segunda-feira, dezembro 16, 2013

Nydia Bonetti - uma história de vida


   

" Da esquerda para a direita: Minha prima Cida, minha mãe, Mafalda, eu no colo. Minha irmã mais velha, Lucia com os olhinhos quase colados na mesa e a menorzinha de pé, Cristina, minha irmã mais nova."











Nydia Bonetti
Ah... Eu amo essa foto. Sou a do colo, naturalmente. Minha mãe, minhas irmãs e a maior é uma prima.

Gustavo Perez
O que me desperta interesse em você, Nydia, é saber sua história de vida. Pode nos contar mais sua infância? Sua família é de origem italiana?

Nydia Bonetti
Sim. Minha avó materna era de Ferrara. O lado paterno, da Toscana. Bem, nasci em Piracaia, nesse casarão da foto. Quando nasci, minha avó ainda mantinha um Hotel, nessa casa. Os homens da família trabalhavam na oficina, na pedra, eram marmoristas e escultores. Tive uma infância normal, a família sempre sem grana, mas um ambiente onde a arte estava sempre presente. Talvez tenha sido o que me levou a escrever.
Tenho muitas histórias pra contar sobre minha infância!
Na época em que funcionava o hotel, até Plínio Marcos ficou hospedado lá! Era uma festa!

Gustavo Perez
de que forma a arte entrava nesse cenário da sua vida? Conte-nos mais histórias.

Nydia Bonetti

Foi um filme rodado aqui - A Santa Donzela. O Zé Wilker fazia um Padre. O Plínio era o escultor. E a escultura foi feita por meu avô. A Wanda Stefania pousou nua. Nunca vi aquela oficina tão movimentada. (risos)
Trabalharam o Jofre Soares, Eva Wilma, um filme do Flavio Porto. Foi muito divertido. Uma história louca, em que o Padre encomenda uma imagem para a igreja e o escultor esculpe a amante dele, mulher do prefeito. Gostaria muito de rever esse filme.

Pedro Limaesse hotel em Piracaia mesmo, as locações no caso.

Nydia Bonetti
Passou muita gente interessante pelo casarão. Mas quando eu tinha uns 13 anos, o hotel deixou de funcionar. Sim morávamos no hotel, da minha avó. Era o número do casarão e o do telefone, na época.

Pedro Lima
Telefoninho de manivela, né?

Nydia Bonetti
Sim! Preto, de manivela. Pretendo usar essa foto na capa do livro.

Pedro Lima
Além da imagem do interior de novo, a natureza era desde sempre um elemento muito forte não?

Nydia Bonetti

Sim, muito forte. A cidade era minúscula. Hoje tem 20.000 habitantes. Na época da infância talvez tivesse uns 5.000 no máximo. A natureza aqui é muito bonita.
quando eu nasci a casa ainda era branca número 11 o telefone preto, de manivela número 09 e o céu, azul infinito. Mandei para o Rumos - Itaú Cultural, um projeto intitulado - Casa 11, telefone 09. Um poema do livro.
mais que ouvidos, as paredes têm memória dentro do velho casarão em que nasci, eu as abraço e peço: - que me contem histórias onde me encontro.

Gustavo Perez
e quando você pretende lançar o livro?

Nydia Bonetti

É um projeto de poemas singelos, mas que eu gosto muito. Mandei para o Projeto Rumos - Itaú Cultural. O resultado sai em maio. Mas estou lançando o SUMI-Ê em janeiro.
Não sei se viram a capa:




Esses dois livros são da minha fase de singeleza "quase oriental". Minha poesia se transformou nesses últimos 5 anos, ganhou um peso maior, ficou mais grave. Mas gosto dos poemas do Sumi-ê e resolvi publicá-lo.

Gustavo Perez
pra finalizarmos eu queria fazer um ping-ping com você, certo?
Vamos lá.
Deus

Nydia Bonetti
Acredito.

Gustavo Perez

uma cor

Nydia Bonetti

Branco.

Gustavo Perez

o que te incomoda nas pessoas?

Nydia Bonetti
falsidade

Gustavo Perez
uma frase ou pensamento que marcou sua vida.

Nydia Bonetti
Há um tempo para o pássaro, um tempo para o peixe. E dentro e fora do homem, um tempo eterno de solidão. Paulo Mendes Campos

Hiperônimos não são mais polissêmicos

O Papai Noel vem vindo, e momento em que a atenção midiática e, com ela, a atenção dos habitantes da cidade se voltam para a obra, encurto caminho aos interessados em ler o que há por aqui.
conversei com a escritora Nydia Bonetti, que nos falou sobre sua vida, sua trajetória e bem como seus olhares longitudinais para uma infinitude de coisas. O ato de criação, as dobras do tempo, as manobras que se fazem entremeios.
Vou para o sol e me deito na sombra. O reflexo está de bom tamanho. Sinto-me cada dia mais estranho. De-uma-hora-pra-outra as coisas perdem sentido. Há um grande lapso semântico. Fluxos sendo represados. O que não pode ser contido está contido. É.
Uma inversão pode te levar pro mesmo lugar.
Modifica a ambivalência do que já era ambíguo.
Despe do dualismo do juízo determinante
caminha ao lado do ser humano.
Tal qual um cardume de hipermetropes pára-quedistas numa pintura de Chagal ao som dos violinos, assim sobrevém os críticos.
Ambivalência de qualquer sentido muda.
Nydia é potência. Onde a felicidade repousa na consciência triunfante de vitória.
Falamos sobre poetas cubanos, da poeta portuguesa Florbela Espanca, do modos vivendi dos antigos tempos... mas o que realmente saltou sobre os nossos olhos foi a poesia de Orides Fontela
Ao evocar Orides, falar sobre ela, questionar o deslocamento da palavra, do interior geográfico para os grandes centros urbanos, além de procurar interpretar, compreender e conceber o “bem-estar” da palavra, rendemos uma pequena homenagem à Orides Fontela.  
 

Gustavo Perez
Oi Nydia, gostaria de fazer uma entrevista com você.

Nydia Bonetti
Oi, Gustavo! Desculpe. Tive que atender a porta. Uma entrevista?

Gustavo Perez
Sim, Nydia. Um bate papo informal. Tenho curiosidade em saber quando você começou a escrever. Quando você começou a escrever?

Nydia Bonetti
Podemos sim. Mas temo decepcionar você. (risos)
Escrevo desde os 13 anos. Quase sempre poesia. Mas guardava tudo bem escondido em gavetas e caixas.
Gustavo Perez
Que interessante. Mas porque você as guardava?

Nydia Bonetti        
Nunca pensei que alguém se interessaria em me ler. Escrevia por puro prazer e para exorcizar meus bichos. Era muito insegura. Por algum motivo que ainda não compreendo bem, escolhi a área de exatas. Fui fazer engenharia e abandonei a poesia por longos anos.
Gustavo Perez
Você sente que a escrita revela mais de nós mesmos do que outras artes? Durante esses anos Você não escreveu? Ou seja, foi um período de recesso criativo?
Ah... com certeza. A escrita é das artes a mais explícita, mesmo em se tratando da poesia, cheia de metáforas.
Escrevi pouco durante o período da faculdade. Depois fiquei mesmo um bom tempo exilada daquilo que mais gostava. Costumo dizer que vivi no limbo por muito tempo. Claro que pode me chamar de você, por favor.

Gustavo PerezQuais são seus autores de estreita ligação, mesmo que não tenham influenciado sua forma de escrever?

Nydia Bonetti
Na poesia, muito cedo me apaixonei por Drummond. Mas tinha outro amor na área - Paulo Mendes Campos. Li muito Bandeira e Pessoa também. Só bem depois fui conhecer a poesia de outros cantos, como a cubana, que gosto demais!
Na prosa, li tudo de Graciliano Ramos, ainda muito jovem. Fiquei fascinada por aqueles cenários de "secura". Acho que até hoje carrego influência desses desertos de Graciliano.

Gustavo Perez
Interessante. Essa "secura" é um manancial.
Bem sobre a poesia cubana, eu particularmente, não conheço. O que te atrai na poesia cubana? Você poderia citar um autor e sua preferência?

Nydia Bonetti
Gosto muito da poesia de Abel G. Facundo, Victor Rodriguez Nunes, Aramis Quintero e outros tantos.
Olha isso:
Olha isso:

um poema de Abel G. Facundo

Van_Gogh_Vase_with_Three_Sunflowers
O GIRASSOL SEM PÉTALAS




Un hombre que cultiva su jardín,
como quería Voltaire.

J. L.Borges



Vou semear jardins em meu quarto,
sei que ambos tememos a morte.

Ele aprendeu a encher minhas camisas com sua sombra,
a cobrir minhas porções com seus lamentos
de bailarino estreito.

Às vezes quando não existe o mundo,
nós dois vamos desnudos a matar a manhã.
Os versos que brotam dele aliviam nosso medo,
e em farrapos eu rompo uma face
quando nas horas bárbaras a luz já não é a luz.

Vou semear jardins em meu quarto,
neste cravo que sangra por sua pele,
hei de pendurar o óleo onde um pintor qualquer
quis traçar girassóis para Vincent.



Gustavo Perez
Muito bonito. Lindo.

Nydia Bonetti        
Outro Abel:

um poema de Abel G. Díaz*
SENTIDO

Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem

Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura

Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher

tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”

e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse

* nascido em Morón, Cuba - 1952

Nydia Bonetti
Eles são geniais! Depois te passo outros, se quiser.

Gustavo Perez
Bem, pelos dois poemas, concordo contigo. Claro. Vou agradecer.
eu queria saber o que te motivava a escrever aos 13 anos. Como era o ambiente ao seu redor?

Nydia Bonetti
Sobre como comecei a escrever, com 13 anos: venho de uma família que sempre leu muito. Nasci em Piracaia e morávamos num casarão colonial, avô, avó, pai, mãe, irmãs, tios, primos... Meu avô e meu pai eram escultores e havia muita literatura sobre arte em casa. Tinha um tio ator, que tinha muitos livros de teatro e uma tia fascinada por poesia. Então desde menina li muito e escrever foi natural. Ganhei meu primeiro livro quando tinha 6 anos. Mas ter lido Drummond talvez tenha sido o fator crucial que me levou a escrever poesia.
  

Pedro Lima
tudo bem Nydia, prazer!

Nydia Bonetti
Olá! Tudo bem?

Pedro Lima
Tudo ótimo! Obrigado pela abertura... vamos a conversa...

Nydia Bonetti
Parece que a poesia migrou dos grandes centros para as cidades pequenas nesses últimos tempos.

Gustavo Perez
e de que forma você interpreta esse refluxo?

Nydia Bonetti
Veja o caso do Wender Montenegro, Wilson Nanini, Mariana Botelho e outros tantos. Não sei explicar esse refluxo. Claro que os poetas urbanos continuam existindo, mas talvez por uma questão de linguagem, se preste mais atenção agora aos poetas do interior.
Ou seja:
Eu "canto" o que vejo da minha janela. E o que vejo? Um pasto cheio de bois, montanhas, pássaros e a estrada que me dá a sensação de liberdade. Estou aqui, mas posso ir. :))

Gustavo Perez
as janelas...

Nydia Bonetti
Ah... as janelas... 
Há quem me chame de "poeta oriental", por cantar as miudezas da vida cotidiana.

Gustavo Perez
Nydia, na faculdade eu tive um colega de Itabira. Nele eu pude perceber o quanto Carlos Drummond era, digamos uma quase  persona non grata. Ele fez sua carreira como escritor migrando para um grande centro urbano que é o Rio de Janeiro, mas imagino que, de fato, em qualquer lugar ele seria conhecido e reconhecido.
Nos nossos dias de hoje, você poderia avalizar que essa migração é desnecessária?

Nydia Bonetti
É sempre assim... Eu me sinto uma estranha por aqui, entre as pessoas. Gosto da calma do lugar, da proximidade com duas grandes cidades - 90 km de Sampa e Campinas. Mas a vida cultural é zero aqui.
Acho que a literatura sempre esteve restrita a "nichos" específicos.

Gustavo Perez
Isso desabona uma cidade de seu manancial de inspiração?

Nydia Bonetti
Se você não fizer parte de algum, corre o risco de ser esquecido, ser deixado de lado. Foi o que aconteceu com Orides Fontela, uma poeta magnífica, uma das minhas preferidas.
Não, nada, pelo contrário! Escrevo muito porque não tenho com quem conversar. (risos)


Pedro Lima
Tudo bem Nydia, prazer!

Nydia Bonetti
Olá! Tudo bem?

Pedro Lima
Tudo ótimo! Obrigado pela abertura... vamos a conversa...

Nydia Bonetti
Parece que a poesia migrou dos grandes centros para as cidades pequenas nesses últimos tempos.

Gustavo Perez
e de que forma você interpreta esse refluxo?

Nydia Bonetti
Veja o caso do Wender Montenegro, Wilson Nanini, Mariana Botelho e outros tantos. Não sei explicar esse refluxo. Claro que os poetas urbanos continuam existindo, mas talvez por uma questão de linguagem, se preste mais atenção agora aos poetas do interior.
Ou seja:
Eu "canto" o que vejo da minha janela. E o que vejo? Um pasto cheio de bois, montanhas, pássaros e a estrada que me dá a sensação de liberdade. Estou aqui, mas posso ir.

Gustavo Perez
as janelas...

Nydia Bonetti
Ah... as janelas... rs
Há quem me chame de "poeta oriental", por cantar as miudezas da vida cotidiana.

Gustavo Perez
Nydia, na faculdade eu tive um colega de Itabira. Conversando com ele eu pude perceber o quanto Carlos Drummond era, digamos, uma quase persona non grata.
Drummond fez sua carreira como escritor migrando para um grande centro urbano que é o Rio de Janeiro, mas imagino que, de fato, em qualquer lugar ele seria conhecido e reconhecido.
Nos nossos dias de hoje, você poderia avalizar que essa migração é desnecessária?

Nydia Bonetti
É sempre assim... Eu me sinto uma estranha por aqui, entre as pessoas. Gosto da calma do lugar, da proximidade com duas grandes cidades - 90 km de Sampa e Campinas. Mas a vida cultural é zero aqui.
Acho que a literatura sempre esteve restrita a "nichos" específicos.

Gustavo Perez
Isso desabona uma cidade de seu manancial de inspiração?

Nydia Bonetti
Se você não fizer parte de algum, corre o risco de ser esquecido, ser deixado de lado. Foi o que aconteceu com Orides Fontela, uma poeta magnífica, uma das minhas preferidas.
Não, nada, pelo contrário! Escrevo muito porque não tenho com quem conversar. (risos)

Gustavo Perez
O Suplemento Literário de Minas Gerais, publicou poemas de Orides Fontela que foram traduzidos para o francês. O interesse de ser lida em língua francesa a torna um patrimônio nacional.

Nydia Bonetti
Tenho um poema onde falo sobre isso, que foram traduzidos e publicados em francês.
Ela é maravilhosa!

Gustavo Perez
Sou também grande admirador, mas talvez seja leigo demais para conhecê-la.  Você pode nos contar mais sobre ela?

Nydia Bonetti
Hoje no meio acadêmico já se respeita muito Orides.
Ela tinha um gênio difícil, era boêmia, mas não tinha muitos amigos. Vivia na pobreza. Amava os gatos, mas teve que sacrificá-los por não ter como mantê-los.

Pedro Lima
Vou me posicionar entre os leigos e já agradecer o primeiro contato...
E justo as origens da Orides parece ter a ver com a questão dos "interiores" sobre a qual tocamos.

Nydia Bonetti
Tenho muita coisa em arquivos sobre ela. Depois passo pra vocês. Ela era de São João da Boa Vista. Um poema de Orides:

INICIAÇÃO

Orides Fontela

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

— és infinitamente mais estranho..

Nydia Bonetti
Só mais um:

FALA
Orides Fontela

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e palavra é densa e nos fere.

 (Toda palavra é crueldade.)

Fico arrepiada sempre que leio Orides. É estranho... Algumas pessoas dizem que alguns dos meus poemas lembram Orides.
O que me deixa muito feliz.

Pedro Lima
então o arrepio passou por entre essas janelas abertas... Rio/BH/Piracaia... desde são João  da boa vista.

Nydia Bonetti
Tem uma fala dela, dizendo por que não falava de amor. Posto sempre por aqui. Vou ver se encontro. Se quiserem. É magnífica! Ela fez Filosofia na USP.


Estava sugerindo deslocar a questão do interior para de interior.
como você enxerga o deslocamento de Orides? foi proveitoso ou maléfico?

Nydia Bonetti
Acho que realmente a saída do interior não fez bem a Orides. Eu não sobreviveria numa cidade grande hoje. Mas ela não tinha mais para onde ir. Morreu na miséria. Talvez se pudesse, teria retornado.
Costumo de me autodenominar "bicho do mato". Sempre fui muito tímida, muito caseira. Mas vivi por alguns anos em Campinas. Hoje não suporto a ideia de sair daqui.
Olha só, achei:



“Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero... Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. (...) Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. (...) Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não freqüento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.”
Orides Fontela

Muitas vezes me sinto como Orides. Uma estranha no ninho.
O Olimpo é mesmo difícil de ser invadido.

Gustavo Perez
Ela viveu num período anterior à cibercultura, onde a informação corre mais rapidamente, mas acho q ela aponta uma pista aí, à moda de Brecht...

Nydia Bonetti
Não sei se faria muita diferença em se tratando da crítica.
Mas com certeza, os leitores comuns teriam descoberto Orides, sim!
Os críticos brasileiros são muito tendenciosos. Parciais.

Gustavo Perez
como a crítica literária observava Orides há alguns anos?

Nydia Bonetti
Não observava. Não é triste?

Gustavo Perez
São glossadores (neologismo criado por Deleuze). Agora eles a colocam em alguma "lista"?

Nydia Bonetti
Mas ela ganhou um Jabuti de Poesia, em 1983, e outro prêmio. Mas depois ficou esquecida. Não dá pra entender o fenômeno OF. Agora alguns críticos se lembram dela. Há muitos trabalhos acadêmicos sobre ela.

Gustavo Perez
Quanto a Florbela Spanca, qual seu sentimento em relação à poeta portuguesa?

Nydia Bonetti
Gosto muito de Florbela. Essa pintura no meu perfil é Florbela! Em comum, ambas - transformaram em poesia seus sofrimentos íntimos.
E inquietações.

Gustavo Perez
você acha que a exaltação do sofrimento é uma reminiscência do ultra romantismo?

Nydia Bonetti
Acho que não exaltaram o sofrimento. Transformaram em poesia. Não tem como separar a obra da vida do autor. Tiveram vidas difíceis, o que se reflete nos poemas. Ambas eram depressivas.

Gustavo Perez
A arte as "curava" de alguma forma?

Nydia Bonetti
Com certeza. A mim, a poesia me mantém num certo grau de equilíbrio.

Gustavo Perez
Falou-se de Orides Fontela, mas, no seu modo de ver, qual era o sofrimento de Florbela Spanca?

Nydia Bonetti
Tiveram vidas difíceis. Orides com seu gênio, dizem que era briguenta, perdeu a lucidez, vivia sozinha, sem dinheiro. Florbela teve uma vida completamente diferente. Teve seu trabalho reconhecido em vida, tinha vida social intensa, mas não saberia analisar assim, o grau de sofrimento interior de cada uma delas.
Tenho um amigo poeta que diz que o que menos interessa sobre um autor é sua vida pessoal. Mas temos esse interesse, é normal. De Orides, por exemplo, se conhece mais a biografia do que a obra, com certeza.

Gustavo Perez
O ruído do hipertexto a incomodar, ainda que reine o mais absoluto silêncio. O pensamento dinâmico emocional energético e seus efeitos colaterais. Além do fato de ficarmos obrigatoriamente imediatamente ligados em nós mesmos o tempo inteiro. Isso causa aflição, sem dúvida. Você concorda que adquirimos outro grau de insatisfação?

Nydia Bonetti
Acho que há autores e autores. Hoje há muitos poetas "felizes", que fazem uma poesia quase humor, tentando seguir na trilha de Leminski.
Mas Leminski só houve um. Essa mania de "querer parecer" não produz escritores autênticos.

Pedro Lima
Não incorramos nos rótulos e também nas categorias mentais, não queria induzir a isso... mas você acha que tem a ver... Ou seriam fluxos, fluxos...
Esses seriam os "maníacos"?

Gustavo Perez
A mania geralmente acompanha alguma compulsão. A compulsão é a obsessão pelo objeto. Qual o nosso objeto, nesse caso?

Nydia Bonetti
Maníacos - acho que somos todos um pouco. O que nos leva a escrever? De onde essa necessidade? E escrever em versos, o que poderia ser escrito em prosa? Não seria por si só uma "mania". 
Acho que é sim a compulsão que nos leva a escrever.


Nydia Bonetti
O objeto - talvez a própria linguagem. Esse "poder" de manipular a palavra, acaba nos viciando. Ou não.

Pedro Lima
Digo, talvez mais que bi-polares, tenhamos muitos pólos. E a vazão de escrever ajuda a compreender...

Nydia Bonetti
"Antenas da raça" - muitos pólos.

Pedro Lima
vício-recompensa-prazer-desejo... Os agenciamentos não? a poesia como agenciamento do desejo?

Nydia Bonetti
Sim!

Gustavo Perez
A busca pelo objeto não leva necessariamente a um objetivo, você concorda Nydia?
Como se dá seu processo criativo?

Nydia Bonetti
Concordo. Escrevo mesmo por compulsão, como falamos acima. Todo tempo livre que tenho quero escrever. Preciso. É uma necessidade. Escrevo pra ninguém. Mas se publico, talvez haja o desejo de ser ouvida.

Pedro Lima
E você publica basicamente no blog... Por onde anda a poesia de Nydia? Transitas pelo universo virtual e material sem preconceitos...?


Nydia Bonetti
Muitas vezes o poema me chega pronto, como se soprado. Outras vezes é um trabalho árduo, de tirar leite das pedras. Claro que os primeiros são melhores. Embora os "críticos" gostem mais da segunda categoria.
Publico no blog, mas atualmente mais aqui no Facebook. Tenho poemas publicados em revistas literárias, numa antologia do Centro Cultural São Paulo; num projeto de incentivo à leitura, e outros cantos.
Tenho horror a preconceitos.

Pedro Lima
Evoé

Nydia Bonetti
Acho o meio intelectual muito preconceituoso, por ironia.

Pedro Lima
Do universo material, fiquei pensando, tem a sua engenharia, não é Nydia... onde ficou...

Nydia Bonetti
Fiz engenharia, mas trabalhei como bancária, por muitos anos, no BB. Terminei a faculdade numa época difícil, os engenheiros iam todos trabalhar no Iraque, lembram?
Depois Tive um comércio - Uma loja de produtos naturais.

Pedro Lima
Não chegou a virar suco, não? Lembra desse filme, O engenheiro q virou suco?

Nydia Bonetti
Só depois fui trabalhar com uma irmã arquiteta. Mas faço mais um trabalho burocrático.
Literalmente virei suco. (risos)...
É do meu tempo.
  
Cilck para acessar o blog





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