sexta-feira, novembro 08, 2013

Dois mil e treze foi um ano ruim

Gostaria de colocar esse título em meus escritos, mas penso que  seria demasiada ousadia plagiar a ideia de título do escritor norte-americano John Fante. Pergunte ao pó e Espere a primavera Bandini são dois livros que me inspiraram a ser um jovem escritor. Arturo Bandini é um jovem escritor de talento que não se dá muito bem com as mulheres. Mas o fato é que, não me inspirei no personagem, nem tampouco no enredo de 1934, pois justo esse, que foi um ano ruim, começa sem começo e termina sem fim.      
Minha vida sempre foi um blog aberto ao público e nunca escondi nada do que passei. Ao contrário, investi noites e pinceladas fazendo do texto um autorretrato que representasse a paisagem que existe em mim.
Escrever para mim sempre foi uma tentativa de falar. Uma tentativa e expulsar rancores, mas nem sempre atingi êxito nas investidas que fiz.  Muito pelo contrário, inúmeras vezes me senti mais angustiado por não conseguir.
Faço agora um balanço de toda minha produção nesse ano em que estive doente. Doente do mundo, doente de mim mesmo, enfim, doente dos pecados do mundo e dos prazeres que levam os pecadores a produzir. Doente de dores indizíveis, portanto inenarráveis. A precariedade da linguagem em ser representante de sentimentos, como a dor física ou dor da alma, essa dor que todos trazem como afirmam os preceitos budistas, é de inalcançável probabilidade de reprodução por via de meios verbais e frases, e signos linguais.
Contudo, mesmo estando ciente disso, eu insisti. Bordei cada palavra no pano distorcido da realidade. Firmei assento diante dessa tela e de um documento em branco, na esperança inglória de conseguir. Nem que fosse um ligeiro esboço, uma prece, uma curva que sinalizasse as vibrações energéticas do turbilhão que me fez arremessar a primeira letra na página.
Sofri. Muitas vezes. Quando escrevi minhas cartas para Deus, registrando a caminhada que fiz em 2010 onde estive por dez dias a seguir pelas cristas de montanha, sendo o homem mais feliz do universo, sofri. Sofri por ser estar ali novamente, sozinho logo depois em que vivi a minha primeira experiência de ficar internado por causa das drogas.
Nesse ano eu andei na esteira ergométrica todos os dias durante todo o es de janeiro. Em fevereiro eu iniciei a jornada, obcecado em conseguir atingir meu objetivo. E consegui. Não sem durante os dias decorridos, passar ileso aos contatos introspectivos que temos quando estamos a peregrinar solitários por cumes inabitados e vales e rios onde a natureza se mostra em seu estado mais agreste. Não tinha a quem socorrer nem a quem pedir socorro.
Sobe moro, desce ladeira, a vida foi se metaforizando no ambiente mais nobre que alguém pode ir: o próprio ego. E assim fui delineando minha geografia interna. Não havia como deixar de seguir adiante ou retroceder. A caminhada era forte e não há lugares habitados onde eu pudesse sair de mim mesmo e impetrar uma conversa trivial que surtisse esse efeito. Porém, a única pessoa a seguir era eu mesmo.
Não há sagacidade em seguir. Não há senão o instinto de manter-se em movimento. Encontrei Deus dentro de mim. Não sei como descrever com exatidão esse momento em que, diante do fogo, esse elemento imprescindível ao sobrevivente, eu vi Deus. No crepitar da madeira que queimava a sabor do vento, após por entre becos e ruas sem saída retornar descontente nesse labirinto interno, alcancei um portal que se não me leva a Deus, deve levar ao céu de todo inferno.
Vi essa luz. Ainda me lembro.
A vida segue. E para todo fim permanece apenas um recomeço.
O sol também se ergue indiferente a quem somos.

Nuvens ou estrelas?

Um comentário:

Pâmella Ferrari disse...

Gostei muito desse texto. Tambem tive minha vida sempre como um livro aberto, nunca tive medo de escrever sobre o que me faz mal, o que me faz bem geralmente eu prefiro aproveitar.

Sim, a vida segue...
E a gente fica parado se quiser.