santa imagem
atacar? Que corações destruirei? Que mentira devo sustentar? Sobre
que sangue caminhar?
Mas, é melhor evitar a justiça. – A vida dura, o simples
embrutecimento, - levantar, o punho seco, a tampa do caixão, sentar-se,
afogar. Assim desaparecem a velhice e os perigos: o terror não é
francês.
Ah! Sinto-me tão abandonado que estou oferecendo a qualquer
divina imagem – impulsos para a perfeição.
Ó minha abnegação, ó maravilhosa caridade! aqui em baixo,
embora!
De profundis, Domine, que estúpido sou!


Veja bem, um menino que abandona os Campos Elíseos, no interior da França, promove tal revolução lingüística, deixando para trás o formalismo com que a poesia era tratada, escreve somente duas obras aos dezoito anos de idade – Uma temporada no inferno e Iluminações – depois se torna mercador de escravos e traficante de armas em África setentrional e desponta na literatura mudando os caminhos da história, não poderia passar em vão pelos meus curiosos e atentos olhos.
Muito me aprazem os autores franceses, por seu despudor literário e espírito indutivo. Com Charles Baudelaire, tive a chance de enriquecer minha vivencia literária com Paraísos artificiais e Flores do mal.
Porém, William Blake em seus Provérbios do Inferno me seduziu para sempre.
Voltando para a América, há autores que viveram no período entre a geração perdida e a geração beat que merecem destaque, pois influenciaram jovens escritores e também a mim. John Fante com seu masterpiece Pergunte ao pó, o pó das estantes das bibliotecas, o pó da estrada, o pó da história. Nesse livro ele aconselha como sujeito oculto da narrativa, o seu personagem Arturo Bandini, também jovem escritor, a como viver a vida. Espere a primavera Bandini e 1934 foi um ano ruim, é leitura imperiosa que dispensa comentários.
Charles Bukowski é também de uma sensibilidade incrível, ao contrario do que todos pensam. Em seu Crônica de um amor louco ele demonstra altíssimo nível de compreensão da vida.
Isso desfez o mito criado em Notas de um velho safado e Mocking bird wish me lucky.
Passado esse período de entressafra surgem os autores que viriam a ser chamados Beat.
Jack Kerouac e Allen Ginsberg são para mim o eixo principal do movimento e construto cultural da geração beat. Gosto em particular do livro Sonhos de Jack Kerouac. Há autores que não posso deixar de citar como William Burroughs com seus memoráveis Naked lunch e Junk.
Neal Cassidy integra o movimento com sua única obra O primeiro Terço, onde relata as aventuras vividas ao lado do pai, um trabalhador da indústria ferroviária no estado do Colorado, serpenteando pelas paisagens da América agreste e freqüentando bares e puteiros de beira de estrada. Foi incentivado por Burroughs e Ginsberg a escrever tais relatos. Ele era apenas um menino quando vivenciou tudo isso...
Tendo visto que até então, fiz vasta explanação sobre autores estrangeiros dos quais sofri influência direta, venho ao Brasil dizer sobre aqueles que me seduzem em nossa própria língua.
Oswald de Andrade foi o primeiro autor brasileiro que me encantou profundamente. Seu estilo caótico, bem ao tom dos antropófagos me fez viajar por paisagens inóspitas que jamais esquecerei. Em Memórias sentimentais de João Miramar, fiquei perplexo com a liberdade com que Oswald caminha pelo estilo teatral e faz com que a poesia siga plena de uma nova acepção. Transforma as falas em solilóquios que interligados compõem um romance não linear. Estrela do Absinto também me seduziu ao primeiro contato.
Cabe dizer que o estilo futurista de Oswald se deve, creio eu, ao fato dele haver passado uma temporada na Europa, onde, visto de fora, pode perceber o quanto somos uma nação-criança.
Já na minha geração eu gostaria de lembrar autores como Paulo Leminski, na poesia e Ana Cristina Cesar, que, com seu estilo auto-confessional permeia meus escritos até hoje.
À teus pés, de Ana Cristina Cesar, é um livro para se ler de joelhos.
Mas, somo posso esquecer-me de livros como Demian de Hermann Hesse Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke?
São demasiadas referências para uma pergunta só.
E peço desculpas de antemão por haver-me alongado na resposta.
 


C.S.
de que cor você pintaria o Universo.

G.P.
Rosa. Rosa é punk.

C.S.
-ausência-

G.P.
O homem contemporâneo só sente ausência de sexo, dinheiro e conexão rápida.
dukkha, se pronuncia dúc – rá , insatisfação profunda, frustração... é a primeira nobre verdade do budismo. Existe essa compulsão por buscar satisfazer uma necessidade invisível, subjetiva, abstrata. Todo ser nasce com esse banzo por estar em falta de alguma coisa. E se frustra por tentar consolidar coisas onde tudo é perece. Nada permanece, e essa também é uma verdade. Não lembro as outras, mas essa é a primeira e a que mais me marcou.

C.S.
-excesso-
G.P.
“as escadarias do excesso conduzem ao palácio da sabedoria”. William Blake. Acho que o Jim Morrison, que leu Blake, confundiu um pouco esse provérbio.




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